Nada como ler O Capital com um copo de coca-cola gelada nas mãos e um cigarro Marlboro Light na boca.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Futuro
Slumdog Millionaire é o símbolo maior da distopia da imagem.
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Cinema
Antony Gormley
Tinha a tendência a acreditar que a escultura, especialmente a que se vinculava a tradição representativa de formas humanas, enquanto técnica estava um tanto defasada diante dos inúmeros apetrechos contemporâneos das artes plásticas. Daí para provar que meu preconceito era apenas falta de conhecimento, cruzei em alguma esquina escura da internet com o trabalho do inglês Antony Gormley, que através do seu esculpir ou intervir, desmumifica a tradição metafísica da arte ao usar das potências do corpo metálico. Parece a cada peça, de maneira ambígua, despertar - ou se desesperar diante de - uma nova condição humana.











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Literatura e Artes Plásticas
Inferno
A partir de hoje só entro em um ônibus metropolitano na cidade do Recife, especialmente em horário de pico, especialmente CDU / Várzea, especialmente enquanto não resolverem o problema de carros da UPE que termina por engarrafar metade da caxangá, com um bom amigo ou um bom livro embaixo do braço, porque passar uma hora e meia sem nada pra fazer, num trajeto que em média seria feito na metade do tempo, me passa uma detestável sensação de perda de vida.
É uma pena que metrô subterrâneo e mangue formem um paradoxo insolúvel: o máximo que conseguiríamos seria um metrô suspenso, mas do jeito que tudo termina no tosco, o projeto começaria na linha THX 1138 e terminaria como o minhocão. Pelo menos por aqui ainda não vi passageiro levando chicotada e isso, sem dúvida, é a grande ficção científica do momento.
É uma pena que metrô subterrâneo e mangue formem um paradoxo insolúvel: o máximo que conseguiríamos seria um metrô suspenso, mas do jeito que tudo termina no tosco, o projeto começaria na linha THX 1138 e terminaria como o minhocão. Pelo menos por aqui ainda não vi passageiro levando chicotada e isso, sem dúvida, é a grande ficção científica do momento.
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Cotidiano
sábado, 11 de abril de 2009
Outdoor
Estava num ônibus não lotado quando um senhor de cara e aspecto sofridos e sem uma das pernas começou a pedir moedas para comprar um tal remédio super caro que ele supostamente precisaria tomar mensalmente, mas que, como dava pra perceber, não tinha como seguir as recomendações por motivos óbvios. É raro eu dar moedas para pedintes, afinal fico noiando que minha ajuda é apenas um calmante social para que aquele indivíduo continue pedindo e não tome atitudes drásticas, mas cutuquei o bolso procurando algum troco enquanto refletia se aquele senhor teria alguma chance Quando na sequência vi um outdoor inteiro comprado por alguma fulana para desejar feliz aniversário para seu namorado tive certeza que não.
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Cotidiano
domingo, 5 de abril de 2009
Cronenberg como ciência

(Publicado originalmente no Dissenso)
“Necessitamos de um mundo imaginário para descobrir os traços do mundo real que supomos habitar (e que, talvez, em realidade não passe de outro mundo imaginário)”.
Paul Feyerabend, Contra o Método (P. 42/43)
Dizem as más línguas que uma das melhores formas de se compreender um cineasta em toda sua complexidade não é percorrer sua filmografia filme a filme, ler seus aforismos um a um, conhecer o contexto histórico que o gerou, ter detalhes ínfimos de cada produção, desmistificar racionalmente suas escolhas estéticas ou conhecer toda sordidez dos amores e amantes que ocupavam o outro lado da cama, mas, simplesmente, assistir com a cara lisa ao seu primeiro longa. Permanent Vacation (EUA, 1980) serviria para desvendar Jamursch, assim como Acossado (França, 1960) para entender Godard e O Bandido da Luz Vermelha (Brasil, 1968) nos diria, sozinho, em que lugar do panteão encaixar o Rogério Sganzerla. É como se pudéssemos através de uma única obra vislumbrar todas as outras, como se as imagens primeiras confessassem uma antologia prévia de seu criador. Entretanto, tal premissa funciona mais como uma falácia em tom poético – ou profético – do que como uma prática a ser levada rigorosamente à sério, afinal se fôssemos tomá-la como norte ou metodologia, teríamos de nos preparar para o equívoco e para as apaixonantes acusações de aleatoriedade não ‘científica’. Isso porque já partiríamos ponderando, de um lado, os diretores cujos filmes não remetem ou até se opõem ao início de carreira e, de outro, os diretores cujo primeiro ensejo determinou ou antecipou, de fato, toda sua produção seguinte. Digamos que David Cronenberg se equilibra trôpego entre os dois grupos.
Antes de prosseguirmos, porém, preciso esclarecer que qualquer reflexão sobre obras de arte que estabeleça uma rígida separação entre forma, conteúdo e contexto histórico, além de se firmar enquanto anacronismo, deixa de enxergar a interdependência substancial de todos esses âmbitos e a própria necessidade de co-existência, na pesquisa científica e na concepção artística, dos diferentes aportes teóricos e dos distintos caminhos de expressão. É impossível que um ponto de vista fixo cerceie as variáveis facetas de um objeto. Mesmo assim, no caso específico do início deste texto, faço uma separação a título organizacional e não epistemológico, só para apontar em Stereo (Canadá, 1969), o primeiro média-longa do diretor canadense, o que me soa como antecipação e o que me soa como disjunção diante de sua filmografia. Como já estamos cansados de saber, Cronenberg se firmou no campo cinematográfico por usar de seus filmes para, rente a dilemas tecnológicos e científicos, erguer um violento e filosófico relacionamento entre os estatutos do corpo, da psique e da sexualidade, nos conduzindo a universos bizarros onde estatuto algum parece existir. É bastante perceptível como são recorrentes as noções de corpo mutilado por iniciativa científica e transformações físicas e psíquicas na natureza humana estritamente original (se é que podemos dizer que exista tal natureza). Ambas prerrogativas terminam se associando a uma disfunção 1 sexual “cuja estranheza é então percebida como a própria condição do poético” (GRANGER, 2002, P. 187). Se seguirmos por esse viés temático, Stereo funciona como um ensaio – não só no sentido teatral, mas acadêmico – de boa parte dos entrelaçamentos que seriam aprofundados e retomados posteriormente. Uma espécie de Cronenberg prefácio de Cronenberg.
Como no início de sua carreira, aos 26 anos, não tinha dinheiro para fazer um cuidadoso trabalho de captação de som direto, agravado pelo fato de sua câmera teco-teco fazer muito barulho durante as filmagens, o cineasta se aproveitou do obstáculo puramente técnico para transformá-lo num recurso narrativo. Assim sendo, formatou sonoramente Stereo como um falso relatório científico narrado em off – se apropriando vulgarmente de jargões típicos de um vocabulário ‘especializado’, além de criar inexistentes campos de conhecimento. Há um cinismo latente. A partir disso, destrincha, através de diversas vozes num entediado ritmo de fala, os efeitos de capacidades telepáticas, induzidas por um cientista, em um grupo de voluntários humanos. Todos isolados da sociedade, especificamente alojados na Academia Canadense de Pesquisa Erótica. Para que o acordo de crença entre o espectador e o realizador seja completamente firmado e aceitemos a falta de diálogos ao longo dos sessenta e poucos minutos, somos introduzidos num lunático regime do pós-sensório, onde os sentidos cederam completamente a uma hegemonia mental ao ponto da faculdade cerebral da fala ser extinta. O diretor coloca a telepatia como uma espécie de evolução psíquica do ser humano, que não se firma apenas pelo lado racional – não se trata de uma ‘vitória da razão’ – e sim um fluxo para além da simples experiência de ler outras mentes, funcionando a partir de uma transfiguração ampla nas camadas de memória, cognição, resposta emocional e impulsos psico-fisiológicos que geram o pensamento e a linguagem. A comunicação se torna um ato transcendental.
Se levarmos em conta que o texto da narração foi escrito, gravado e introduzido depois que toda parte de captura de imagens já estava concluída, podemos inicialmente até acreditar numa completa aleatoriedade entre o que vemos e o que ouvimos, entretanto, depois de re-assistir; parar; voltar; ‘moviolar’, podemos nos dar conta que tal disjunção não é tão radical. Muito do que é dito pode ser visto em momentos anteriores ou posteriores – de forma mais simbólica que literal, afinal trata-se de uma representação dúbia, às vezes da relação física, às vezes da relação psíquica. Nunca sabemos direito se são os corpos em ação ou a reconstrução mental dos corpos. É como se o diretor tivesse escrito o texto sobre o material bruto filmado, mas ao invés de colocá-lo linearmente sobreposto, tivesse quebrado, em vários pedaços, a relação direta entre imagem e som. Algo que Eisenstein já reivindicava há muito tempo em seu manifesto sobre o cinema sonoro. Resta a sensação de redistribuição a um bel prazer ilógico: o que nos confunde, mas nos deixa alerta. Ao longo de sua carreira, Cronenberg parece ter agarrado os tópicos eleitos em Stereo e se dedicado a fazer um filme inteiro sobre cada um deles, mergulhando e lambuzando a fundo nas conclusões do falso relatório científico.
Infelizmente aqui tenho de cair na bobeira detalhista para fortalecer minha hipótese, pois, ao contrário do que sugiro no primeiro parágrafo, não fui do primeiro longa-metragem para a filmografia e sim, da filmografia para o primeiro longa-metragem. Portanto, vejo Stereo como semente do discurso sobre a telepatia e o pós-sensório que viria a ser plenamente visualizado em Scanners – Sua Mente pode Destruir (1980); passando pelo inconsciente como materializador físico de angústias, algo marcante na diegese de The Brood – Filhos do Medo (1979); além de carregar em seu âmago a intervenção científica na criação de uma psicopatia dos hábitos sexuais, como acontece graças aos vermes em Shivers – Calafrios (1975) e graças a um tratamento experimental numa clínica de beleza em Rabid – Enraivecida na Fúria do Sexo (1977). Podemos e devemos continuar: temos as disfunções sócio-sexuais na constituição de uma nova forma de sexualidade, característica que viria a reger Gêmeos – Mórbida Semelhança (1988) e Crash – Estranhos Prazeres; e a sexualização de objetos que logo me lembra da televisão sedutora de Videodrome – A Síndrome do Vídeo (1982) e da bio-porta-sexo-anal de eXistenZ (1999). Por sinal, para que não restem dúvidas, só um adendo rápido: óbvio que as características apontadas não se restringem, nem se resumem radicalmente aos filmes com a qual foram relacionadas. Há um entrecruzamento impossível de ser registrado numa panorâmica de um parágrafo.
Quebrando um pouco o ritmo antológico, se em termos temáticos e discursivos, Stereo se aproxima e até condensa a filmografia em questão, temos de ressaltar que no tocante aos usos formais se distancia dos 'aparentes' desleixos estéticos que Cronenberg iria assumir nas décadas de 70, 80 e até 90, onde, além de todos os títulos já citados, incluiria Dead Zone – A Hora da Zona Morta (1983) e Naked Lunch – Mistérios e Paixões (1991). E o que dizer dos inspirados subtítulos brasileiros, hein? Durante essa época, o diretor ostentava o título de Barão do Sangue e Rei do Horror Venéreo não apenas pelos temas que abordava (também por isso), mas pela conjunção de tais temas com a forma que flertava com o trash, excluindo qualquer vaidade formalista clássica sem nunca hesitar na mise-en-scène e sem nunca perder uma força imagética. Explodiu cabeças em auditórios encharcando a platéia de sangue, reciclou a ideia de zumbis os inserindo em modernos complexos residenciais, levou o corpo humano ao extremo ao idealizar um híbrido de homem e mosca, colocou mulheres para lamber fetos recém-nascidos, injetou inseticida em veias humanas e revelou o pânico e o prazer de uma contaminação viral por transmissão sexual. Se nos apegarmos apenas aos aspectos técnicos, Stereo se distancia. Apesar de possuir um clima de cinema Underground, há nesse jovem Cronenberg uma rigidez sagaz, experimentos contidos, uma cuidadosa fotografia em preto e branco – algo ainda único em sua carreira – que inclui um controle absoluto da luz e enquadramentos milimetricamente pensados diante do cenário onde a história se passa (um prédio que se encaixa perfeitamente ao que chamamos genericamente de arquitetura moderna). Um sentimento de erudição se afirma nas imagens. Esse tipo de atitude em início de carreira me parece muito necessária para jovens artistas até como auto-afirmação, uma forma de dizer que aprendeu a controlar o belo tradicional para depois se lambuzar no grotesco, uma afirmação de que sabe seguir as regras do cânone para depois simplesmente recusá-las. Os percursos artísticos de Picasso e de Lars Von Trier logo surgem na cabeça.
Além do que já foi dito, provavelmente um dos pontos mais intrigantes do diretor canadense, que a meu ver, em Stereo, encontra seu ápice, é sua reflexão sobre a natureza, a ética e a metodologia da prática científica. Mesmo correndo o risco de soar patético, sinto-me tentado a refletir Cronenberg como filosofia da ciência. Apertem os cintos. Pra começar, vejo claramente uma preocupação (e uma defesa) da anarquia metodológica, da necessidade do cientista se arriscar pelo mundo do improvável: algo que pode tanto se dar na premissa inconseqüente do ‘tudo vale’, como simplesmente na liberdade de experimentar e pular de uma metodologia a outra de uma forma ágil, evitando as amarras acadêmicas e burocráticas. Um exemplo seria defender a importância, seja em forma de obstáculo ou de recurso, do pensamento contra-indutivo e do irracional para, assim como na criação artística – e há sempre uma aproximação de ambos os campos – alcançar o inesperado e se esquivar do que, mesmo inconscientemente, se ergue enquanto premeditado. Seguir uma uniformidade de métodos nos leva ao perigo de uma defesa inabalável da verdade. Cronenberg fundamentalmente sustenta, e esta é a grande ironia de seu primeiro filme, que as leis da ciência não são inabaláveis ou irrevogáveis, que o conhecimento científico não é seguro e indubitável. A proliferação de instituições que divulgam resultados diferentes sobre o mesmo fenômeno é apenas o começo. Precisamos ter consciência de que muitas vezes a razão e o planejamento extremo de resultados finais funcionam como doutrinação metodológica, fazendo inclusive com que a ciência atinja o status de mito na sociedade contemporânea. Uma espécie de religião técnica e instrumental. Cronenberg me parece defender – antecipando argumentos de filósofos contemporâneos como Gilles Gaston-Granger e especialmente Paul Feyerabend – a violação metodológica pelo bem do desenvolvimento do conhecimento. Não é a toa que suas obras trabalham com hipóteses absurdas que claramente contradizem o campo do possível, como se em algum lugar de sua mente martelasse o princípio de que a ciência pode se tornar conto de fadas e que os contos de fadas podem se tornar ciência. Jamais devemos esquecer que existe uma história das práticas científicas: certezas que substituem certezas ad infinitum.
Um segundo ponto importante destacado no relatório científico de Stereo, especialmente importante para as ciências humanas, se materializa eticamente a partir do momento que o pesquisador inicia sua pesquisa: os resultados só podem ser pensados se o pesquisador se coloca como interferência do processo, se constata e admite a não-neutralidade de sua relação com seu objeto. Na verdade, a originalidade da investigação reside no encontro, interpretação e estratégias do pesquisador para com seu objeto. E o resultado sempre será um em mil possíveis. Assim como o cientista do filme precisa refletir diariamente sobre a sua influência sob o grupo de cobaias, uma influência que modifica a natureza das interações sociais e que o coloca como objeto de si mesmo, pesquisadores podem estabelecer pesquisas teóricas associadas a uma interferência prática, algo que Gramsci conceituava como intelectual orgânico. Trata-se de se desvincular da distância cabível ao acadêmico tradicional, assumir uma causa – com ou sem instituição matriz – e intervir ativamente no objeto pelos mais diferentes canais. O estruturalismo e a tentativa de emendar as ciências humanas nos conformes das ciências exatas já não fazem muito sentido. A reafirmação dos Estudos Culturais e a ascensão da Cibercultura nesse início de século carregaram consigo a emergência dos acadêmicos não só apaixonados por, mas agentes de, seus objetos. De fato, essa aproximação natural transforma completamente o caráter da pesquisa, aprofundando-a de uma forma muito pessoal e reforçando a ideia de que, diante do perigo de nossos próprios julgamentos, algumas distâncias só ampliam as névoas ao invés de dissipá-las. A ciência pode personalizar seus hábitos sem receio de perder sua credibilidade.
Talvez haja quilos de contra-senso em meus argumentos, mas é justamente esse o princípio, pois Cronenberg tem uma relação de absurdo como paráfrase (e pastiche) da realidade, como se entrássemos num mundo imaginário, que não nos diz muito à primeira vista, que nos causa uma estranheza, mas que nos força a buscar relações simbólicas e finalmente questionar o nosso próprio mundo. Acho que as melhores ficções científicas funcionam dessa maneira: uma busca por uma dimensão oculta da realidade, meio como se fossem os óculos de They Live (EUA, 1988), do John Carpenter. Vejamos um exemplo novamente a partir do pseudo-relatório, e estou seguindo esse caminho porque acredito que podemos ultrapassar o nível superficial de observar tudo como sandice para alcançar o lugar onde surge a aura de revelação. Afrouxem os cintos. A essência do elo telepático é a dominância de um dos exemplares sobre o outro. Isso pode acontecer entre dois indivíduos ou em grupos (e que pode ser visualizado com detalhes em Scanners). A dominância é responsável por suprimir os elementos heterogêneos do grupo rumo a captar elementos homogêneos, enfraquecendo e amenizando os paradoxos e se fundando no ímpeto aglutinador entre os participantes. Daí a vontade do grupo se adequa de acordo com a personalidade dominante. Qualquer semelhança com uma manutenção das ideologias hegemônicas e dos padrões de comportamento no seio da sociedade não me soam como uma mera coincidência. Só depois que um status quo estiver estabelecido é que o dominante pode abdicar em favor de uma verdadeira vontade do grupo. Cronenberg fundamentalmente trabalha com microcosmos para deixar claro um pessimismo: afinal ele está num conto de fadas pseudocientífico insano ou está se debruçando sobre contradições políticas? Vê-lo como um diretor alienado é um equívoco primário.
Continuando no mesmo exemplo, chegamos a uma forma de resistência ao desejo da dominância, através de uma das cobaias que usa de uma técnica chamada partição esquizofrênica: para resistir às invasões telepatas, ela criou um ‘falso-eu’ e escondeu dentro de si o ‘eu-original’. Acontece que na iminência do falso-eu ter de ser usado de forma recorrente como defesa chegou um momento em que o original se perdeu nas entranhas da psique e deixou de existir. Não sei se é livre associação demais, mas fico pensando nas diferentes personalidades que assumimos em diferentes ambientes e relações sociais: podemos pagar de rude na família, de presunçoso no blog, de misterioso na faculdade, de tímido no trabalho, de bom moço na imobiliária e assim a perder de vista. Divertido não é apenas refletir como esses ‘eus’ se relacionam entre si, como se relacionam quando dois destes distantes ambientes convergem em um, mas principalmente, se debruçar sobre a relação desses ‘eus-criados’ com o tal ‘eu-original’ de quando estamos sozinhos, deitados na cama no final da noite – se é que, se tratando em natureza humana, podemos falar de um ‘eu-original’ ou apenas de ‘eus’ adequados e condicionados às situações sociais que somos postos diante. Às vezes me parece uma questão de sobrevivência social.
Para finalizar gostaria de me aprofundar num último tópico de Stereo. A partir da ideia de norma e desvio, o cineasta faz uma introdução da heterossexualidade como referência da norma e a homossexualidade como referência do desvio, mas quando se leva em conta que o sexo para reprodução representa apenas uma pequena parcela dentro do espectro de possibilidades sexuais humanas, incluindo uso de medidas contraceptivas, a própria noção de norma torna-se questionável. Toda sua filmografia parece compartilhar desse princípio: o que é desvio se mostra como norma filme após filme. Na telepatia ele defende que a norma é uma espécie de bissexualidade amplificada, que chama de omnisexualidade, uma espécie de sexualidade transcendental, onde todos da comunidade telepata conhecem os desejos de todos e podem desenvolver relações sexuais sem o toque – meio como as pílulas de Barbarella – além de poder modificar seu próprio sexo; fazendo do sexo entre dois homens, uma relação heterossexual, uma relação entre homem e mulher, uma relação homossexual e assim sucessivamente até esgotarem todas as saídas. Seria como se na mente de um homem, ele pudesse se relacionar enquanto mulher com outro homem, o que faria da relação entre dois homens, uma relação essencialmente heterossexual. Além de que, no campo telepático, não há diferença entre a ideia da coisa e a coisa ou a ideia do ato e o ato. Ou seja, o pensamento de um seio é um seio, o pensamento de sexo oral é sexo oral. O narrador ainda ressalta o uso de drogas afrodisíacas, e todo esse papo de liberação pansexual soa como bafo pós-68, no intuito não de aumentar o potencial ou a fertilidade, mas para agir na quebra dos muros de restrição psicológica e de inibição social que limitam – e que, de fato, limitam – as pessoas a uma monosexualidade. Satyricon neles. No final das contas, Cronenberg é um pervertido daqueles que não tiram o dedo e a língua das partes mais erógenas da sociedade. E, de fato, essa é sua maior ciência.
Bibliografia:
BEARD, William. The Artist as Monster: The Cinema of David Cronenberg. Toronto: University of Toronto Press, 2005.
CRONENBERG, David; RODLEY, Chris; Cronenberg on Cronenberg. Faber & Faber, 1997.
GRAMSCI, Antônio. Os Intelectuais e a Organização da Cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.
GRANGER, Gilles Gaston. O Irracional. São Paulo: Ed. da UNESP, 2002.
______________________ A Ciência e as Ciências. Sao Paulo: Ed. da UNESP, 1994.
FEYERABEND, Paul. Contra o Método. Rio de Janeiro: F. Alves, 1977.
segunda-feira, 30 de março de 2009
Saiba Mais
O canal Planeta Bizarro do G1 é um simples sinal de como o capitalismo é capaz de incorporar, racionalizar e, claro, capitalizar qualquer lampejo de espontaneidade e anarquia ao desenvolver um segmento de matérias cujo norte é idêntico ao das reunidas na comunidade do orkut, 'Anão vestido de palhaço mata 8'.
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Nem ainda chegou o dia da mentira e já recebi uma ligação daquelas que meus amigos adoram. Eu acordei hoje pensando em colocar crédito no meu celular, basicamente porque precisava ligar para uma amiga e não podia surrupiar o celular da minha mãe como geralmente faço. Daí vi uma mensagem recebida, jurei que era alguma bomba matinal de Faltay, mas, na verdade, era um recado da claro, avisando que tinha chegado R$ 5,00 de crédito. Meu mau humor foi embora e realmente botei na cabeça que o cosmos tava do meu lado: o que soou ótimo levando em conta que tinha acabado de acordar com o barulho de portas alheias batendo e que era uma típica segunda de manhã. Fiquei macucando por três segundos se teria sido minha mãe ou engano de algum zé bocó. Decidi não pensar. Passou o dia, usei meu fogão novo pela primeira vez, comi decentemente, dormi, li Gramsci, olhei verbetes do Dicionário de Política de Bobbio, roubei internet do wireless do vizinho, recebi amigos em casa, daí toca meu celular. Número estranho. Atendo. A cobrar. Desligo. Coloco na pauta da sala de estar: número estranho, a cobrar, ligo de volta? Juliana sugere que eu ligue, escute a voz do destinatério e desligue. Me vem a cabeça que muito provavelmente era o cara que botou o crédito errado querendo me cobrar. Todos me chamam de paranóico sem noção. Decido ligar afinal sempre ligo a cobrar pro povo de forma que fazer uma ligação às cegas uma vez na vida não mata ninguém, além de que em algum lugar queria provar que não era um paranóico sem noção. Ligo. Escuto a voz de, acho eu, um senhor de idade, com certeza meio nervoso: "e chegou R$ 5,00 aí foi?". Claramente nunca escutei aquela voz antes. Desligo. Comunico que a paranóia venceu. Entro em pânico. Meu celular toca. Não sei o que fazer. Desligo. Seria trote de Fábio Leal? O celular toca de novo. Desligo. O celular não para de tocar. Fico louco. Alguém dá a sugestão de eu desligar tal número para sempre. Peso na consciência versus falta de coragem, diabinhos e anjinhos pulando na sala, desliga pra sempre, nunca atende, peraí, é só cinco reais. Mando uma mensagem: "amanhã coloco R$ 5 picas no teu cu. Perdeu playboy". Mentira. A mensagem era: "amanhã coloco cinco reais para você. Valeu". Feita a boa ação, não sei se coloco ou deixo passar. Sinceramente me pergunto se isso acontece por aí das pessoas botarem crédito errado e depois ligarem pro número errado pra cobrar o crédito errado. Já ouvi gente que recebeu crédito e ficou por isso, afinal se a pessoa confundiu o número, deveria depois não conseguir lembrar do número confundido: até porque, ok, os quatro primeiros dígitos eram iguais, mas os quatro últimos não tinham nada a ver. Ah, sei lá. Cansei de pensar sobre isso. Só sei que a moral da história é que eu claramente tenho problemas sérios em falar com pessoas que não conheço, o que me faz um alvo fácil de trotes de todos os tipos. Pois é, não devo ter digerido bem aquele velho conselho materno de não falar com estranhos.
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sexta-feira, 27 de março de 2009
Aliança exibe filme de Cantet
O Cineclube da Aliança Francesa do Derby exibe hoje, às 19h, em DVD, o filme Ressource humaines, dirigido pelo francês Laurent Cantet (em cartaz no Cinema da Fundação com Entre os muros da escola). Após a exibição do filme, que tem legendas em português, haverá um debate no Auditório André Malraux com a participação dos cinéfilos Luiz Fernando Moura e Rodrigo Almeida. A entrada é gratuita. A Aliança Francesa fica na Rua Amaro Bezerra, 466, Derby.
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segunda-feira, 23 de março de 2009
UFPE
"Por que não exercem em nosso país aquela influência de reguladoras da vida cultural que exercem em outros países? Um dos motivos deve ser buscado no seguinte: nas universidades, o contato entre professores e estudantes não é organizado. O professor ensina, de sua cátedra, à massa dos ouvintes, isto é, dá a sua lição e vai embora. Tão-somente na época da apresentação da tese é que o estudante se aproxima do professor, pede-lhe um tema e conselhos específicos sobre o método da pesquisa científica. Para a massa dos estudantes, os cursos não são mais do que uma série de conferências, ouvidas com maior ou menor atenção, todas ou apenas uma parte: o estudante confia nas apostilas, na obra que o próprio professor escreveu sobre a matéria ou na bibliografia que indicou. Existe um maior contato entre os professores individuais e estudantes individuais que pretendem se especializar numa determinada disciplina: este contato se estabelece, no mais das vezes, casualmente, e possui uma imensa importância para a continuidade acadêmica e para o destino das várias disciplinas. Ele se estabelece, por exemplo, graças a causas religiosas, políticas, de amizade familiar. Um estudante torna-se assíduo de um professor, que o encontra na biblioteca, convida-o para casa, aconselha-lhe livros para ler e pesquisas a tentar. Cada professor tende a formar uma "escola" própria, tem seus pontos de vista determinados (chamados de "teorias") sobre determinadas partes de sua ciência, que gostaria de ver defendidos por "seus seguidores ou discípulos". Cada professor pretende que, de sua universidade, em concorrência com as outras, saiam jovens"distinguidos"que dêem sérias"contribuições" à sua ciência. Por isso, na própria faculdade, existe concorrência entre professores de matérias afins na disputa de alguns jovens que já se tenham distinguido por causa de uma recensão, de um artiguinho ou em discussões escolares (onde elas são realizadas). Neste caso, o professor realmente guia o seu aluno; indica-lhe um tema, aconselha-o no desenvolvimento, facilita-lhe as pesquisas, mediante suas conversas assíduas acelera a formação científica dele, faz-lhe publicar os primeiros ensaios nas revistas especializadas, coloca-o em contato com outros especialistas e se apodera dele definitivamente. Este costume, salvo casos esporádicos de igrejinhas, é benéfico, pois completa a função das universidades. Deveria deixar de ser fato pessoal, iniciativa pessoal, para se tomar função orgânica: não sei até que ponto, mas parece-me que os seminários de tipo alemão representam esta função ou buscam desenvolvê-la. Em torno de certos professores, há uma disputa de pessoas que aspiram atingir mais facilmente uma cátedra universitária. Muitos jovens, pelo contrário, particularmente os que vêm dos liceus provincianos, são marginalizados tanto no ambiente social universitário quanto no ambiente de estudo. Os primeiros seis meses do curso servem para uma orientação sobre o caráter específico dos estudos universitários, e a timidez nas relações pessoais nunca deixa de existir entre professor e aluno. Nos seminários, tal coisa não se verificaria, ou pelo menos não na mesma medida. De qualquer modo, esta estrutura geral da vida universitária não cria, já na universidade, nenhuma hierarquia intelectual permanente entre professores e massa de estudantes: após a universidade, mesmo aquelas escassas ligações se relaxam e, em nosso país, inexiste qualquer estrutura cultural que se apóie sobre a universidade. Foi este um dos elementos que determinou a sorteda dupla Croce-Gentile, antes da guerra, na constituição de um grande centro de vida intelectual nacional; entre outras coisas, eles lutavam também contra a insuficiencia da vida universitária e contra a mediocridade científica e pedagógica (e mesmo moral, por vezes) dos professores oficiais".
Antônio Gramsci, Os Intelectuais e a Organização da Cultura, Pag. 146/147.
Antônio Gramsci, Os Intelectuais e a Organização da Cultura, Pag. 146/147.
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Apuds
Azar
Acho que sentimos o peso da urucubaca, quando uma situação constrangedora - daquelas que podemos passar a vida inteira sem ter de passar por - acontece duas vezes em uma única semana. E que tal quando acontece duas vezes em três dias para ser mais exato? No meu caso foram as notas falsas. Sexta-feira, fiz um saque no Banco do Brasil, fui ao passe fácil e quando pedi para a mulher colocar R$ 18, ela informou que minha nota de R$ 20 era falsa. Na verdade, ela disse que nem era falsa, disse que não podia aceitar porque estava 'arranhada demais'. Tentei argumentar, afinal tinha acabado de retirar a maldita nota de um caixa eletrônico. A mulher foi tudo, menos solícita soltando no meio da minha fala: "senhor, você está atrapalhando a fila. Próximo". Fiquei puto com aquela vontade de dar um golpe no mundo que só me acontece duas ou três vezes no ano. Daí como estava sem disposição de ir numa agência fazer a troca e armar barraco pelos transtornos, segui o conselho de uma velhinha que ouviu todo meu drama e passei a nota adiante, numa farmácia do governo, comprando um tylenol. A dica da velhinha foi providencial. Voltei ao passe fácil, pensei em ser atendido pela mesma moça, pensei em encher a fala de arrogância, fui atendido por outra, nada demais aconteceu e enchi meu cartão.
Daí hoje, morrendo de fome, por volta das 14 e tantas, fui almoçar perto de casa. Ao final da refeição, tento pagar no cartão, a máquina meio que dá pau, termino pagando com uma nota de R$ 20 e recebo no troco, além de outras notas e algumas moedas, uma nota de R$ 10. Vou direto em um posto de gasolina, peço para o cara colocar R$ 5 - hahaha - e na hora de pagar dou a nota de R$ 10 que tinha acabado de pegar. Adivinhem? Pois é, a porra da nota era falsa. Fiquei muito puto, além de obviamente constrangido, afinal o frentista ficou olhando pra minha cara como se eu fosse golpista do dia. Meio "quer café?", mas arquitetanto "vou chamar a polícia". Graças a Deus eu tinha outra nota e não estava de bigode. Voltei no restaurante pronto pra armar barraco quando, ao explicar a situação, o cara pegou a nota e quis me fazer acreditar que era verdadeira. Pior nem é o argumento, mas o fato de que se você parasse um segundo e olhasse pra nota dava pra perceber que ela era totalmente falsa. Era gritante pela qualidade tosca do papel e por como estavam lavadas as imagens. Quase uma nota do Banco Imobiliário ou do Jogo da Vida. Daí quando já ia começar a confusão, chegou o dono do estabelecimento, apaziguou geral o clima ruim, soltou piadas e um peido, verificou a nota com a maior carinha de juiz e rapidinho a trocou por outra. Com o rosto um tanto rubro, pediu perdão. Definitivamente só posso ter um mínimo apreço por senhoras espertas e com dicas na manga e por senhores dignos e de honestidade intocável. O resto é merda.
Daí hoje, morrendo de fome, por volta das 14 e tantas, fui almoçar perto de casa. Ao final da refeição, tento pagar no cartão, a máquina meio que dá pau, termino pagando com uma nota de R$ 20 e recebo no troco, além de outras notas e algumas moedas, uma nota de R$ 10. Vou direto em um posto de gasolina, peço para o cara colocar R$ 5 - hahaha - e na hora de pagar dou a nota de R$ 10 que tinha acabado de pegar. Adivinhem? Pois é, a porra da nota era falsa. Fiquei muito puto, além de obviamente constrangido, afinal o frentista ficou olhando pra minha cara como se eu fosse golpista do dia. Meio "quer café?", mas arquitetanto "vou chamar a polícia". Graças a Deus eu tinha outra nota e não estava de bigode. Voltei no restaurante pronto pra armar barraco quando, ao explicar a situação, o cara pegou a nota e quis me fazer acreditar que era verdadeira. Pior nem é o argumento, mas o fato de que se você parasse um segundo e olhasse pra nota dava pra perceber que ela era totalmente falsa. Era gritante pela qualidade tosca do papel e por como estavam lavadas as imagens. Quase uma nota do Banco Imobiliário ou do Jogo da Vida. Daí quando já ia começar a confusão, chegou o dono do estabelecimento, apaziguou geral o clima ruim, soltou piadas e um peido, verificou a nota com a maior carinha de juiz e rapidinho a trocou por outra. Com o rosto um tanto rubro, pediu perdão. Definitivamente só posso ter um mínimo apreço por senhoras espertas e com dicas na manga e por senhores dignos e de honestidade intocável. O resto é merda.
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Crônicas
sexta-feira, 20 de março de 2009
Devaneio acadêmico
Daí vocês todos estão sabendo que está rolando uma disciplina no curso de cinema, ministrada por Paulo Cunha, que se chama 'Cinema e Revolução: o caso Eisenstein'. O melhor é que, por acaso, num papel afixado na secretaria com todas as cadeiras do semestre, saiu escrito 'o caso Einstein' - e nada mais divertido que os erros de digitação na geração de trocadilhos engraçados. Como já faz tempo que não tenho mais saco para a escadaria de Odessa e olhe que já fui piradão pelos cineastas soviéticos da década de 20, fiquei pensando que se em algum hipotético dia, decidisse seguir carreira acadêmica e tivesse de ministrar uma disciplina nessa linha, provavelmente iria chamá-la de 'Cinema e Revolução: o caso George Lucas'.
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Cinema
Morbidez
Talvez eu até seja careta, mas a coisa mais absurda que vi nos últimos tempos, de me chocar e me deixar puto da vida, foi ver uma entrevista que saiu no caderno de Cidades do Jornal do Commercio (no último dia 17) com um cara de 23 anos que perdeu a esposa, um filho, o irmão e um sobrinho num acidente de automóvel. Repetindo, a esposa, um filho, o irmão e um sobrinho. Ele acompanhava, de moto, o carro onde ia a família quando o carro bateu de frente num caminhão. Agora sério mesmo, como alguém, jornalista, não-jornalista - a matéria saiu sem assinatura - tem a capacidade (leia-se cara-de-pau) de chegar para um cara desse, enquanto ele está na porra do IML esperando a liberação dos corpos, e perguntar coisas do tipo:
JC – Você viu o acidente?
JOSÉ WELLINGTON – Não. Eu ia de moto, na frente. Depois não vi mais o carro e voltei. Quando cheguei ao local o acidente já havia acontecido.
JC – O que você viu ao voltar?
JOSÉ WELLINGTON – Ainda estava todo mundo dentro do carro.
JC – E já estavam mortos?
JOSÉ WELLINGTON – Meu sobrinho ainda respirava, mas não havia como tirá-lo das ferragens. Só ele deu sinal de vida.
JC – Pelo que você soube, de quem foi a culpa?
JOSÉ WELLINGTON – Não sei informar com certeza. O caminhão pegou o lado do carro. O povo diz que o carro foi para cima do caminhão e eu não sei ao certo.
JC – Vocês pegaram a estrada a que horas?
JOSÉ WELLINGTON – Saímos da casa da minha irmã, onde tínhamos ido passar o fim de semana, às 3h40 porque tínhamos que trabalhar. O acidente aconteceu por volta das 4h30.
JC – Vocês vinham de uma festa? Seu irmão tinha bebido?
JOSÉ WELLINGTON – Meu irmão não bebia. A gente tinha ido passar o fim de semana em Jundiá (AL), onde houve carnaval fora de época. Todo ano fazíamos esse passeio.
JC – Seu irmão dirigia bem?
JOSÉ WELLINGTON – Sim, fazia tempo que ele dirigia, mas tinha comprado o Fiat há uns dois meses.
JC – Como você se sente?
JOSÉ WELLINGTON – É preciso ter muita força para superar essa perda grande. Não sei se vou conseguir.
JC – Você já pensou no seu futuro sem eles?
JOSÉ WELLINGTON – Quem sabe do meu destino é Deus. É uma situação difícil, não há como mudar, não tem como.
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Comunicação
segunda-feira, 16 de março de 2009
Travelling

Acho que as HQs de Watchmen deviam muito fazer parte da bibliografia de cursos de cinema. Essa é a primeira página da primeira revista e ao longo das doze publicações, pululam visualizações perfeitas e detalhadas dos mais distintos recursos cinematográficos. Tudo quadro a quadro. A adaptação para cinema segue estritamente algumas dessas dicas, mas, como sempre acontece, deixa muita coisa de lado. Como estou sem internet em casa, não posso me entregar completamente ao devaneio sem fim. Portanto, confiram vocês mesmos:
Revistas 01 - 04
Revistas 05 - 08
Revistas 09 -12
Revistas 01 - 04
Revistas 05 - 08
Revistas 09 -12
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Cinema
Depois do Som Barato...
Comunicado Oficial - Fim da 'Discografias'
Informamos a todos os membros da comunidade "Discografias" e relacionadas (Trilhas Sonoras de Filmes, Trilhas Sonoras de Novelas, Coletâneas (V.A.), Pedidos, Dicas/Dúvidas e Índice Geral), que encerramos as atividades devido às ameaças que estamos sofrendo da APCM e outros orgãos de defesa dos direitos autorais. Nosso trabalho foi árduo para manter as comunidades organizadas, sem auferir nenhum tipo de vantagem financeira com elas, somente com o intuito de contribuir de alguma forma para a cultura e entretenimento. Não é com o fechamento desta comunidade e outras equivalentes que as gravadoras irão aumentar seus lucros. Muitos artistas perderão seus meios de divulgação. Milhares de membros terão que procurar outras atividades no Orkut que não seja o download de músicas e afins. O número de sites e blogs de conteúdo similar, mais programas como eMule, limewire, de torrents e outros P2P, cresce em progressão geométrica. Perdem eles, perdemos todos, mas enfim, tudo em nome do dinheiro das grandes corporações. Nada em nome da cultura.
Tais entidades de defesa dos direitos autorais, como a R.I.A.A. nos Estados Unidos e APCM no Brasil, que é a representante legal de:
UNIVERSAL MUSIC DO BRASIL LTDA.;
WARNER MUSIC BRASIL LTDA.;
SONY - BMG BRASIL LTDA.;
SIGLA - SISTEMA GLOBO DE GRAVAÇÕES AUDIO VISUAIS LTDA;
EMI MUSIC LTDA.;
COLUMBIA PICTURES INDUSTRIES INC.;
DISNEY ENTERPRISES INC.;
METRO-GOLDWYN-MAYER STUDIOS INC.;
PARAMOUNT PICTURES CORPORATION;
TWENTIETH CENTURY FOX FILM CORPORATION;
UNIVERSAL CITY STUDIOS INC.;
WARNER BROS.;
UNITED ARTISTS PICTURES INC.;
UNITED ARTISTS CORPORATION;
UBV - UNIÃO BRASILEIRA DE VÍDEO E ASSOCIADAS
Sendo ainda representante de IFPI - International Federation of the Phonographic Industry e MPA - Motion Picture Association no Brasil, se dizem "sem fins lucrativos", vamos acreditar nisso, né gente? Como todos acreditam nas histórias da carochinha. Portanto, deixamos aqui os dados de contato do orgão responsável pelo fechamento das comunidades e de um de seus representantes:
APCM - ANTI-PIRATARIA CINEMA E MÚSICA
RUA HADDOCK LOBO, 585 – SÃO PAULO – SP – BRAZIL
INTERNET ANTI-PIRACY UNIT
Telefone: +55 (11) 3061-1990x244
E-mail: anti-piracy@apcm.org.br
Bruno Henrique Tarelov: btarelov@apcm.org.br
Fone:










55 11 30611990
ramal 238
Fax: 55 11 30611221
Agradecemos a todos que de um jeito ou de outro, colaboraram para que nossas comunidades fossem tão populares. Valeu, gente!
A Moderação
Tais entidades de defesa dos direitos autorais, como a R.I.A.A. nos Estados Unidos e APCM no Brasil, que é a representante legal de:
UNIVERSAL MUSIC DO BRASIL LTDA.;
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METRO-GOLDWYN-MAYER STUDIOS INC.;
PARAMOUNT PICTURES CORPORATION;
TWENTIETH CENTURY FOX FILM CORPORATION;
UNIVERSAL CITY STUDIOS INC.;
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UNITED ARTISTS PICTURES INC.;
UNITED ARTISTS CORPORATION;
UBV - UNIÃO BRASILEIRA DE VÍDEO E ASSOCIADAS
Sendo ainda representante de IFPI - International Federation of the Phonographic Industry e MPA - Motion Picture Association no Brasil, se dizem "sem fins lucrativos", vamos acreditar nisso, né gente? Como todos acreditam nas histórias da carochinha. Portanto, deixamos aqui os dados de contato do orgão responsável pelo fechamento das comunidades e de um de seus representantes:
APCM - ANTI-PIRATARIA CINEMA E MÚSICA
RUA HADDOCK LOBO, 585 – SÃO PAULO – SP – BRAZIL
INTERNET ANTI-PIRACY UNIT
Telefone: +55 (11) 3061-1990x244
E-mail: anti-piracy@apcm.org.br
Bruno Henrique Tarelov: btarelov@apcm.org.br
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Fax: 55 11 30611221
Agradecemos a todos que de um jeito ou de outro, colaboraram para que nossas comunidades fossem tão populares. Valeu, gente!
A Moderação
Ps.: A APCM só perseguia nossas comunidades, e assim, os links postados pelos nossos membros estavam sendo rapidamente denunciados e excluídos, pois eles querem aparecer e só deletam de onde está mais fácil e tem maior visibilidade na mídia. O pessoal que baixava de nossas comunidades vai poder continuar a procurar os links no lugar de maior acervo: O Google.
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Comunicação,
Música
quinta-feira, 12 de março de 2009
y
"Rodrigo,
Lembra quando perguntaste sobre chorar pelo mundo inteiro e depois querer sumir? Quando olhaste pra mim naquele dia e fizeste essa pergunta, eu senti como se ouvisse meu eco. Não imaginas como me abraçaste sem braços ao dizer tais coisas, e depois afirmaste, com uma cara bem plácida, que sabias que eu entenderia. Eu me sinto em casa quando estou contigo. Posso falar coisas que eu não falaria pra quase ninguém, pois sei que ririam de mim. Pra ti eu falo de pássaros e vida e choro e solidão. E quando brigas comigo, ou me provocas ou falas como quem não quer ser carinhoso eu sei, de diversas formas, que é tudo um afago às avessas. Eu sei que a gente se ama e se entende tanto que chega a me assustar. Acho lindo quando esqueces que estás aqui e falas dos teus filhos e dos teus quarenta anos, ou quando dizes que enxergas a vida nas poesias da aula de fotografia. Queria te achar sempre que eu olhasse pro lado. E queria que meu filho Antônio fosse amigo do teu filho Ícaro, e que a gente comesse macarronada um na casa do outro alternando os domingos. Queria te ver muito feliz e escrevendo pra sempre coisas bonitas. Meu amigo, tu és o mais sensível de todos".
ai grega, que saudade. =~~
ai grega, que saudade. =~~
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Correspondências
quarta-feira, 11 de março de 2009
Atchim
Algumas lembranças surgem de maneira muito incontrolável. Vejamos só: estou na biblioteca fazendo fichamento de um livro, quando alguém em algum lugar distante espirra. Antes dez outros já tinham espirrado, tossido, mas desta vez eu penso na hora: "meu deus, esse era o espirro do meu pai".
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Cotidiano
"Máquina de lavar fez mais pela mulher do que pílula, diz Igreja"
errr... essa conclusão saiu num artigo, escrito por uma mulher, num dos Jornais do Vaticano, L'Osservatore Romano, por ocasião do Dia Internacional da Mulher. O título do artigo era: "A Máquina de lavar e a liberação das mulheres - ponha detergente, feche a tampa e relaxe"
Eu achei genial: isso que é piada cristã de verdade.
Eu achei genial: isso que é piada cristã de verdade.
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Comunicação
domingo, 1 de março de 2009
Frost / Nixon

Ron Howard é um daqueles cineastas que, como acontece diante de algumas pessoas, gostaríamos de passar longe e de olhos vendados, ou melhor, gostaríamos até de conhecer a título de curiosidade, mas depois de conhecido, gostaríamos também de ser agraciados com a condição de desconhecer. Só que também como acontece com as pessoas, essa situação habita apenas a imaginação sem saída, e especialmente no caso do diretor, nos sentimos cercados, afinal, nem é preciso abrir a porta de casa para nos darmos conta que Apollo 13 (1995), Uma Mente Brilhante (2001) e o hors concurs O Código da Vinci (2006) já estão fazendo a festa na sala de estar. Bons tempos infantis onde só conhecíamos Cocoon (1985). Também não quero sair explicando a péssima conexão entre exagero dramático e ação de quinta que só o cineasta americano consegue montar, mas sim, assumir uma puta contradição: assisti recentemente Frost / Nixon (2008), que milagrosamente apareceu no meu computador, e levei um baita susto. Primeiro por não dormir. Segundo por terminar o filme tendo certeza que aquelas não foram as duas horas mais entediantes da minha semana. Ok, estou sendo chato, mas é Ron Howard. Ele merece. Mas, de fato, tenho de admitir que fiquei bastante intrigado com a escolha - ou acaso - de estereotipar ao extremo os personagens secundários, que formam uma espécie de esquadrão do entrevistador e esquadrão do entrevistado, colocando em lados distintos o ex-combatente do Vietnã devotado pelo Nixon e o acadêmico nerd-quase-google a serviço de Frost. Bem caricato, simples e Ron Howard mesmo. Só que aí vem a surpresa, pois ao invés de fazer o mesmo com os personagens principais - algo que seria o esperado -, o diretor ou roteirista terminou por inseri-los num complexo espiral ambivalente: Nixon é um reaça filho da puta e contraditoriamente um gentleman educado e inteligente; Frost é um gentleman inteligente e midiático e um alienado por escolha própria. Isso apenas como panorama primeiro, pois os personagens vão mostrando diferentes faces no decorrer da narrativa, fazendo das peças secundárias, extremos metafóricos de quem eles próprios, em situações-limite, são e não são. Parece-me uma solução esperta na construção das personagens, apesar de que os depoimentos diretos para a câmera sejam patéticos. Melhor esquecer. Sim, obviamente me identifiquei bastante com o Frost, não pela cara de pau na hora da paquera ou pelo riso cínico ou pelo desleixo com o trabalho, mas por se interessar em fazer uma entrevista com o político mais importante do momento, quando ele, enquanto jornalista, não passava de um apresentador de auditório cercado de amenidades. Acho que há uma alfinetada na posição política rígida que muitas vezes vem associada ao velho pragmatismo de separar baixa e alta cultura e que se auto distingue como A posição política possível. Aos mais interessados, recomendo assistir a entrevista original: não só pelo conteúdo que nos leva numa relação entre registro histórico e discurso audiovisual, mas para especialmente confirmar como as atuações do Frank Langella e do Michael Sheen estão monstruosamente similares. Não que isso seja, a priori, bom ou ruim, mas querendo ou não, chama-nos a atenção. Pensando melhor, talvez tenha mesmo que dar uma chance as supostas pessoas que eu desejaria desconhecer, afinal se, enquanto cineasta desconhecível, o Ron Howard consegui me entreter e levantar questionamentos, talvez as pessoas também consigam ultrapassar a imagem que congelei sobre elas. Se bem que o maldito americano vai lançar Anjos e Demônios. Pois é, esqueçam o que eu disse.
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Cinema
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Epocler
Para o Quanta Ladeira virar um Recifolia falta uma polegada.
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Cotidiano
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
O gato por dentro
Todo dia que chego em casa morto de cansado, tiro meu sapato ou sandália na sala e vejo minha gata se aproximar para cheirá-los. Isso já faz parte de minha irrelevante rotina e é nesse momento que tenho meu meio minuto de reflexão sobre o que fiz do dia, pois fico imaginando aquela mente felina recriando cada um dos lugares por onde passei.
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Devaneios
It's Getting Worse All The Time
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Cinema
sábado, 31 de janeiro de 2009
A Scena Muda / Cinearte
Cumprindo meu papel sócio-cultural no mundo e minha boa ação do dia, queria lembrar aos queridos, queridas e querid@s que todas as edições das revistas A Scena Muda (1921 - 1955) e Cinearte (1926 - 1942) estão disponíveis integralmente na internet. É só clicar nas imagens abaixo. Concordo com o que tem escrito na própria apresentação do projeto, pensei até em copiar linha por linha, afinal ambas publicações se mostram realmente essenciais, enquanto documentos históricos, para qualquer pesquisa que necessite - seja pelo figurino, pela crítica, pelos filmes ou mesmo pela publicidade - remontar uma memória cinematográfica brasileira da primeira metade do século. Naturalmente tendem ao Rio de janeiro, mas como são, ao menos livremente disponíveis, os únicos registros de imprensa especializada da época, temos de nos contentar. Se bem que o processo de digitalização em si, iniciativa da Biblioteca Jenny Klabin Segall, me parece um ótimo exemplo a ser seguido por arquivos públicos e privados que assistem seus documentos deteriorarem ano após ano. Nessa linha dava até para criar um slogan bem militante brega do tipo: 'digitaliz@r é preserv@r, digitalize você também'. Daí colocava um nerd sorrindo e fazendo um 'legal' com a mão. Ta bom, parei.
Ai ai, eu fico me ironizando, porque às vezes tenho medo de acordar sem o deboche e virar um cibermarxista acadêmico chatão. Espero que só aconteça depois dos trinta.
Ai ai, eu fico me ironizando, porque às vezes tenho medo de acordar sem o deboche e virar um cibermarxista acadêmico chatão. Espero que só aconteça depois dos trinta.
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Cinema
Buscas
É divertido descobrir as buscas que resultaram no seu blog, mas acho muito estranho que o terceiro resultado da busca "corinthians lógica cagar" seja o Velhos Hábitos. Fico muito me perguntando o que essa pessoa queria achar independentemente de onde ela foi parar. Pior que "uma granada explode em quantos segundos" e "primeiro suicídio filosófico" dá até para termos uma ideia do que a pessoa estava procurando, só não dá para ter ideia do porquê de meu blog ser o primeiro resultado em ambas as pesquisas. "Assassinatos ao vivo", sou o sexto, "zoofilia na década de 20", o sétimo e acho melhor parar por aqui, que isso já está ficando bizarro demais. No final das contas, fico meio pensando nos leitores esporádicos que tenho: futebolistas escatológicos, galera barra pesada do PCC, estudantes de filosofia pré-cfch e admiradores de snuff movies.
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Cotidiano
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
E Deus Criou a Mulher (França, 1956), de Roger Vadim

"Não tenho certeza de quando Brigitte e Jean-Louis fizeram amor pela primeira vez. Mas percebi que já tinham se tornado amantes quando estávamos rodando uma das cenas principais.
Na história, Juliette está fisicamente atraída por um dos três irmãos, o mais velho, Antoine. O papel era interpretado por Christian Marquand. No entanto, ela se casa com Michel, o irmão do meio, para evitar uma volta ao orfanato. No momento em que descobre as profundas qualidades de seu marido, passa a amá-lo. Antoine retorna para viver com eles. Juliette se dilacera entre o desejo de felicidade e harmonia com o marido e a atração visceral por Antoine. Não quer ser levada pela paixão física por Antoine, mas sabe que acabará cedendo. Certa noite, Michel desperta e percebe que sua mulher não está no quarto. Encontra-a na praia, perto da casa. Eis um trecho da cena:
Nunca Brigitte, a atriz, tinha sido tão profundamente honesta e desesperada. Ela era realmente Juliette, que queria amar o marido e salvar seu casamento, sabendo que jamais conseguiria fazer isso. Era também Brigitte, ainda apegada ao marido e apavorada pela idéia de abandoná-lo, por um homem que acabara de conhecer, e ao qual não podia resistir. Era como um mundo de espelhos, com uma sutileza pirandelliana. Jean-Louis Trintignant, seu marido no filme, passou a representar seu marido na vida real. Quando disse para a câmera que estava com medo, Brigitte-Juliette estava, na verdade, falando comigo.
Já em nosso quarto, no Hotel Negresco, após a filmagem, perguntei a ela:
- Ele é seu amante, não é?
- Sim.
- Você o ama?
- Estou com medo.
Antes de dormir, ela murmurrou:
- É difícil ser feliz
Até hoje não sei ao certo se ela repetiu deliberadamente a fala do filme ou se estava dizendo o que sentia".
'Bardot, Deneuve, Fonda - As Memórias de Roger Vadim',
págs. 89/90/91'
Concordo plenamente com o que tem escrito na dedicatória que recebi: 'teoria do cinema o cacete. Bom mesmo é fofoca'. Acho que teria me entediado bastante se tivesse assistido 'E Deus criou a Mulher' sem ler o livro de memórias do diretor, sem saber todos os bastidores emocionais / sociais (Brigitte largando ele para ficar com o protagonista, as chantagens, bebedeiras, os encontros...), e produtivos / técnicos (tiveram de inserir um ator famoso, Curd Jurgens, para conseguir filmar em Cinemascope, problemas, filme de estréia, falta de dinheiro...). Fiquei tão na fissura por cada detalhe que era só preciso uma lampejo de cena de dois segundos da Brigitte brincando com um cocker spaniel preto para eu ficar louco me perguntando: será Clown? (o cachorro que ambos consideravam como o único filho da relação). Não se trata do filme não despertar interesse sozinho, pelo contrário, a sensualidade da Bardot tem sim o teor provocativo que a imortalizou (vide, O desprezo como exploração disso), só que aqui, em 1956, a sensualidade termina caindo um pouco na lógica de 'ser provocativa para sua época', o que gera um certo incômodo em mim. O quase fervor de um corpo não é o suficiente se não há o fervor da mise en scène. De fato, uma boca não faz um filme, mas ainda assim, pensando bem, acho que o jogo de esconder mais e mostrar menos, dando a impressão de estar mostrando mais do que realmente está é, nessa obra, de um requinte imenso.
Inclusive, se formos levar em conta que esse filme por muito, mas muito pouco não foi censurado, no julgamento foram 4 votos a favor da liberação e 3 contra, só posso ter certeza que os censores viram muito mais do que estava sendo projetado na tela: e concordo que em algumas cenas, a presença ou ausência de roupas não faz muita diferença aos seios da Brigitte Bardot. A estréia chegou a ser cancelada na hora, quando os convidados, tipo a Audrey Hepburn, já subiam as escadas do cinema e se perguntavam em meio à baderna: "O que está acontecendo? Uma revolução?". Achei desproporcional o barulho sobre a obra depois de vê-la, talvez seja até exagero de lembrança, mas as memórias são do Roger Vadim e ele faz das memórias o quiser. Talvez esse receio diante da moralidade diegética tenha a ver com a dificuldade que possuo em me interessar por boa parte da produção cinematográfica francesa da década de 50, por eu ter nas costas uma longa bagagem afetiva interligada à Nouvelle Vague: só para compararmos diretamente, tenho de dizer que a nudez em O Desprezo é anos-luz mais provocativa. Tudo antes parece meio velho, comportado e empoeirado demais. Existem exceções, óbvio. De qualquer forma, reconheço vários momentos na produção do Vadim, assim como o fez Truffaut, que na época escreveu uma crítica super positiva, colocando a obra como essencial para uma abertura de horizontes. Talvez tivesse razão. Tudo bem que prefiro mil vezes as revelações do livro, mas essa cena me parece genial:
Na história, Juliette está fisicamente atraída por um dos três irmãos, o mais velho, Antoine. O papel era interpretado por Christian Marquand. No entanto, ela se casa com Michel, o irmão do meio, para evitar uma volta ao orfanato. No momento em que descobre as profundas qualidades de seu marido, passa a amá-lo. Antoine retorna para viver com eles. Juliette se dilacera entre o desejo de felicidade e harmonia com o marido e a atração visceral por Antoine. Não quer ser levada pela paixão física por Antoine, mas sabe que acabará cedendo. Certa noite, Michel desperta e percebe que sua mulher não está no quarto. Encontra-a na praia, perto da casa. Eis um trecho da cena:
MICHEL: Você não está feliz?
(Juliette sorri tristemente. Michel acaricia seu rosto. De repente ela agarra a camisa dele, com o rosto cheio de angústia)
JULIETTE: Você deve me amar um bocado.
MICHEL: Sou louco por você.
(Close-up de Juliette)
JULIETTE: Então diga. Diga que me ama, que sou sua, que você precisa de mim. Beije-me, Michel. Beije-me!
(Michel está impressionado com a intensidade trágica da voz dela)
JULIETTE: Estou com medo.
MICHEL: De que, meu bem?
(Juliette não responde. Vai deslizando para a areia com extraordinária suavidade. Seu corpo é fluido como água. Seu rosto e o canto da boca tocam a areia).
JULIETTE: (doce e quase tranquila) É difícil ser feliz.
(Juliette sorri tristemente. Michel acaricia seu rosto. De repente ela agarra a camisa dele, com o rosto cheio de angústia)
JULIETTE: Você deve me amar um bocado.
MICHEL: Sou louco por você.
(Close-up de Juliette)
JULIETTE: Então diga. Diga que me ama, que sou sua, que você precisa de mim. Beije-me, Michel. Beije-me!
(Michel está impressionado com a intensidade trágica da voz dela)
JULIETTE: Estou com medo.
MICHEL: De que, meu bem?
(Juliette não responde. Vai deslizando para a areia com extraordinária suavidade. Seu corpo é fluido como água. Seu rosto e o canto da boca tocam a areia).
JULIETTE: (doce e quase tranquila) É difícil ser feliz.
Nunca Brigitte, a atriz, tinha sido tão profundamente honesta e desesperada. Ela era realmente Juliette, que queria amar o marido e salvar seu casamento, sabendo que jamais conseguiria fazer isso. Era também Brigitte, ainda apegada ao marido e apavorada pela idéia de abandoná-lo, por um homem que acabara de conhecer, e ao qual não podia resistir. Era como um mundo de espelhos, com uma sutileza pirandelliana. Jean-Louis Trintignant, seu marido no filme, passou a representar seu marido na vida real. Quando disse para a câmera que estava com medo, Brigitte-Juliette estava, na verdade, falando comigo.
Já em nosso quarto, no Hotel Negresco, após a filmagem, perguntei a ela:
- Ele é seu amante, não é?
- Sim.
- Você o ama?
- Estou com medo.
Antes de dormir, ela murmurrou:
- É difícil ser feliz
Até hoje não sei ao certo se ela repetiu deliberadamente a fala do filme ou se estava dizendo o que sentia".
'Bardot, Deneuve, Fonda - As Memórias de Roger Vadim',
págs. 89/90/91'
Concordo plenamente com o que tem escrito na dedicatória que recebi: 'teoria do cinema o cacete. Bom mesmo é fofoca'. Acho que teria me entediado bastante se tivesse assistido 'E Deus criou a Mulher' sem ler o livro de memórias do diretor, sem saber todos os bastidores emocionais / sociais (Brigitte largando ele para ficar com o protagonista, as chantagens, bebedeiras, os encontros...), e produtivos / técnicos (tiveram de inserir um ator famoso, Curd Jurgens, para conseguir filmar em Cinemascope, problemas, filme de estréia, falta de dinheiro...). Fiquei tão na fissura por cada detalhe que era só preciso uma lampejo de cena de dois segundos da Brigitte brincando com um cocker spaniel preto para eu ficar louco me perguntando: será Clown? (o cachorro que ambos consideravam como o único filho da relação). Não se trata do filme não despertar interesse sozinho, pelo contrário, a sensualidade da Bardot tem sim o teor provocativo que a imortalizou (vide, O desprezo como exploração disso), só que aqui, em 1956, a sensualidade termina caindo um pouco na lógica de 'ser provocativa para sua época', o que gera um certo incômodo em mim. O quase fervor de um corpo não é o suficiente se não há o fervor da mise en scène. De fato, uma boca não faz um filme, mas ainda assim, pensando bem, acho que o jogo de esconder mais e mostrar menos, dando a impressão de estar mostrando mais do que realmente está é, nessa obra, de um requinte imenso.
Inclusive, se formos levar em conta que esse filme por muito, mas muito pouco não foi censurado, no julgamento foram 4 votos a favor da liberação e 3 contra, só posso ter certeza que os censores viram muito mais do que estava sendo projetado na tela: e concordo que em algumas cenas, a presença ou ausência de roupas não faz muita diferença aos seios da Brigitte Bardot. A estréia chegou a ser cancelada na hora, quando os convidados, tipo a Audrey Hepburn, já subiam as escadas do cinema e se perguntavam em meio à baderna: "O que está acontecendo? Uma revolução?". Achei desproporcional o barulho sobre a obra depois de vê-la, talvez seja até exagero de lembrança, mas as memórias são do Roger Vadim e ele faz das memórias o quiser. Talvez esse receio diante da moralidade diegética tenha a ver com a dificuldade que possuo em me interessar por boa parte da produção cinematográfica francesa da década de 50, por eu ter nas costas uma longa bagagem afetiva interligada à Nouvelle Vague: só para compararmos diretamente, tenho de dizer que a nudez em O Desprezo é anos-luz mais provocativa. Tudo antes parece meio velho, comportado e empoeirado demais. Existem exceções, óbvio. De qualquer forma, reconheço vários momentos na produção do Vadim, assim como o fez Truffaut, que na época escreveu uma crítica super positiva, colocando a obra como essencial para uma abertura de horizontes. Talvez tivesse razão. Tudo bem que prefiro mil vezes as revelações do livro, mas essa cena me parece genial:
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Cinema
Definição
Ser loser é sair de casa apressado, roer a unha no caminho e quebrar o dente da frente.
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Cotidiano
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Ostras e Caracóis
Nunca tive um interesse natural por grandes épicos, os assistia meio pensando 'tenho de assistir mesmo, então vamos lá, melhor que seja logo', terminava adiando, adiando, de forma que criei um grande vácuo desse gênero no meu repertório. Estava sempre me esquivando, em especial pela longa duração de cada um deles: terminava correndo para a ficção científica ou para os filmes B de fantasia (o que inclui Simbad, Hércules, Xena e todos aqueles filmes mitológicos com efeitos especiais toscos que eu adoro). De qualquer forma, assisti alguns épicos. Ben-Hur (EUA, 1959, 212 min), de William Wyler e El Cid (EUA, 1961, 182 min), de Anthony Mann, eu já tinha visto quando garoto, meio que obrigado pela minha mãe que adora e adorava os grandes épicos e filmes religiosos - e, me desculpem, mas nem vou tentar psicanalisar essa oposição entre os nossos gostos. Re-assisti ambos há uns dois anos e ok, não mudaram minha vida nem para melhor, nem para pior. Tudo na mesma.
Enfim, só queria dizer que essa semana tive a disposição para Spartacus (EUA, 1960, 187 min), que eu pensava 'olha só onde você vai se meter, antes de ser um filme de Stanley Kubrick, é um épico'. Tinha receio de manchar uma carreira que me parece irretocável. Arrisquei e acho que se trata do contrário: antes de um épico, é um Stanley Kubrick. Que o diga a cena dos mortos no campo de batalha e a dos crucificados ao longo de toda uma estrada. Mas teve algo em particular que me chocou: o típico subtexto homossexual desses filmes, tinha nessa obra, por meio do roteiro do Dalton Trumbo, se tornado menos sub e mais, muito mais explícito. O filme é muito gay e não acredito que isso passe desapercebido aos pais de família brancos héteros que tomam essa produção como uma das maravilhas da sétima arte. Na linha eu sou Spartacus, quando todos gritam. Nos outros dois também existe o tom, mas é tão sutil que pode se passar por fraternidade, brotherhood, não desejo. Só para provar que Spartacus é mais explícito, olha só esse diálogo entre o Laurence Olivier (Crassus, despido) e seu servo Tony Curtis (Antoninus, semi nu), enquanto o segundo esfrega as costas do primeiro numa banheira:
Marcus Licinius Crassus:
Do you eat oysters?
Antoninus:
When I have them, master.
Marcus Licinius Crassus:
Do you eat snails?
Antoninus:
No, master.
Marcus Licinius Crassus:
Do you consider the eating of oysters to be moral and the eating of snails to be immoral?
Antoninus:
No, master.
Marcus Licinius Crassus:
Of course not. It is all a matter of taste, isn't it?
Antoninus:
Yes, master.
Marcus Licinius Crassus:
And taste is not the same as appetite, and therefore not a question of morals.
Antoninus:
It could be argued so, master.
Marcus Licinius Crassus:
My robe, Antoninus. My taste includes both snails and oysters.
Isso é porque eu não descrevi a troca de olhares, melhor assistir. Como pode aquele filme podre Alexandre causar tanta polêmica quando quarenta anos antes já existia Spartacus no mainstream? Às vezes eu acho que a permanência de certos choques é uma pura falta de memória. Já era para o povo está chocado há muito tempo. Fireworks. Fireworks.
Enfim, só queria dizer que essa semana tive a disposição para Spartacus (EUA, 1960, 187 min), que eu pensava 'olha só onde você vai se meter, antes de ser um filme de Stanley Kubrick, é um épico'. Tinha receio de manchar uma carreira que me parece irretocável. Arrisquei e acho que se trata do contrário: antes de um épico, é um Stanley Kubrick. Que o diga a cena dos mortos no campo de batalha e a dos crucificados ao longo de toda uma estrada. Mas teve algo em particular que me chocou: o típico subtexto homossexual desses filmes, tinha nessa obra, por meio do roteiro do Dalton Trumbo, se tornado menos sub e mais, muito mais explícito. O filme é muito gay e não acredito que isso passe desapercebido aos pais de família brancos héteros que tomam essa produção como uma das maravilhas da sétima arte. Na linha eu sou Spartacus, quando todos gritam. Nos outros dois também existe o tom, mas é tão sutil que pode se passar por fraternidade, brotherhood, não desejo. Só para provar que Spartacus é mais explícito, olha só esse diálogo entre o Laurence Olivier (Crassus, despido) e seu servo Tony Curtis (Antoninus, semi nu), enquanto o segundo esfrega as costas do primeiro numa banheira:
Marcus Licinius Crassus:
Do you eat oysters?
Antoninus:
When I have them, master.
Marcus Licinius Crassus:
Do you eat snails?
Antoninus:
No, master.
Marcus Licinius Crassus:
Do you consider the eating of oysters to be moral and the eating of snails to be immoral?
Antoninus:
No, master.
Marcus Licinius Crassus:
Of course not. It is all a matter of taste, isn't it?
Antoninus:
Yes, master.
Marcus Licinius Crassus:
And taste is not the same as appetite, and therefore not a question of morals.
Antoninus:
It could be argued so, master.
Marcus Licinius Crassus:
My robe, Antoninus. My taste includes both snails and oysters.
Isso é porque eu não descrevi a troca de olhares, melhor assistir. Como pode aquele filme podre Alexandre causar tanta polêmica quando quarenta anos antes já existia Spartacus no mainstream? Às vezes eu acho que a permanência de certos choques é uma pura falta de memória. Já era para o povo está chocado há muito tempo. Fireworks. Fireworks.
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Cinema
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
¬¬
Sorte de hoje: A pessoa que lê sua sorte não está se sentindo bem. Esperamos que você esteja.
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Cotidiano
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Blá Blá Blá
Eu ia cometer a gafe de começar esse post perguntando se alguém mais achava que o Roberto Farias tinha o espírito de A Primeira Página (EUA, 1974), do Billy Wilder na cabeça, quando fez Toda Donzela tem um Pai que é uma Fera (Brasil, 1966). Só depois descobri que o segundo tinha sido feito antes do primeiro. Ficou confuso, mas acho que vocês entenderam o que quis dizer: por ter assistido o wilder antes do farias desloquei as produções de suas próprias cronologias para inserí-lasúnic e exclusivamente na minha cronologia. De qualquer forma, eu sei que é bem arbitrário fazer esse tipo de afirmação direta entre obras, sempre gera equívocos, afinal é muito mais uma relação fruto de nossas próprias cabeças e backgrounds que um minucioso plano dos diretores em questão. Não sempre, óbvio, mas aqui é assumidamente, então quero continuar aloprando em paz. De fato, além do nonsense das datas e países, tenho de admitir que as histórias nem são parecidas, longe disso até, mas acredito que a forma de capturar o riso e estruturar a comédia - e fazê-la funcionar muitíssimo bem - seja bastante semelhante. É uma fórmula bem conhecida e já banalizada como quase tudo nesse mundo: cria-se um clima de tensão, por um personagem estar escondendo 'alguma coisa' de um outro personagem; nós, espectadores, sabemos o que é essa 'alguma coisa', sabemos que se for descoberta antes da hora será uma tragédia e tudo passa a girar em torno das situações mais inusitadas para que a 'alguma coisa' permaneça secreta. Em ambos os casos, a tal coisa são pessoas: no nacional, a donzela sendo escondida do pai militar pelo amante e pelo amigo libertino no apartamento do libertino; no americano, um suposto criminoso comunista sendo escondido da polícia e dos outros jornalistas, numa sala de imprensa coletiva, pelo editor e jornalista de um mesmo jornal. É uma fórmula batida, convenhamos, mas acho que ainda funciona: senti a leveza que toda boa comédia deve nos causar. No clima sou cult de nascença, engajados por todos os lados, cinema novo, estética da fome e tudo mais que imaginamos que era o meio da década de 60, o que eu ia querer assistir para relaxar um pouco era uma comédia divertida, alienada e acéfala como essa. Se brincar não tão acéfala: comunistas inocentes e militares retrógrados não me parecem uma caricatura inocente. Talvez só não levante bandeira. Mas pra compensar, no ano seguinte teríamos Terra em Transe, daí poderíamos voltar a pensar e nos fazer de conscientes e politizados. Às vezes fico achando que, mesmo com todo meu respeito, os filmes e escritos do Glauber Rocha eram muito sérios e que o maior ensinamento do Cinema Marginal foi o de que um pouco de humor, insanidade e cultura de massa no discurso e na técnica não fazia mal algum. Não fez. Acho que Godard já sabia disso. Bang Bang.
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Cinema
domingo, 25 de janeiro de 2009
Κώστας Γαβράς
Quem escrever, falar, sussurrar Costa-Gavras mais uma vez colocando o 'r' no lugar errado, Costa-Gravas, é a mulher do padre. É que esse erro é trauma de adolescência: desde os treze anos brinco de corrigir. Minha paciência que já não era muito o meu forte meio que acabou.
Só espero que a Graça Araújo se confunda. Ela pode. Sobe som. Palmas. Flashs. Alunos da Maurício de Nassau.
Só espero que a Graça Araújo se confunda. Ela pode. Sobe som. Palmas. Flashs. Alunos da Maurício de Nassau.
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Cinema Pernambucano
Rogelio
Esta é uma anti-recomendação: eu assisti recentemente um curta do Guillermo Arriaga, chamado Rogelio, e achei tão podre de ruim, tão podre de ruim, que fiquei sem saco e sem palavras pra me justificar, pois só conseguia pensar que se brincasse, caso fosse inscrito no Festival de Vídeo do Recife, o curta não ganharia nada. Talvez nem seria selecionado. Melhor mesmo era que não existisse: e antes de voltar pro meu artigo-destruidor-de-vidas-e-emoções, tenho de dizer que não tem um só morto que mereça a dedicatória. Poesia de boteco da pior espécie.
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Cinema
sábado, 24 de janeiro de 2009
Nylon Smile / Hunter
Eu seria uma pessoa na fossa tão mais feliz se visse isso ao vivo, sendo bem esperançoso imagino no Coquetel Molotov, mas acho que pelo andar da carruagem - e como adoro essa expressão - está mais fácil rolar 'beijinho doce'. Numa opção ou na outra, estaria na primeira fila cantando juntinho.
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Música
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Matou a Família e foi ao Cinema
Morou com Rodrigo e terminou na terapia.
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Cotidiano
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Fim?

Diferentemente da Elizabeth Taylor, eu sei a hora de parar, apesar de saber que malandro não pára, malandro dá um tempo.
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Cotidiano
sábado, 10 de janeiro de 2009
Atenção
Fazer mestrado sem bolsa é uma furada.
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Comunicação
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Filmes de 2009
Depois de várias listas dos melhores do ano passado, Paranoid Park pra cá, Paranoid Park pra lá, uma lista simplesmente em ordem cronológica do que andei assistindo desde o reveillon:
Nannok do Norte (EUA, 1922), de Robert Flaherty.
Assisti no primeiro dia do ano, no notebook, na praia e agora entendo - e acho até que faz todo o sentido - que esse seja um filme mais lido que visto e não por ser supostamente raro ou chato, nem por ser mudo, da década de 20 ou retratar a 'divertida' vidinha dos esquimós, mas - e levando em em conta que se trata da obra canonizada como inventora do documentário enquanto gênero cinematográfico - por ser relevante sabermos que a versão final foi re-encenada e gravada após o diretor perder, num incêndio causado por seu cigarro, todo um material de registro 'documental' que havia feito ao longo de sete anos no norte do Canadá. Daí o Flaherty ficcionalizou geral em sua segunda tentativa, criando personagens, concatenando as cenas a partir de suas lembranças e chegando a pedir aos esquimós, para passar uma impressão rústica da comunidade, que eles fossem gravados caçando com lanças, mesmo que o uso de armas de fogo fosse comum. Saber que o documentário se instituiu assim, em meio a tanta mentira, me alegra bastante.
Assisti no primeiro dia do ano, no notebook, na praia e agora entendo - e acho até que faz todo o sentido - que esse seja um filme mais lido que visto e não por ser supostamente raro ou chato, nem por ser mudo, da década de 20 ou retratar a 'divertida' vidinha dos esquimós, mas - e levando em em conta que se trata da obra canonizada como inventora do documentário enquanto gênero cinematográfico - por ser relevante sabermos que a versão final foi re-encenada e gravada após o diretor perder, num incêndio causado por seu cigarro, todo um material de registro 'documental' que havia feito ao longo de sete anos no norte do Canadá. Daí o Flaherty ficcionalizou geral em sua segunda tentativa, criando personagens, concatenando as cenas a partir de suas lembranças e chegando a pedir aos esquimós, para passar uma impressão rústica da comunidade, que eles fossem gravados caçando com lanças, mesmo que o uso de armas de fogo fosse comum. Saber que o documentário se instituiu assim, em meio a tanta mentira, me alegra bastante.
Eu, um Negro (França, 1958), de Jean Rouch (02/01/09)
Crônica de um Verão - Paris, 1960 (França, 1961), de Edgar Morin e Jean Rouch (02/02/09)
Jaguar (França, 1967), de Jean Rouch (03/01/09)
Brokeback Mountain (EUA, 2005), de Ang Lee
Revisto na TV, na Globo, dublado e se eu tinha detestado quando vi no cinema, desta vez me diverti um bocado pensando nas donas de casa do meu Brasil que estavam se identificando com a Jen do Dawson's Creek, chocadas com os moderados beijos dos cowboys e morrendo de medo de seus machos machões serem as bibas enrustidas da repartição. Tudo isso nos quarenta minutos que me mantive acordado, porque, me desculpe vocês, mas não tive saco de assistir de novo até o fim. De qualquer forma, para mim, a inteligibilidade boba e melodramática do roteiro - que se torna apaticamente diferente só por se tratar de uma história gay - funciona muito mais na televisão, com o alcance da televisão e diante de um público amplo e pudico, que no cinema, sempre restrito e refém de um público direcionado. Pode ser preconceito barato de uma mídia sobre a outra. Que seja.
Close-up (Irã, 1990), de Abbas Kiarostami
O Tesouro de Sierra Madre (EUA, 1948), de John Huston
A Grande Família - o Filme (Brasil, 2007), de Maurício Farias
Cleópatra (Brasil, 2007), de Júlio Bressane
Comecei até a escrever algumas palavras, mas agora agora estou procurando emprego para não terminar na rua. Vou atualizando aos poucos até cansar.
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Cinema
domingo, 4 de janeiro de 2009
Quatro Filhotes
Eu disse que minha gata pariu?
Pois é, agora estou achando que ela vai virar uma baranga, afinal a barriga dela já virou um puta saco de bompreço.
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Cotidiano
Estudando a Bossa + The Odd Couple
Não saco nada de música, nadinha, só escuto e ponto, mas na minha santa ignorância acho que esqueceram de colocar os discos do Tom Zé e do Gnarls Barkley na lista dos melhores de 2008. Portishead na veia.
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Música
sábado, 3 de janeiro de 2009
Digressão de um ensaio em processo
Há alguns anos, quando estava no momento limite de tornar o cinema não apenas um belo entretenimento de cada dia, mas um objeto primeiro de interesse e pesquisa, costumava colocar o documentário como um gênero menor. Admito o senso comum dessa premissa, mas também admito a importância de considerarmos a vivência do senso comum como auxílio em seu próprio entendimento. Portanto, ao invés de simplesmente descartá-lo como nos sugere a academia, seria mais fecundo entender e se deixar envolver por sua lógica: como um bom adolescente cinéfilo, tinha me dado conta que boa parte de minhas limitadas referências até então – de fato, não conhecia Vertov, Rouch e pouco sabia de Coutinho, mas freqüentava anualmente o CINE-PE – se apegavam a algumas regrinhas estruturais básicas, que tendiam a esvaziar a forma num intuito ingênuo de preservar o conteúdo, minimizando os recursos cinematográficos por uma mera busca didática. Basta pegar a programação do Festival de Vídeo do Recife em todas as suas edições ou o catálogo da Massangana Multimídia Produções para perceber que exemplos não faltam. É impossível não perceber o menosprezo pela inteligência mínima do espectador contemporâneo, criado numa ode à desconstrução, quando nos vemos diante de apropriações narrativas que de tão lineares e corretas me parecem anacrônicas. E não se enganem, também não estou defendendo a desconstrução como um valor em si.
As recorrências desse tipo de produção não são poucas: tínhamos e temos sempre o depoimento direto, o plano americano, o entrevistado sentado, bem cuidado e alimentado, sempre a câmera parada, o uso da narração-explicativa, sempre a edição minimalista, um uso banal de imagens de arquivo, confluindo numa sempre ausência de cinema. Se a ficção me soava como uma faca descobrindo todos os riscos das imagens em movimento, brincando com os limites narrativos e não se esvaziando em seu trajeto - o que me parecia um movimento heurístico por parte do cineasta e que já havia sido muito bem percorrido pela literatura - o documentário se fincava como estático, como uma espécie de babá velha pegando a mão do espectador-criança e o levando cuidadosamente até a escola. Isso para não falar da recorrência detestável de objetos: ou estávamos de frente a um personagem famoso, ou tínhamos de rir de um anônimo excêntrico; ou caíamos com nosso complexo de culpa pequeno burguês numa comunidade pobre; ou iríamos desvendar um lugar exótico no sertão, um fato marcante na história ou bater o pé com o gingado de alguma manifestação artística considerada incomum. Ano após ano só fui achando mais enfadonho o cruzamento óbvio entre tais características ao mesmo tempo que fui descobrindo uma gama enorme de realizadores, ditos documentais, que rompiam com tudo que eu considerava documentário. Foi então que minha idéia começou a mudar, inclusive constituindo o diretor não como o cara que arruma a cadeira para o entrevistado sentar, mas como cara que chega e chuta o entrevistado da cadeira.
Se pensarmos bem, o problema não se finca num cansaço dos famosos – e para isso temos, entre outros, Primárias, de Robert Drew e Entreatos, de João Moreira Salles – nem se trata da falta de graça ou piedade pelos excêntricos – basta vermos como Estamira, de Marcos Prado e o recente curta Canosa One, de Felipe Barbosa nos conduzem por outras formas de captura da realidade, o primeiro extraindo filosofia poética de uma catadora de lixo com problemas mentais, o segundo acompanhando para cima e para baixo e se firmando como acompanhante durante as andanças de um curador cinematográfico no Rio de Janeiro. O problema também não reside numa negação imutável das características técnicas apontadas, elas não são características técnicas 'erradas', afinal temos um Edifício Master, do Eduardo Coutinho, basicamente feito apenas de depoimentos diretos, sem contar o francês Jean Rouch que sempre se utilizou da narração em suas obras, sobrepondo e confundindo realidade imagética com a proto-realidade sonora. Para mim, o problema reside simplesmente no fato de não conseguirmos distinguir com lucidez, as premissas estéticas que diferenciam àqueles documentários – que por serem os primeiros que conheci e pela linearidade, os chamaria de clássicos – do que comumente entendemos por jornalismo diário. Há uma padronização formal acumulativa, como se para fazer documentário fosse preciso seguir uma forma – ou fórmula – e escolher um determinado tipo de objeto que terminam colocando o gênero apenas como uma inserção de valor-notícia sobre uma gama de pautas frias. Só queria dizer que nego esse tipo de intenção.
As recorrências desse tipo de produção não são poucas: tínhamos e temos sempre o depoimento direto, o plano americano, o entrevistado sentado, bem cuidado e alimentado, sempre a câmera parada, o uso da narração-explicativa, sempre a edição minimalista, um uso banal de imagens de arquivo, confluindo numa sempre ausência de cinema. Se a ficção me soava como uma faca descobrindo todos os riscos das imagens em movimento, brincando com os limites narrativos e não se esvaziando em seu trajeto - o que me parecia um movimento heurístico por parte do cineasta e que já havia sido muito bem percorrido pela literatura - o documentário se fincava como estático, como uma espécie de babá velha pegando a mão do espectador-criança e o levando cuidadosamente até a escola. Isso para não falar da recorrência detestável de objetos: ou estávamos de frente a um personagem famoso, ou tínhamos de rir de um anônimo excêntrico; ou caíamos com nosso complexo de culpa pequeno burguês numa comunidade pobre; ou iríamos desvendar um lugar exótico no sertão, um fato marcante na história ou bater o pé com o gingado de alguma manifestação artística considerada incomum. Ano após ano só fui achando mais enfadonho o cruzamento óbvio entre tais características ao mesmo tempo que fui descobrindo uma gama enorme de realizadores, ditos documentais, que rompiam com tudo que eu considerava documentário. Foi então que minha idéia começou a mudar, inclusive constituindo o diretor não como o cara que arruma a cadeira para o entrevistado sentar, mas como cara que chega e chuta o entrevistado da cadeira.
Se pensarmos bem, o problema não se finca num cansaço dos famosos – e para isso temos, entre outros, Primárias, de Robert Drew e Entreatos, de João Moreira Salles – nem se trata da falta de graça ou piedade pelos excêntricos – basta vermos como Estamira, de Marcos Prado e o recente curta Canosa One, de Felipe Barbosa nos conduzem por outras formas de captura da realidade, o primeiro extraindo filosofia poética de uma catadora de lixo com problemas mentais, o segundo acompanhando para cima e para baixo e se firmando como acompanhante durante as andanças de um curador cinematográfico no Rio de Janeiro. O problema também não reside numa negação imutável das características técnicas apontadas, elas não são características técnicas 'erradas', afinal temos um Edifício Master, do Eduardo Coutinho, basicamente feito apenas de depoimentos diretos, sem contar o francês Jean Rouch que sempre se utilizou da narração em suas obras, sobrepondo e confundindo realidade imagética com a proto-realidade sonora. Para mim, o problema reside simplesmente no fato de não conseguirmos distinguir com lucidez, as premissas estéticas que diferenciam àqueles documentários – que por serem os primeiros que conheci e pela linearidade, os chamaria de clássicos – do que comumente entendemos por jornalismo diário. Há uma padronização formal acumulativa, como se para fazer documentário fosse preciso seguir uma forma – ou fórmula – e escolher um determinado tipo de objeto que terminam colocando o gênero apenas como uma inserção de valor-notícia sobre uma gama de pautas frias. Só queria dizer que nego esse tipo de intenção.
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