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sábado, 7 de julho de 2012

Fão

Era uma típica história que apenas os mais velhos sabiam contar, mas como estavam fadigados seguindo o ritmo de suas cadeiras de balanço, nem sempre conseguiam surpreender os sobrinhos, netos e associados companhia limitada, que ao escutarem o chamado "de que o avô queria contar uma história", imaginavam um bafão em preto e branco sem dramas velozes, provavelmente inundado daqueles nomes de antigamente. Os jovens sabiam também que os mais velhos gostavam de relatar todos os detalhes, especialmente aqueles que não faziam qualquer diferença, de modo que a única chance de escapatória era dormir antes do fim, afinal não eram poucas as vezes que de tão longas, os sobrinhos, netos e associados companhia limitada sequer conseguiam identificar qual parte era realmente "a história" e qual parte era "extra-história". Seja como for, o caso é que o cemitério ficava do outro lado da encosta, porque quando a pequena cidade de Mimoso foi fundada, os mortos costumavam ser amarrados em lençóis e deixados na ponta do abismo para serem levados pela enxurrada em tempos de chuva, tempos que acometiam a região religiosamente a cada cinco anos nos meses de julho. Acontece que numa dessas enxurradas, o caminho da água mudou e ao invés de formar a tradicional cachoeira de cadáveres num abismo próximo, terminou seguindo em direção ao pobre município, não só destruindo casas e até parte da prefeitura, mas matando todas as velhinhas que estavam fazendo fofoca na rua, todos frequentadores - menos um - do boteco do Zé Bode, espalhando pedaços dos restos mortais dos entes queridos pela praça, pelas ruas e até mesmo dentro da igreja. Foram décadas até Mimoso conseguir se recuperar.

Assim, o cemitério se institucionalizou como um cemitério de verdade, a prefeitura contratou um coveiro, tumbas começaram a pipocar por todo campo antes verde e os papa-cebos voltaram a cantar. Roberto era o terceiro coveiro de sua geração, os dois anteriores estavam enterrados um pouco mais para esquerda ou duas quadras para a direita, e toda vez que resolvia fazer a ronda nos corredores sombrios trajando apenas um chapéu, como um bicho desgarrado no meio da noite, terminava resignado na capela entre um copo de conhaque e uma asia perfurante. Seus pés tortos negavam os passos na terra úmida e fofa que cobria centenas de cadáveres, vivia expulsando senhoras que invadiam o espaço para roubar terra para suas hortaliças, mas sua certeza era que cada cova aberta equivalia a um punhado arremessado em seu próprio enterro. Roberto não tinha vinte anos, não viu crescer os pêlos do corpo, só tinha deitado com prostitutas baratas e vivia ouvindo gracinhas dos bêbados que passavam o dia no Bar Ressuscitado do Zé Bode. Tinha poucos amigos, talvez porque os jovens de Mimoso se consideravam muito argutos, cheios de si, falavam de suicídio em tom de piada, bebiam cacarejando sem qualquer ínfima graça, de forma que sempre preferia se manter próximo apenas dos mortos. Talvez fosse um viciado em silêncio, seria um hermitão se não fosse coveiro, e detestava quando as beatas olhavam com compaixão quando não conseguia conter os espasmos de seu corpo afetado. Exceto, talvez, pela morena Lucinda, que lhe oferecia um jantar a cada quinze dias, algo que ele saudava como um banquete e costumava comer sem mal conseguir respirar. Naquela semana, no entanto, Roberto estava desgostoso, comeu a moranga como era de praxe, elogiou como era de praxe, mas enquanto voltava para a casa não resistiu a sua verdadeira vontade: comprou uma coxinha passada e comeu com ketchup de bisnaga.

domingo, 25 de março de 2012

Farda

Adelma é cabeleireira. Adelma tem uma irmã chamada Adilma. Adelma folga nas quartas e domingos, gosta de curar a ressaca do sábado com cerveja e detesta fazer cortes especiais em clientes carecas. Eles esperam que Adelma, munida de um pente e uma tesoura, faça o milagre do cabelo em suas cabeças. O caso é que todo mundo se mete na vida de Adelma, ela recebe mais conselhos que as mulheres da igreja do padre Helder, inclusive, nas quartas e domingos, quando está de folga, Adelma é o grande tema das conversas das outras funcionárias. Passam horas e horas tricotando tin tin por tin tin da vida de Adelma, discordando, concordando e apostando em cima dos acontecimentos mais recentes passados pela amiga. A irmã de Adelma, Adilma, fez de tudo para ela, Adelma, se casar com um rapaz trabalhador do Alto do Capitão, Ademar. Enfim, casaram, mas poucos meses depois, Ademar teve um problema no trabalho, foi acusado pela secretária do patrão de ter furtado um material do estoque. Ademar não pensou duas vezes e ofendido pediu demissão. Tinha uma honra a zelar, mas depois de passar semanas procurando um novo serviço, tinha experiência com limpeza e segurança, estava vivendo o limbo de não se achar bom o bastante. Adilma então virou o jogo e não parava de sussurrar no ouvido da irmã: "Adelma, deixa de ser besta, mulher, você precisa de um homem para ajudar nas contas, não para gastar o que é seu. Se liga, Adelma". Claro que havia algo de hipócrita nas acusações, afinal quando saíam juntas, Adelma e Adilma, às vezes Adelma, Adilma e Ademar, quem sempre terminava pagando a conta era Adelma. Num sábado, depois de cortar sei lá quantos cabelos, Adelma chegou em casa cansada, colocou a única farda de molho num balde verde, mas o marido tinha preparado uma panelada de feijão preto, com tudo que tem direito, de forma que Adelma andando já de calcinha não teve escapatória, cancelou o mitigado sono, tomou aquele banho, chamou as amigas por cima do muro, botaram o som no quintal e se entupiram de comida, cantoria e cachaça até amanhecer. Adelma terminou deitada com seu nego, Ademar, fazendo amor até mais tarde, apagando absolutamente nus com o sol resplandecendo em seus corpos. Quando Adelma acordou, Adelma desceu o morro e passou o dia na casa de Adilma, tomando umas cervejas para limpar o corpo da noite anterior e escutando umazinha sem sal que apareceu por lá dizendo que tinha conhecido Zezé di Camargo no camarim de um show no Clube Português. "Ele me disse que nunca tinha contado isso para ninguém, mas vocês sabiam que É o Amor nasceu quando ele estava pensando na Maria Bethânia? Quer dizer, em uma música dela, chamada Negue. Eu nem conheço, mas ele disse que os primeiros versos surgiram de uma vez só: eu não vou negar que sou louco por você, sou maluco para te ver, eu não vou negar. Isso faz uns vinte anos, ele disse que tinham na época várias músicas, mas o produtor queria um sucesso, daí ele chegou em casa, disse que deu aquele comichão e assim nasceu. Pra você ver, né? Uma música tão bonita e nasce assim tão rápido”. Adelma sorriu, mas não estava realmente interessada, bebeu mais uns doze copos e terminou dormindo por lá mesmo. Na segunda, acordou para trabalhar, esqueceu a carteira na casa de Adilma, subiu o morro com pressa e lembrou que tinha esquecido de tirar a única farda do molho. Ficou desesperada, torceu a roupa o quanto pode, colocou no sol, o sol não estava lá essas quenturas, ligou para a chefe, explicou a situação e pediu para trocar a folga da quarta para a segunda-feira. A chefe não deixou, disse que ela podia chegar um pouco atrasada, trouxesse um ferro de passar roupa, porque chegando no salão, Adelma secava com o secador, depois Adelma passava a roupa e mesmo que ficasse molhadinha, Adelma ia ter que trabalhar de farda. E assim foi.

domingo, 20 de abril de 2008

como escrever um conto para um concurso de contos

Mais um concurso de contos. 3000 caracteres, cerca de 50 linhas, 3000 reais para o melhor escrito. Nada mau para um delinqüente que gastaria metade daquele dinheiro com suas noites: desde que decidira compartilhar de suas palavras há alguns meses, aquele jovem autor, de nome comum, ainda não havia encontrado uma recompensa tão boa e sabia sim calcular bem o valor dessas coisas. Era um bounty hunter com os pés no chão. Infelizmente, andava sem idéias e já não conseguia escrever uma dúzia de bobagens, sem peso algum na consciência. Permanecia horas, paralisado entre círculos e caretas, diante de uma mera folha de papel. Hesitava em um caminho e hesitava no seguinte, por mais que tentasse estabelecer uma relação cordial naquele instante. Um café. Dois. Três. Mantinha-se sempre na defensiva. Cada palavra mal usada lhe consumia um pouco. Cada elogio inseguro lhe causava uma dúvida. Sua vasta e criativa obra não saía do lugar.

Tudo lhe parecia muito questionável. Tudo. Particularmente suas idéias. E na falta delas então, brincava de devastar a si mesmo: ironizava seus possíveis personagens, fazia piadas sarcásticas de suas tramas. Brincava de auto-mutilação como um jogo de cartas. Ao final de uma sessão, estava caído, bêbado, cercado de papéis. Acordava péssimo. Um cigarro. Dois. Três. Até possuía vários contos guardados e inacabados, mas nenhum se adequava aos critérios desse concurso. Seus escritos sempre tinham caracteres demais. Naturalmente bobagens demais. Deveria escolher um às cegas e inscrevê-lo também às cegas. Todo o fracasso posterior poderia ser justificado pela aleatoriedade desse ato. Estaria seguro em se defender e algum caridoso até lhe pagaria um vinho. O jovem autor pensava no destino e no futuro só para esconder sua dificuldade de começar. Estava sempre no tempo diferente do seu.

Teria de ser prático: restavam poucos dias para o encerramento das inscrições. Não poderia seguir impulsos, nem cair em inibições literárias, pois terminaria desistindo da seleção – o que já era recorrente. Precisava apenas de uma idéia, um ou outro verso disfarçadamente poético para conquistar a simpatia dos jurados disfarçadamente jurados. Imaginava que fossem três – duas mulheres e um homem. Acreditava na firmeza dos números ímpares. Um café. Dois. Três. Precisaria encontrar um apelo para cada um e enlaçá-los de maneira que todos se sentissem contemplados. Mastigou uma folha de hortelã e uma história não muito criativa, mas de um protagonista carismático surgiu de repente. Riu sozinho de sua desgraça. Não podia levar o projeto adiante: o cinema havia lhe roubado todas as idéias. Aquele jovem autor sequer podia brincar com seus próprios demônios, porque alguém já o havia feito e projetado numa tela.

Os dias passavam e o rapaz de nome comum tentava se inspirar de alguma maneira: abria o jornal, pensava nos concorrentes, assistia novela, conversava com a vizinha, caçava gatos. Nada era bom o bastante. O mundo andava particularmente sem graça justamente porque 3.000 reais balançavam a sua frente. Um cigarro. Dois. Três. No último dia, em meio a uma autocrítica destrutiva, não encontrou outra saída, senão a metalinguagem. De qualquer maneira, sempre brincava consigo mesmo dentro de seus textos. Era uma espécie de desculpa prévia aos leitores por conta daquela palavra mal usada, um modo de contornar aquele elogio inseguro. Escreveria, portanto, um conto inteiro metalingüístico. Ou melhor, um não-conto. Uma espécie de desculpa por toda sua obra inexistente. E talvez pudesse até lançá-la depois disso. Estava inseguro, de fato. Um café. Dois. Três. Um cigarro. Dois. Três. Deveria desistir logo dessa idéia barata de ser escritor ou arriscar de uma vez. O texto precisava, ao menos, de um título esperto: "como escrever um conto para um concurso de contos", decidiu. Agora era só enviar.

ENVIAR.

(Conto inscrito no Concurso de Contos Maximiano Campos em 2007 )

Óbvio que não ganhei nada né? Tudo bem que era uma pegadinha, mas podia rolar um senso de humor, sei lá.

domingo, 7 de novembro de 2004

Bocarra

Pela quarta vez na semana e décima sexta num mês de vinte e oito dias, Bento chegou atrasado no emprego. O ônibus tinha demorado, o ônibus estava cheio, o ônibus não parava de encher. Os créditos do cartão eletrônico não vingaram, o despertador tinha falhado, precisou contar as moedas de todos os seus bolsos. Tinha o bastante, passou a catraca, não sentou, ninguém segurou sua mochila, sentiu dor nas pernas, atendeu o celular duas vezes, segurou os gases da sopa de feijão dormida do café da manhã, lembrou da 'batida salve-todos' no esconde-esconde, preferia quando gritavam 'golou o ovo', chegou atrasado no emprego pela quarta vez na semana e décima sexta num mês de vinte e oito dias. Apressado, soltou um "bom dia" na entrada sem olhar para quem estava falando e enquanto passava o crachá no ponto eletrônico, notou que os porteiros e motoristas da firma estavam reunidos lendo e discutindo passagens da Bíblia. Abriu a bocarra, afinal ele, que tinha todos os motivos para abrir a bocarra, não desperdiçava seu tempo com qualquer asneira. Subiu as escadas resmugando: "pois no meio tempo, porteiro e motorista não ficavam de tititi com a Bíblia, discutiam sobre cachaça e mulher e seguravam o saco com força". Naturalmente, houve mal estar.

sexta-feira, 2 de abril de 2004

Natural child, terrible child!

Nada o irritava tanto quanto ser acordado pelo telefone da sala, nem mesmo o detestável barulhinho dos despertadores de R$2 que vendem de rolo na rua Nova. Mais uma vez cochilara com o cigarro nos dedos e um dia ainda tocaria fogo na casa. Precisava dar um jeito na narcolepsia. Apagou o filtro queimado e tentou ser rápido o bastante para pegar o gancho antes que alguém o fizesse. Alguém o fez. A fumaça continuava firme saindo do cinzeiro. Decidiu escutar para tirar a prova dos nove, só pra ter certeza se teriam desligado ou atendido. Sentiu-se tirano por um segundo. Sua mãe estava na escuta, a voz dura falhava pela primeira vez: haviam encarcerado seu filhote na prisão. Ícaro sabia que mais dia, menos dia uma grande merda se abateria sobre seu irmão. Era apenas uma questão de tempo e o tempo havia chegado. Apesar do sorriso em sua face, da respiração precisamente controlada e do desespero do outro lado da linha, não ironizou o fato do irmão ser tão forte em outros dias, tão orgulho e supra-sumo mentiroso. Sentia um prazer mórbido por vê-lo como um coelhinho assustado ligando para a mamãe. Os dias de glória eram pequenas lacunas em histórias repetidas. Contou os segundos nos dedos. Foram 7. A porta do quarto de seus pais abriu numa pancada só. Rasgos de boca na aurora, dentes trincados e um sorriso exposto em sua face de garoto-homem. O circo iria começar.

Nenhum sussurro típico da manhã nos corredores recém acordados. Os gritos aumentavam e as lágrimas de sua mãe eram verdadeiras, mas não preencheriam nem um miudinho do rio Ganges. As cobras que conhecia eram cegas e não choravam. Falava de seu marido não estar nunca em casa. Falava da possibilidade dele ter uma amante. Falava e falava e falava sem parar. Esquecera que a questão não era o seu marido ter ou não uma amante, seu casamento ser ou não um fracasso e sim o fato de seu filho estar atrás das grades. Ela, cobra cega que era, nunca se daria ao trabalho de culpar seu preferido. Nunca. Ícaro queria culpar os seus pais, queria culpar seu irmão, queria culpar alguém e não ter peso algum na consciência por isso. Não era capaz. Incrível como as lágrimas de sua mãe o deprimiam por mais que ele fingisse o oposto. Sentia-se fraco e logo notou as formigas de sua esquizofrenia correrem por seu braço esquerdo. Tentou matá-las mais uma vez. A porta de um outro quarto se abriu. Saíra sua irmã de cabelos longos e loiros enrolada em um lençol. Harpia perigosa e sedutora. Olhou a mãe e perguntou sobre o ocorrido. Não se surpreendeu em uma linha de seu rosto ao saber e por pouco não o sentenciou culpado friamente em meio a todos. Sua mãe era definitivamente uma cobra cega. Ícaro voltou ao sofá da sala e em sua calma plena tomou de volta o livro em suas mãos. Voltou a ler como se nada tivesse acontecido. Anaximandro estava desperto e deitara sob os seus pés. Finalmente um carinho. Estava conseguindo abstrair a pressão daquela casa e de suas paredes carregadas de ódio. Sua mãe não deixaria isso acontecer por mais tempo e ele não contaria os segundos desta vez.

Rimbaud voou na parede. Ícaro fitou sua mãe abrindo e fechando a boca em seqüência como um peixe. Um peixe destruído pelo tempo. Sorriu e em seguida sentiu um tapa na face que o trouxe de volta. Sorriu novamente. Sua mãe partiu para agredi-lo. Sua irmã-harpia soltou os lençóis e segurou a mãe por entre seus braços já tocados por metade da cidade. Entendera finalmente o que acontecia. A cobra cega queria que ele chorasse, ou pelo menos que ele sofresse pelo irmão. Sem chance. Sociedade dos poetas mortos, os últimos dos rebeldes, as invasões bárbaras... poderia listar os inúmeros filmes pelo qual já derramara lágrimas e lágrimas, mas por seu irmão não desperdiçaria uma sequer. A harpia seminua segurava a cobra cega. Um quadro poderia ser pintado e nesse novo mundo que se esconde pelas pilastras da escuridão seria colocado em uma das portas do corredor principal. Sorriu pela terceira vez ao imaginar o incesto daquelas duas figuras. Seria seu último sorriso. Incrível como sua mãe nunca culparia o filho preferido. Não que se considerasse um Gabriel, mas alguém precisava cortas suas asas. Logo Ícaro pensava em asas. O cachorro diabético correra para algum canto onde não pudesse ver pessoas. Estava assustado. O garoto-homem tirou a ira de si e a expôs no meio da sala. Falou tudo que achava, tudo que sabia sobre o irmão. Não poupou palavras ou gestos, não censurou sequer uma expressão. Sua mãe acendeu um cigarro. Ela já sabia de tudo. Seu julgamento permanecia impassível. Ícaro ficou pensativo: quantos anos fazia que ele não dava um abraço honesto em alguém de sua família? Cinco de dezoito. A culpa que procurava não era por causa da infelicidade do seu irmão, era por sua própria infelicidade, por sua vida não ser símbolo de coisa alguma.

Anaximandro estava mais doente do que nunca, perdia a visão à olhos vistos, provavelmente teria que ser sacrificado em poucos meses. Sua irmã estava grávida mais uma vez e seu pai estava em uma nova viagem comendo putas no interior. Ícaro iniciara uma jornada depressiva mais profunda que todas anteriores, já não se preocupava em fumar na frente da mãe, já não freqüentava as aulas na faculdade. Quase não falava, quase não comia. Estava desistindo aos poucos de viver. Tornara-se um fantasma de si mesmo, estava magro, pálido e sem saco para conversas ao telefone. Ocupava seu corpo como um vasilhame sujo. Queria tanto sair daquela casa e esquecer sua vida. Lembrava diariamente de Janis Joplin que transava com todos os homens, mas no final da noite sempre dormia sozinha. Comprou oito pães, um sonho e voltou mais apressado do que nunca temendo encontrar alguém que o desviasse de seu objetivo. Abriu a grade de casa e foi direto ao banheiro. Pegou algum remédio para sono e tomou todos comprimidos de uma só vez. Talvez morresse, talvez entrasse em coma induzido como queria. Existia a possibilidade de sonhar. Acreditava apenas em como sonhava coisas maravilhosas e como acordava em pesadelos terrenos. Sua vida era tudo o que não queria. Sentou no sofá, abriu o livro de Rimbaud, acendeu um último cigarro e dormiu antes do sétimo trago.

sábado, 27 de março de 2004

You'd rather cry, I'd rather fly

Um pouco desconexas, a dança e a lembrança, a neblina que envolvia os nossos corpos, nos fazendo repetir inúmeras vezes a expressão 'lugar do caralho'. Vicente caiu de costas no tapete persa dos meus pais com a canção ainda na boca; caiu por entre nossas bolsas, nossas roupas, caiu e teve as frutas de um lado e os garranchos poéticos do outro. Sorriu por não estar com o violão na mão e lembrou que ainda não tínhamos bebido do vinho, que não tínhamos degustado da "periquita" que ganhara como presente de uma tia. Eu secretamente preferiria o velho "carretier" e suas baratas, lembrava mais intimamente a juventude das sarjetas do Recife velho, mas não faria objeção alguma. Lucia estava perdida em meus braços e eu estava perdido no cheiro de canela que tinha o seu pescoço. No cheiro de cravo da índia que tinha o seu colar. No cheiro de sexo que meu corpo exalava junto ao dela. Tínhamos de brindar cem mil vezes antes de ir. Vicente trouxera o vinho, Lucia trouxera o chá e eu trouxera eles dois para junto de mim. Esquecemos de nosso apartamento pequeno, de nossas coisas simples, do problema no encanamento do banheiro, dos gritos cada vez mais altos no emprego, da falta de emprego e das topadas na saída do hospital. Tiramos todas as roupas e deitamos todos juntos. Nada poderia ter sido melhor. Uma xícara, três taças e uma piada. Um brinde de vinho e alguns goles no chá. Uma risada. Lucia cantava sozinha com uma rosa em mãos. Crystal ship era a que ela mais gostava. Vicente se levantou um pouco tonto e acompanhou a melodia de maneira disforme com o seu violão. Fui ao lado de Lucia e passamos a ver ao longe o sol escondido por trás das nuvens e imaginamos nosso filho correndo ou gritando no meio da noite com medo da escuridão. A paternidade era sem dúvida o meu gozo final.

O sol se punha e Lucia já estava adormecendo silenciosa, daquela maneira delicada que me faz achar qualquer mínimo movimento um atentado brusco. Encostei o meu rosto ao seu com o cuidado das costureiras do interior da paraíba e também adormeci. A música já dava sinais de que estava para ir embora, mas Vicente continuava a dançar em seu eterno frenesi, em sua eterna vida intensa, em seu eterno gosto pelo eterno. Estrelas de um cochilo de vinte minutos ou o sonho metalinguístico. Acordei e lembrei como o céu era mais bonito longe do centro da cidade, como as luzes dos postes, dos faróis, dos apartamentos, dos semáforos decepavam o brilho que vinha do universo. Marília havia chegado. Um pouco atrasada é certo, mas chegado. Vicente estava deitado em seu colo com um sorriso maroto e ela tocava de leve o seu violão. Lucia já arrumava as nossas tralhas para voltarmos para casa e eu pensava em adiar aquele momento o máximo possível. Jim tinha terminado sua apresentação e eu perdera o fim e justamente o fim que era só meu. Peguei minha bolsa verde, pus em meus ombros e não esqueci de colocar meus pensamentos engraçados pelo furo. Dobramos o tapete e Vicente tentou carregá-lo sozinho. Rimos das tentativas frustradas até me oferecer para ajudá-lo. Ele correu e me deu um forte abraço que quase me levou ao chão. Naquele instante, pensei que o homem se sente pleno quando tem um homem de um lado e uma mulher do outro, quando cada um deles alternam suas posições, podendo ser pais, filhos, irmãos, tios ou amantes. Tinha descoberto que minha opção era fazer família na rua. Escondi as lágrimas como era de costume. Lucia notou e me deu um suave beijo no pescoço e trouxe seu cheiro de canela para perto de mim. Era uma pena, mas eu ainda não era capaz de chorar na frente das pessoas. Ainda seria e isso era uma promessa. Estávamos prontos para ir, havíamos guardado tudo no fusca azul marinho de Vicente e, antes da ignição, acordei.

terça-feira, 23 de março de 2004

Weird scenes inside the gold mine!

Silêncio e o escuro do presságio da aurora. Os pássaros em verde e branco pela janela, as formigas de uma leve esquizofrenia caminhando em suas mãos e o sono de seu cachorro diabético deitado ao lado da cama. Ainda não era obesidade mórbida. Estava um pouco espantado por ter acordado por si mesmo, por se sentir um tanto leve e por não estar com resquícios de dor de cabeça. Nenhum grito descartável, nenhum choro ordinário. Nada. O calmo e o vazio descansavam nas paredes do quarto onde os quadros pintados permaneciam sombrios e ultrapassados. Suas ideias estavam escondidas em páginas de cadernos que já não usava e pela eternidade ficariam lá sem nascer para os olhos do mundo. Sem nascer aos seus próprios olhos de criador e às suas mãos de criatura que segue normas e cumpre protocolos. Seus quadros expostos eram as grades de sua própria prisão. O relógio antigo havia parado às quatro da manhã. Todos estavam em seus ninhos. As velas e o charme que não se vê nas lâmpadas. E com aquela fonte de luz empunhada em suas mãos desvendou a escuridão de seu próprio ser, de sua própria casa que tinha que chamar de lar. Adorava a penumbra. A incerteza de cada passo e a confiança em cada um dos pés. Adorava o silêncio daquela hora. Em dezoito anos de vida eram dezoito anos vivendo naquele mesmo lugar. Conhecia cada pedaço, cada encosta e cada obstáculo. Vivia farto disso.

Pôs a vela sobre a pequena mesa da sala ao lado do vaso de flores mortas que continuavam ali dia após dia. Ninguém parecia perceber a falta de vida, ninguém se importava em tirá-las de seu jazigo. Estavam mortas. Abriu a geladeira e viu dezenas de frutas podres, molho de tomate fora da validade, queijos mofados. Ninguém notava coisa alguma, sequer a falsidade de seus sorrisos. Seria o último a tocar em suas pétalas já sem cores. Os galhos de árvores dançando em sombras, os postes indo dormir e o silêncio escapulindo por entre as brechas das portas fechadas. Acendeu um cigarro sentado no sofá enquanto lia um livro sobre Rimbaud. Por três dias ele não era de escorpião. Acabara sendo de libra mas com uma tendência escorpiana bem aguçada. Talvez fosse seu ascendente, talvez não. Rimbaud rompia em absinto enquanto Ícaro ainda caía do céu com poucas cervejas. Nasceram no mesmo dia. 20 de outubro e alguma hora qualquer em algum minuto sem importância. Apenas alguns séculos os separavam, apenas alguns acasos os tornavam pessoas completamente diferentes. Completamente. Passava as páginas sem pressa enquanto, igualmente sem pressa, os primeiros raios do sol pareciam brotar. E para as pulgas de Anaximandro, o cachorro diabético; para as borboletas nas papoulas vermelhas do jardim da praça até os fungos dos afrescos na capela sistina ou os leões na selva africana; o sol costuma trazer o fio perdido na noite anterior. O fio de esperança que insiste em nascer todos os dias.

Tinha tido um sonho tão sincero e de um encanto suave ainda não conhecido por seus olhos. Isso o enchia de medo. Era fato que sua existência não era das mais felizes. Era fato que tinha medo do gênero humano e se incluía nesse medo. Era de fato um solitário e mesmo que em sua identidade estivesse escrito “Ícaro” em letras marcadas, ele não sabia bem quem era e a cada dia parecia saber menos ainda. Desde pequeno o reflexo de suas indas e vindas se mostravam em forma de pesadelos à noite. O fim em espasmos, tremores, mãos molhadas e as palavras de sua mãe: “calma, meu filho”. Parecia uma piada justamente ela estar pedindo calma. Seus sonhos estavam a ser melhores que sua própria vida. Lembrou das máscaras que são colocadas viradas contra o rosto, lembrou das estátuas que se fingem de mortas, lembrou de si mesmo contando as horas para ir dormir. Ligou o rádio e apagou a vela já desnecessária. Um pouco de ruído. Não estava bem sintonizado e dava um ar de primórdios daquele aparelho. Talvez fosse o vento, talvez não. Mexeu na antena quando finalmente pode ouvir a música que tocava nitidamente. Era The doors. The end. Incrível como a madrugada era cheia de segredos e mistérios que por ventura só se mostravam assim. De alguma maneira, quase como um ataque de narcolepsia, o sonho reviveu por completo em sua mente e deu laços e laços em seu pescoço. Dormiu enforcado.

sábado, 20 de março de 2004

Let it roll, all night long!

Sentado numa grama com duas outras pessoas e suas costas tatuadas. Minha bolsa era velha e tinha um furo por onde deixava sair minhas fumaças e por onde costumava colocar a vergonha de meus pensamentos engraçados. Ela usava um colar de sementes vermelhas que tocava o umbigo e de tão misterioso, o seu próprio olhar, olhos grandes e pretos, desenhava formas e mais formas na geometria do irrecusável. Assanhava meus cabelos para que ficassem cada vez mais assanhados, rasgava minhas calças para que ficassem cada vez mais rasgadas. Cobria-me de um mundo mais antigo para dar alguma razão a minha velha barba. Vibrávamos pelo ar fresco, pelos pés descalços e nos agarrávamos a leveza de colocar um violão na mão, notas perdidas, enquanto os instrumentos indianos não terminavam de ser afinados. Estávamos ali por causa de uma banda e entrávamos com nosso samba de qualquer maneira, nos dias de ira e nos dias de cerveja, permanecendo fora de ritmo mesmo na chuva fina que irrompe de nuvens solitárias nos dias de sol. O casamento da raposa comentaria um senhor mais velho inundado da pequena sabedoria do cotidiano.

Lúcia parecia nos conduzir a cada movimento seu, os cabelos negros ondulados, presos e soltos, sua silhueta sobrepondo o céu azul e a velha flor amarela presa na orelha. Queríamos ser os poetas, mas não passávamos dos carteiros que não sabem ler direito e distorcem cada variante a sua própria maneira. Pela primeira vez ela estava na roda. Rimos e também quase choramos ao relermos os garranchos em papéis soltos dos abandonados cadernos de matemática. Éramos doces e nem tanto. As palavras dela eram as mais suaves, se materializavam em letras de convite de casamento sem afetação, tocavam a minha pele como uma mão que percorre todo o corpo até posicionar o rosto para um longo beijo na boca. As palavras dele só o próprio conseguiria ler, me afetava como os abraços fortes nos momentos que não temos força para ficar de pé. Eram também o sussurro de uma alma ébria para além do teor alcoólico. A gradação da gagueira que acompanhava as minhas palavras logo se tornavam lapsos do que eu nunca vi, se mostravam através de metáforas e mais metáforas que nem eu entendia e davam um ar de estranheza e beleza em sua última sílaba. O fato era único: nos amávamos muito.

Logo acendemos o cigarro que todos fumavam em busca do olhar vermelho e do paraíso de sombras, ela sorriu mais uma vez sem motivo e eu me levantei com uma maçã presa nas mãos. Roadhouse blues no volume máximo. Sentia cada lacuna da minha mente, cada desejo do meu sexo em meio as centenas de frutas esparradas pela grama que ficava mais verde a cada dentada. Ela se levantou com as uvas enroscadas em seu pescoço e sua mão erguia um incenso de alguma erva não muito convencional. A fumaça dançava entre nossas bocas. Esbanjávamos nossa felicidade em bolinhas de sabão que tocavam de leve as folhas mais altas dos eucaliptos. Lucia era a mais bonita e eu a amava imaginando ser impossível amar novamente. Sua dança, sua saia, seus seios e minha boca. Tudo em uma nota só. Tudo em um único toque seguido de dez mil. Vicente tinha ainda o cigarro em suas mãos e o seu chapéu de palha estava tão velho que era o símbolo de seu primeiro porre. Primeiro de vários outros. Passamos a vida brindando.

Aprendemos a cair no chão sem abalar a tranquilidade, a rir sem soar como indiferença e a chorar quando não havia outra coisa a se fazer. Nunca em minha presença aquele garoto iria perder seu chapéu de palha. Estávamos nós três dançando. Eu, a minha musa e o meu irmão. Tínhamos a certeza de que não faltava mais nada. Pouca vezes na vida conseguiram pensar nisso novamente. Sequer lembravam como estavam se ausentando dos rumos coletivos, pois naqueles instantes caíam no completo e delicioso mundo da autorerferência sem peso algum. O violão estava parado e minha respiração ofegante. A voz de Jim estava tão alta e ainda mais forte. Eu estava fora do meu conhecer e dentro de um mundo muito maior. O tapete persa que tinha roubado da casa dos meus pais servia de mesa, de cama, servia-se por si só. Sair do quarto de sempre e ir ao espetáculo da vida e do nunca era a peça que eu criara para ser o ator principal. Sorri e fuma as estrelas enquanto se equilibra. Come uma romã e sorri para beijar. Dança a chuva e sorri o além dos teus olhos. Essa era uma história curta e uma história e tanto.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004

Utopia e Psicodelia

Toda vez que algum de seus colegas do curso de filosofia falava sobre Zeitgeist imaginava dezenas de crianças morrendo no Nepal. Sandro foi o primeiro a deixar o bigode, o primeiro que surgiu com o papo místico de reaver a essência do ser humano, enquanto escutava música indiana ou praticava meditação, só para exacerbar seu pacto cafona com a cultura oriental. De repente, Sandro não estava sozinho, sua capacidade de arregimentar pessoas era encantador, quase como se entre uma noitada e outra entupida de ácido lisérgico, todos em sua volta tivessem descoberto o terceiro olho. O grupo começou a dividir o mesmo apartamento, uma ocupação abandonada no centro que recebia sempre novos pupilos desesperadamente em busca de uma utopia, ainda que passassem mais tempo ruminando o clima da época do que efetivamente vivendo-o. Tratava-se de um transe entre a vontade de experiência e ausência de poder.

Logo descascaram parte da pintura da parede e preencheram o espaço com cores fortes e móveis abandonados, enquanto Sandro estimulava que cada um descobrisse seu talento natural, de modo que foram emergindo pouco a pouco danças desconcertantes de pouca ou nenhuma genialidade. Como bons estudantes de filosofia, vários usavam da poética do aleatório para se expressarem, criando frases como "círculos verdes sobre os cantos do amanhã", "natas douradas no desnecessário do saber", "gotas de inexistente soltas no espaço". Espalhavam pelos quartos e salas como se fosse ensinamentos metodológicos. Ninguém entendia coisa alguma e também não reclamava, por isso eles preferiam ditar a falta de sentido como ápice da lucidez interna, sempre conclamando sobre outro plano existencial, outro plano espiritual, com cores funcionando como melodias, guinadas de ritmos, uso do desuso. A maioria só durava uma semana no apartamento e o próprio Sandro mal conseguia acompanhar seus pensamentos.

Escutavam Syd Barrett todos os dias e organizavam orgias semanalmente. O apartamento já existia há dois anos e estava com uma configuração mais estabilizada, sem tantas idas e vindas, o que de certa maneira contradizia o ímpeto inicial de movimento. As roupas estavam mais exageradas, também mais sujas, alguns foram empestados por piolhos, bichos de pé, até carrapatos e o chão estava coberto de cabelos de todos os tipos e partes do corpo. Sandro sabia que o seu sonho não duraria para sempre, sabia até que não duraria nem mais um ano. Era preciso acabar, pois os próprios loucos estavam se traindo. Syd havia sido, enfim, expulso da banda. As paredes foram perdendo a cor, o apartamento estava ficando vazio, servindo apenas de depósito de coisas deixadas de lado. Sandro assim terminou seu projeto, tomando o esquecimento como fuga de um novo tempo. Não queria participar. Ficou sozinho até desaparecer.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2004

A história de uma gotinha

No início era apenas uma típica gotinha d’água daquelas que chegam discretas pelo teto da sala e que em quatro ou cinco invernos se tornam uma artística infiltração. De fato, foi um début de baixo orçamento, apesar dela carregar aquela presença cínica de quem concentra toda sua umidez. Não demorou muito até fazer daquele canto um antro espiritual, receitando energias a torto e a direito, invocando karmas novos, fazendo e desfazendo mau olhado. Era antes de tudo uma gotinha esotérica. Lia todo santo dia seu horóscopo por intermédio das moscas e todo santo dia tirava tarô para alguém. Algumas baratas descontentes com seu destino morreram depois disso.

Era também uma gotinha ambiciosa e com consciência de classe. Conhecia a história das gotinhas, seus feitos mais homéricos, sua posição na sociedade, os teóricos mais relevantes e tinha sempre um astuto argumento para se defender do que não lhe ameaçava. Por ser única naquela sala de pouco movimento, tinha sempre um sorriso dúbio e um ego para apontar. Tornou-se também terapeuta e após algumas seções, vaga-lumes com problemas sexuais voltaram a acender suas companheiras. Não demorou muito até a gotinha se tornar cada vez mais popular e aprender a ser uma atriz tão boa que conseguia passar uma boa primeira impressão para quem fosse. Comercializava simpatia com as aranhas.

No círculo de falácias, cada um dizia uma coisa, mas todos inundados de uma convicção assustadora: uns a tomavam como pai de santo em exílio de algum país não laico, outros comentavam na fresta da janela que não passava de um psicóloga problemática sem referências, alguns evocavam sua candidatura nas próximas eleições e a grande maioria afundada em seus delírios maternos mal resolvidos, enxergavam-na como uma criança doce e traquina. Logo chegaram as chuvas de verão, a gotinha tinha contraído alguma mazela com os mosquitos transmissores, de forma que sentia a presença de milhares de gotinhas, mas, isolada de seu mundo, permanecia sozinha. A consciência histórica não lhe servira de nada.

Cada vez mais gotinha-inha-inha, terminou se dedicando aos mexericos do cotidiano das vidas alheias. As lesmas contavam as grandes novidades da semana passada (os fuxicos que todos já sabiam e que já estavam cansados de saber), as moscas os pequenos segredos (aquela coisa que você escuta e treme nas bases antes de acreditar). Era no fim de sua jornada uma gotinha fofoqueira. Odiava o complexo de perseguição das baratas, besouros e lagartixas e sempre falava mal das formigas perdidas e das formigas trabalhadoras. Repetia todos os dias que se tivesse antenas e patas, antes de tudo teria sido uma rebelde. Só que a gotinha era apenas uma gotinha.

A chuva parou. O teto foi reformado. Nenhuma gota iria cair. Pintaram as paredes. A gotinha secou.

segunda-feira, 29 de setembro de 2003

Oremos

Seu sexo havia sido renegado desde que desistira viver fora dos muros do seminário católico, desde que decorara cada um dos salmos, provérbios, que acumulara a oratória hipócrita dos sermões, de tomar vinho e comer o sagrado pão abençoado por Deus. Sua sexualidade, entretanto, se mantinha mais ativa do que nunca: sonhava com bacanais envolvendo freiras, anjos e diabos que escorriam pelas bordas dos desenhos sacros; se masturbava para santas e relicários; assistia filmes religiosos com o tesão de um espectador pornô, honrava abstinência se inundando de culpa. Todos da sua família alertaram-no da precocidade pela sacristia, sequer tinha chegado aos trinta, as experiências reais, pêlo a pêlo, podiam ser contadas nos dedos. Enlouquecia em sua perversão dia a dia, tanto que depois de tomar todo vinho da eucaristia, se encontrava nuns dos motéis mais chinfrins da cidade - de outra cidade que não a sua. Estava disfarçado, calça jeans, camisa de botão, um colar de prata. Tinha vergonha das palavras idiotas que lia e apoiava, vergonha de ficar excitado durante a missa imaginando toda as mulheres da platéia sem calcinha - inclusive as mais velhas beatas. Despiu-se em poucos movimentos e abriu uma das malas jogadas em cima da cama, vestiu a batina, deitou-se sobre ela e se encarou profundamente pelo espelho do teto. Queria viver o outro lado que sempre esteve lá. Seu sexo havia sido renegado desde que desistira de viver fora dos muros do seminário católico que ingressara ainda jovem, sua sexualidade, no entanto, lutava permanentemente para superar tamanha abdicação. Bateram na porta uma, duas, três vezes. O padre-ex-padre fingiu não escutar.

sexta-feira, 29 de agosto de 2003

Pomo de Adão

Ninguém notaria qualquer mudança naquele bairro décadas antes ou depois da passagem de qualquer forasteiro. À noite, então, notaria menos ainda. O caso é que não haviam muitas testemunhas de recordação ou artistas representativos, eram raros os que se arriscavam a um passeio seguro e decadente entre as paredes de tijolos caídos, cachorros magros, indigentes, baratas e putas bêbadas com mais de cinquenta. Toda lembrança passava de cabeça para cabeça e justamente por se sentir atraído pela negação das generalidades, nosso jovem rapaz - belo rapaz para as bichas travestidas - resolvera sentar no chão, talvez bêbado, talvez não, se encostando a um poste cuja lâmpada velha falhava a cada dois minutos cronometrados. Seus cabelos eram tão curtos quanto os dos soldados recém recrutados para a Guerra, se um segundo andarilho se aproximasse na penumbra, notaria em primeiro lugar os brilhantes olhos vermelhos, olhos inumanos, comuns aos jovens abandonados pelos amores que fugiam daquela região. No entanto, tratava-se de olhos de quem não era dali, não daquela rua, nem daquele lugar, até mesmo do país, olhos de assassino, olhos de gato, um sorriso discreto de solidão. Acostumado a também não respeitar coisa alguma, o rapaz não durou muito sentado, olhou com certo rancor para toda decrepitude a sua volta na desesperança de encontrar um de seus convivas: tinha se dado conta dos sinais, sinais não semióticos, da forte tempestade que vinha acometendo todo aquele vilarejo nos últimos dias. Pegou sua jaqueta da moda, acendeu um cigarro de rolo barato e inundado de filáucia entrou no beco escuro onde garotos se passavam por homens.

Pietro era um daqueles típicos personagens de filme de espião, sem o glamour das armas, carros e mulheres de um 007, talvez estivesse mais para um pastiche da madrugada, capengando como um trôpego de Bukowski sem talento algum para proteger a rainha: estava ali só para matar um comunista, um desses intelectuais chatos que reclamam de tudo, adoram a miséria e gostam de escrever poesia. Mesmo com passos milimetricamente coordenados e curtos, não demorou muito para que estivesse em pé, ainda com seu cigarro, em frente ao bar boêmio célebre por suas reuniões subversivas. O lugar, contudo, estava vazio, tudo um pouco revirado, mesas, cadeiras, cacos de vidro por todos os lados, algumas paredes marcavam os quadros roubados, apenas um espelho se mantinha intacto. Uma mulher sentada com a perna quebrada não parava de gritar adensando a insalubridade da região: só não conseguia entender porque teria sido contratado para matar alguém numa bodega que iminentemente seria destruída. Pretendia tomar até duas cervejas antes do serviço. Não seria daquela vez. Parado, não se olhando no espelho, contemplando a dor da mulher machucada, relevando que ao menos já estava com metade do dinheiro, escutou um barulho nas suas costas, levou um susto por não estar acostumado a ser surpreendido. Virou devagar, quase em reconhecimento, e se deparou com um garoto sentado no chão, murmurando algum dialeto, encostado em um poste com um isqueiro em suas mãos em permanente faísca. Pietro reconheceu instantaneamente a sua vítima. Colocou a mão na arma guardada na calça, decidiu pelo pescoço e hesitou: não por matar de forma desleal sem dar possibilidade de defesa, não por sequer dar a entender que estava atacando. Isso era inteiramente comum no antro dos caçadores. Não o faria pelo arranjo arbitrário das pernas na calçada que lhe deu uma estranha vontade de comer mostarda. Pietro nunca mataria alguém que sentasse de forma idêntica a sua. Não sem primeiro fazer um ritual.

Terminou colocando as mãos dentro da jaqueta, se aproximou e ofereceu um cigarro. A voz de Pietro não fez o outro rapaz, Fabrício era o nome que tinham lhe dito, esboçar uma mínima reação. Insistiu. Fabrício pegou cigarro e o acendeu com seu próprio isqueiro. Pietro sentou ao seu lado e os dois ficaram sem dizer uma única palavra. A fina chuva tornava-se mais forte todavia nenhum dos dois pareciam se preocupar: olhos vermelhos diante de olhos vermelhos saberiam sempre se reconhecer. Foi pelo silêncio que começaram a se respeitar. Ficaram olhando o raro movimento das ruas: alguns carros de senhores bem vestidos contratando putas, dois imigrantes gritando ao longe alguma língua deplorável, a mulher de perna quebrada perdendo a voz de tanto gritar. Fabrício se levantou, foi até as ruínas do bar, Pietro hesitou novamente, relaxando em seguida ao ver o rapaz voltar com duas garrafas de vinho abertas. Não sabiam bem como tinham sido contaminados, conversavam sobre o passado, ambos desconheciam o momento da transição. Fabrício era o que Pietro considerava intelectual de esquerda, aquele que quis se reprimir individualmente para tentar viver coletivamente e Pietro era para Fabrício um rebelde sem causa, sem rumo, não se apegava a ideologia de época alguma, um matador de terceira que trocava qualquer coisa por sangue de suas vítimas. No final das contas, nem sentavam de maneira tão parecidas assim. Terminaram os vinhos, se levantaram, cumprimentaram-se pelos olhos e seguiram caminhos opostos. Pietro não completou dois de seus milimétricos passos, virou e atirou três vezes. Ainda que vampiro, não deixaria aquele pomo de adão escapar.

quinta-feira, 5 de junho de 2003

Meng Po

Um dia ela acordou como se desconhecesse o homem com quem dormia, como se não lembrasse do parco vestido branco e da fracassada noite de núpcias, olhou as tulipas amarelas de plástico e ignorou a antiga presença dos convidados anônimos e de seus punhados de arroz. Acordou e esqueceu de passar a roupa dele, não fez cuscuz com ovo como suas tias tinham lhe ordenado, tomou sozinha um chá de carqueja, olhou as cuecas no balde - algumas com o fundo bem sujo de merda - e mergulhou em sua antiga rotina. Costumava beijar seus amigos na boca e na testa, tomava banho de açude nas quintas e bebia todos os copos nos finais de semana, misturava cachaça, cerveja, homem, pó, maconha e gaia, passava o domingo esperando o cheiroso almoço de sua mãe, na segunda terminava o sudário da recuperação e na terça adentrava a vidinha saudável, fazia natação e jantava granola com iogurte de laranja com cenoura. A pequena e negra Camila era uma dessas garotas que viviam atrapalhadas com a solidão, tinha uma aliança no dedo e apenas planejava desistir da conformação, de maneira que na fila do supermercado, fazendo a segunda feira do mês sem batatinhas - estava de regime - ignorou os preços abusivos, as marcas repetidas, despertando apenas quando dois garotos atrás dela na fila não paravam de empurrar um ao outro: "onde tu cortou esse teu cabelo não tinha pra homem, não?". Os dois riam, riam e riam, enquanto ela pagava a conta com o cartão do marido. Antes de voltar de bicicleta, tomou um chá de erva doce num quiosque pobretão, observou as famílias saindo pela porta, descendo a ladeira, felizes com seus carrinhos inundados de compras e lembrou de uma palavra que aprendeu com sua avó: perdulário. "Que ou o que despreza seus interesses. Gastador, dissipador". Chegando em casa, fez um bolo, desistiu da cobertura de limão, tomou um chá de hortelã, arrumou a mala do rapaz com quem tinha casado e que sequer lembrava o nome, ele não tinha aparecido depois do expediente, era uma sexta, devia ser normal e ela resolveu passar a noite escrevendo num diário como há anos não fazia. Entre um chá e outro, talvez nunca tivesse feito. Quando o dia já ia amanhecendo, escreveu sua última frase, desejando que o mundo sucumbisse ao apocalipse zumbi "só para sobrar mais chocolate para mim". Tomou seu último chá dos cinco sabores, um chá forte de camomila adoçado com mel, e acordou às seis com a casa absolutamente vazia. Botou um biquini e foi nadar.