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domingo, 3 de fevereiro de 2013

I Love Travesty - Ano II

Três breves vinhetas que montei para o bloco mais anárquico do Carnaval de Olinda.

I




II



III

terça-feira, 7 de agosto de 2012

O cinema pernambucano entre gerações

(Artigo escrito ao lado do amigo Fernando Mendonça para o catálogo da Mostra Cinema de Garagem)

Durante a comemoração dos dez anos de Cinema da Fundação, mal terminara a concorrida sessão dupla de lançamento de Muro (2008), curta-metragem de Tião premiado no Festival de Cannes, quando os presentes no tradicional reduto do cinema pernambucano ouviram um grito estrondoso vindo da última fileira: “finalmente minha geração foi superada. Tião, você superou a nossa geração!”. O responsável pelo berro, que naturalmente se transformou num gesto poético, foi ninguém menos que Cláudio Assis, acompanhado na ocasião de seu amigo e também cineasta Lírio Ferreira. O resto da sala, ainda imóvel diante da potência vista na tela, permanecia num devastador silêncio, não podendo saber que aquele momento representava um passo decisivo para que novos horizontes cinematográficos fossem testados no estado, adentrando estatutos imagéticos diversos, buscando singularidades do dispositivo, passeando nos limites do documentário enquanto linguagem, abrindo espaço para afetos, gêneros e memórias, articulando pontes com diferentes cinematografias mundiais e, especialmente, entrelaçando estética e política de maneira mais contundente. A sessão também projetava o encontro simbólico entre o cânone do cinema pernambucano da retomada e a subversão desse cânone, subversão maior por negar sem negar um projeto recém estabelecido, não precisando fazer remissões ou entrar em conflito direto, mas simplesmente dirigindo o olhar para outro lado. 

No entanto, essa anedota serve menos para escavar um abismo ou fosso entre duas gerações da produção audiovisual de Pernambuco e mais para pensar como o longa Baile Perfumado, realizado há quinze anos, e seus sucessores diretos Simião Martiniano – O Camelô do Cinema (1998), Clandestina Felicidade (1999), Texas Hotel (1999), O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas (2000), Amarelo Manga (2002), Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), Baixio das Bestas (2006), Árido Movie (2006) e Deserto Feliz (2007), abarcando o trabalho de cineastas, roteiristas e produtores como Paulo Caldas, Marcelo Gomes, Hilton Lacerda, João Vieira Jr, Camilo Cavalcante e os já citados Cláudio Assis e Lírio Ferreira, fundamentaram um terreno mais firme para que a geração posterior pudesse experimentar. Afinal, existe uma ligação umbilical em termos de campo entre subversão e cânone: o primeiro passa a existir quando o segundo demonstra o seu inevitável cansaço, estimulando pontos transversais que terminam até por reverter a direção da influência (ou seja, subversão influenciando o cânone). Enquanto os mais velhos viveram a necessidade de afirmação de projeto, um cinema árido-movie como conceito, proclamando uma juventude tardia do mangue beat encurralada entre tradição, rebeldia e modernidade, em muitos casos visitando espaços da cultura popular com uma intenção cosmopolita, a produção dos últimos quatro anos atua justamente numa dispersão de projeto único como projeto: tanto nas narrativas, como nos modelos de produção e circulação. 

Portanto, caminhamos aqui pela produção audiovisual pernambucana dos últimos quatro anos, discorrendo de forma panorâmica e ciente da impossível totalidade, no intuito de montar ao final uma lista comentada de doze filmes representativos do período, marcado pelo trabalho de cineastas como Marcelo Pedroso, Gabriel Mascaro, Kleber Mendonça Filho, Leo Sette, Marcelo Lordello, Felipe Peres Calheiros, Leo Lacca, o casal Sérgio de Oliveira e Renata Pinheiro, Daniel Aragão, o também casal Tião e Nara Normande, Pedro Sotero, Chico Lacerda, Mariana Porto, entre outros. Eles foram responsáveis por uma das cinematografias mais festejadas do país, incluindo, entre curtas, médias e longas, títulos como Garotas do Ponto de Venda (2007), Amigos de Risco (2007), Muro (2008), Solidão Pública (2008), Sentinela (2008), KFZ – 1138 (2008), Eiffel (2008), Décimo Segundo (2008), Ocidente (2008), O Menino Aranha (2008), O Incrível Trem que Alçou Vôo (2008), Nº 27 (2009), Superbarroco (2009), Cinema Império (2009), Balsa (2009), Pacific (2009), Um Lugar ao Sol (2009), Recife Frio (2009), Confessionário (2009), Não me Deixe em Casa (2009), Avenida Brasília Formosa (2010), As Aventuras de Paulo Brusky (2010), Vigias (2010), Acercadacana (2010), Tchau e Benção (2010), A Banda (2010), Aeroporto (2010), Pacífico (2010), Faço de Mim o Que quero (2010), Ela Morava na Frente do Cinema (2011), Calma Monga, Calma (2010), Mens Sana in Corpore Sano (2011), Dia Estrelado (2011), Zenaide (2011), [Projetotorregêmeas] (2011), Projetos Vurto (a partir de 2011), Corpo Presente (2011), Praça Walt Disney (2011), A Febre do Rato (2011), Projeto Desurbanismo (a partir de 2012) e o ainda inédito na cidade, O Som Ao Redor (2012). 

Antes de prosseguirmos, contudo, é importante contextualizar uma cena com alguns apontamentos. Primeiro, praticamente todos os cineastas aqui citados, desta geração e os da geração anterior, possuem uma intensa formação cineclubista, movimento que se fortaleceu com a criação da Federação de Cineclubes de Pernambuco em julho de 2008, mas cuja história transcorre décadas atravessando iniciativas como o Jurando Vingar no início da década de 1990, o Barravento em meados dos anos 2000 e o Dissenso já no final dessa primeira década e ainda em atividade. Hoje o estado conta oficialmente com 30 cineclubes em funcionamento. Essa formação se associa à própria consolidação do Cinema da Fundação como reduto da cinefilia e o lugar preferido dos realizadores pernambucanos para promoverem suas criações em curtas e longas-metragens (atualmente dividindo esse entusiasmo com o recém restaurado Cinema São Luís). Com curadoria de Kleber Mendonça Filho e Luiz Joaquim, a salinha discreta de 196 lugares rompe diariamente com a dependência da distribuição blockbuster da cidade, mesmo com alguns recentes problemas técnicos no sistema de som, mantendo firme uma política da diversidade e do cinema poliglota, além de funcionar como um lugar de encontros, alguns dos quais silenciosos, entre pessoas que não se conhecem, não se acenam, mas cuja copresença no mesmo local foi percebida algumas dezenas de vezes. Há sempre um rosto anônimo ou amigo saindo de alguma sessão. 

Naturalmente, o repertório cinematográfico da geração mais nova está condicionado pelo acesso a filmes de diferentes lugares e épocas através da internet, fortalecido por meio da criação de comunidades virtuais em nível global, da ascensão da crítica cultural nesse meio e do visível aumento da velocidade de transferência de dados. Gabriel Mascaro, por exemplo, comenta repetidas vezes como suas melhores experiências cinematográficas foram diante de um computador e vários dos realizadores finalizam o percurso de seus filmes, depois de festivais e mais festivais, disponibilizando-os no ciberespaço. Além disso, na ausência de um curso formal de cinema na cidade (o curso na UFPE foi aprovado em 2008, com primeira turma em 2009 e poucos resultados criativos até então) todos começaram a fazer seus primeiros filmes num modus operandi conhecido localmente como brodagem, ou seja, sem dinheiro algum, contando apenas com ajuda dos amigos, usando os amadores equipamentos que tinham em mãos, seguindo numa lógica de aprender fazendo. Finalizado esse primeiro momento, alguns deles, como o próprio Mascaro e Daniel Aragão, envolveram-se em algumas produções profissionais da cidade para ganharem experiência de set na produção de longas-metragens, ambos trabalhando com Marcelo Gomes em Cinema, Aspirinas e Urubus. Quando seus filmes foram lançados não apenas no circuito local e participaram de vários festivais ao redor do país e do mundo, esses jovens voltavam e ainda estão voltando não apenas com prêmios, mas com vínculos formados, entre contatos e afetos, com cineastas que viviam uma ansiedade estética e um contexto produtivo semelhante, tais como o Alumbramento, do Ceará e a Teia, de Minas Gerais. 

A experiência formativa num cinema de baixíssimo orçamento, com os olhos atentos para onde poderiam enxugar gastos de produção, igualmente ampliando vislumbres estéticos, fez com que alguns cineastas ganhassem editais para desenvolverem curtas-metragens, podendo simular condições quase ideais de filmagem, mas voltassem ao fim do processo com um média ou um longa prontos. É o caso do longa Vigias, de Marcelo Lordello, vencedor do Concurso de Roteiros Rucker Vieira da Fundação Joaquim Nabuco, assim como do média Balsa, de Marcelo Pedroso, e do longa Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro, ambos premiados com o edital Ary Severo / Firmo Neto. No caso dos dois últimos, ainda existiu um dilema na entrega do produto final, pois o edital pedia um curta finalizado em 35mm, mas eles tinham entregue um média e um longa digitais. O ano de 2008 também marca o nascimento de um novo festival na cidade do Recife, algo bastante emblemático para pensar uma distinção entre as gerações: se a primeira edição do Cine PE aconteceu em 1997, ano do lançamento de Baile Perfumado, o Janela Internacional de Cinema do Recife surge com ênfase na curadoria de curtas-metragens, estimulando jovens no desenvolvimento de um pensamento crítico, trazendo trabalhos de ímpar qualidade a nível mundial e com olhar aguçado para o escoamento da própria produção marginal do país. A presença de realizadores de fora na cidade também proporciona parcerias, intercâmbios e experiências sobre as inúmeras fragilidades do circuito independente. Aliás, se falamos num cansaço de projeto no início do texto, talvez seja importante pensar na própria falência gradual e encolhimento do Cine PE, festival que enfrentou um protesto, no ano passado, dos cineastas pernambucanos durante a cerimônia de encerramento. Quando o primeiro deles ganhou um prêmio, todos os presentes subiram no palco em forma de bolo de quinze anos e, para apontarem um desarranjo de intenções entre realizadores e festival, abriram uma faixa com letras garrafais: “Menos glamour, mais cinema”. 

A principal reivindicação era o respeito técnico pela projeção das obras, pois alguns filmes eram cortados antes do final dos créditos, e, especialmente, a incorporação da mostra exclusiva de filmes pernambucanos ao espaço do Teatro Guararapes, onde é realizado todo o resto do festival. As demandas, nesse ano, foram atendidas; no entanto, a iniciativa viveu sua edição mais esvaziada e ainda inchada de cafonas homenagens, com problemas técnicos registrados todos os dias, de filme com som prejudicado pelo equipamento até outro exibido com os rolos trocados. Não podemos esquecer também que, apesar de a produção pernambucana figurar entre as mais representativas do país, o ainda escasso parque exibidor comercial do estado, praticamente inexistente no interior, não incorporou minimamente o cinema pernambucano em sua grade. Os filmes terminam restritos aos iniciados do circuito independente, rodando o mundo em festivais, espalhando internacionalmente uma vontade intensa de observar e lutar por uma sociedade menos refém do urbanismo da desfaçatez, mas não estabelecendo uma relação sensível com o público de seu próprio lugar e com o qual, em teoria, deveriam melhor se comunicar. Os pernambucanos não conhecem o cinema de seu estado, a garagem de produção fica no Recife, mas a plataforma de exibição está sempre lá fora. Uma saída que vem sendo encontrada na cidade pode ser visualizada no já citado Balsa, que apenas por ser um média já colocava em questão seu espaço no próprio circuito alternativo, seguindo por um lançamento que contemplou simultaneamente exibições em mostras como a Semana dos Realizadores, espaços como Cineclubes e sessões em escolas públicas, com presença do diretor. A distribuição contou ainda com uma tiragem de mil DVDs, estimulando projetos posteriores e mais amadurecidos como o de Pacific, Um Lugar ao Sol e Avenida Brasília Formosa, cada qual com a distribuição gratuita de um DVD para pontos de exibição gratuitos, junto com uma cartilha de cunho educativo com artigos para subvencionar o debate com o público (depois, claro, de terem sido exibidos em alguns cinemas do país por meio do projeto Vitrine).  

Seja como for, o último pressuposto refere-se à afirmação de uma política pública de cultura consolidada, que mudou as condições materiais do cinema pernambucano de uma forma ampla. Só para termos ideia, a quinta edição do Funcultura – Audiovisual, mantido pelo Governo do Estado em parceria com a Prefeitura do Recife e modelo de inspiração para propostas semelhantes em vários outros estados, destinou nesse ano R$ 11,5 milhões para distintas categorias, tais como longas-metragens, curtas, produtos para televisão, oficinas, festivais, mostras e até incentivo ao cineclubismo. Essa iniciativa é resultado de uma pressão de anos por parte dos envolvidos com o audiovisual que perpassam ambas as gerações e que sempre produziram sem um apoio financeiro efetivo. Preocupada com o futuro e a instabilidade recorrente durante mudanças de gestão, tomando inclusive o caso de Paulínia como exemplo, a classe audiovisual já começou a se articular para transformar o edital do Funcultura em lei, fincando em definitivo esse compromisso do estado com a cultura (independentemente de quem seja o gestor). Se por um lado, o edital pode terminar gerando uma dependência entre cineastas e poder público, condicionando a realização a partir do incentivo financeiro e apagando uma experiência histórica, por outro tornou a produção do estado mais profissional; cineastas, produtores e atores estão conseguindo viver de seus trabalhos e ainda assim continuam envolvidos em iniciativas, digamos, mais ideológicas, propostas com um caráter efetivo de garagem e de luta cidadã, na promoção de conteúdos livres para internet, especialmente refletindo sobre o assombroso desenvolvimento urbano da cidade. 

A cidade ocupa o cinema, o cinema ocupa a cidade 

Se pensarmos em termos comparativos, alguns centros urbanos subalternos da América Latina modificaram realmente o aspecto de sua paisagem no período entre 2001 e 2011, apostando numa conduta da verticalização conduzida por grandes construtoras, cuja lógica é transformar espaços públicos em espaços privados, não convivendo com o patrimônio cultural, mas destruindo brutalmente a história e a memória das cidades. Esse é o caso do Recife, que atualmente ocupa o posto de 21ª cidade mais vertical do mundo (no Brasil, fica atrás apenas de São Paulo e do Rio de Janeiro), um lugar cujos vinte maiores arranha-céus foram todos construídos nos últimos dez anos e que vem vivendo sucessivos confrontos entre sociedade civil organizada, administradores das empresas e gestores públicos. Diante desse cenário de transformação abusiva disfarçado de modelo de desenvolvimento, intensificado a partir da construção arbitrária das Torres Gêmeas — dois edifícios residenciais com 40 pisos cada um — no bairro histórico de São José, a cidade passou a protagonizar inúmeros filmes produzidos em Pernambuco. Recife ocupa o cinema e o cinema ocupa o Recife. Dispostos a repensarem a forma como o projeto de desenvolvimento urbano vem sendo conduzido, apontando contradições e propondo alternativas aos empreendimentos, cineastas vêm se reunindo, inclusive com diversos segmentos da sociedade, de maneira sistemática, todos acusando a própria prefeitura de ter se transformado num mero balcão imobiliário. Não é novidade para ninguém que a lógica de verticalização é uma solução que segrega as pessoas nos condomínios, eliminando completamente qualquer capacidade de circulação, de mobilidade ou de acesso direto às mais banais necessidades. O cinema pernambucano está prontamente mobilizado contra a construção desenfreada de edifícios, muitos dos quais sem estudos de impacto ambiental e que anotam efeitos ampliados na vida coletiva, formulando uma urbanização — ou desurbanização — que desumaniza o espaço compartilhado da cidade. 

Nesse sentido, um primeiro produto a mostrar a cidade sem delongas turísticas, o longa Amigos de Risco, dirigido por Daniel Bandeira, mas com participação de metade do Recife — todos presentes na sessão de lançamento para se reconhecerem e serem reconhecidos pelos outros — remonta a Veneza Brasileira como um lugar que vem perdendo suas particularidades, um lugar distante dos cartões-postais que rodam o mundo, revelando uma periferia encardida numa noitada fétida por meio de uma imagem igualmente suja. O filme produzido com menos de R$ 50 mil, imanta seu projeto estético com um caráter duplo, as imagens granuladas captadas em Mini DV endossam o ambiente hostil de um espaço em plena perda de personalidade, assim como escancara os limites do seu orçamento, apontando a garra e os percalços da produção independente. Seguindo por uma pegada mais sociológica, Gabriel Mascaro (que ao lado de Bandeira, Marcelo Pedroso e Juliano Dornelles formavam, até o ano passado, a produtora Símio Filmes) desenvolveu Um Lugar ao Sol, tomando como objeto de seu documentário uma elite específica: habitantes de diferentes cidades do Brasil que moram em coberturas. O filme foi muito criticado por criar uma teoria falsa, resumindo uma situação complexa em depoimentos de um grupo isolado, de modo a induzir os espectadores ao erro simples de acharem que a culpa estava ali, na tela diante deles. No entanto, o cineasta consegue captar a cidade em suas linhas e sombras de maneira inquietante, rompendo com o pressuposto básico da linhagem mais clichê dos documentários ao quebrar qualquer compromisso de complacência entre documentarista e entrevistados. Sua postura ideológica fica clara como alguém que usa a câmera como uma arma e filma um inimigo e especialmente seu discurso. 

Sem dúvida, a iniciativa mais emblemática desses filmes sobre urbanismo, não necessariamente pelo resultado em si, mas pelo processo e por plantar uma plataforma vigorosa de debate, é o [projetotorregêmeas], disponível na página http://projetotorresgemeas.wordpress.com/. A iniciativa reuniu durante dois anos cerca de 60 pessoas, direta ou indiretamente envolvidas, tomando os prédios da construtora Moura Dubeux, para conglomerar distintas visões sobre os rumos e transformações da cidade. O modo de produção foi bastante incomum, com abertura de inscrições para que as pessoas interessadas em participar enviassem vídeos, fotografias, áudios, ilustrações, trilhas sonoras, entre outros. O resultado trouxe uma variedade de linguagens, formatos e possibilidades de roteiro que, depois de sucessivas reuniões, terminaram decupados por cinco editores com a missão de transformarem um material bruto desvinculado entre si num filme. As várias mudanças e opiniões, contudo, não mudaram o intuito do projeto: debater as relações de poder em Recife, a partir de iniciativas que influenciam o cotidiano de quem reside na cidade. Todos os indivíduos que participaram do [projetotorresgêmeas] se mostraram inquietos com a situação, queriam protestar, revelar o nível problemático que atingimos, de tal modo que o filme funciona — para além das dissonâncias internas — como um manifesto que marca o fim da melancolia e da nostalgia enquanto pontos de fuga do cinema pernambucano, algo muito presente em outras produções sobre o mesmo tema, assumindo um tom acima para reafirmar sua militância cidadã diante da paisagem arquitetônica da cidade. Lamentar para sempre não os levariam a lugar algum. O filme foi lançado simultaneamente no IV Janela Internacional de Cinema do Recife e disponibilizado na internet, contando com mais de cinco mil visualizações. Atualmente, o mesmo grupo está começando a produzir da mesma forma colaborativa, material para um novo projeto, com o título temporário de Eleições: Crise de Representação. 

A não só vontade, mas necessidade, de problematizar os modelos de desenvolvimento do Recife ganhou força com aproximação da Copa do Mundo e a ansiedade administrativa dos gestores em resolver em pouco tempo problemas estruturais da cidade, sempre numa lógica de priorizar edifícios e o transporte de carros em detrimento das ciclovias e do elemento humano. Dois empreendimentos são importantes de serem citados. O primeiro propõe “resolver” o problema do trânsito – sempre vale repetir a frase de que não estamos no trânsito, nós somos o trânsito – com a construção de quatro viadutos sobre a Avenida Agamenon Magalhães, uma das mais importantes da cidade, ignorando em absoluto os impactos visuais e sociais, além de suplantar a existência de pedestres e ciclistas enquanto habitantes da cidade. O segundo é um empreendimento imobiliário faraônico, chamado cinicamente de Novo Recife, que pretende numa região próxima às Torres Gêmeas, no Cais José Estelita, destruir os antigos armazéns ali existentes para construir nada menos que treze torres, entre residenciais e comerciais de luxo. Para quem não conhece essa história, trata-se de um terreno de mais de 100 mil m², que era da União, mas foi leiloado em 2008 e arrematado por um grupo de empresas. A participação se tornou mais ativa, transpondo as telas, colocando cineastas e outras pessoas como interlocutores em audiências públicas, envolvendo-os na produção de uma petição online e até mesmo na ocupação de espaços em termos similares ao movimento #occupy. Nessa leva surgiram ao menos dois coletivos que estão produzindo conteúdo exclusivo para a internet e divulgando de maneira ampla nas redes sociais, com olhares pujantes e renovados. São eles o Vurto (http://www.vurto.com.br/) e o Contravento (http://vimeo.com/user11414332), o primeiro reunindo nomes como Marcelo Pedroso, Felipe Peres Calheiros e Gabriela Alcântara, o segundo, bem mais interessante e com menos sentimento de “Justiceiros da Cidade”, é levado por Luís Henrique Leal, Caio Zatti, Cristiano Borba e Lívia Nóbrega. Todos estão mobilizados na intenção de ampliar o debate sobre a privatização da Praia do Paiva e sobre a forma como os gerentes de uma grande construtora observam áreas estratégicas do Recife, trazendo, para frente das câmeras, especialistas de diferentes áreas para falarem sobre os recentes acontecimentos e o direcionamento geral desse processo, muitas vezes resgatando uma história cíclica de desmandos e equívocos ou mesmo retratando de maneira crítica a ideia desenvolvimentista presente no Porto de Suape. 

Fica clara a preocupação nesse conjunto de filmes como a paisagem não é só uma imagem visual, mas algo feito pela participação, pela atitude, pelas crenças, pelas práticas sociais, pelo dia a dia dos cidadãos. É unânime a ideia de que as áreas em discussão não podem ficar restritas ao uso ou ao usufruto de uma pequena parcela da população, ou seja, tomando como parábola de outros espaços, a paisagem do Cais, uma das mais bonitas da cidade, não pode ser simplesmente privatizada. Não é surpresa afirmar que a experiência urbana é também uma experiência estética. Se cada vez mais pessoas estão se mobilizando contra o projeto Novo Recife ou contra os viadutos da Agamenon Magalhães, o impulso parte da vontade em pensar a cidade como um espaço público a ser usufruído por toda a população de maneira coletiva. No entanto, alguns filmes realmente caem na simplória demonização dos prédios, apropriando-se da hipócrita lógica “quem vive em casa é bom, quem vive em edifício é lobo mau”, enquanto outros lançam um olhar com mais afinco sobre a reorganização espacial, padronizada e sem resquícios de criatividade alguma; a princípio uma discussão estética que, claro, não deixa de ser política, pois atravessa o imenso risco em aceitar um projeto de desenvolvimento da cidade ditado pelos interesses comerciais das grandes construtoras (sob o aval da Prefeitura, do Governo do Estado, do IPHAN e total supressão da lei dos doze bairros sancionada em 2001, que controlava o ritmo frenético dos prédios em determinadas regiões da cidade). O fato é que Recife está se transformando em um simulacro de cidade, sempre empurrando as classes mais baixas para outro lugar (Gentrification) e capitalizando cada metro quadrado no mercado imobiliário. A fileta básica de caráter público deixa de ser condição do espaço urbano, o que gera uma desmobilização da convivência compartilhada e uma cultura de shopping — muito bem representada em Recife Frio — contaminada em todos os patamares da vida social. No mesmo sentido, Praça Walt Disney, de Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro, desenha com extrema habilidade e sutileza, espaços privados, imbuídos da segurança do lar e do isolacionismo burguês, que emulam espaços públicos limpinhos em seus parquinhos, quadras e piscinas particulares. A experiência estética da cidade também pede que conheçamos nossos vizinhos, deixemos nossos filhos na escola sem precisar de carro, pede para utilizarmos as vias não como um lugar em que passamos e deixamos passar a nossa vida, mas como um espaço físico e espiritual que definitivamente ocupamos, mantemos relações afetivas e cuidamos. 

Os olhares singelos de um cinema sem fronteiras 

Com a transformação do cenário global e o intenso movimento tecnológico daí decorrente, as limitações que outrora prevaleciam junto às convergências do audiovisual passaram a inexistir e a própria concepção de ‘influência’ dentro das cinematografias tornou-se flexível, pois as semelhanças e reflexos buscados pelos cinemas que não mais encontram uma resistência física do espaço-tempo passam a ocorrer em intervalos cada vez menores. A antiga velocidade com que os cinemas se disseminavam, com que os filmes atravessavam as fronteiras e alcançavam novos públicos, em atrasos que podiam chegar a 5 anos ou a uma década, foi há muito vencida. Assim, questões que são colocadas hoje num determinado lugar do mundo podem ser ampliadas ou resolvidas do outro lado do planeta antes que o sol se ponha, um fato que se observa em qualquer área do conhecimento e, inclusive, nas artes. Consideramos que o diálogo nutrido por realizadores ao redor do mundo, direta ou indiretamente, é fruto de uma realidade igualmente dilatada, daí serem os anseios perseguidos por muitos tão paralelos e sintonizados. 

A crescente dificuldade de se falar no cinema de um território (um cinema pernambucano, em nosso caso) sem que, para isso, recorramos a estéticas e soluções de outros estados, países e continentes, demarca uma transitoriedade que até se localiza em períodos passados da história, mas que, sem sombra de dúvida, representa uma das condições do tempo presente. Já não é possível avaliar uma obra sem localizar os pares que, simultaneamente, estão se desenvolvendo a despeito de um contato prévio, sem uma referencialidade planejada. Por isso, a necessidade de se pensar um cinema asiático, ou ibérico, ou latino-americano, quando refletimos a situação local do cinema hoje produzido em Pernambuco.

Experimentações de linguagem, diluição dos gêneros, rompimento de formatos canônicos, são constantes mundiais do cinema contemporâneo, verificadas em filmes nas mais variadas durações e, muitas vezes, intensificadas no curta-metragem. Os bons ventos que têm caracterizado a renovação do cinema pernambucano acompanham um fluxo de qualidade global. O que nossos diretores têm provocado na linguagem, na fusão entre o documental e a ficção, e em tantos aspectos que determinam uma maneira de pensar o cinema, muito além de fazê-lo, não deve nada ao que Kiarostami, Godard, Hsiao-Hsien, ou tantos outros referenciais, no que há de mais novo no audiovisual, vem fazendo nos últimos anos. 

É muito estimulante perceber que os diálogos atuais não se limitam aos problemas de ordem técnica, ou aos temas explorados; o que vemos se formar é um verdadeiro emaranhado de questionamentos que tocam o domínio da representação em pontos nevrálgicos do entendimento criativo: quais as possibilidades de se guardar um mundo em imagens quando, ele próprio, já se tornou uma imagem distanciada de si? Como identificar um espaço de subjetividades que já não subsistem isoladamente, que dependem de sua constante exposição para serem ‘reais’? Qual o lugar do drama numa época que já não consegue interromper a ação ou fazer dela um contraponto da existência humana? Os anseios se acumulam na mesma medida em que a própria mecânica cinematográfica atravessa um período de transformações, dos mais radicais que já se registrou, seja em sua forma de produção, nos parâmetros de exibição e consumo, como no resguardo de sua memória. 

De certa forma, é também na manutenção de memórias particulares que localizamos todo um projeto comum do cinema, em expansão desde o séc. XIX, e identificamos as específicas semelhanças que saltam aos olhos do trabalho pernambucano na relação com os circuitos mundiais. São memórias dos pequenos gestos, dos cotidianos em repouso urgente, ‘memórias das coisas’ — para ficarmos numa expressão corrente aos estudos recentes do audiovisual* —, derivadas de um tratamento preocupado em localizar o natural afeto que a relação mundo x imagem apresenta. As filmagens dos corpos e das paisagens, a ‘rostidade’ resgatada pela composição de movimentos que reposicionam o cinema a um lugar de encontro, percorrem o que há de melhor na safra de filmes pernambucanos que vem ultrapassando os limites dos festivais para encontrar, num público atento, o interesse por novidade de experiência, olhares que redimensionem a expectativa de um cinema e do entorno que o cerca e faz vir à luz. 

É nesse sentido que reunimos, a seguir, uma lista comentada de filmes que potencializaram esta abordagem singela do cinema pernambucano, chegando mesmo a diluir esta concepção local (sem jamais negá-la) e favorecendo uma compreensão da identidade múltipla que hoje caracteriza o nosso cinema. São filmes que se equilibram entre o íntimo, o político, o visível, o poético, expressões que, além de um lugar, definem um tempo. 

Muro (Tião, 2008) 
“Alma no vazio, deserto em expansão”. O verso divulgado como sinopse oficial do filme que redefiniu o cenário pernambucano — e por que não, mundial — de produção cinematográfica, reflete em palavras uma impressão certeira do que sua experiência provoca. Afronta aos sentidos, o trabalho de Tião é muito mais do que a apressada convicção de um rompimento, está mais para resgate, para continuidade aos nomes a quem reverencia diretamente em sua estrutura (de Méliès a Eisenstein), para a defesa de um cinema livre das amarras lógicas, consciente do artifício, em pleno domínio do que percebemos como temporalidade. Ponto de partida de uma carreira particular, Muro inaugura em si um novo mundo. Faz nascer o cinema. 

Nº 27 (Marcelo Lordello, 2008) 
Filmar a adolescência, uma constante na prática do curta-metragem contemporâneo, é o ponto de partida para Marcelo Lordello compor um dos retratos afetivos mais contundentes dos últimos anos. Sua observação da sala de aula, dos corredores e banheiros colegiais, carrega uma delicadeza sintonizada ao que há de melhor no cinema mundial de sua década, a exemplo da relação direta que traça com o imaginário dos filmes de Gus Van Sant. O drama de seu protagonista é o pretexto para uma verdadeira experimentação do tempo, da sonoridade, do extracampo, de detalhes que fazem do cinema um artesanato, uma singela composição de lembranças e sensações. Nº 27 é a imagem que carregamos não apenas quando sua projeção encerra, mas aquilo que vemos no espelho todos os dias, ainda que relutemos em enxergar. 

Pacific (Marcelo Pedroso, 2009) 
Dispositivo exposto em suas mais profundas engrenagens, o gesto de Pedroso sobre os olhares que coleta de turistas num cruzeiro é o motivo de uma intenção criativa das mais originais que o cinema contemporâneo demarca. As filmagens íntimas de um tempo que só é vivido depois de guardado, revestidas de significado cinematográfico a partir da rigorosa montagem efetuada, dão forma nas mãos do diretor a uma teia que se revela pura ficção, a despeito de sua origem documental. Um trabalho limite que atropela os gêneros para configurar uma determinada vivência em estado bruto, um intercâmbio de observações que resguarda a subjetividade ao domínio extremo da projeção. Do movimento mais simples, uma complexa significação do estar no mundo sob a mediação da imagem, a conscientização do espetáculo. 

Confessionário (Leonardo Sette, 2009) 
É na cuidadosa exposição que faz das limitações de sua linguagem que Confessionário amplia a noção de registro cinematográfico, a despeito do que se compreende por documental ou ficcional. As margens do espaço/tela, a efemeridade do plano, a finitude da película, são elementos que, contrapostos ao tom nostálgico do padre entrevistado — que somente pela sua retórica de memórias sedimenta um cinema autônomo —, dão brecha a significados emergentes na própria condição criativa de se fazer um filme. Ouvir o corte de Leonardo Sette, experimentar a pausa para o troco dos rolos e não ter acesso às imagens de continuidade, é romper com tudo que se pode esperar do cinema, com aquilo que inconscientemente se absorve do movimento, em qualquer filme, mas que aqui se desnuda sem timidez. É a extrema obscenidade, o que não se encena. 

Balsa (Marcelo Pedroso, 2009) 
Possivelmente o trabalho que melhor concentra, neste novo painel de filmes, o interesse de retornar a um estado primitivo do cinema para fazer com que ele se renove, Balsa é um olhar que suspira carregado de melancolia, pesado de sentimentos, situado na contemplação de um mundo agônico, moribundo. O ponto de vista fixado no transporte em vias de extinção, a balsa, reconfigura o movimento que desde os Lumière resguarda os acasos da vida, dos gestos cotidianos que se acumulam e renovam na densidade de expressão. Sob o conceito da câmera-olho (Vertov), Marcelo Pedroso ilumina um estado de sobrevivência latente, não apenas do que é filmado, mas daquilo que usa para filmar, do que insiste em ser linguagem e instrumento de memória. 

Recife Frio (Kleber Mendonça Filho, 2009) Uma das raras experiências criativas dentro da ficção científica no presente século, Recife Frio funciona tão bem porque constrói a sua realidade a partir de imagens que não precisaram ser forjadas, mas apenas organizadas dentro de uma coerência indicadora da preciosidade que um bom roteiro ainda pode constituir. É do real que Kleber M. F. extrai a ilusão, erige o seu mundo, acentuando sempre em justa medida a tonalidade crítica que lhe é tão cara, aqui aplicada ao contraste social, ao desequilíbrio urbano das grandes cidades, ao conflito político que se estabelece até mesmo dentro de um núcleo familiar. Sua fantasia em tempo presente desafia (e vence) não só as expectativas de um público geograficamente restrito, mas vai além, no sentido de refletir uma violência com doçura e humor, de encontrar no caos a graça da vida. 

Avenida Brasília Formosa (Gabriel Mascaro, 2010) 
Estabelecido numa lógica orgânica, em que o olhar da câmera ecoa o olhar primeiro do mundo na relação nutrida entre o espaço natural e as intervenções urbanas, há no cinema de Gabriel Mascaro uma abertura estética em que o sentido formal e o narrativo subsistem ‘em construção’, como nas residências do bairro de Brasília Teimosa, locação principal de seu filme. Ele nos convida a uma contemplação que não pode ser adiada. Sensibiliza os espaços reintegrando o homem ao meio e em suas relações sociais. Do painel sensorial equilibrado entre as observações arquitetônicas e as condições físicas que levam um lugar ao enfrentamento da transformação, Avenida BF resulta numa procura pela respiração da cidade e dos núcleos de convivência, da vida que resta nas desgastadas estruturas de pacificação moral. É o que também resta para o cinema.

A Banda (Chico Lacerda, 2010) 
Desdobrando um procedimento de captação visual entre o registro e o questionamento da imagem, Chico Lacerda propõe através de um gesto muito simples — mas também complexo, pois talvez seja o travelling o movimento mais enigmático da linguagem cinematográfica — uma discussão da visibilidade em camadas, daquilo que vemos e negamos ou confirmamos a partir dos pequenos códigos do olhar. Não ouvimos a banda, não englobamos a totalidade do evento (uma parada gay), mas construímos pelo repertório de cenas coletadas uma vívida impressão do acontecimento, de sua presentificação. A inexistência da ‘banda sonora’ no filme, submerso no mais profundo silêncio em toda sua duração, atualiza a perspectiva essencial de uma linguagem que ainda é luz, é sombra. E não precisa de mais para o ser. 

As Aventuras de Paulo Brusky (Gabriel Mascaro, 2010) 
Concebido dentro de uma estética virtual, um viés da animação, o filme que marca o encontro de Paulo Brusky com Gabriel Mascaro dentro da plataforma ‘Second Life’ reflete questões fundamentais ao prosseguimento do cinema no séc. XXI. A partir de uma perspectiva autoral (de Brusky), a invenção sem limites técnicos (de Mascaro) conecta a mais pura fantasia à dura realidade — econômica, política — da criação artística. A dolorosa lembrança metalinguística que permeia todo o filme, de tratar-se única e simplesmente de um filme, é o que transcende o ilusório, que reveste e resgata toda uma associação entre o cinema e o sonho, concretizando o impossível e materializando subjetividades outrora apenas potenciais. Uma brincadeira muito séria que desenferruja algumas motivações há muito abandonadas pelo cinema. 

Mens Sana In Corpore Sano (Juliano Dornelles, 2011) 
Se o novo século é também caracterizado por uma intensificação do ‘cinema dos corpos’, na maneira como as imagens tocam as superfícies da forma humana e fazem da pele do filme um núcleo imediato de percepção, o bizarro trabalho de Juliano Dornelles se confirma inserido numa problemática inerente ao seu tempo histórico. Inspirado por uma estética do terror e do grotesco, e trabalhado sob uma rigorosa paleta de cores e sons que o aproximam do período mudo sem perder o equilíbrio nas referências do cinema B, Mens Sana é uma das mais felizes apropriações recentes de gênero, imprevista e eloquente, questionadora de sua própria concepção formal e do imaginário em que mergulha. Uma perfeita imagem da imperfeição. 

[Projetotorresgêmeas] (Coletivo, 2011) Dentro do formato de criação coletiva — em expansão na contemporaneidade —, possivelmente, nenhum outro filme tenha alcançado um resultado político e estético tão incisivo, em Pernambuco, quanto este [Projeto]. Motivado pela disputa imobiliária e a decorrente transformação no cartão postal e no imaginário cultural afetivo do Recife, o filme reúne um híbrido de artistas e expressões, que assinam um verdadeiro manifesto, provocação certeira a encontrar no cinema um caminho para o pensamento sobre o tempo e o espaço de uma cidade, sobre a sua transformação/diluição. A arrojada proposta de divulgação do trabalho (na rede, em festivais, cineclubes e centros de educação) acentua a urgência de sua visibilidade, enquanto propõe uma arte democrática, acessível. Ao se reclamar uma cidade, inclui-se aí o direito a seu cinema. 

A Febre do Rato (Cláudio Assis, 2011) Se, em meados dos anos 2000, Assis realizou Amarelo Manga como um tapa na cara do Recife, deixando na época os próprios recifenses fascinados com tamanha brutalidade, o diretor conseguiu através de seu mais recente filme escrever uma carta de amor à fragilizada cidade, um amor que contesta todas as formas de opressão, misturando um ímpeto libertário trôpego a uma crença histórica na poesia marginal. Filmado em preto e branco, vemos uma cartografia de corpos e afetos; encontros intensos, ébrios, apaixonados e inocentes, que servem bem ao intuito confuso de escárnio e celebração, fazendo com que os recifenses (não só eles!) visualizem um tempo que transcorre, uma duração, um cinema-território entre gerações que se apontam. A Febre do Rato se baseia numa escrita poética em que cada verso (cena) impulsiona, diante do real, um vivaz universo.

* Conceito desenvolvido pela profª Laura U. Marks em importantes publicações na teoria do cinema deste século, como The Skin of The Film (2000) e Touch: intercultural cinema, embodiment and the senses (2002).

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

São Luiz

"Para essa sessão, que se realizará à meia-noite do dia 3 de outubro, no cinema São Luiz, serão distribuídos convites especiais às figuras de projeção em nossos meios artísticos e às autoridades. Às 22 horas, no salão de honra do Grande Hotel, a Prefeitura oferecerá um coquetel aos artistas e diretores do filme e às autoridades". (JC, 29/set/53, p.4)


A primeira vez que fui ao cinema, nos primeiros anos da década de 90, foi justamente ao São Luiz para assistir alguma comédia romântica com a Whoopi Goldberg, que sequer lembro o nome agora, mas que meu pai, um defensor ferrenho do velho Arraes, tinha me levado não pelo filme, mas para eu conhecer 'o cinema mais importante da cidade'. Ele frequentava mais pelo valor afetivo com o espaço do que propriamente pela programação. Mesmo só tendo faíscas de lembranças dessa época, como uma festa em que me fantasiaram de Rambo ou uma briga que arrumei no São João do colégio por bater num menino no meio da quadrilha, mantenho guardadas vagas imagens daquele dia. Não lembro como fui, como voltei, mas lembro em detalhes dentro do cinema, especialmente os vitrais, pois não parava de olhá-los e continuariam a me fascinar várias e várias vezes durante a adolescência até o fechamento. A última vez que estive no cinema da Rua da Aurora foi num show de Jorge Mautner: lembro que, após o show, me mantive sentado com duas outras pessoas olhando a tela branca por um longo tempo, enquanto os outros se dirigiam para uma rave no primeira andar. Os vitrais estavam apagados. Talvez estivesse me despedindo. Depois disso, vi apenas por fora o cinema numa reforma que não parecia ter fim.

Daí finalmente, depois de um mundo de adiamentos, de toda indecisão possível, do quase risco de não dar em nada, graças ao empenho da Fundarpe, empenho louvável, o cinema São Luiz foi reinaugurado com uma cerimônia de deixar as celebridades de hollywood inundadas de inveja. O filme escolhido para ser exibido na ocasião foi Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, clássico absoluto da galerê oldschool do cinema de retomada. Trata-se na verdade de um ensaio, afinal deixando o glamour de lado e se dando conta que o champagne é sidra, o cinema São Luiz foi reinaugurado mais ou menos, afinal, ontem, foi apenas a reinauguração para convidados, vips, autoridades, jornalistas e ceninha cultural da cidade em geral - isso inclui toda aquela galerinha que você encontra em todo canto, que não faz ideia de quem seja, especialista em fazer amigos e que sempre dá um jeitinho de entrar. A reinauguração pra mundiça do meu Recife vai ser só no dia 12 do próximo ano. Tentarei ir como um bom suburbano que sou: estou curioso pra ver o público de fato. No entanto, preciso dizer que a reinauguração só estará completa quando a sala arrancar de si o fantasma de palanque político, palanque que se repete sistematicamente ao longo das décadas e adquirir um projetor digital. É imprescindível ambas as coisas.

Enfim, aproveitando a pompa do evento, o clima premiere que se abateu sobre a cidade e desejando sinceramente longa vida ao cinema mais bonito que já entrei, lembrei - força da expressão - de um outro evento ocorrido no mesmo local no dia 03 de outubro de 1953, pouco mais de um ano depois de sua abertura em 6 de setembro de 1952. Na ocasião, estreava o filme O Canto do Mar, de Alberto Cavalcanti, cuja produção fora toda realizada em nosso estado, com participação de 'profissionais da região', gerando polêmicas e expectativas, pondo em questão até a sexualidade do diretor, briguinhas entre os cronistas dos principais jornais, todo um rebuliço digno de novela em horário nobre. Para se ter uma ideia do vuco-vuco na província, "momentos antes da pré-estréia, o deputado José Santana foi assassinado na calçada do cinema, quando chegava para assistir ao filme. Motivo do crime: brigas políticas no clã dos Santana, natural da cidade de Flores, no interior do estado, que devido às violentas intrigas da família passa a ser conhecida como a 'Coréia do sertão''. Vejamos o que foi publicado em alguns dos periódicos nos dias que se seguiram à sessão, um pouco cruéis, convenhamos, mas que mesmo sendo da época em que Jomard participava de um cineclube católico e que as pessoas caminhavam pelas ruas, não pelos shoppings, acredito que, de alguma forma, têm muito a nos dizer:

"Como acontecimento social, o lançamento de O Canto do Mar confirmou as expectativas. Como filme, deixa muito a desejar" (Carlos Frederico, DN, 05/out/53, p.6)

"Não condenaríamos os atores porque seus fracos desempenhos deveram-se a Cavalcanti que não criou tipos convincentes, mas condenaríamos, com rigidez, o senhor Hermilo Borba Filho, autor dos diálogos, mal feitos, monótonos, sem inspiração (tal qual suas peças teatrais). Da montagem nem é bom se falar: uma lástima. Somente absorveríamos o fotógrafo Cyril Arapoff" (Ângelo de Agostini, JP, 08/out/53,p.4)

"Pernambuco, este estado cheio de tão belas e puras tradições, serviu de cenário para um filme dirigido por Alberto Cavalcanti. O Canto do Mar imergiu nos seus maracatus, percorreu xangôs e apresentou o frevo. fotografou nossas praias. Mostrou igrejas 'grávidas de ouro'. E também a miséria do povo sertanejo, a terra seca e suas paisagens mais tristes. Focalizou tudo isso como numa sucessão de cartões postais que a gente manda para uma pessoa muito distante daqui com uma dedicatória mais ou menos assim: 'aí vão os costumes populares e a terra pernambucana'. Nada mais" (Paulo Fernando Craveiro, DN, 07/out/53, p.3).

"Não há meio termo nas opiniões sobre O Canto do Mar. Para uns, foi a segunda tragédia do São Luiz, sendo a outra a morte do deputado sertanejo; ou que a bala que matou o deputado Santana, pegou casualmente o representante petebista, dirigida que fora, não contra ele, e sim contra Cavalcanti. Para outros, trata-se de uma obra-prima; das tais que o sujeito, depois de fazê-la, vai dormir nos braços da posterioridade (L., DP, 07/0ut/53, p.6)

"Durante uma semana não se falava em outra coisa no Recife. Cartazes. Faixas. Convites. E, finalmente, o filme começa a rodar; o São Luiz super lotado, pessoas em pé, sentadas pelos degraus do balcão, estava vitorioso o cineasta Alberto Cavalcanti. Aparecem as primeiras imagens do alto sertão. A seca. Os esqueletos de animais. Vem o narrador. Não era necessário o narrador, mas o sr. Cavalcanti caprichosamente, achou o contrário; e provocou os primeiros bocejos na platéia" (Duarte Neto, FM, 08/out/53, p.4)

"Bumba-meu-boi, xangô, frevo, maracatu, etc, a película é extremamente valiosa. Estamos, pois, diante de uma obra cinematográfica essencialmente honesta, bem diferente de outras que, ao retratar os nossos costumes, enveredam por caminhos falsos e pretensiosos. A direção de Cavalcanti, crua e vigorosa, soube tirar o máximo de todos os atores" (Jomard Muniz de Britto, DP, 11/out/53)

"Em verdade, o zabumbamento que precedeu a exibição de O Canto do Mar foi excessivo para ele. Também não merecia a depreciação dada pela Prefeitura, com aquela enxurrada de letras minúsculas num convite bem impresso" (Mário Melo, JC, 11/out/53)

"O Recife tem destas coisas surpreendentes. A noite de sábado foi marcada por duas tragédias terríveis. Uma, lá fora, na calçada do cinema, onde tombou um deputado com a cabeça esmigalhada por uma bala misteriosa. A outra, foi a exibição do filme O Canto do Mar. Ambas, quase na mesma hora e com uma semelhança de motivos telúricos que nos dá o que pensar. O filme começa no sertão e se espapaça para praia. A outra tragédia, dizem os jornais, também teve origem no sertão e terminou em pleno coração do Recife" (Aderbal Jurema, JC, 11/out/53).

"Todos nós que nos dirigimos aquela noite de sábado ao Cinema São Luiz (desde os beneficiados pela política do DDC até os 'sem convite' que de uma maneira ou de outra conseguiram penetrar no cinema; e este foi o caso aqui do cronista), estávamos crentes de que afinal chegara a hora de enchermos a boca para falarmos sem constragimentos e sem medos sobre o cinema brasileiro". (Luiz Felipe, FM, 15/out/53)

"Dos 450 convites impressos, dez ficaram com Cavalcanti e o resto, com exceção do de mais uns poucos que foram dirigidos a quem realmente tinha direito, foi transformado em prenda eleitoral. No mínimo dois vereadores serão eleitos por intermédio daqueles convites e mais dois filmes desses e a campanha para a sucessão governamental estará assegurada" (Alexandrino Rocha, FM/08/out/53).

Para mais informações ver: ARAÚJO, Luciana. A Crônica de Cinema do Recife dos Anos 50. Recife: FUNDARPE; 1997.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Negativos

Às vezes acredito que diversas pessoas com quem partilho meu convívio das idas ao cinema e das conversas de bar se acostumaram - mesmo que neguem duas ou três vezes - a um regime do pessimismo e do olhar agressivo gratuito, o que pode parecer para uma testemunha alheia um pouco de conformismo precipitado e frustração pessoal. Se por um lado, o sucesso de um projeto - e a legitimação coletiva - suplanta temporariamente esse 'pé atrás', pé gangrenado pelas mesmas piadas e preceitos; por outro, serve igualmente no adensamento da pressão negativa sobre projetos futuros. Antes que levantem as plaquetas de "otimista" ou "Polyana", desfaço logo o mal-entendido, primeiro porque me identifico com essa postura inquieta e vislumbro um valor criativo do estado de crise; segundo porque acredito que se tudo vai bem, se apenas os méritos são comentados, se todas as críticas de filmes são positivas e se a cordialidade, enfim, domou as ligações perigosas, é porque de fato há algo de muito errado e medíocre no sistema. Nenhuma realidade pode viver só de elogios. Bauman em seu Em Busca da Política (2000, p. 14) comenta - e eu concordo - que “nenhuma sociedade que esquece a arte de questionar ou deixa que essa arte caia em desuso pode esperar encontrar repostas para os problemas que a afligem”. No entanto, quando qualquer falha vira motivo de chacota, quando se espera o pior simplesmente por escolha, quando o caráter ranzinza impossibilita os deslumbres, a realidade pode se erguer numa problemática similar a da cordialidade, negando a exatidão e perícia dos olhos de leopardo.

Trata-se afinal de uma preservação do discernimento e do reconhecimento para que se possa 'descer o sarrafo' como gesto de maturidade e sensibilidade e não como mero prazer confuso e inseguro. Os dilemas existenciais nem sempre são vingados por meio da autodefesa fundada na esperar pelo pior - noção teorizada por Freud a partir de entrevistas com veteranos da Primeira Guerra Mundial, cuja conclusão foi a de que quem esteve no conflito esperando pelo pior lidava melhor com os seus traumas, enquanto que quem tinha ido com a esperança de ser mais tranquilo, desenvolvia maiores sequelas. Assim, é caso de não temer as sequelas nem abandonar o espírito crítico. Na incapacidade de distinguir realidades - incapacidade ou conveniência - alguns costumam jogar fora a água suja com o bebê, uma espécie de expectativa negativa sem razão de ser diante do que ainda nem se realizou: seja para com o cineasta que está fazendo seu segundo filme depois do primeiro estrear em Cannes, seja para com o primeiro longa de um cineasta cuja carreira de curtas é bastante festejada ou, por fim, seja para com a perpetuação de festivais recém-nascidos. Comecei a pensar sobre isso hoje, porque senti o peso ao ouvir falarem negativamente da segunda edição do Janela Internacional de Cinema do Recife. Ok, sexta-feira foi um caos no Cinema da Fundação, a festa no sábado só ficou boa depois que superou o conceito festa-fila lá pras das 3 da manhã, o janela crítica está um tédio / fiasco, o janela indiscreta nem comento, mas, ufa, ainda restam os filmes e, esses sim, objetos mais importantes e motivo de toda cruzada, continuam carregando o paradoxo da singularidade e diversidade de maneira bastante sólida.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Κώστας Γαβράς

Quem escrever, falar, sussurrar Costa-Gavras mais uma vez colocando o 'r' no lugar errado, Costa-Gravas, é a mulher do padre. É que esse erro é trauma de adolescência: desde os treze anos brinco de corrigir. Minha paciência que já não era muito o meu forte meio que acabou.

Só espero que a Graça Araújo se confunda. Ela pode. Sobe som. Palmas. Flashs. Alunos da Maurício de Nassau.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Super 8


(Publicado originalmente no Janela Crítica)

A prova básica da inexistência de uma política pública de preservação e de uma vivência compartilhada do esquecimento de nossa história no âmbito cultural - e que obviamente se reflete e se legitima em outros âmbitos - é o desaparecimento e deterioração de boa parte, melhor dizendo, da maior parte dos curtas pernambucanos em Super 8. O que nos chega é por méritos pessoais de um ou outro realizador ou colecionador mais cauteloso. Movimento sem pretensões revolucionárias e vinculado a nomes como Fernando Spencer, Jomard Muniz de Britto, Paulo Bruscky, Osman Godoy, Geneton Moraes Neto, Kátia Mesel, Félix Filho, Celso Marconi, Paulo Cunha, Lima, entre outros, o Super 8, segundo Alexandre Figueirôa, realizou durante a década de 70 até o início da década seguinte "o registro poético do nosso imaginário cotidiano" se aproveitando de câmeras que "deveriam ser apenas cinema doméstico a ser usado pelas famílias abastadas no registro de suas festas e passeios". Uma comparação com as câmeras digitais - e a re-significação que elas deram ao processo produtivo do cinema contemporâneo, especialmente em cidades periféricas - não me parece mera coincidência.

Ontem (18/11), voltando para casa depois da sessão especial sobre o movimento em questão, intitulada sagazmente de 'A Cura do ócio dos filhos da classe média' e com destaque* para Cinema Glória (1978), de Fernando Spencer e Félix Filho, Jogos Frutais Frugais (1979), de Jomard Muniz de Brito e o O 13° Trabalho (1973), de Osman Godoy, fiquei pensando como a minha geração (e a geração mais nova) segue uma tendência de acreditar que todos os produtos culturais de todas as épocas de todos os campos estão disponíveis na internet, às vezes estabelecendo uma lógica de crença tão radical que passa a instituir ao que não está online, o status de não existir. O que é uma inversão bem particular, uma confusão dos referentes do virtual e do real. São os deslumbrados por uma premissa que se torna prisão: "se não tem para download, deixo de me interessar, esqueço, vou buscar o que tem e isso me basta". Até entendo essa relação comodista da juventude com a rede, faço parte dela em certa medida, mas ao mesmo tempo, ela lembra uma pergunta que me assombrava demais na infância: se de algum modo você soubesse que existiu, podemos dizer que um dinossauro cujo fóssil nunca foi encontrado ou uma civilização que não deixou registro algum simplesmente não existiu? É uma arapuca argumentativa, um oroboro de idéias. Não há propriamente uma resposta, mas, pelo menos, não questionemos a pergunta, pois foi a partir dela e da sala de cinema relativamente vazia ontem que, de alguma forma, lamentei pelos curtas em Super 8 existirem e não existirem.

Cansado e intrigado com tais questionamentos de fim de noite, decidi entrar em contato com alguém do mestrado, talvez a própria Ângela Prysthon, para o mais rápido possível pegar todos os filmes do Jomard Muniz de Britto e jogar tudo na internet. Seria o primeiro pela facilidade. Como sou minimamente cauteloso, antes de mandar alguns e-mails, pedir alguns telefones e me meter em tremendas confusões, resolvi fazer uma pesquisa básica no google e descobri que alguém já havia concretizado minha ideia há cerca de dois anos: Ricardo Maia, também mestrando em comunicação cuja dissertação tratava justamente do famigerado tropicalista. Tudo bem que ele colocou no youtube e eu estava pensando em colocar no making off, para 'uploadar' um arquivo grande e tentar manter a melhor qualidade de imagem possível – já que o Super 8 é uma bitola sensível e suas imagens já não estão nas melhores condições – de forma que pudéssemos ver em tela cheia e facilitasse a vida de quem, de qualquer lugar, se interessasse por projeções. Vivemos a era da preservação digital individual e a política pública de preservação cultural poderia se espelhar nesse tipo de iniciativa simples para repensar suas diretrizes burocráticas. Quanto custaria colocar o acervo sobrevivente das produções pernambucanas em Super 8, com a devida preocupação, na internet? Enquanto alguém não responde, nos contentemos com o youtube e com o myspace.

* Vale destacar também a não exibição de Viva o Outro Mundo (1972), de Kátia Mesel por supostamente a realizadora não ter encontrado o próprio filme e Composições no Fio – Partituras Mutantes (1979), de Paulo Bruscky, por problemas técnicos que geraram ausência de som durante a projeção.

sábado, 15 de novembro de 2008

Solidão Pública

(Publicado originalmente no Janela Crítica)

Depois de assistir Solidão Pública pela terceira vez, consegui separar com clareza o que me emociona do que me incomoda no filme de Daniel Aragão. Basicamente a obra me conquista pela idéia matriz de comprar, por três reais, transeuntes comuns de uma praça do centro do Recife para que eles deixem filmar seus rostos – e consequentemente suas expressões, suas personas e até uma interação – diante de uma câmera pelo tempo limite de três minutos. Acho que a proposta funciona tanto como intervenção artística, intervenção que fez parte do SPA das Artes de 2007, como na forma de produto formatado, ou melhor, documentário experimental. Solidão Pública segue a linha de produções contemporâneas que assumem a 'intervenção' para fundamentar a iniciativa documental, como pode ser visto brilhantemente no trio parada dura nacional Serras da Desordem, Santiago e Jogo de Cena. E que fique claro: isso não é uma comparação direta, só um vínculo de intenções. Mas seja como for, Daniel abandona a idéia já mastigada de registrar a movimentação da praça como ela realmente é no dia-a-dia (algo que outra produção da mostra competitiva, Osório, de Heloísa Passos, tenta sem sucesso fazer), para assumir uma escancarada quebra do estado das coisas: só quando finalmente a tenda está armada, o telão montado, o povo amontoado é que ele começa a filmar. Não sei até que medida o segundo produto já estava planejado desde o primeiro, mas, de fato, Solidão Pública enquanto processo saiu do âmbito das artes plásticas para se tornar um pequeno objeto de discurso metalinguístico do documentário. Particularmente gosto destes deslocamentos quando um teor reflexivo permanece em ambos, mas principalmente quando a natureza da reflexão (e emoção) também se desloca e se deriva.

Por outro lado, há um incômodo na obra que anteriormente já me fez detestá-la incondicionalmente. Trata-se do recurso de narração logo no início – sobre a mesma tela branca onde as pessoas depois iriam se sentar diante da câmera – onde o diretor, em off, solta meia dúzia de palavras justificando de forma desnecessária sua idéia. Tal escolha se torna gradualmente redundante, até mesmo didática, na medida que o filme se desenrola, afinal ver e ouvir a idéia desabrochando sozinha me parece muito mais interessante do que tê-la explicitada, a priori, por uma falsa poesia ou uma ironia barata. Queremos o documentário e não uma palestra do porquê do documentário. O problema se torna maior quando depois disso e depois de já termos visto o desabrochar da idéia, a obra apela para outro off, o que me parece ainda pior, pois consolida o diretor como personagem narcisista do filme, algo completamente dispensável.

Por sinal, percebi uma pequena diferença de edição nesta terceira vez, pois ao final, quando vários rostos começam a passar um atrás do outro, num ritmo voraz, o diretor fez a brincadeira sem gracinha de colocar o rosto da namorada no meio da sequência e pior, o dele próprio como imagem final. Eu estava completamente entregue ao filme, ignorando os offs e tudo mais, mas quando vi Daniel Aragão se colocando ali daquela forma tão gratuita, não tive como segurar a risada. Foi uma quebra. Ok, cada um faz o que quiser de seu filme, mas depois desse coito interrompido só tenho a dizer que basta um passo para irmos de uma fábula tocante, de um documentário interventivo com cenas memoráveis, de fotografia impecável e com uma edição de som perspicaz para uma mágica viagem narcisista do incrível “eu”. Às vezes acontece e resulta em experiências profundas, mas nem sempre agradar o ego é a melhor saída.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

"Alma no vazio, deserto em expansão"

Durante a comemoração dos dez anos de Cinema da Fundação, mal terminara a concorrida sessão dupla de Muro (2008), premiado curta-metragem de Tião, quando ouvimos Cláudio Assis gritar, da última fileira, que finalmente sua geração havia sido superada. Perdi a boa oportunidade de ficar de pé e concordar, simplesmente porque nos segundos que se seguiram à projeção, um silêncio devastador tinha me tomado e, naquele exato momento, nem conseguia entender direito o motivo de alguém estar gritando tão alto. Ah sim, ok, era Cláudio Assis. O grito veio e foi como Amarelo Manga veio e foi, como Baixio das Bestas veio e foi e eu continuava educadamente imerso na obra de Tião. O silêncio me consumia. Na sequência, durante o debate, uma platéia impressionada lançou descontroladamente suas referências sobre os ombros do jovem realizador, na tentativa de, a partir de seus backgrounds particulares, apreenderem os significados de sua obra. Daí apontaram David Lynch aqui, um clima Almodóvar na primeira fase ali, uma edição Pasolini, o ritmo dos melhores Truffauts. Sem pestanejar, Tião com toda sua simplicidade e timidez assumiu desconhecer boa parte daquelas referências. Achei genial: a intensidade inerente ao filme – uma intensidade que resistiu firme na minha cabeça por semanas e que não consegui explicitar ao realizador nas diversas oportunidades que tive – desconsiderava resolver ou domesticar o enigma artístico a partir de enigmas anteriores. Na minha cabeça, eu tentava, sem sucesso, encontrar alternativas de organização cognitiva e, por enquanto, só vislumbrava por onde não seguir.

Para vocês terem uma idéia, eu sequer sabia constituir a diferença clara de até onde ia o efeito da obra sobre mim e até onde ia o meu efeito sobre ela. Por isso meu silêncio. Primeiro tudo foi sensório e nada racional, só depois teci minhas explicações, meus caminhos e tomei a alegoria da corrida como uma reflexão sobre a competitividade humana e a escolha e os custos do progresso positivista na civilização (ocidental?). Corrida dos engravatados, corrida das crianças sem ar, corrida dos homens. Meio megalomaníaco mesmo. E nesse processo de, num segundo momento, isolar Muro e descortiná-lo, me apeguei emocionalmente ao filme por ele me despertar para a idéia - que jamais me abandonou desde então - do tempo presente como uma convergência de distintos tempos em um só tempo, uma espécie de tempo disjuntivo, que revela a prepotência da humanidade ao se auto-registrar apenas pela ponta do desenvolvimento sem considerar a força histórica do atraso. Estamos na lua e ao mesmo tempo estamos em Conceição de Cima. Nem um, nem outro representam melhor nossos passos. Apenas ambos, unidos e sobrepostos, podem almejar isso. Sem dúvida, a maior beleza do filme – juntamente com o apuro técnico inquestionável – é a complexificação conceitual em detrimento da resolução do enigma que propõe – o que desnorteia as conversas meramente regionalistas ou deterministas, tira o chão de quem esperava o velho e besta cinema pernambucano, nos joga num vazio desolador, mas que logo se torna imensamente confortável. Não pela resposta fácil que se encerra após os créditos, não pelo grito que se esvazia em dois ou três dias, mas pelo contrário, pela ânsia de re-assistir que cria e que alimenta até conseguir saciar, pela difícil missão de em apenas dezoito minutos se erguer e se manter imponente como o completo oposto da indiferença. Penso muito nos ínumeros curtas que já não lembro mais e lembro de Muro, justamente o que não consigo esquecer. Alma no vazio, deserto em expansão.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Sexta Feira, 9:30, filme-surpresa

(Diário de Pernambuco, Quinta-feira, 1 de julho de 1954)

CAC, PPGCOM, UFPE

terça-feira, 8 de julho de 2008

Só foi elogiar...

Saí de Caruaru com duas malas, peguei um ônibus pra rodoviária de lá, peguei um ônibus pro TIP daqui, peguei o metrô até o Coque, peguei um ônibus até o Derby, peguei um trânsito na Agamenon, peguei uma fila na Fundaj e finalmente quando sentei minha bunda magra pra ver A Chinesa, nem deu uma hora de projeção, o filme deu pau e a sessão foi cancelada.

Eu sou uma boca de praga dos infernos.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Cinema da Fundação

Eu tinha escrito isso de manhã...

Quebrando um pouco o modus operandi de iniciar posts falando mal de qualquer coisa, e inventando raivas efêmeras de dois a três minutos, resolvi escrever algumas palavras 'rasga seda, joga confetes e se esconde' só pra dizer que o Cinema da Fundação é fera. Pode parecer clichê, rodrigo-babando-o-ovo, elogio desmedido e mesmo cegueira para possíveis deslizes técnicos ou curatoriais, mas fico imaginando, primeiramente bem egoísta, como a lista de downloads teria de ser imensamente mais ampla, como a internet teria de ser imensamente mais rápida e como o prazer de alguns filmes seria imensamente menor, ou sequer seria, se aquela salinha discreta de 196 lugares não existisse. Só semana passada, durante a mostra comemorativa de 10 anos, assisti por lá em 35mm, entre outros relevantes como Os Vivos e os Mortos e Ondas do Destino, obras que me comoveram profundamente como Casablanca, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, o excepcional Faces, de John Cassavetes e o também excepcional Muro, curta-metragem do pernambucano Tião. Pode parecer pouco ou desinteressante à primeira vista, mas eu sinceramente só tenho a agradecer. Obrigado Kleber, obrigado Luiz, obrigado rapaz do projetor. Não nos conhecemos, não nos acenamos, mas a co-presença no mesmo local uma centena de vezes já foi sem dúvida percebida. Há sempre um rosto anônimo e amigo rumo a bilheteria. Não podemos dizer que o Cinema da Fundação é uma sala qualquer, seria no mínimo uma injustiça colocá-lo junto aos Shoopings X ou Y e todas as pessoas da cidade que, por um motivo ou outro, colocam a experiência cinematográfica antes - antes da etílica, antes da teatral, da musical, do concurso público, antes de cursar direito, antes, antes, antes - tendem a se sentir acolhidos naquela escura Rua Henrique Dias ao lado do rio. Vale sempre lembrar que algumas dessas pessoas - e acho bela essa idéia - possuem até lugares marcados em suas cabeças, para além das risadas histéricas, dos comentários finos, dos elogios constrangedores ou das perguntas indiscretas. Há sempre um rosto anônimo e amigo saindo de uma sessão. Tenho de admitir que nunca gostei muito das filas, do aperto no corredor estreito, do café fechado e menos ainda do clima colunismo socialcult pré-filme, inclusive já escutei diversas vezes esses argumentos como justificativa de um afastamento, apesar do interesse na programação. Uma pena. Hoje eu pouco me importo. Estou ali pelos filmes e ponto. Todo resto é secundário.

Pelas minhas contas são 9 anos desde que apareci pela primeira vez na Fundaj em 1999, quase que por acaso, aos 14 anos, numa quinta-feira sem grandes lembranças. Uma amiga tinha ganho o passaporte e me convidou. Fui re-assistir o episódio 1 de Star Wars e o iraniano Filhos do Paraíso e depois comecei a frequentar com certa assiduidade, tendo o álibi de estudar no Derby e ter sempre a desculpa do cinema pra realmente ir ao cinema e pra sair na farra adolescente noite afora. Nesse meio tempo até já fui barrado quando tinha lá meus 16/17 anos e cheguei todo empolgado pra assistir E sua mãe também, que, se bem me lembro, tinha a restrição para maiores de 18. Fiquei puto, me passando na entrada, enquanto todo mundo dava o bilhete e entrava. Estava totalmente inconformado, meio que sendo durão pra não chorar. Adolescência é uma beleza. Cheguei ao ponto de exigir a gerência, mas não adiantou de muita coisa. Eu saí de lá me sentindo um bosta, com uma mão na frente e outra atrás. Queria porque queria sentar naquela velha cadeira de madeira, ficar algum tempo observando através da tela, me emocionar se fosse o caso e o impedimento dessa vontade, me deixou sem forças. Ok, tive outras oportunidades, mas esse acontecido deixou claro como estava distante do teatro que se perde e se vai ao concerto ou do concerto que se perde e se vai ao teatro. O vazio de não assistir o filme nada, nada mesmo podia substituir e até hoje, pois é, até hoje continuo exatamente assim. O Cinema da Fundação é um abrigo antibomba numa cidade devastada. Tudo bem que eventualmente o filme dá pau, não chega a tempo, vem com uma qualidade péssima, mas sempre podemos reconsiderar pela logística que temos em mãos. Engraçado que depois da megareforma, o espaço ficou inquestionavelmente mais confortável - alguns problemas técnicos foram amenizados e outros continuaram - entretanto, como sou uma capa de nostalgia coberta de pele, sinto uma saudade enorme dos rangidos e do desconforto do antigo espaço. Dependendo da produção exibida, rolava uma verdadeira orquestra de ruídos. Óbvio que na época eu reclamava, mas sempre ficava pensando que dava pra perceber a reação dos espectadores pelo som de suas cadeiras. Imaginem só como foi em Irreversível. A reforma devia ter deixado pelo menos uma fileira antiga, de preferência a primeira, só para imbuir o cinema da lembrança de como tudo era antes. Quem chegasse por último ia se fuder.

Pensando nisso, não é mistério para ninguém que o hábito tende a trazer o esquecimento. Quando qualquer artefato é novidade, se pensa nas consequências boas e ruins introduzidas, mas depois que o artefato é assimilado ao extremo, como se nunca tivesse existido uma época sem sua presença, a reflexão desaparece. Inventa-se o telefone e esquecemos como era antes ou sequer pensamos como seria aqui agora sem ele. Coloca-se a catraca do ônibus na frente e achamos estranho numa cidade do interior onde ainda se entra por trás. No meu caso (e tentando relacionar isso com o texto) nem posso dizer como a cidade era antes do Cinema da Fundação, mas certamente, e agora sendo menos egoísta e pensando numa realidade mais ampla, pensando em Recife, donde a diferença percentual de salas multiplexes diante de salas alternativas de exibição é na linha dos 20 pra 1, acredito que uma iniciativa e mesmo uma resistência como a da sala em questão e sob a curadoria dos jornalistas já citados é no mínimo louvável. Ambos projetam isso na tela e re-afirmam suas posturas quase que diariamente em seus escritos. Seu Zé pode dizer que é balela ambos escreverem sobre os filmes que programam, afinal 'sempre' - e também acho esse 'sempre' questionável - vão escrever bem dessas escolhas ou o outro rapazola ali, daquela revista Z, pode dizer que a instituição Joaquim Nabuco é uma forma de estruturar uma elite cultural intramuros. Essa preocupação sobre uma tal elite cultural, do domínio dos incentivos, da cordialidade entre cargos e coisas do tipo, às vezes parece discurso de quem está de fora e quer entrar. Todos querem e nem todos da mesma maneira. Acho um debate legítimo, apesar do perceptível recalque. Quanto a curadoria, podemos e devemos discordar, ninguém obriga ninguém a gostar do que passa na Fundaj, Mateus mesmo não gosta de quase nada, mas também acho que esse ato não pode se servir do discordar por apenas discordar, por isso agora-nesse-exato-momento não tenho tanto o que reclamar. Sei que Mateus deve ter e com razão. Não que a salinha de 196 lugares me pareça o bastante, por mim deveriam existir cinemas da fundação em vários bairros, deveriam ainda existir os antigos cinemas de bairro, mas levando em consideração a dependência da distribuição blockbuster na cidade, qualquer sala de exibição que mantenha uma política da diversidade, do cinema poliglota, dos projetos estéticos mais estranhos, atípicos e bizarros soa como um farol aceso numa noite chuvosa e escura. Estou em Caruaru tirando dois dias de férias, bebendo absinto e poderia até voltar na terça-feira, mas irei fazê-lo já na segunda, hoje, logo depois do almoço. Pois é, não posso perder a sessão de A Chinesa, provavelmente vou direto do TIP com mala e cuia e isso me parece o mais importante a se fazer antes de qualquer outra coisa.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Curto Circuito

Só achei estranho quando Paulo Caldas falou na Aliança Francesa que Amigos de Risco, de Daniel Bandeira 'já estava aí no circuitão'. Só faltou o bombando no circuitão. Um pouco exagerado, eu diria, afinal um único horário na semana, exatamente às 19:15, apenas na quinta-feira, apenas no Shopping Tacaruna não é bem o que podemos chamar de circuitão né? É algum avanço em termos de visibilidade comercial digamos, mas nada perto da quantidade de salas e horários que qualquer outro filme tem nos Mutiplex da vida. Nada perto mesmo. Só para termos uma idéia, As Crônicas de Nárnia, por exemplo, está atualmente com 47 sessões espalhadas em 13 salas do Recife. Indiana Jones eu não preciso nem dizer. Tudo bem que o que interessa nessa lógica é o dinheiro da programação, depois pensemos na qualidade dela, mas acho que dois horários é o mínimo que se pode dar a um filme. Dois horários, 176 minutos no caso de Amigos de Risco. Definitivamente as Sessões de Arte (ou sessões especiais) da cidade do Recife são bem ingratas aos cinéfilos desmotorizados, feios, trabalhadores noturnos e que moram longe. Por isso, sou um total defensor das sessões matutinas, acho que é uma discussão que poderia entrar em pauta em tempos de crise da tela grande. O Shopping Boa Vista já faz isso aos sábados. É uma alternativa. Há duas semanas assisti Homem de Ferro na sexta de noite e Família Savage no sábado de manhã e não é que, seguindo outros sábados, o segundo filme tinha um público bem, mas bem maior que o primeiro? Está na hora do Multiplex se tocar, sair um pouco do padrão e começar a rebolar.

Mas voltando ao circuitão, espero que daqui um tempo, Amigos de Risco entre em cartaz no Cinema do Parque. R$ 1,00 e várias sessões. Boto a maior fé e acho que só vou escrever um texto decente sobre o filme depois dessa experiência. Saí do Cine PE já pensando nela: nos estudantes gritando, nos velhos moradores da Boa Vista, nas bichas da Fun Fashion, nos trabalhadores de todo canto, no pessoal que paga o ingresso só pra dormir. Quero rever o filme de Daniel Bandeira e quero rever no Parque. Obra e local de exibição conectados profundamente. Ponto. E para não fechar esse post em clima de reivindicação panfletária - o que não é muito lá a minha praia - resolvi descontrair lembrando uma resposta e um complemento hilário de Paulo Caldas. Ao ser perguntado se a visibilidade internacional de diretores brasileiros ajudava o cinema brasileiro internacionalmente (e o que dizer do 'nacionalmente'?), ele respondeu com uma cara desconfiada que ajudava sim, mas que esse interesse muitas vezes se resumia a um determinado cinema brasileiro: atualmente, o vinculado a figuras e/ou produtoras de Fernando Meirelles e Walter Salles. Esse último mais conhecido como 'Walteza' nos bastidores-conversas-entre-cineastas-não-tão-famosos. No final das contas, da microesfera a macro, volta o debate do cânone vivo - eleito por efeito comercial ou artístico - e tudo parece se resumir numa mera luta por espaço. E aí não tem como deixar de falar nas cotas para o cinema nacional, atitude que me deprime, mas que me deprime mesmo porque é uma puta saída paliativa necessária e ainda ínfima.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Framboesa - Resultado

Não vou usar dos tópicos comumente requisitados nesse tipo de post, afinal são quase 5 horas da manhã e não estou simpatizando com esse tipo de esquematismo. O pior longa do Cine PE 2008 foi Bodas de Papel, de Daniel Sturm. Quem viu não teve dúvida. Helena Ranaldi, ator argentino, velhos de guerra e uma novela de segunda na tela grande só poderia terminar num evento altamente constrangedor. Talvez a obra tenha se revelado como as duas horas mais detestáveis do festival (e tenham noção da grandeza inversa da sentença). Até aí tudo bem. Surpresa foi escutar o Walmor Chagas apresentar o filme dizendo que "a salvação tem que vir do cinema, porque a televisão é o reino da mediocridade". Achei ótimo ele cuspir no prato que comeu como um bicho, mas se a salvação vai vir de um cinema como Bodas de Papel, f-u-d-e-u, porque, contraditoriamente à afirmação, o filme do Daniel Sturm é a vitória da televisão e da linguagem novelesca. Surpresa maior ainda foi abrir a Revista Bravo! e ver uma recomendação bizarra ao filme. Confiram o link, o texto sério vale como piada. Também inventamos, dada a situação, o prêmio 'filme telecurso 2000', destinado, com unanimidade, a Brizola, tempos de luta, com menção a narradora promovida diretamente do telemarketing para as telas. E desculpa, mas o Cid Moreira lendo o direito de resposta já é fichinha vista, revista e marcada em tempos de youtube. Quem não viu pode até achar legal, mas que é batido é. Vale lembrar ainda que o Cine PE concedeu o prêmio Gilberto Freyre ao filme Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, de Leo Falcão, patrocinado pela Fundação Gilberto Freyre. Podiam ter mudado o nome do prêmio pra ficar menos suspeito né?

Entre os curtas, o pior ficou com O Livro de Walachai, patrocinado pelo sonho Petrobras, mas que, pelo resultado final, deveria ter sido realizado sem recurso algum. A premissa da obra é interessante: uma cidade isolada do mundo que conserva sua história através de um livro manuscrito. Não é de premissas que se faz um bom filme, tanto que o desenvolvimento cai num tédio de entrevistas mornas, onde o livro termina ficando em último plano. A diretora disse ainda que iria tornar o curta, um longa metragem. Prefiro que não. Em segundo lugar ficou 'O Filme do Filme Roubado do Roubo da Loja de Filmes', uma piada carioca sem graça filmada pelo celular (e que, claramente, se vale do meio de registro como justificativa). De fato, o Cine PE 2008 valeu muito mais pelos curtas, tanto que foi até difícil elencar os 5 piores e colocá-los em votação. Ao contrário dos longas, que por conta da exigência do ineditismo, se tornou uma mostra dos recusados dos festivais anteriores. O Cine PE deu um tiro no próprio pé, ou seja, promoveu-se de forma autônoma como um framboesa de ouro. Obviamente a tosca música-tema ajuda. Talvez nem fosse preciso criar esse prêmio aqui, afinal implicitamente ele já existe de maneira oficial. Em terra que Nossa vida não cabe num Opala ganha vários prêmios, temos uma noção do deserto da concorrência. O deserto do cinema. Pior é que é um ruim que nem traz a risada, sabe? Fica uma cara de abuso. Daí, acho sensacional a história de 3.000 pessoas numa sala, pros realizadores deve ser realmente emocionante, mas o comportamento da platéia é insuportável. Tem algo mais brega do que ficar tirando fotos no meio do filme? Teve um cara que se revoltou e pediu pra pararem os flashs no meio do filme. Os flashs continuaram. Daí o cara chamou de filhos de uma puta o grupo de jovens se deliciando nos flashs. A resposta veio na forma de mais flashs e eu pedi aos céus que o cara ficasse mais revoltado e partisse pra porrada ou ao menos roubasse a câmera. Queria alguma movimentação. Ele se calou. Percebeu que era minoria. Eu me sinto um pouco assim no Cine PE. A diferença é que ao invés de ficar olhando pra tela, a vontade mesmo é de ir embora.

sábado, 3 de maio de 2008

Décimo Segundo

Na boa platéia do Cine PE, não entendi mesmo as vaias para Décimo Segundo, de Leo Lacca. Não que eu tenha gostado da obra e queira fazer uma super defesa aqui. Longe disso. Até achei Décimo Segundo um tanto chato e como sou uma pessoa enferma do pânico de semi-conhecidos ou reencontros forçados, achei muito óbvio o comportamento de ambos os personagens. Entretanto, reconheço não só uma proposta sincera, mas um punho de diretor que desafia a si mesmo naquele plano-sequência enorme de sei lá quantos minutos. Particularmente, prefiro a cena do elevador e contradizendo todos comentários, gostei bastante da fotografia, mesmo variando a todo tempo como samba do criolo doido. Ao invés de criticar como um erro técnico (e provavelmente é um erro), tomei essa variação como uma forma de revelar ao espectador, a dificuldade de se filmar naquela cozinha com tão pouco espaço, afinal a cena não é estática apesar de não sair do único cômodo. Há um movimento em pequenas medidas que me deixou um tanto bobo: tanto da câmera, como das personagens, como dos gestos dos atores. O diálogo - ou a tentativa de tornar o silêncio maior que as palavras - é o que não me convenceu e até entendo que deveria ser a maior sacada do filme. Apenas não me convenceu. De qualquer maneira, tenho, a priori, uma simpatia enorme por pernambucanos que seguem uma proposta mais particular, que vinculada a um desejo de reconhecimento através do exótico local. Leo Lacca é um deles e acho isso massa, só não gosto tanto de suas produções. Tudo bem: quando terminou o filme, me levantei e soltei um "que filme chato da porra!" (e aqui percebam a diferença, porque o chato não é necessariamente ruim).

Fiquei pensando que quem começou a vaiar foi a turma bumba-meu-ovo indignada pela falta de um caboclo de lança no elevador ou o próprio Leo Lacca sacando que a polêmica poderia lhe levar ainda mais longe. Aliás bora combinar que ser vaiado no Cine PE tem lá seu charme. Mas é incrível como o povo das palmas é tão influenciável, pois quando as vaias começaram, alguns pararam de bater as mãos e não duvido que outros tenham até começado a vaiar também.

Framboesa

Cansei do Cine PE, cansei de ver filme ruim e cansei de forçar uma escrita séria sobre algo que é tão ridículo. Resolvi ficar hoje em casa e abrir oficialmente o Prêmio Framboesa de ouro do Cine PE, afinal imaginei que apenas dessa maneira, teríamos uma mostra competitiva de verdade. Pensando bem, acabei de mudar de idéia: vou sim ao festival hoje, até porque tem um curta que quero muito ver, e aproveito para acolher sugestões e fazer propaganda das enquetes.

Amanhã posto os indicados e abro a votação.

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sexta-feira, 2 de maio de 2008

Amigos de Risco

Acho que Recife precisa de mais Amigos de Risco.

Ps.: e nunca confundam Bandeira com Aragão.