terça-feira, 27 de maio de 2008

0

Chuva, gripe e milhões de coisas pra fazer.

Além daquela chata falta de inspiração.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Indy

A certa altura do meio de Indiana Jones, eu achei demais - e fiquei me divertindo muito com a idéia - que no ritmo sincretismo interdimensional que a história se dava, o arqueólogo chapado e ex-bonitão ia terminar o filme como Han Solo assistindo 'Invasion America' ou entrando na sociedade de 'THX', depois de ter encontrado o 'E.T.' ou o 'Alien' ou mesmo descoberto que sua série, na verdade, não passava de 'Taken'. Se era pra perder a razão, que perdesse com uma classe ficção científica que os próprios idealizadores ajudaram a fundar.

Na tela, o filme terminou em casamento.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

R$ 4,99

Outro dia comprei uma câmera fotográfica de R$ 4,99 na área infantil do Atacadão dos Presentes, vendida debaixo de uma placa enorme: "Não é descartável". Todo mundo que passava terminava parando pra mexer e eventualmente descobria que aquela simpática invenção vinha da Tailândia. Existem uns preços que nos agridem e meio que nos obrigam à compra. Tipo cinema por 1 real ou DVD pirata por R$ 2,00. Isso pode ser saudável ou doentil dependendo do consumidor, mas eu sou meio viciado em promoções e nunca deixo passar. Comprei nesse mesmo dia, um filme colorido de 36 poses (pague 24 e leve 36), mas a câmera deu um problema e queimou tudo da foto 17 até 36. Nem me importei, afinal me diverti tanto com a Charming 35: totalmente automática, você precisa adequar o mundo pra ela e não o contrário. É difícil. Estava sentindo falta de imagens no blog, então resolvi colocar algumas das brincadeiras, editadas by Paint, do que consegui fazer até o número 16. Como dá para perceber, não fotografo pessoas. Tenho um puta interesse em fazer um ensaio sobre prédios abandonados, em construção e destruídos na cidade.

Prédio abandonado na Rua do Hospício (vista frontal)


Prédio abandonado na Rua do Hospício (vista lateral)


Casa em ruínas na Conde da Boa Vista


Casa em ruínas na Conde da Boa Vista


Casa em ruínas na Conde da Boa Vista

Quando terminei de tirar as fotos do lado de fora, resolvi entrar na casa, apesar do cheiro forte de merda e de bicho morto, para poder fazer algum registro lá dentro. Fiquei receoso de entrar, encontrar um cativeiro e terminar também sequestrado. Daí quando tomei coragem, vi um homem suspeito saindo, ajeitando as calças e eu estava com uma câmera azul de R$ 4,99 apontada pra ele. Fingi na hora que tudo não passava de uma egoshot.

1 real que saiu caro


Across the Universe é sem dúvida a pior pedida para beatlemaníacos. Tirando o mais óbvio do mocinho se chamar Jude e da mocinha se chamar Lucy, o filme da Julie Taymor tenta inserir todas as referências possíveis aos Fab Four num curto espaço de 133 minutos. São 7 anos de larga produção artística e lendas mil resgatadas da pior forma. E claro que o Jude volta pra Lucy no final, inspirado por 'Hey Jude' cantada por um amigo no espelho de um bar. Depois ele é cercado de jovens, crianças do subúrbio e todos cantam juntos lá lá lá lá lá, lá lá lá, hey Jude. Piegas é pouco. Ok, os Beatles são bregas pra se fuder, mas não chegam nesse nível auto-ajuda contemporâneo da coisa. Pra piorar a forçada de barra, todos os personagens secundários se chamam Martha, Prudence, Sadie, Max (personagens de algumas canções) e quando não estão dublando as péssimas versões do quarteto como se tudo fizesse um sentido dentro da história, estão soltando frases aleatórias com alusões de toda espécie à banda. Poderia falar que faltou um recorte para fundamentar uma história de amor, a partir das canções dos Beatles, mas isso seria um elogio perto do que o filme se mostra. Faltou muito mais; faltou tipo tudo. Para mim, o argumento se torna suicida desde o momento que resolve colocar a referência como objetivo central da produção, não como um alicerce dentro de uma trama. Sim, Across the Universe é puramente a referência pela referência e depois pensamos na história. E não importa tanto (na verdade, não importa nada) a maneira como essa referência é posta, ou deveria dizer jogada dentro da história. É o ápice da referencialidade vazia que comumente associamos ao pós modernismo na universidade pós moderna. Não há senso algum de quando cabe uma música ou uma alusão dentro do contexto, tudo é lançado de uma só vez se sobrepondo e se sucedendo sem parar. Cansa, pois é cansa. Como sou do tipo louco pela banda, passei pelo menos 3 anos da minha vida apenas (sim, apenas) escutando ela, conheço todas as músicas, um monte de lendas, de detalhes sobre as capas, assisti aos filmes, li o Anthology, sei possíveis interpretações para as músicas, a inspiração, histórias pessoais, brigas e cada forçada de barra que trazia algum desses elementos para o filme, sem ter uma base de necessidade, me deixava puto da vida. Isso é um erro primário, porque óbvio que ia terminar forçando a barra e tornando a obra ridícula. Na verdade, o filme já inicia forçando a barra com aquela cena na praia e o bonitão cantando 'Girl' para câmera. Pela primeira vez na minha vida, preferiria não ser beatlemaníaco, porque pelo menos não entenderia metade das referências, metade das piadas, o filme ficaria num não entendimento imenso e me pouparia dos 'putz, que merda', 'putz, que piada forçada', 'putz, mata a música' que eu soltava a cada 30 segundos. Foi meio torturante a sessão.

E o que dizer quando a Prudence entra pela janela e a Sadie pergunta 'quem é essa?' e o Max responde 'She came in through the bathroom window'? O filme é todo nessa linha. Dr. Robert (Bono do U2 se passando), Rita, Mr. Kite, Jojo e vários outros personagens de canções terminam surgindo na 'aventura', sem contar as referências a outros artistas da época, como a Sadie Janis Joplin com um Jack Daniels na mão namorando o Jimi seu Jorge Hendrix. É meio patético. Chega dá vergonha das pessoas enxergarem aquilo tudo como uma inspiração provinda da obra dos Beatles. Acho que só dei risada com o filme, sem ser do filme, quando passou uma pomba gira, lá no fundo, durante uma cena musical (se bem me lembro foi em Come Together). Tão nonsense, mas adorei. Se bem que eu não estava nem rindo da pseudo noção de psicodelia, nem dos atores, o que seria bem possível, principalmente quando eles faziam uma expressão de sacada esperta a cada piada cretina que contavam. Desejo que ninguém conheça os Beatles por esse filme. Seria uma Bad trip total.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Ônibus

Toda vez que uma pessoa gorda, bem gorda, senta ao meu lado no ônibus, me vem a imagem de uma bolota de carne junto a um saco de ossos.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Framboesa - Resultado

Não vou usar dos tópicos comumente requisitados nesse tipo de post, afinal são quase 5 horas da manhã e não estou simpatizando com esse tipo de esquematismo. O pior longa do Cine PE 2008 foi Bodas de Papel, de Daniel Sturm. Quem viu não teve dúvida. Helena Ranaldi, ator argentino, velhos de guerra e uma novela de segunda na tela grande só poderia terminar num evento altamente constrangedor. Talvez a obra tenha se revelado como as duas horas mais detestáveis do festival (e tenham noção da grandeza inversa da sentença). Até aí tudo bem. Surpresa foi escutar o Walmor Chagas apresentar o filme dizendo que "a salvação tem que vir do cinema, porque a televisão é o reino da mediocridade". Achei ótimo ele cuspir no prato que comeu como um bicho, mas se a salvação vai vir de um cinema como Bodas de Papel, f-u-d-e-u, porque, contraditoriamente à afirmação, o filme do Daniel Sturm é a vitória da televisão e da linguagem novelesca. Surpresa maior ainda foi abrir a Revista Bravo! e ver uma recomendação bizarra ao filme. Confiram o link, o texto sério vale como piada. Também inventamos, dada a situação, o prêmio 'filme telecurso 2000', destinado, com unanimidade, a Brizola, tempos de luta, com menção a narradora promovida diretamente do telemarketing para as telas. E desculpa, mas o Cid Moreira lendo o direito de resposta já é fichinha vista, revista e marcada em tempos de youtube. Quem não viu pode até achar legal, mas que é batido é. Vale lembrar ainda que o Cine PE concedeu o prêmio Gilberto Freyre ao filme Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, de Leo Falcão, patrocinado pela Fundação Gilberto Freyre. Podiam ter mudado o nome do prêmio pra ficar menos suspeito né?

Entre os curtas, o pior ficou com O Livro de Walachai, patrocinado pelo sonho Petrobras, mas que, pelo resultado final, deveria ter sido realizado sem recurso algum. A premissa da obra é interessante: uma cidade isolada do mundo que conserva sua história através de um livro manuscrito. Não é de premissas que se faz um bom filme, tanto que o desenvolvimento cai num tédio de entrevistas mornas, onde o livro termina ficando em último plano. A diretora disse ainda que iria tornar o curta, um longa metragem. Prefiro que não. Em segundo lugar ficou 'O Filme do Filme Roubado do Roubo da Loja de Filmes', uma piada carioca sem graça filmada pelo celular (e que, claramente, se vale do meio de registro como justificativa). De fato, o Cine PE 2008 valeu muito mais pelos curtas, tanto que foi até difícil elencar os 5 piores e colocá-los em votação. Ao contrário dos longas, que por conta da exigência do ineditismo, se tornou uma mostra dos recusados dos festivais anteriores. O Cine PE deu um tiro no próprio pé, ou seja, promoveu-se de forma autônoma como um framboesa de ouro. Obviamente a tosca música-tema ajuda. Talvez nem fosse preciso criar esse prêmio aqui, afinal implicitamente ele já existe de maneira oficial. Em terra que Nossa vida não cabe num Opala ganha vários prêmios, temos uma noção do deserto da concorrência. O deserto do cinema. Pior é que é um ruim que nem traz a risada, sabe? Fica uma cara de abuso. Daí, acho sensacional a história de 3.000 pessoas numa sala, pros realizadores deve ser realmente emocionante, mas o comportamento da platéia é insuportável. Tem algo mais brega do que ficar tirando fotos no meio do filme? Teve um cara que se revoltou e pediu pra pararem os flashs no meio do filme. Os flashs continuaram. Daí o cara chamou de filhos de uma puta o grupo de jovens se deliciando nos flashs. A resposta veio na forma de mais flashs e eu pedi aos céus que o cara ficasse mais revoltado e partisse pra porrada ou ao menos roubasse a câmera. Queria alguma movimentação. Ele se calou. Percebeu que era minoria. Eu me sinto um pouco assim no Cine PE. A diferença é que ao invés de ficar olhando pra tela, a vontade mesmo é de ir embora.

domingo, 18 de maio de 2008

Lição número 1: usando meios escusos para fundar o amor.

Ontem saí de casa bem cedo, de manhã, dei comida para Dolores, a gata, fui ao cinema, não gostei do filme, fui jogar futebol, ganhei o jogo, fiz defesas sensacionais e estou na final. Daí pensei em passar na festa para tomar algumas cervejas e comemorar a vitória ou simplesmente tomar algumas cervejas sem motivo, mas decidido a voltar cedo para colocar comida para Dolores. Não voltei. Lá pras tantas, depois de grades de cerveja, de vodka, de pessoas dormindo por todos os lados, descolo uma carona super legal até o fim de mundo onde eu moro e começo a lembrar da gata. Provavelmente ela estava com fome e o leite já devia ter qualhado. No caminho, percebo que esqueci minha bolsa na festa, consigo falar com o dono da casa, não sinto falta de nada, só um livro e marco de ir pegá-la na segunda. Daí depois de um caminho com tremendas aventuras, comprei até um baguete, chego em casa e... percebo que a chave da porta estava na bolsa e a bolsa estava na casa do meu amigo. Quase que eu me jogo na piscina e esqueço que o mundo existe. A carona já tinha ido embora e eu fiquei fudidamente sozinho. Para me punir, resolvi ir andando, debaixo de uma puta puta puta chuva, de madrugada até a casa da minha mãe. O porteiro falou para eu deixar o celular com ele que era mais seguro, afinal "é o que geralmente os boys tão tomando dos outros por aí". Concordei. O trajeto era basicamente a Universidade Federal de Pernambuco. Como eles fecham os portões a partir de meia noite, sim, eu tive que pular a grade, ir andando naquele lugar inóspito, comer baguete, passar pelo laguinho do terror, pisar nas lamas do inferno e passar pelo buraco do bigode. Ninguém me importunou, ninguém me roubou, ninguém me estuprou e finalmente cheguei em casa. Ensopado. Graças a Deus minha mãe estava na praia e entrei sorrateiramente. Dormi na cama do meu irmão esperando que minha gata não morresse de fome. Acordei às 09:00 em ponto, peguei o carro (estava sem habilitação, pois minha carteira estava na porra da bolsa), fui na casa do meu amigo, peguei a bolsa, voltei louco pra casa, passei antes na padaria, peguei meu celular, cheguei na frente da porta vermelha da minha casa e comecei ouvir o choro da gata. Tadinha, mas ao menos estava viva. No começo da história, fiquei super noiando que ia abrir a porta e ter um cadáver de uma gata de três meses na minha sala. Acho que Gabriela ia me expulsar de casa na sequência. Daí eu dei comida pra ela, botei leite, troquei a areia, fiz carinho, chamei de fofinha, brinquei, assistimos filme juntos e simplesmente percebi que tudo isso foi ótimo para nossa relação. Meu olhar felino foi atiçado na hora.

Tudo não passou de um grande golpe: quem apareceu pra dar comida, leite e afeto quando Dolores estava nas últimas morrendo de fome? Eu. Genial. Como não tinha pensado nisso antes? Foi ótima essa estratégia de fazê-la passar fome, achar que estava sozinha para sempre e depois chegar com a comida e com a simpatia na ponta dos dedos. Funciona totalmente. Se ela já me amava muito e tinha me escolhido como favorito, imagina agora. Tudo bem, é recíproco, mas recomendo do mesmo jeito.

Agora ela está ali, toda encolhida, na frente do ventilador, viva e num sono profundo pós refeição.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Propaganda

Queria que o corredor leste oeste fosse igual ao da propaganda da Prefeitura do Recife. O ônibus pára, o motorista sorri, só tem você na parada, não tem outros ônibus, não tem carro, não tem trânsito, não tem ninguém andando nas calçadas, se brincar a passagem é mais barata e claramente é um belo domingo de manhã. Para não dizer que o corredor leste oeste simplesmente não funciona, pois é, ele funciona no domingo de manhã. Acho que faltou um pouco de humildade no tom, afinal um discurso mais ameno e menos eufórico, tornaria a simples propaganda menos cara de pau.

Adoro o efeito reverso da publicidade.

terça-feira, 13 de maio de 2008

ai ai

Só queria dizer que o corredor caos-do-caralho leste-oeste continua sem funcionar. Ontem, dia pesado de chuva, passei meia hora contada da Guararapes até as mediações do Shopping Boa Vista (por volta das 18:00). E, por favor, não usem a situação atmosférica, nem o horário ingrato como justificativas. Não funciona. Fiquei até um pouco triste, porque o problema viário da cidade só tende a piorar em passos largos. Mas até que a demora não foi de todo ruim, pois um dos passageiros mais exaltados, um senhor idoso levemente gago, esbravejou que os estudantes precisavam se juntar, porque esse era o momento de quebrar tudo. Quebrar todas as paradas, tocar fogo nos ônibus e, por fim, jogar João Paulo no canal da Agamenon. Fiquei de cara com o tom 'independência ou morte' do discurso, mas ninguém estava o levando muito a sério. Só eu, o motorista e o cobrador batíamos palma e dávamos apoio moral.

Daí, percebendo a descrença geral e não contente em ser um movimento de minorias, o senhor olhou transtornado para parada e viu um rapaz com uma camisa da EMTU, tentando, sem sucesso, organizar o trânsito. O resto vocês imaginam. Só não chamou de bonito, mas o resto. O melhor é que o cara da EMTU não teve nem como fugir. O trânsito não andava.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Lembrança do Carnaval

No último dia de carnaval, almocei em alguma das ruas dos quatro cantos e, já fim de tarde, resolvi subir a ladeira da misericórdia, Deus sabe lá porque, pra ir até a Sé. Acontece que no meio do trajeto, cansado da subida, do carnaval, do bobó de camarão, encontrei uma bandinha, num palco naturalmente torto, fazendo cover com sotaque estranho de todos os hits da manguetown. Quando cheguei lá em cima, sentei, acendi um cigarro e fiquei escutando a bandinha tosca e observando a platéia mais fim de carnaval do meu Brasil. Era bêbado pra cá, bêbado pra lá, super-herói e papangu. Acho curioso o senso de diversão em dias de carnaval, em especial no final da tarde da terça feira de carnaval. Tudo que faz barulho é virtuose e tudo que tem boca e mexe os bracinhos, uma possível paquera. Em dado momento, o vocalista resolveu apresentar os integrantes daquela confusão e, ao fim, falou que eles eram de Minas Gerais e que amavam Pernambuco, a terra da massa, o leão do norte. Pontes, rios e overdrives impressionantes esculturas de lama. Mangue, mangue, mangue, mangue. Sério, baixava nele personalidades diferentes durante a apresentação, daí uma hora era uma mistura de Lirinha e Lenine cachacinha mineira, outra hora Chico Science e Fred 04 queijo minas. Tirando a parte que a banda não sabia tocar, que o vocalista não sabia cantar e que só restava barulho daquela bandinha punk que nunca deveria ter saído da garagem, isso me lembrou quando eu estava em São Paulo e uma menina, ao perceber que eu era daqui, começou a tecer mil elogios, do sotaque até chegar num nível terra mítica, maravilhosa, inundada, afogada, alagada de uma cultura naturalmente cult. Ser de Pernambuco é cool. Daí lembrou músicas, artistas, filmes, quis saber do carnaval, de Olinda, do sertão idílico, das fantasias, das ladeiras, das festas, da noite, da movimentação cultural incessante, do movimento indie e quis cantar juntinho. Foi tanto ufanismo que a minha primeira reação, vaidosa talvez, foi mentir um pouco, tornando a idéia dela mais ufanista ainda. Virei o próprio guia prático, exagerado e final feliz pra cultura popular - agora massificada - da cidade do Recife. Um maracatu pra cada rua. Centros culturais pipocando por todos os lados. Frevo, frevo, frevo. Uma bandinha em cada supermercado. Vários cinemas alternativos. Leis de incentivo que é uma beleza. As pontes são lindas (e são), o chão é limpo e não temos trânsito. Soube que essa menina chegou a vir ao Recife, mas não tive muita cara de encontrar com ela. Melhor que a pernambucanidade pernambucana é a pernambucanidadeew estrangeira. Daí a galera vem pra cá, faz o curso de pastor - ou vira um cético legal, passa dois dias em Caruaru e diz que conheceu o sertão e volta para o seu fim de mundo, com a força da palavra. Novos totens com a imagem velha, cansada e clichê são erguidos todos os dias nos quatro cantos dessa país.

Pernambuco é meu pastor e nada me faltará.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Mudança

Rodrigo diz:
olha

Rodrigo diz:
oficialmente vou morar com gabi

Rodrigo diz:
me mudo amanhã

carolina diz:
:O:O

carolina diz:
já?!

carolina diz:
quebrasse o barraco na tua casa e tá saindo que nem aqueles pirralhas?

Rodrigo diz:
não né

Rodrigo diz:
¬¬

carolina diz:
ahhahaha

carolina diz:
que bom

Rodrigo diz:
minha mãe já sabe q vou sair

carolina diz:
to feliz \o/

carolina diz:
muitas historias de orgias vão surgir

carolina diz:
vou me divertir mais ainda nessa vida

?

O que se pretende achar quando se procura no google "Disney sem braço sem perna"?

...

Eu fiquei imaginando que o cidadão ou cidadã estava procurando algum peixe, tipo Nemo, alguma cobra ou algum ser fantástico inventado que não tivesse membros, mas depois fiquei pirando que era um sádico psicopata em busca de fotos de acidentes no parque temático da Disney, onde criancinhas indefesas terminassem todas estrupiadas. Não posso saber o que ele (ou ela) queria achar, mas sei que a pessoa terminou chegando no Dissenso.

Como assim?

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Não recomendo

O Sistema Jornal do Commercio de Comunicação e Publicidade abriu uma promoção com o lema "encha a sua mãe de alegria, a cabeça de informação e o pé de conforto", onde você paga os olhos da cara, assina o JC + Veja e ganha uma havaiana, sendo que no lugar onde deveria ter escrito 'havaianas', tem escrito 'veja'. Pois é, você ainda paga por isso. Eu fiquei em pânico, imaginando uma nova moda e a Conde da Boa Vista tomada pelas sandálias 'veja'. Por favor, filhos do mundo, não façam essa presepada com suas mães. Elas não merecem, coitadas. Mas o que eu achei realmente engraçado foi que deduzindo a lógica da propaganda de forma primária, as sandálias são para encher os pés de conforto, a Veja é para encher a cabeça de informação (RÁ) e o JC para encher a sua mãe de alegria. Tirando o conforto da sandália e a informação da Veja, o primeiro aspecto não posso falar, mas o segundo é completamente irreal, até que o JC é uma alegria só mesmo: você lê e fica morrendo de rir. Por isso, eu assumo que tenho a assinatura com todo prazer.

Cultura Inútil

Achei a palestra do professor dinamarquês Norbert Wilderbuth - também professor de Harry potter em Hogwarts - um verdadeiro gato por lebre. Como no e-mail que recebi com resumo da temática havia um delineamento sobre ciberativismo, ciberprostesto, achei que ele ia debandar para o ciberativismo de fato, ciberterrorismo, pirataria e tal. Fui super empolgado esperando colher contatos de hackers, iniciativas desconhecidas e terroristas virtuais dinamarqueses ou europeus e de repente, quando me dou conta, o que está rolando era apenas um papo ONG, um caramujo acadêmico e a velha culpa européia pelo mundo subdesenvolvido. Tudo muito teó-ó-órico, o que, pra mim, soou muito mais passi-i-ivo. Além de que vamos deixar bem claro: exemplos com dados da Dinamarca, com vícios comportamentais dinamarqueses você aplica na Dinamarca e não pensa o mundo, como se o mundo fosse a Dinamarca. Se abrir a porteira geral, daqui a pouco neguinho está usando a Paraíba para explicar a revolução francesa.

Além de todo papo teórico de que a internet só está aumentando a desigualdade social (e ainda vou escrever um post exclusivamente sobre isso), que o mundo está uma merda e 'olhe aqui, eu apresento dados', na prática, o Norbert só mostrou um documentário C, feito por ele aqui no Brasil, com um som péssimo e com um garotinho da comunidade X que passava cerca de 8 horas na frente da televisão. Meu ovo inchou na hora. Graças a Deus, nem tudo foi merda. Entre o excesso de palavras sobre consumo passivo, o mundo dos coitadinhos contra a mídia baixo astral e todo blá blá blá falso moralista que condena a tecnologia por existir, o Norbert soltou uma coisa extremamente interessante. Acho que a palestra valeu só por esse momento. O que ele disse, dentro da discussão sobre o menino na frente da televisão, foi que, para ele - o menino, a cultura inútil era importante e funcionava como moeda social. E funciona total, não só para o garoto pobre, como para o acadêmico que fofoca nos corredores de comunicação, como para boa parte da população conectada ou desconectada. Cultura útil e a cultura inútil têm suas funções sociais. No mundo popular, temos a fofoca, a mentira, os jornais, as revistas e a televisão e na internet, temos tudo isso, mais o youtube, orkut, o fotolog, o vimeo, videolog, entre outros.

Eu não passo um dia sem a intimação, por parte de algum amigo, de um vídeo engraçado, que mais na frente funciona como moeda social numa festa qualquer ou numa conversa animada. Até porque nas festas que eu vou, o pessoal começa no Deleuze e depois desce até o chão - com Foucault ou sem Foucault. Então abri esse post só para colaborar com a cultura inútil de todos vocês, porque eu me preocupo com o nível cultural de todos e atualmente cada vídeo idiota vale R$ 5,00 em moeda social. Estou me sentindo o próprio tio patinhas se o tio patinhas não fosse um puta pirangueiro. Alguns clássicos.

[versão 2] berenice segura! [leila lopes remix sem música]



Narcisa Tamborindeguy no Amaury Jr. COMPLETO



Reconstituição do Caso Ronaldo com Travestis - Pânico na TV


domingo, 4 de maio de 2008

Oftalmologia

Acho que me apaixonei realmente pelo cinema quando, ainda garoto, o médico trouxe alguns exames e descobri que, a partir dali, só poderia enxergar através de lentes.

Marcha da Maconha

Quase que eu deixava essa passar. A justiça do nosso querido país proibiu a realização da Marcha da Maconha em 9 das 10 capitais brasileiras onde o evento aconteceria neste domingo (04/05) às 14:00 horas. A Marcha no Brasil faz parte de um circuito de manifestações, que também ocorrerá em 19 outros países (totalizando 220 cidades), para que seja aberto um debate sobre a legalização e usos medicinais e industriais da erva. Estou um pouco cansado de pensar sobre a justiça de nosso país, então vou enveredar por outro caminho menos crítico e mais eufórico.

Adivinha só em qual cidade brasileira a Marcha da Maconha está permitida? Re-ci-fe \o\, Re-ci-fe \o/, Re-ci-fe /o/. Fiquei tão orgulhoso dessa vez, mas estou receoso de como serão as manchetes de amanhã. Depois de Veneza Brasileira, podemos chamar de Holanda nordestina. Acho vanguarda e se não tivesse um milhão de coisas urgentes para fazer, estaria com certeza lá amanhã na Rua do Apolo com a minha máscara do Fernando Gabeira. Vale lembrar que, em teoria, é proibido levar maconha, mas na dúvida não esqueçam da seda.

ha-ha-ha

Último dia

Atendendo as minhas preces, chegamos ao fim de mais um Cine PE. Não deveria nem fazer o comentário a seguir, mas gostei muito dos dois curtas que eu vi nesse sábado, talvez por motivos mais pessoais que cinematográficos. Talvez nada. Com certeza. O que de certa forma é justo e não desmerece o prazer em si. O primeiro foi "Os filmes que não fiz" e rolou uma identificação de cara. O título é auto-explicativo e a minha vida de cineasta também. Senti todo sarcasmo e ironia caindo lentamente sobre mim e, quem diria, me fez um bem danado. Foi quase como expurgar alguns demônios em dez minutos. No entanto, o que realmente me veio na cabeça foi uma antiga definição que coloquei num blog meu ou mesmo no orkut. Era algo como 'as palavras antes das imagens e o silêncio antes das palavras. Ou tudo misturado num embrulho clandestino'. Acho que nunca me senti tanto um embrulho clandestino como nos últimos meses. Não penso mais em um campo absoluto, nem encontro sentido n'A arte, uma ou outra, mas nas artes, todas juntas, ao mesmo tempo, agora. O segundo curta-metragem, "Café com leite", era o bam-bam-bam do festival. Provavelmente o mais esperado por sua carreira internacional bem sucedida. Não posso esconder que também rolou uma identificação rápida, apesar de não tão profunda quanto a do filme anterior. De um lado da platéia, o 'owww que fofo', do outro 'nojento filho da puta'. Infelizmente o título não é auto-explicativo e nem sou eu quem vai explicar. Assistam. Ponto.

Foi uma pena que cheguei um pouco atrasado e perdi o Dossiê Rê-Bordosa, ou seja, perdi mais uma sessão de auto-explicação e identificação certa. E se brincar, a mais radical entre todas.

sábado, 3 de maio de 2008

Décimo Segundo

Na boa platéia do Cine PE, não entendi mesmo as vaias para Décimo Segundo, de Leo Lacca. Não que eu tenha gostado da obra e queira fazer uma super defesa aqui. Longe disso. Até achei Décimo Segundo um tanto chato e como sou uma pessoa enferma do pânico de semi-conhecidos ou reencontros forçados, achei muito óbvio o comportamento de ambos os personagens. Entretanto, reconheço não só uma proposta sincera, mas um punho de diretor que desafia a si mesmo naquele plano-sequência enorme de sei lá quantos minutos. Particularmente, prefiro a cena do elevador e contradizendo todos comentários, gostei bastante da fotografia, mesmo variando a todo tempo como samba do criolo doido. Ao invés de criticar como um erro técnico (e provavelmente é um erro), tomei essa variação como uma forma de revelar ao espectador, a dificuldade de se filmar naquela cozinha com tão pouco espaço, afinal a cena não é estática apesar de não sair do único cômodo. Há um movimento em pequenas medidas que me deixou um tanto bobo: tanto da câmera, como das personagens, como dos gestos dos atores. O diálogo - ou a tentativa de tornar o silêncio maior que as palavras - é o que não me convenceu e até entendo que deveria ser a maior sacada do filme. Apenas não me convenceu. De qualquer maneira, tenho, a priori, uma simpatia enorme por pernambucanos que seguem uma proposta mais particular, que vinculada a um desejo de reconhecimento através do exótico local. Leo Lacca é um deles e acho isso massa, só não gosto tanto de suas produções. Tudo bem: quando terminou o filme, me levantei e soltei um "que filme chato da porra!" (e aqui percebam a diferença, porque o chato não é necessariamente ruim).

Fiquei pensando que quem começou a vaiar foi a turma bumba-meu-ovo indignada pela falta de um caboclo de lança no elevador ou o próprio Leo Lacca sacando que a polêmica poderia lhe levar ainda mais longe. Aliás bora combinar que ser vaiado no Cine PE tem lá seu charme. Mas é incrível como o povo das palmas é tão influenciável, pois quando as vaias começaram, alguns pararam de bater as mãos e não duvido que outros tenham até começado a vaiar também.

Framboesa

Cansei do Cine PE, cansei de ver filme ruim e cansei de forçar uma escrita séria sobre algo que é tão ridículo. Resolvi ficar hoje em casa e abrir oficialmente o Prêmio Framboesa de ouro do Cine PE, afinal imaginei que apenas dessa maneira, teríamos uma mostra competitiva de verdade. Pensando bem, acabei de mudar de idéia: vou sim ao festival hoje, até porque tem um curta que quero muito ver, e aproveito para acolher sugestões e fazer propaganda das enquetes.

Amanhã posto os indicados e abro a votação.

Para sugestão de categoria ou para votar em alguma resposta não existente nas categorias já criadas, deixe um comentário.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Amigos de Risco

Acho que Recife precisa de mais Amigos de Risco.

Ps.: e nunca confundam Bandeira com Aragão.

Ocidente

Ocidente é um filme parnasiano: o velho belo com cheiro de 'arte-pela-arte-em-minha-última-viagem-pela-Europa'.

terça-feira, 29 de abril de 2008

home, sweet home

Preciso sair de casa e ir morar sozinho logo, urgente mesmo, antes que eu não consiga mais controlar minha língua, cuspa na cara de todo mundo da minha família e seja expulso com malas jogadas na rua, gritos e tudo que tenho direito. Acho que tem uma bomba H dentro de mim pronta pra explodir. Para vocês terem uma noção do abuso, eu só namorei uma vez na vida, por nem dois meses, daí vocês tiram o quão estou louco em conviver 23 anos com as mesmas pessoas. Minha relação com a minha mãe é ótima pelo telefone e pode se tornar bem melhor com apenas uma visita por semana. De preferência, na hora do almoço.

Acho que vou ali entrar naquela fila dos topa tudo por dinheiro.

domingo, 27 de abril de 2008

Boa Noite

- Oi, sou eu. O que tu vai fazer hoje de noite?

- hmmm... não sei. Eu devia estudar, mas acho que não tô muito disposto.

- Tu não queres vir aqui pra casa ver o caso Isabella no Fantástico, não?

- É uma. Pode ser. É uma pena que não tem o William Bonner, mas acho que vou. Ao menos tem pipoca aí?

- Tem. Traz o refri.

Mostra - Parte 2

Eu vivo aprendendo com a vida: terminei o texto anterior, tomei um banho rápido, peguei um ônibus pra Fundaj, cheguei exatamente as dezenove horas, os ingressos estavam esgotados como ontem, tentei usar a influência da minha credencial diante da gerente do cinema, não colou e não consegui entrar. Mais um capítulo perdedor pro meu álbum de fotografias. Pior que nem me irritei, porque além de não ter lugar realmente e de não me deixarem sentar na escada por questões de segurança, algumas pessoas da produção dos filmes estavam de pé no fundão.

Peguei uma pipoca e voltei pra casa, afinal tirando pelo dia anterior, a pipoca realmente estava bem melhor que os filmes.

Mostra

Acho que o melhor de ontem - além de chegar com os ingressos esgotados, conseguir entrar e entrar de graça - foi perceber algumas reações de um distinto senhor sentado ao meu lado. Primeiro ele reclamou da música irritante e depois do atraso. Em dado momento da espera, olhou o relógio mais uma vez e resmungou que aquilo não era comum na Fundaj. Concordei, lógico. Tenho simpatia ilimitada por velhos ranzinzas: é quase como vislumbrar um pedaço do meu futuro. Pelo tom da conversa com a mulher que o acompanhava, ele - o senhor - frequentava semanalmente aquele espaço e não tinha resquício de noção da chacota que é o Cine PE. Para os que não sabem, vale só lembrar que o atraso é o menor dos problemas. Como de rotina, rolou as apresentações iniciais - aos quais não vou me deter - e, quando os filmes começaram, tudo ficou mais engraçado. O senhor bateu palmas receosas para o primeiro; estalou os dedos e não bateu para o segundo, bateu no mesmo ritmo do resto da sala eufórica no terceiro, bateu de leve, quase alisando os dedos para quarto, fez várias caretas de gosto e desgosto ao término do quinto e foi ao banheiro e nunca mais voltou no meio do último. Claramente ele estranhou o ritual de comportamento da platéia do festival e admito que até hoje, faço graça das palmas, mas também não sou chato ao ponto de não me deixar levar. Aplaudo quando sinto vontade de aplaudir, imito o 'cri cri cri' do grilo, fico em silêncio, choro, faço piada, mando tomar no cu. Parafraseando Baixio das Bestas (rá), o bom do Cine PE é que nele você pode fazer o que quiser.

Pra facilitar a minha vida, a sua, a dele vamos ao resumo da programação da noite: só gostei bastante do filme sobre Miró, dirigido por Wilson Freire. O que me surpreendeu. Achei o documentário apressado, debochado, um tanto brega e fundado num discurso de cosmopolitismo periférico que casa perfeitamente com o ritmo do próprio poeta. Além disso, o filme expõe enquadramentos espertos em cenários visualmente banalizados para nós, recifenses. A Ponte ou o Mercado da Boa Vista, por exemplo. O que mais me chamou a atenção foi a própria maneira de conduzir a obra, porque inicialmente achei que a figura de Miró poderia suplantar tudo, inclusive o diretor. E isso não acontece. Pelo contrário: há um senso de espaço compartilhado para ambos. O que dá uma leveza, espontaneidade e naturalidade ao andamento. O tal alegrismo que ele fala. Se existe essa beleza mais formal na obra - que falha um pouco na edição apenas, também temos tudo que poderíamos previamente esperar e que não poderia deixar de ter. Aí colocamos a poesia corporal do cara, as histórias pesadas, as piadas ótimas, os inventos, as figuras e mesmo as presenças ilustres, Jomard, França, Lucila. O Recife sujo, belo e as mesas de bar. Se a Mostra Pernambuco fosse um bolão seria Miró na cabeça sem perder de vista, Paulo e Daniel. Pois é, os apóstolos. Engraçado que ambos foram traídos justamente pela palavra: o primeiro por usá-la excessivamente através dos cartazes e o segundo por forçar um teor poético poético desnecessário no off. Os outros três, eu prefiro nem comentar. Só acho que A Última Diva vale alguma atenção pelo que a própria diretora falou no começo: o resgate histórico. Ponto. Feito o resgate, tchau.

Só pra terminar esse comentário, não posso esquecer de falar que do meu outro lado, o esquerdo, tinha uma possível jornalista sentada: olhos na tela, mão no lápis, lápis no caderninho. Eu já estava bocejando de tédio, quando seu braço esbarrou no meu e a percebi escrevendo, depois virando página, tudo sem tirar o olho do filme. Juro que aquele modos operandi só me remeteu a Chico Xavier. Uma espécie de psicografia cinematográfica.

Estou oficialmente sem saco algum de escrever sério e centrado, como bom rapaz de óculos que sou, no Dissenso, então provavelmente vou repetir esse post nos comentários e assinar como jurubeba brasil.

sábado, 26 de abril de 2008

Nomes

É engraçado como só chamamos (ou pensamos em) algumas pessoas pelo nome e sobrenome juntos. Quase como se fosse uma coisa só. Estou escrevendo sobre isso só porque algumas pessoas, ultimamente, vêm me chamando de rodrigoalmeida. Acho estranho, mas não me incomodo. E quando tem uma certa ironia enrustida na expressão, gosto de verdade. Lembro que na quinta ou sexta série liguei para a casa de uma menina e perguntei: "Mariana Mesquista, por favor?". A mãe, tia, empregada ou sei lá quem que atendeu o telefone respondeu super grosseira: "Quantas Marianas você acha que tem aqui, meu filho?". Fiquei todo errado, mas esse hábito nunca me abandonou por completo. Vejam na universidade, por exemplo. Tudo bem que tem os professores que chamamos só pelo nome, sobrenome ou apelido carinhoso: Cléééériston, Dacier, Vizeu, Momesso e Tina estão nesse grupo. Entretanto, do outro lado temos os professores ao qual nos acostumamos a juntar nome e sobrenome como se um não fizesse sentido sem o outro. O que seria da Ângela sem o Prysthon, do Paulo sem o Cunha e do Eduardo ou da Isabel sem o Duarte. Não seria a mesma coisa né?

Ainda assim, o melhor nome de professor é José Mário Austreasjnfjksfhdknfmkdnjfgésilo...

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Psicodelia pura!

Foi inaugurada a primeira praia psicodélica do mundo em Santa Marta, na Colômbia. Tudo começou com um derramamento acidental de 10 toneladas de óleo na última quarta-feira que, segundo os pescadores da região, vem sendo responsável pela morte de vários animais marinhos. As autoridades colombianas, entretanto, afirmam que o óleo era 'biodegradável' e que não agride a natureza. Desculpa, mas só com muito LSD pra acreditar nessa né?

Cannes

'Muro', de Tião vai passar na Quinzena dos Realizadores! Muito foda isso. Engraçado que semana passada eu estava justamente pensando nesse curta-metragem, que tinha sido contemplado com o Ary Severo em 2004, mas que nunca tinha visto o lançamento, nem nada. Depois saiu 'Eisenstein' e eu achei que o projeto tinha morgado. Mero engano. O nome só foi reduzido e assim, compacto, me soou bem melhor. Enfim... isso é o que menos interessa.

Parabéns pra Tião, bicho. Botou pra fuder geral!

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Risada

A televisão brasileira é um eterno programa de humor.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

vamos salvar o planeta, pessoal!!!

"Próximo 3 de maio é dia de desligar o PC

O Shutdown Day, que em 2007 contou com mais de 65 mil participantes, propõe que os usários desliguem seus PCs por 24 horas para salvar a natureza".

Deve fazer um bem enorme ao humor ficar criando essas campanhas non sense. Só pode. Acho que cada ser humano tem o direito de criar a sua própria campanha quero-salvar-o-mundo-também e fazer da própria vida uma piada sem fim. Pensei até na minha, mas claramente sou pouco criativo e ela já deve existir em algum recanto bizarro por aí: pensei em combinar que todos parássemos de respirar por 30 segundos, para diminuir a emissão de gás carbônico na atmosfera. Pra fugir um pouco do clichê, podíamos parar de respirar e cantar We are the World simultaneamente. Pra fugir mais ainda, podíamos parar de respirtar, cantar We are the World e gravar para podermos rever várias vezes no youtube... pronto, já posso ir dormir feliz agora. Acho que vou sonhar com 'terra, fogo, água, vento, coraçããão: pela união de seus poderes, eu sou Capitão Planeta! Vai Planeta!' Como a Globo ainda não se tocou que esse desenho ia bombar total nos dias atuais pseudo-ambientalmente-conscientes? Só digo uma coisa: esse diretor de programação está vacilando demais. Bob Esponja + Capitão Planeta ia tornar as crianças muito mais alucinógenas e alucinadas. Com todo respeito a natureza é claro. Por sinal, não é por nada que Mário - um amigo que faz mestrado em ecologia em Manaus - quer mais que o aquecimento global se exploda e se recusa a escutar os falsos moralismos disparados a cada esquina. Ultimamente, todo mundo é perito em tudo e todo mundo quer soar defensor das causas nobres. Fico só imaginando as palestras e debates sobre a situação do clima no planeta e, ao final, todos saindo em seus carros com ar-condicionado. Parece piada né? HAHAHAHA. Pois saibam, não é. O conforto ainda é a lei de todo esse povo. Que seja.

A nota citada acima saiu no caderno de Informática do JC de hoje.

terça-feira, 22 de abril de 2008

loser way of life

Continuando a minha saga 'sou loser e não desisto nunca' fui ontem em Boa Viagem, aquela simpatia de bairro (sim, é uma ironia), pegar minha credencial para o Cine-PE. Tudo ok - podem acompanhar e colaborar, a partir de domingo, com a cobertura escreva-você-mesmo lá no Dissenso. Depois do olhar da assessora de imprensa 'tem certeza que você é Rodrigo Almeida?', passei no Shopping Recife rapidamente e descobri que apenas uma lanchonete da praça de alimentação antiga tem suco de polpa pra vender. O resto é em lata, refresco nojento-péssimo e a maioria absoluta nem tem essa opção no cardápio. Tomei um suco de acerola. R$ 3 por 300 ml é pra se fuder no país tropical. Tudo bem, tudo bem, dou um desconto porque sempre fico com a pena do universo de quem trabalha 12 horas dentro daquele espaço 'loucura ou morte', mas nem só de pena vive o homem. E, provavelmente, eu menos que os outros homens. Prefiro a compaixão... ou a raiva, o cinismo, a grosseria, o descontentamento, a provocação, o abuso e todos os sinônimos que o quiroga-ponto-net pode encontrar para o signo de áries. Enfim, tomei o meu suco e segui o meu caminho. Aproveitando que já tinha saído de casa, fui ao Cinema Apolo assistir A Marca da Maldade, de Orson Welles. Cheguei lá vinte minutos antes, super feliz com o meu senso de responsabilidade, super feliz que ia ver um filme ótimo, aí entro saltitante e pergunto se já estava vendendo ingresso. A moça, uma segurança charmosa de uniforme, responde:

- Não vai ter sessão hoje não.

- NÃO? SÉRIO? (e o Caps Lock aqui não é à toa)

- Não. A fita partiu no domingo e ontem já não teve e hoje também não vai ter.

- /o\ Poxa... nem saiu no jornal avisando né?

- Saiu não? - perguntou a mulher numa simpatia ímpar (e sim, agora é sério)

- /o\ Acho que não. Pelo menos, eu não vi nada no JC.

Fiquei lá com carinha de cachorro sem dono, olhando os folhetos, cartazes, buscando na mente alguma alternativa e consequentemente sem conseguir pensar em nada. Pra piorar tudo, desde quinta estou sem celular - o que está se mostrando uma experiência ótima de desapego, mas que não ajuda muito quando tudo o que você quer é ligar para algum amigo e pedir uma sugestão ou requisitar companhia. A mulher percebeu minha angústia, até porque fiz questão de não disfarçar o quão estava frustrado, e pegou um papel em suas mãos.

- Mas olha, no Cinema do Parque tem uma sessão que começa agora de 17:30. Deixa eu olhar aqui pro senhor pra ver qual é o filme.

- Eita, é mesmo, olha aí... - comecei a esboçar um sorriso, porque achava que era Piaf e seria ótimo rever no cinema.

- Olha aqui: de 17:30 o filme é "Meu nome não é Johnny".

- ¬¬ Aff... ok, obrigado.

O cara sai de casa pra ver um Orson Welles e recebe recomendação de Meu nome não é Johnny é pra surtar e sair quebrando tudo. Podia até fazer isso, numa linha João Guilherme Estrella, alegando, inclusive, que tinha cheirado cocaína - só pra jogar alguma referência à obra do diretor Mauro Lima e ao personagem do Selton Mello. Ok, entendo que a pobre moça, uma segurança charmosa de uniforme, só estava querendo ajudar. Não fiquei com raiva dela, longe disso, mas é que esse filminho brasileiro foi responsável pela última vez que tive vontade de sair do cinema no meio de uma sessão - antes disso foi há dez anos, aos 13, em Volcano, do Mick Jackson (O_O). Ambas as produções são muito, muito, muito ruins, daquelas que terminam e você acredita piamente que merece seu dinheiro de volta. Nem vou perder meu querido tempo elencando os motivos. Sequer vale a pena. Engoli toda a frustração, lembrei do Tibet, voltei pra casa bem triste, peguei um CDU / Várzea lotado (ao menos fui sentado), enfrentei o corredor-caos-do-caralho-leste-oeste e cheguei em casa todo suado, começando a me sentir meio mal.

Liguei o computador, fiquei pensando qual filme devia assistir pra compensar e 'puft', o computador desliga sozinho e aparece como se o windows tivesse sido desinstalado. Surtei. Sério, eu vi a minha vida passar como um filme (a infâmia é meu pastor e nada me faltará). Tentei umas dez vezes reiniciar até que desisti, sentei no sofá e entrei em depressão. Minha mãe passou pela sala, me fitou com olhos esbugalhados e disse que eu estava anêmico. Todo dia ela diz que eu estou alguma coisa: amarelo, anêmico, magricelo, bêbado e por aí vai. Novamente com o Tibet na cabeça, reuni todas as minhas forças, fui até o computador, desconectei tudo, peguei a CPU nos braços, cantei canções de ninar, limpei, troquei a fralda, desenrolei os fios e religuei tudo. Né que o danado voltou ao normal. Foi tanta carga energética envolvida nesse exorcismo tecnológico que acordei hoje me sentindo mal realmente e não pelo computador. Corpo mole, marcas pelo corpo, febre e pois é... estou oficialmente no grupo dos com 'suspeita de dengue' - o que é uma categoria aparte de doença. Não é dengue, nem é gripe. É só a síndrome de ser loser demais.

o mesmo céu, o mesmo dia (05)

09:00 - Com uma câmera emprestada foda e um fotógrafo simpático o céu pode ser verde...


15:00 - ...azul...


21:00 - ... ou estranho. (e sem tripé)

Conversa com um amigo na Alemanha

Rodrigo diz:
Eu não aguento mais esse caso Isabella...

P. diz:
Imagino. Até EU não aguento mais.

Filosofia do Suicídio


Recomendado para maiores de 16 anos, ok? Pode parecer uma puta falta de sensibilidade, mas não gostei nem um pouco de Cartas de Iwo Jima, apesar de reconhecer uma cena espetacular na obra de Eastwood. Uma cena de 5 minutos dentro dos arrastados 141. Refiro-me ao momento do suicídio coletivo de sete ou oito soldados japoneses, dentro de um túnel cavado no interior de uma montanha. Fiquei impressionado com a crueza e fusão de elementos contrários: lado a lado caminham uma espécie de beleza estético-filosófica da crença e a nossa própria repulsa moral baseada em preceitos do ocidente. Vemos aquele 'horror' se tornar mais 'horror' por conta dos olhos do diretor. Acho que fiquei ainda mais impressionado porque até ali o filme não passava de um hiato. Balela, balela, balela e balela. É como se, repentinamente, o roteiro tivesse dado um estalo, como se um clímax surgisse do nada. Certos da derrota e praticamente sem saída, os soldados preferem tirar a própria vida a serem mortos pelos norte-americanos. O que era iminente. A rendição sequer é considerada. Há uma crença de honra gritante nesse ato, que me lembra não só toda a história do Japão durante a Segunda Guerra Mundial, mas a noção de coragem desenvolvida em alguns 'animes' e 'mangás'.

O Suicídio não é literal nos desenhos (e às vezes até é), mas a coragem ou uma crença extrema leva os 'heróis' ou mesmo secundários e antagonistas a cometem ações conscientemente suicidas. Vejam Cavaleiros do Zodíaco só para ficarmos no mais óbvio. Na saga das doze casas do santuário, por exemplo, todos os cinco cavaleiros principais morrem por sua Deusa Atena e isso acontece, porque na impossibilidade de vencerem seus inimigos com suas próprias forças, terminam consumando uma morte conjunta: a sua própria e a de seu adversário. É implícito, mas me parece muito próximo ao que eram os kamikazes ou ao que era toda filosofia de vivência e sobrevivência no Japão imperial. O filme versa um pouco sobre esse ponto. O tom é de tristeza, mas acima disso está o heroísmo que não se separa da atitude, como se a morte por um caminho justificado, ou melhor, dentro desse ritual, afinal é um ritual, estivesse vinculada a uma nobreza do corpo que se esvai e das boas consequências que ficam e se prolongam. Isso me chamou muito a atenção. Tanto que vim aqui escrever esse texto em plena uma hora da madrugada e minutos depois da experiência estética.

Voltando aos 5 minutos que interessam no filme, a direção da cena é excepcional. Não há, pela primeira vez ao longo de mais de uma hora, um excesso de receio, drama prévio ou romantismo forçado: o que diferencia esse único momento de todo resto da película. Ainda assim, as amarras não estão completamente soltas e a cargo da trilha sonora se destina o melodrama. O que termina tentando aproximar o suicídio oriental do ocidental, quando eles se manifestam como cargas opostas. Essa é a maior falha de Clint. Nossa noção é diferente, por exemplo, da naturalidade desconcertante do suicídio infantil na primeira cena de Lain, um anime extraordinário destinado para adultos: uma menina sobe uma escada como qualquer outra e de repente se joga do alto de um prédio num beco sujo, cheio de latas de lixo e casais quase transando. Sua voz se mostra serena em off: "eu não preciso mais de um corpo, pois aprendi a viver de outra maneira". Daí a trama se desenrola quando outras garotas passam a receber e-mails da tal menina morta falando da experiência transcorporal - e as mensagens possuem informações-chaves, compartilhadas apenas por quem a mandou e por quem as recebeu. Imaginem a reação. Recomendo total.

A cena de Iwo Jima é bem rápida: o capitão recebe uma carta, comunica aos seus subordinados que precisam morrer honradamente e ressalta que só assim poderão encontrar um lugar no santuário. Poderão, inclusive, se reencontrar por lá. O capitão se despede. Os japoneses estão dispostos em um círculo, o primeiro abre a granada, bate na cabeça e estoura no peito. O segundo grita, abre uma granada, bate na cabeça e estoura no peito. O terceiro grita, abre uma granada, bate na cabeça e estoura no peito. O quarto grita, abre uma granada e estoura no peito. O quinto hesita, abre a granada e estoura no peito. O sexto estoura os miolos com sua arma. O sétimo não consegue executar o ato. O oitavo foge. Os dois últimos criam um outro dilema: o do suicído assistido. Fiquei me perguntando se esse também não seria um conceito ocidental, afinal ambos estavam participando do ritual e não assistindo como convidados. Tudo bem que foram empurrados para guerra, numa escolha muito longe da vontade própria, abandonando suas famílias. Essa, entretanto, já não é a minha discussão. Fiquei me questionando muito mais como o ocidente via essa idéia de lutar até o fim literalmente, sem se render à covardia ou como enxergavam a prática contínua do suicídio. Podemos tirar um pouco pelo que acham hoje: é uma dimensão humana assustadora.

Eu com certeza começaria o filme por essa cena. Daria outro clima inicial não tenho dúvida alguma. Mas se fosse pra pensar nesse sentido, eu tiraria todos os flashbacks melosos, diminuiria drasticamente o romantismo do roteiro - odeio essa novelização da guerra, pra começar - e terminaria por convencer a mim mesmo de que, dirigir Cartas de Iwo Jima, com a premissa de enxergar pelos olhos japoneses o mesmo fato retratado tão bem, por Eastwood, em A Conquista da Honra, não seria, de fato, um trabalho para mim. Não para um ocidental enterrado nas crenças do ocidente como eu. E se Albert Camus nos alertava que decidir se nossa vida merece ser vivida ou não é responder uma questão filosófica fundamental, acredito que a filosofia do suicídio no oriente siga outro caminho e não devemos tentar aproximar moralmente as ações, senão terminaremos distorcendo ambas. Até hoje o Japão é um dos países com o maior índice de suicídio por habitante. Contemporaneamente, é comum que pessoas com a dignidade ferida diante da sociedade, como em casos de corrupção, por exemplo, cometam o ato como única saída de retorno a pureza. Tirar a própria vida é mais nobre que manter uma vida marcada pela vergonha. O Japão moderno industrializado e ocidental ainda é assim. Podemos até tentar entender a lógica, mas acredito que há um sem fim de nuances que caracterizam àquela nação de forma muito distante de nossos padrões e nossas próprias nuances. São detalhes que realmente não conseguimos compreender direito. Fica um hiato.

O Clint Eastwood deveria ter atentado para isso.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

domingo, 20 de abril de 2008

como escrever um conto para um concurso de contos

Mais um concurso de contos. 3000 caracteres, cerca de 50 linhas, 3000 reais para o melhor escrito. Nada mau para um delinqüente que gastaria metade daquele dinheiro com suas noites: desde que decidira compartilhar de suas palavras há alguns meses, aquele jovem autor, de nome comum, ainda não havia encontrado uma recompensa tão boa e sabia sim calcular bem o valor dessas coisas. Era um bounty hunter com os pés no chão. Infelizmente, andava sem idéias e já não conseguia escrever uma dúzia de bobagens, sem peso algum na consciência. Permanecia horas, paralisado entre círculos e caretas, diante de uma mera folha de papel. Hesitava em um caminho e hesitava no seguinte, por mais que tentasse estabelecer uma relação cordial naquele instante. Um café. Dois. Três. Mantinha-se sempre na defensiva. Cada palavra mal usada lhe consumia um pouco. Cada elogio inseguro lhe causava uma dúvida. Sua vasta e criativa obra não saía do lugar.

Tudo lhe parecia muito questionável. Tudo. Particularmente suas idéias. E na falta delas então, brincava de devastar a si mesmo: ironizava seus possíveis personagens, fazia piadas sarcásticas de suas tramas. Brincava de auto-mutilação como um jogo de cartas. Ao final de uma sessão, estava caído, bêbado, cercado de papéis. Acordava péssimo. Um cigarro. Dois. Três. Até possuía vários contos guardados e inacabados, mas nenhum se adequava aos critérios desse concurso. Seus escritos sempre tinham caracteres demais. Naturalmente bobagens demais. Deveria escolher um às cegas e inscrevê-lo também às cegas. Todo o fracasso posterior poderia ser justificado pela aleatoriedade desse ato. Estaria seguro em se defender e algum caridoso até lhe pagaria um vinho. O jovem autor pensava no destino e no futuro só para esconder sua dificuldade de começar. Estava sempre no tempo diferente do seu.

Teria de ser prático: restavam poucos dias para o encerramento das inscrições. Não poderia seguir impulsos, nem cair em inibições literárias, pois terminaria desistindo da seleção – o que já era recorrente. Precisava apenas de uma idéia, um ou outro verso disfarçadamente poético para conquistar a simpatia dos jurados disfarçadamente jurados. Imaginava que fossem três – duas mulheres e um homem. Acreditava na firmeza dos números ímpares. Um café. Dois. Três. Precisaria encontrar um apelo para cada um e enlaçá-los de maneira que todos se sentissem contemplados. Mastigou uma folha de hortelã e uma história não muito criativa, mas de um protagonista carismático surgiu de repente. Riu sozinho de sua desgraça. Não podia levar o projeto adiante: o cinema havia lhe roubado todas as idéias. Aquele jovem autor sequer podia brincar com seus próprios demônios, porque alguém já o havia feito e projetado numa tela.

Os dias passavam e o rapaz de nome comum tentava se inspirar de alguma maneira: abria o jornal, pensava nos concorrentes, assistia novela, conversava com a vizinha, caçava gatos. Nada era bom o bastante. O mundo andava particularmente sem graça justamente porque 3.000 reais balançavam a sua frente. Um cigarro. Dois. Três. No último dia, em meio a uma autocrítica destrutiva, não encontrou outra saída, senão a metalinguagem. De qualquer maneira, sempre brincava consigo mesmo dentro de seus textos. Era uma espécie de desculpa prévia aos leitores por conta daquela palavra mal usada, um modo de contornar aquele elogio inseguro. Escreveria, portanto, um conto inteiro metalingüístico. Ou melhor, um não-conto. Uma espécie de desculpa por toda sua obra inexistente. E talvez pudesse até lançá-la depois disso. Estava inseguro, de fato. Um café. Dois. Três. Um cigarro. Dois. Três. Deveria desistir logo dessa idéia barata de ser escritor ou arriscar de uma vez. O texto precisava, ao menos, de um título esperto: "como escrever um conto para um concurso de contos", decidiu. Agora era só enviar.

ENVIAR.

(Conto inscrito no Concurso de Contos Maximiano Campos em 2007 )

Óbvio que não ganhei nada né? Tudo bem que era uma pegadinha, mas podia rolar um senso de humor, sei lá.

sábado, 19 de abril de 2008

Profissão

- ... mas você trabalha em algum meio de comunicação?

- Sou jornalista independente.

- (risada geral)

Fico de cara

Ligo a televisão e resolvo zappiar um pouco antes de colocar o filme. Na Globo, Jô Soares. Mudo. No SBT, caso Isabella. Mudo. Na Record, CSI. Fico na Record. Já está no final do episódio e em 5 minutos acaba. Até aí tudo bem. O máximo de bizarro foi eu ficar brincando de reconhecer os dubladores em comum do seriado policial e de Cavaleiros do Zodíaco. Nerd pra caralho, mas Shura de Capricórnio era o assassino da vez. Começa, então, um programa chamado 'Fala que eu te escuto' - com uma faixa embaixo escrito 'Recife', ou seja, programa local. Achei estranho, inicialmente, porque eu achava que se tratava de um programa religioso, mas aí começou a passar um super clipe com vários casos diferentes de CSI. Fiquei assistindo sem entender direito até que em dado momento, um dos policiais fala "pessoas mentem, evidências não". Congela a cena e eu pressentindo o pior pensei: 'por favor Deus, que eles não façam relação com o caso Isabella'. Eis que aparece a legenda: "Legista diz no filme: pessoas mentem, evidências não. No caso Isabella esta afirmação é válida?" e um telefone para você, querido telespectador, ligar. Eu fiquei de cara, olhando sem acreditar. Começou então uma espécie de Dossiê ou retrospectiva, com um resumo de todas as matérias já veiculadas sobre o caso até então. A-s-s-u-s-t-a-d-o-r. Depois das imagens, abre para um pastor ao vivo - com um telão atrás onde passava CSI - recebendo as ligações e 'discutindo' o tema. Eu fiquei muito de cara só pensando que o assunto, na verdade, era CSI e Caso Isabella: vamos brincar de peritos, gozar de todo sensacionalismo e nos fingir evangelicamente de críticos da sociedade. Minha gente, imagine a falta de noção desse programa: o pastor chega a dizer que o Brasil tem uma taxa de 93% de crimes não solucionados, muito diferente da 'realidade' engajada de CSI e dos Estados Unidos. Depois ainda apareceu o Roberto cheiro cocaína Cabrini fazendo uma entrevista com a irmã do pai da menina. A mulher estava o bagaço do bagaço do bagaço da laranja. Deu pena. O Cabrini disfarça na maquiagem. Preciso de um DVD com rec urgentemente. Não posso deixar de gravar essas pérolas da madrugada.

Nós vivemos num mundo muito absurdo.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Bilheteria

Eu já tinha cantado, dançado e representado, mas nunca tinha ficado na bilheteria de festas alheias por tanto tempo. Foi ótimo - 4 horas de puro prazer, interação e simpatia na entrada do Quintal do Rossi em Olinda. Demorei tanto tempo bebendo cerveja, conversando com quem aparecia e cobrando ingresso que deu pra fazer a linha bilheteiro-publicitário, bilheteiro-prego, bilheteiro-pessimista, bilheteiro-dançarino, bilheteiro-sério, bilheteiro-paquerador, bilheteiro-amigão, bilheteiro-segurança, bilheteiro-cafetão, bilheteiro-contatos-internacionais, bilheteiro-drogadito, bilheteiro-acadêmico, bilheteiro-ambiental, bilheteiro-vendedor-de-tapioca, bilheteiro-sem-troco, bilheteiro-te-devo-um-real, bilheteiro-me-dá-um-cigarro, bilheteiro-não-tenho-isqueiro, bilheteiro-faço-casal-por-5, bilheteiro-volta-aqui-seu-filho-de-uma-puta-que-você-não-pagou -a-porra-do-ingresso.

Aí depois de encarnar todas as personas na bilheteria, voltei ao normal (ou ao normal-bêbado se preferirem) e entrei na festa conhecendo todo mundo. Não aguentei nem quinze minutos é verdade, mas foi genial. Como já diria o Andy Warhol.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Leituras

"Os primeiros textos que impunham silêncio nas bibliotecas não datam senão dos séculos XIII e XIV. É apenas nesse momento que, entre leitores, começam a ser numerosos aqueles que podem ler sem murmurar, sem 'ruminar', sem ler em voz alta para eles mesmos a fim de compreender o texto. Os regulamentos reconhecem esta nova norma e a impõem àqueles que não teriam ainda interiorizado a prática silenciosa da leitura. Pode-se então supor que antes, nas scriptoria monásticas ou nas bibliotecas das primeiras universidades, ouvia-se um rumor, produzido por essas leituras murmuradas, que os latinos chamavam de ruminatio. O silêncio é uma conquista recolocada em questão hoje. O problema se põe todas as vezes que uma prática cultural ganha aqueles que não tenham sido formados, por tradição familiar ou social, a recebê-la nas condições que ela exige. O cinema é bem sintomático dessa visão. Há hoje, nas salas de cinema, muitos espectadores que reagem como se estivessem diante de sua televisão. Eles falam, comunicam-se, comentam, como se a sala fosse um lugar em que o silêncio não se impusesse. Enquanto para outros espectadores, habituados a uma outra maneira de ser, o silêncio é uma condição necessária do prazer cinematográfico".

Roger Chartier
A Aventura do Livro: do leitor ao navegador (1997, p. 119-21)