domingo, 6 de abril de 2008

"... o resto pode sacudir as jóias"

Mick Jagger queria que Shine a Light fosse gravado durante o show dos Stones em Copacabana. Scorsese achou melhor que não. Sem dúvida a mudança do cenário não seria uma mera troca de última hora, mas um elemento de influência permanente sobre todos os outros elementos, da produção aos traços estéticos. Outro show, outro filme. Essa mudança viria acompanhada de um risco maior, com conseqüências maiores para o bem ou mal do resultado final. Tudo podia dar errado, de fato. Na verdade, nem seria muito complicado que tudo desse errado. É bem simples colocar uma pré-produção monstruosa por água abaixo, quando se tem como objeto uma apresentação para um público ainda mais monstruoso. Em especial no Brasil, em especial no Rio de Janeiro. Poderíamos ter algo próximo ao show no Hyde Park (1969) ou até um novo Gimme Shelter (1970) com mortes e tudo - o que seria uma besteira. Provavelmente Scorsese não queria repetir a visualidade do mega-concerto já trabalhada tanto nos Stones – mesmo que o show em si compartilhe de semelhanças com o Bridges to Babylon (1998). De qualquer forma Copacabana ficou martelando a minha cuca. Talvez por ter estado lá e visto tudo bem de perto. Como disse, era um risco maior com conseqüências maiores: coloquei minha mochila nas costas, arrumei reservas de última hora, consegui uma promoção limpeza da varig pré-falência, me hospedei num albergue barato e lotado de gringos pirados em Botafogo e passei uma das melhores semanas da minha vida na cidade maravilhosa. Rock and Roll total. Devia ter colocado It's only Rock'n Roll but I Like It só para não fugir do clichê-mor dos textos sobre os Stones. Mas sim, eu podia ter morrido? Super podia. A minha mãe deve ter tido certeza da minha morte... e olha só, nem morri e foi incrível. É mais fácil estabelecer uma vida, ou melhor, momentos de vida não programados do que um filme não programado e assim sendo, um teatro em Nova York de médio porte com convidados educados, modelos cercando o palco, Bill Clinton, Hillary Clinton e um ou outro fã de verdade é mil vezes mais comportado e manipulável que um milhão de enlouquecidos de todas as partes do Brasil e da América Latina (apesar de que os documentários registros-de-grandes-festivais como Monterey Pop (1968) e Woodstock (1970) claramente também utilizam uma manipulação de imagens para exacerbar a idéia de ‘paz e amor’). Scorsese sabe bem disso e não quis se arriscar. O que é uma pena (com todo respeito).

A possibilidade de Copacabana, entretanto, só me martelou antes e depois de assistir ao filme, não durante. Shine a Light começa muito bem. Não há o riff inicial de ‘Satisfaction’, nem fãs histéricas na porta do backstage, mas a dinâmica da própria organização do show, das discordâncias, da maquinaria, dos ensaios, das definições. E não da maneira burocrática como o faz Gimme Shelter. Há também a organização do documentário sobre o show. Scorsese revela como ele mesmo se estrutura diante daquele evento (em termos musicais a gente já sabe que ele se conecta há muito tempo vide algumas trilhas sonoras). Isso me conquistou na hora e Copacabana ficou para depois. Até porque Scorsese é um miúdo marrento muito foda: todas as intervenções que quebram com a filmagem do show em si são geniais. Essas rupturas são compostas basicamente de pequenos trechos de imagens de arquivo dos Stones: a longevidade é um dos temas principais e o próprio Keith Richards é um PHD vivo. Prefiro não contar cada intervenção, porque enquanto eu estava assistindo ao filme, após cada uma dessa entrevistas antigas eu já ficava esperando a próxima. Sem contar que simplesmente eu adoro ver e ouvir o Martin Scorsese falando. As primeiras cenas mostram ele puto da vida, porque – mesmo tendo tudo sobre o seu absoluto controle, há um detalhe que ele ainda não sabe: a playlist. Mick Jagger está indeciso, faz cera. Scorsese se vira como pode: conta piadas, marca o lugar das câmeras, conversa com a equipe, fica ainda mais irritado. Em alguns momentos, cineasta e músicos trocam algumas palavras e brincadeiras. Passam as horas e Scorsese continua sem saber a playlist: a cena onde ele explica a importância de saber ao menos qual seria a primeira música é sensacional, pois ele explica que poderia modificar o objeto / pessoa / gesto que seria filmado inicialmente e que isso teria uma grande relevância para o conjunto da obra (mesmo que com a quantidade de câmeras à sua disposição, imagino que nenhum ângulo tenha sido perdido). E então começa o show - apresentado por Bill Clinton que levou trinta convidados. O que é bizarro, mas o Keith usa da sua ironia pra melhorar o clima: “esse Clinton está se comportando como Bush hoje”. Os Stones abrem com Jumpin' Jack Flash. Eu acertei: foi a mesma canção que abriram em Copacabana. Caindo no clichê que critiquei inicialmente, ouvir o riff dessa música é de tirar do sério. Fico louco na hora – e sinceramente a platéia estava muito parada em Nova York. Acho que Mick devia ter parafraseado a famosa frase de John Lennon dita numa apresentação dos Beatles com presença da Rainha Mãe e outros nobres: "O pessoal das galerias dá o compasso batendo palmas e a turma das cadeiras caras pode sacudir as jóias". Só que no caso dos Stones e da paráfrase, entretanto, não há galerias, ou melhor, a galeria somos nós. E depois daquela última cena, eu só podia bater palmas mesmo.

Ps.: Senti falta de Paint It Black, Midnight Rambler e Gimme Shelter, mas dou desconto por eles terem tocado As tears goes by - o que é raro e uma novidade dessa última turnê. No rio eles tocaram Midnight Rambler... putz, aquela gaita me mata.

2 comentários:

Sofia Egito disse...

We cannot burn Mick Jagger.

samuel disse...

legal o texto! eles tocaram paint it black, mas não foi filmado. e outra, mick jagger comentou com scorsese q esse é o primeiro filme dele q não tem gimme shelter na trilha. scorsese disse que até tinha tentado encaixar, mas...