segunda-feira, 14 de maio de 2007

Bonitinha, mas ordinária!


Para quem costuma ir sozinho ao cinema, a ausência de uma opinião alheia na saída do filme, não provoca, necessariamente, o esvaziamento de um possível debate teórico, mas um diálogo interior entre seus próprios demônios. Um diálogo silencioso e brando. E não é preciso muito até que se encontre alguma forma banal de exteriorização: uma conversa de bar; uma crítica num jornal; um poema num blog. De antemão é uma experiência extremamente interessante, pois é possível identificar nas linhas de construção do discurso, elementos da sua própria personalidade. Passamos a analisar não apenas o filme em si, mas a maneira como nos portamos diante dele, como tais e tais elementos estéticos reverberam em sensações – e muito do que sentimos diante de uma obra de arte, diz respeito a quem nós somos e ao momento em que vivemos. É importante saber identificar isso. Entretanto, todos esses devaneios particulares, que juntos vem a formar a opinião pessoal, são frutos de uma única fonte, de uma única origem – ainda que se provoquem, contradigam-se, sigam em caminhos opostos. Todos eles se formam num mesmo ponto, num mesmo corpo; são crias de um único ‘olhar’. Dessa maneira, para fugir um pouco dos próprios demônios, é preciso estabelecer um verdadeiro debate fecundo, com vozes diversas, formações estruturadas na alteridade, olhares pessoais que expandam a percepção do espectador – as idéias se multiplicam, os detalhes se revelam. E ao final da sessão de Carta de Uma Desconhecida (EUA, 1948), de Max Ophuls, tive plena certeza sobre isso. Particularmente havia detestado o filme: apesar da beleza estética e de algumas construções formais, não passava de um melodrama ordinário, excessivamente piegas, excessivamente clássico, excessivamente didático. Nem o apelo Wertheriano me convenceria. Ao final do rápido debate que se seguiu à projeção, onde foram expostos diferentes pontos de vista sobre o filme, já havia transformado um pouco a minha opinião. Mas foram necessários dois dias para que outra conotação tomasse minha cabeça. E se os devaneios demoram a se tornar uma opinião firme – mas nunca imutável – a crítica também precisa de um tempo próprio, para se estabelecer enquanto tal. Um tempo para pensar e repensar sobre tudo. Inclusive sobre ela mesma.

A primeira impressão pode não permanecer intacta, mas também não desaparece sem deixar resquícios. Por mais que o filme tivesse uma inegável qualidade técnica, bem marcada tanto na bela fotografia em preto e branco, como na movimentação sutil da câmera, não conseguia me desvincular do excesso de classicismo em todos os elementos – inclusive nos dois aqui já pontuados. Além disso, a narrativa em si não me convenceu, havia melodrama demais, romantismo demais, Hollywood demais. O didatismo narrativo presente através de certas recorrências chegava a me irritar. E apesar de ter consciência de que Carta de uma Desconhecida é vinculado estritamente ao olhar, ao desejo e ao amor platônico de Lisa, não dei maior importância ao fato. Um erro que mudaria toda minha visão após o debate. Quando essa questão foi levantada, refleti que esse era o ponto mais importante do filme, pois o tangenciava do início ao fim – e definia a maneira como a obra fora concebida. E a partir do momento que posicionei, dentro de minha opinião, esse elemento enquanto questão central, pude perceber como todas minhas críticas negativas perdiam espaço, para um coerência crescente. Aquela obra era boba, romântica, clássica, idiota e bela porque eram reflexos da própria personagem boba, romântica, idiota e bela. O filme não é uma história de amor qualquer, é a história pontual do amor de Lisa para com um pianista promissor, Stefan, que sequer sabe de sua existência. Amor focado, ilimitado, mas não recíproco. O músico não possui amor algum. Apenas dispersões para todos os lados. Se o filme fosse visto a partir de sua visão, provavelmente seria mais ousado e a mulher talvez nem tivesse espaço. Talvez fosse melhor. Ou talvez não, afinal a grande sacada é direcionar a estética do filme a partir da visão de um personagem. E pouco importa o personagem. Do momento que terminou a projeção ao momento em que escrevo esse texto, a mesma obra transitou por pólos opostos dentro do meu juízo de valor - quase como se fossem duas obras diferentes. Isso me lembra uma outra história, ocorrida quando fui assistir Kill Bill – Volume I, de Quentin Tarantino com o meu melhor amigo. Ao final do filme, saímos extasiados, tínhamos adorado. Fomos comer. Conversamos durante pouco mais de uma hora e ainda que tenhamos, os dois, gostado bastante do filme, passamos a expor diferentes razões para justificar isso. E à medida que expunha minhas razões, ele passava a gostar menos do filme e quando ele expunha as dele, o mesmo acontecia comigo. Chegamos a conclusão que tínhamos presenciado películas diferentes e ponto. Resolvemos parar de discutir e continuar a gostar do filme. Cada um a sua maneira.

3 comentários:

Marco disse...

Como já nos falamos, a atitude do crítico nasce numa crise fundamental: o que escrevo sou eu ou meu paramental? Firmá-la em palavras é, talvez, a ação mais franca e viavél diante das infinitas indagações...além de um ato de coragem. Continue escrevendo que nós (mais comedidos, de fato) continuamos lendo. Grande Abraço!

Marco disse...

Sim, começou essa semana um seminário de crítica teatral. Apesar de não ser especificamente direcionado para interessados em cinema, nao deixa de ser uma oportunidade de ampliar as "ferramentas" de análise, e complicar ainda mais esse exercício de entender essa realidade hibrida que vivemos. Estarei lá. Abraço de novo!

Má disse...

Todos temos personalidades múltiplas!

E viva Fernando Pessoa!

Bjo