segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Revolução

Depois das inúmeras matérias nos jornais nacionais da vida sobre os protestos dos jovens em Londres - poderia ser sobre os moradores de Jordão Alto, Igarassu ou IPSEP - em que somos apresentados a um amontoado de imagens sem sentido, pneus ou carros queimados, multidão correndo, pedras arremessadas, spray de pimenta, enquanto ouvimos a repórter soltar palavras como "vândalos", "destruição", "caos", nos damos conta rapidamente da omissão completa em contextualizar reivindicações ou mesmo destrinchar os meandros mínimos das disputas. Não penso apenas no processo de achatamento da realidade, na negação sem constrangimento da informação básica, na singular regulação do conformismo ou mesmo na discreta vigilância / intimidação legitimada por tais matérias, muitas vezes evocando presenças e ações absurdamente autoritárias, mas em particular como os meios tradicionais de comunicação assumem invisivelmente e conscientemente a mesma opinião da Secretária da Peste, na peça "Estado de Sítio", de Albert Camus. Diante da insatisfação coletiva na cidade de Cádiz, ela comenta:

"Parece até uma revolução! No entanto, bem sabeis que o caso não é para isso. Mesmo porque não compete mais ao povo fazer a revolução: seria muito fora de moda. A polícia, hoje, é suficiente para tudo - mesmo para derrubar o governo. E, no fim das contas, não será melhor? O povo pode repousar, enquanto alguns bons espíritos pensam por ele e decidem, em seu lugar, qual a felicidade que lhe será favorável. Vamos, meus bons amigos... Não seria preferível ficardes onde estais? Quando uma ordem é estabelecida, custa muito caro mudá-la".

CAMUS, Albert. Estado de Sítio; O Estrangeiro. São Paulo: Abril Cultural, 1979 (pág. 126)

sábado, 27 de agosto de 2011

1932

Todo santo dia que coloco meus pés fora de casa, fico incomodado com a quantidade de carros na rua, com o alargamento de horários de trânsito, com a estranha violência apática dos motoristas, com a quantidade de edifícios "copia e cola", como alguém comentou, com as demolições de casarões antigos, de tal modo que para não ficar batendo na mesma tecla e terminar pulando da janela, nada me parece mais justo que sonhar com um velhinho bem velhinho que arremessou os óculos num bueiro só para não ver como a sua cidade tinha se tornado feia.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Imagens de Philippe Garrel

Recentemente fizemos um especial sobre Philippe Garrel e durante os dias que assisti aos inúmeros filmes da carreira do diretor francês, senti-me na obrigação de salvar algumas imagens, sequestrando a singular atmosfera de seu universo poético e certo de que esse recorte carregava ontologicamente a natureza de seu cinema. Numa entrevista em ocasião do lançamento de A Fronteira da Alvorada, Garrel, que sempre se mostrou atento para as relações entre a morte e o amor, comentou que "quando a arte é a totalidade da sua vida, temos de testar um pouco os limites para poder criar, para exercer nosso papel plenamente e podemos ser rudes sem intenção, sem nos apercebermos, mesmo que tenhamos muito cuidado. Ninguém sabe porque é que as pessoas cometem suicídio e não acho que um suicídio no cinema incite as pessoas a fazêlo. Pelo contrário. A arte faz-nos querer viver mais, faz com que os jovens não façam coisas estúpidas, não acredito que teria cometido suicídio, mas sem dúvida foi a arte trágica que me salvou".