sexta-feira, 19 de junho de 2009

Béla Tarr no Cineclube Dissenso!

Caros,

neste sábado (20), às 14h, daremos continuidade as atividades do Cineclube Dissenso em parceria com a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Para quem ainda não teve a oportunidade de participar de uma das sessões anteriores, a ideia é sempre apresentar obras raras, de difícil acesso e ausente do circuito exibidor, criando mais uma opção aos amantes do cinema na cidade. Contemplaremos dessa vez uma das peças-chave do cinema europeu contemporâneo: o cineasta húngaro Béla Tarr. Conhecido pela lendária obra-prima de sete horas e meia Satantango (1994), Béla Tarr tem nos apresentado nas últimas décadas um universo cinematográfico extremamente pessoal e desafiador. A sessão contará com a exibição de um de seus filmes mais recentes, As Harmonias de Werckmeister (2000), um misterioso retrato de uma pequena cidade do interior da Hungria transformada com a chegada de uma baleia gigante empalhada.

Dissenso - O Cineclube Dissenso surgiu a partir da criação do Blog Dissenso (www.dissenso.wordpress.com), parte do projeto de conclusão de curso de um de seus integrantes. A intenção era discutir a crítica cinematográfica e estimular um ambiente de debate cinéfilo, permeado pela coexistência de distintos discursos. O que começou como reuniões despretensiosas entre cinéfilos, tomou proporções maiores e se firmou como um novo espaço cineclubista entre estudantes de diversos cursos da UFPE.

A única premissa compartilhada internamente era a de que as obras escolhidas tivessem algum caráter provocativo, não fossem facilmente encontradas em qualquer prateleira de locadora e, de preferência, não possuíssem comercialização oficial no país. Formou-se assim o cineclube, que em quase um ano de existência assumiu uma clara preferência por projetos estéticos incomuns e diversos, em ciclos marcados pelas diferentes referências e repertórios cinematográficos de seus integrantes, em uma curadoria colaborativa que agrega vozes e olhares dissonantes.

SERVIÇO:

As Harmonias de Werckmeister (Béla Tarr, 2000, Hungria)

Sábado, 20 de junho, às 14h

Cinema da Fundação

Entrada Franca

Mais informações:

Rodrigo Almeida - 91684304

terça-feira, 16 de junho de 2009

Jogatina Sentimental

Nunca podemos recuperar totalmente o que foi esquecido. E talvez seja bom assim. O choque do resgate do passado seria tão destrutivo que, no exato momento, forçosamente deixaríamos de compreender nossa saudade. Mas é por isso que a compreendemos, e tanto melhor, quanto mais profundo jaz em nós o esquecido.

Walter Benjamin, Rua de Mão Única, P. 104/105

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Troquem as cornetas!

Alguém podia avisar aos torcedores lá da África do Sul que esse barulho de abelha zunindo nos jogos da Copa das Confederações é insuportável?

Agradecido.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

crises antecipadas de meia-idade

Tenho medo que envelhecer seja a substituição do deslumbramento pelo conhecimento.

Contando

Eu sempre achei que a melhor maneira de medir o amor fosse a saudade e que a saudade vinha da simples vontade de compartilhar uma faísca de mundo com alguém. Às vezes vontade incontrolável, dependência assumida, simbiose desconcertante. É como se a vivência só se tornasse completa, por mais extraordinário que fosse o momento, ao contarmos, quase como revivendo, uma bela historia em um ouvido amigo. Só que quando a saudade acaba, o amor acaba, as histórias somem, novos ouvidos se erguem no ar e, depois de um tempo, começa tudo de novo. O melhor é que podemos voltar a contar as velhas histórias como novas. Não quero falar, por ora, das mágoas, um dia elas chegam, mas não agora e vou acabar o post pela metade ou isso pode ser musicado um dia e parar num voz e violão por aí.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Mais dissenso!


Seguindo a parceria com a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), o Cineclube Dissenso realiza neste sábado (13), às 14h, mais uma sessão de filmes seguida por debate aberto ao público. Com entrada gratuita, a sessão contará com a exibição dos filmes Ako (1965), média-metragem representante do que se convencionou chamar de nouvelle vague japonesa e Otoshiana (1962), produções de Hiroshi Teshigahara (1927-2001). Otoshiana marca a trajetória cinematográfica de Teshigahara por ser sua primeira parceria firmada com o escritor/roteirista Kobo Abe, com quem viria a desenvolver A Mulher das Dunas, filme já exibido no Cineclube e considerado a obra-prima do diretor japonês.

A ideia, que é sempre apresentar obras raras, de difícil acesso e ausente do circuito exibidor, contempla dessa vez esse mestre do cinema oriental ainda pouco conhecido por aqui. Teshigahara se distingue na cinematografia japonesa como uma voz que soube, como poucas, aliar suas intenções estéticas com uma preocupação social que refletisse as condições da população de seu país, importando-se com a manutenção da identidade individual.

Dissenso - O Cineclube Dissenso surge a partir da criação do Blog Dissenso (www.dissenso.wordpress.com), parte do projeto de conclusão de curso de um de seus integrantes. A intenção era discutir a crítica cinematográfica e estimular um ambiente de debate cinéfilo, permeado pela coexistência de distintos discursos. O que começou como reuniões despretensiosas entre cinéfilos, tomou proporções maiores e se firmou como um novo espaço cineclubista entre estudantes de diversos cursos da UFPE.

A única premissa compartilhada internamente era a de que as obras escolhidas tivessem algum caráter provocativo, não fossem facilmente encontradas em qualquer prateleira de locadora e, de preferência, não possuíssem comercialização oficial no país. Formou-se assim o cineclube, que em quase um ano de existência assumiu uma clara preferência por projetos estéticos incomuns e diversos, em ciclos marcados pelas diferentes referências e repertórios cinematográficos de seus integrantes, em uma curadoria colaborativa que agrega vozes e olhares dissonantes.

SERVIÇO:

Ako (Hiroshi Teshigahara, 1965, Japão)

Otoshiana (Hiroshi Teshigahara, 1962, Japão)

Sábado, 13 de junho, às 14h

Cinema da Fundação

Entrada Franca

Mais informações:

Rodrigo Almeida

9168-4304

terça-feira, 9 de junho de 2009

Ovelhas Negras

É sempre bom admitir nossos próprios clichês. A gente tenta desviar uma, duas, quinze vezes, mas nem sempre dá para fugir deles apenas na mandinga. Os clichês são espertos e grudam - quase como óleo quente saído de uma panela de batata frita. Daí chega uma hora que é melhor sentar, relaxar o pescoço endurecido e colocá-los, aos pares, em cima da mesa. É incrível como sempre surto nos sonhos quando resolvo dormir lendo Caio Fernando Abreu. Depois acordo, sinto que se ele não existisse, eu poderia ter alguma relevância e curar metade dos meus problemas estima. Não fico triste. Pelo contrário. Ele me enche de vida noturna como se minhas vísceras pulsassem, algo parecido com o que me aconteceu quando estava lendo Secreções, excreções e desatinos, do Rubem Fonseca. Minhas noites tranquilas na cama mais pareciam noitadas loucas na Augusta.

Festas

A pior parte de estar em uma festa onde você é o eixo que une os diferentes grupos, não vou falar do lado bom, não quero me perder no inumerável, é que quando morga a tal festa e chega a hora de decidir o destino seguinte, cada um dos grupos defende sua sugestão a ferro e fogo, usa de toda chantagem emocional cabível, lembra daquelas promessas de maio e o eixo, ou você, se sente como um corpo esquartejado que não foi cortado em pedaços suficientemente pequenos.

Dessa maneira os canos terminam entupidos.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Eu quero mais é release!


Neste sábado (06), às 14h, tem início as atividades do Cineclube Dissenso em parceria com a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). As sessões, com entrada gratuita, serão realizadas semanalmente no Cinema da Fundação e seguidas por debate aberto ao público. A ideia é sempre apresentar obras raras, de difícil acesso e ausente do circuito exibidor, criando mais uma opção aos amantes do cinema na cidade.

Em sua primeira semana, serão exibidos o curta Esse Filme Deve Ser Visto no Cinema, do pernambucano Chico Lacerda, e Benny´s Video, do diretor austríaco Michael Haneke, ganhador da Palma de Ouro do Festival de Cannes esse ano e se tratando de Haneke é melhor não cairmos na sinopse para não estragar a surpresa.

Dissenso - O Cineclube Dissenso surge a partir da criação do Blog Dissenso (www.dissenso.wordpress.com), parte do projeto de conclusão de curso de um de seus integrantes. A intenção era discutir a crítica cinematográfica e estimular um ambiente de debate cinéfilo, permeado pela coexistência de distintos discursos. O que começou como reuniões despretensiosas entre cinéfilos, tomou proporções maiores e se firmou como um novo espaço cineclubista entre estudantes de diversos cursos da UFPE.

A única premissa compartilhada internamente era a de que as obras escolhidas tivessem algum caráter provocativo, não fossem facilmente encontradas em qualquer prateleira de locadora e, de preferência, não possuíssem comercialização oficial no país. Formou-se assim o cineclube, que em quase um ano de existência assumiu uma clara preferência por projetos estéticos incomuns e diversos, em ciclos marcados pelas diferentes referências e repertórios cinematográficos de seus integrantes, em uma curadoria colaborativa que agrega vozes e olhares dissonantes.

SERVIÇO:

Benny´s Video (Michael Haneke, 1992, Áustria)

Este Filme Tem Que Ser Visto no Cinema (Chico Lacerda, 2009, Brasil)

Sábado, 06 de junho, às 14h

Cinema da Fundação

Entrada Franca


Mais informações:

Rodrigo Almeida - 9168-4304
dissenso@gmail.com

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O único problema de amigos de mundos diferentes namorarem é que sempre um amigo termina devorando o outro na relação de amizade com você, de forma que, no final das contas, só resta um amigo pra contar história. É inevitável, fazer o que?

segunda-feira, 1 de junho de 2009

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E falando em bancos, não a toa estas empresas são sempre as primeiras a associarem suas ações e sua marca com o discurso emergencial que domina e sensacionaliza os corações e mentes ao redor do planeta. Pode notar como todos vão nessa mesma linha, como isso acontece em nível transnacional e como tem o intuito de colocar o banco em consonância com as supostas demandas urgentes da humanidade. Se o assunto que domina é o aquecimento global, o banco é o banco que protege o planeta, que a cada conta aberta, planta uma árvore e que luta mais que o greenpeace pela proteção das baleias. Se o assunto é a crise econômica, aí se torna o banco que vai dar sustentabilidade financeira ao longo da sua vida, o banco que tem planejamento, o banco que quando tudo - inclusive os bancos - falirem, vai continuar ali do seu lado, firme e forte segurando a sua mão.

Pior que eu admiro essa perspicácia de terceira.

sábado, 30 de maio de 2009

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Eu ando me chocando muito fácil nessa vida, mas propagandas de banco com crianças têm me chocado em especial.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

QUE?

Como assim demora UM ANO E MEIO para o diploma de formado ficar pronto depois que você dá entrada com todos os trezentos e quarenta e dois milhões de documentos?

Isso é culpa da UFPE, do MEC, MINHA, de QUEM?

Ainda bem que a mulher disse que se o pedido tivesse caráter de urgência (?), bastava acrescentar uma justificativa "boa" aos documentos, que se fosse aprovada pela comissão, o diploma sairia entre dois e três meses "no máximo".
Ok, aceito sugestões.

terça-feira, 26 de maio de 2009

=D

Nada como estar usando um computador da lan house quando chega o homem da celpe para cortar a luz.

Revista Quem

Eu sempre achei que ia ver o Galvão Bueno ficar gagá na frente das câmeras ao ponto do constragimento se tornar insustentável (ok, já é), resultando na retirada dele do ar diretamente para o retiro dos artistas. É que adoro ver vídeos do youtube ao vivo na TV. Mas eita, o retiro dos artistas é só pra artistas (sic) e figurantes né? Pois então, não sei para onde a Rede Globo manda os comentaristas, narradores, pregos e afins quando eles não possuem mais utilidade comercial e nem o seu zé da pinga ali da esquina quer consumi-los. Como tirar de cena a inutilidade de pele viva cobrindo os ossos? E não sou eu quem diz: envelhecer cercado de câmeras é realmente cruel, não duvidem. Acho inclusive que tem muito pretenso ator desses secundários cuja a vida não é outra coisa senão segurar o cu na mão todos os dias temendo o esquecimento. Vejam só pelo que o povo se passa. Tem programas especialmente criados só para os futuros residentes da casa dos artistas. Às vezes eu tenho pena. Não hoje. Para falar a verdade, eu ainda espero presenciar momentos em que o Galvão se confirme como senil, e falo isso para além dos comentários senis dele de sempre, mas não podia imaginar que esse constrangimento profético iria acontecer primeiro com o Sílvio Santos. Logo o Sílvio. Tudo bem que ele sempre humilhou sua platéia, seus convidados, armou o circo jogando dinheiro e de certa forma eu admirava o jogo de manipulação em que ele envolvia suas presas, mas convenhamos que ele perdeu o controle e eu perdi a aposta. Achava que seria o Galvão. E a Hebe não conta, porque se fosse pra internar já era pra ter feito isso há muito tempo.

Eita, tem a Suzana Vieira que, segundo a própria, não envelhece.

Surpresas da TV Brasil - 2

Superstição, do Alan Sieber, iria ou irá fazer parte de um longa chamado "Odeio o Pereio" ou "Odeio o Paulo César Pereio", onde diversas pessoas, de diversos campos diferentes seriam convidadas só para falar mal do famoso ator diante de uma câmera. Segundo o diretor, o material é bem vasto, apesar de que as pessoas que mais odeiam o Pereio tenham se recusado a participar do projeto, porque acreditam que mesmo falando mal, a obra terminaria se transformando em uma homenagem. E homenagem ao Pereio, jamais.


Surpresas da TV Brasil - 1


A TV Brasil tem me surpreendido para o bem. Primeiro teve um dia que eu tava lá de bobeira no sofá de casa e de repente passou "O menino da calça branca", de 1961, o primeiro curta do Sérgio Ricardo, que integra, junto a três outros curtas, um projeto chamado "Quatro contra o mundo". Não vi os outros e vai ser difícil vê-los - nunca tinha sequer escutado falar - mas sei que esse Sérgio Ricardo, que foi homenageado pelo Festival do Filme Livre desse ano, é mais conhecido por sua música que por seu trabalho no cinema, especialmente porque ele foi responsável pela trilha sonora do cânone "Deus e o Diabo na Terra do Sol", do Glauber Rocha. O Sérgio Ricardo é um cara cheio do préstigio e estou aqui só pra aumentar um pouco esse prestígio, porque desde Muro não ficava tão abismado com um curta - ambos me tocaram da forma profunda o suficiente para não saírem da minha cabeça por muito tempo ou talvez pra sempre. Sem contar que vale dizer que costumo retomar momentaneamente a minha fé na humanidade quando fico emocionado com algo sincero que passa na televisão e não é a matéria de transplante de órgãos do Fantástico ou alguma propaganda fofa e cretina da coca cola. Depois essa sensação passa e eu volto a ser o velho pessimista de sempre. Sobre o curta, não posso ignorar que a fotografia em preto e branco é linda, talvez uma das mais bonitas que eu tenha visto e não a toa: a maioria dos curtas brasileiros do início da década de 60, Aruanda, por exemplo, possuem uma fotografia de uma luz muito própria, como se saída do hipersaturado Rio 40 Graus em direção ao suposto naturalismo controlado do Cinema Novo. Não dá pra saber direito se o punctum é justamente o controle ou descontrole. Por sinal, o diretor de fotografia, Dib Lufti - irmão do Sérgio Ricardo, viveu esse processo muito bem, trabalhou com o Eduardo Coutinho no início da carreira do documentarista, foi operador de câmera em Terra em Transe, trabalhou em inúmeros filmes do Arnaldo Jabor, Nelson Pereira dos Santos, entre outros, apesar de hoje participar de iniciativas toscas de pretensão, direção e interpretação duvidáveis como é Juventude, do Domingos de Oliveira. Todo mundo envelhece um dia e não estou falando dos anos concretos. Manoel de Oliveira, aquele jovem, que o diga.

Mas voltando rapidamente ao "Menino da Calça Branca", além da fotografia, fiquei especialmente comovido com a espontaneidade do garoto, cujas andanças, expressões e brincadeiras nas ruas, acompanhada e registrada por uma segunda andança, a da câmera, nem sempre na mesma direção, me transportou completamente a um imaginário da infância e não necessariamente da minha infância. Senti o onírico, mas não o nostálgico - que, na verdade, seria um nostálgico inventado, daqueles quando nós, na linha jovens de menos de 30 anos, buscamos um 1968 no baú de lembranças. Pois é, nesse caso não rolou identificação: nem de fato, nem inventada. Talvez justamente esse distanciamento entre a minha infância e a infância do garoto tenha facilitado e inocentado minha entrada na diegese proposta, sem que eu, interferisse com a minha própria diegese. Sem contar que ver o Ziraldo de surpresa na tela me encheu de uma alegria inexplicável. É isso aí, inexplicável. Pra não dizer que não falei das sinopses, basicamente a história se foca em um menino do morro que ganha de natal uma calça branca - algo que parecia esperar há tempos - e toma aquele presente como uma transformação imediata em sua vida de menino do morro. Eis que então desce ao asfalto, todo cuidadoso para não se melar e imita o mundo dos adultos de calças brancas: os gestos, a forma de andar, de se portar e estar no mundo. A narrativa é muito simples e fofa - e sei que essas palavras não seriam as ideais - mas a escolha de colocar um final triste funciona muito como o despertar de um sonho por um soco na porta do quarto: a bola bate na lama, a lama bate na calça branca e o menino volta pro morro. Daí pra ficar emotivo é um passo, especialmente pela percepção da influência do Sérgio Ricardo enquanto compositor sobre o Sérgio Ricardo diretor, algo que dita um ritmo onde o visual parece seguir uma direção auditiva. Obviamente esse processo ganha força e se aperfeiçoa através da edição realizada pelo mestre Nelson Pereira dos Santos. Acho que não é clichê dizer que essa sua criação audiovisual - e imagino que as outras também dada sua trajetória - se interliga simbioticamente com a criação musical. Dessa forma, nem preciso dizer que existe a música "o menino da calça branca". O curta recebeu o prêmio 'Berimbau de prata' no I Festival de Cinema da Bahia em 1962. Berimbau de prata, minha gente?

o_O

A Bahia às vezes me mata de vergonha.

Daí terminou o filme e vi na propaganda que na sequência ia passar Serras da Desordem, do Andrea Tonacci, uma das produções brasileiras de maior provocação estética sobre o que é, não é, não é mais, foi e será a linguagem audiovisual, especialmente do documentário. Se não tivesse com tanto sono, topava na boa pela terceira vez.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

=O

Acordo, lembro que é dia das mães, coloco um café no fogo, agradeço ao cosmos por ter comprado um presente e por ter dormido tão bem, ligo a TV. Programa da Ana Maria Braga e automaticamente meu humor começa a desaparecer até sumir completamente quando me dou conta que a convidada é uma mãe que, aos prantos, contava como perdeu o filho:

"Então, ganhei a cabeça do meu filho como presente de dias das mães. A cabeça foi encontrada a quarenta metros do corpo. Quarenta metros. Quarenta metros, você sabe o que é isso?".

Fiquei passado com o mau gosto na escolha do convidado para um programa matinal e se é para ter classificação indicativa na televisão aberta, sem dúvida o programa da Ana Maria teria de ser o primeiro a perder seu posto de 'recomendado para todas as idades'. Acho barra.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Destino

Provavelmente vão tirar do ar logo logo como tudo de mais legal nesse mundo do youtube, mas eu achei que essa animação - procurem sobre ela na internet - valia tão a pena que resolvi arriscar. Eu também quis dar as caras por aqui, dizer que não estou morto e registrar que o meu notebook, depois de dezessete dias úteis, continua na assistência técnica. Odeio a Positivo. E sim, a dica do vídeo foi do Osvaldo.


quinta-feira, 14 de maio de 2009

Refilmagem e Continuação

Esqueci de dizer que fui ver Star Trek do J.J. Abrams, bem receoso porque sempre fui mais da turma do Star Wars e tenho ambivalências com Lost, e vi o trailer de Tranformers 2, o trailer de Uma Noite no Museu 2, além do de Exterminador do Futuro não sei quanto - parei no dois, apesar de ter visto o três - e quando cheguei em casa, bem em dúvida se tinha gostado do filme ou se ele só valia por alguns efeitos especiais em algumas cenas específicas, e eis que estava passando American Pie 5. Caralho, fico meio besta como é pastiche pra tudo que é lado. Ok que a balela da maioria dos filmes mega-hiper-super-comerciais continua a mesma das últimas décadas - independente se franquias 'novas', refilmagens ou continuações - mas, sei lá, mudar o título vez ou outra bem que poderia ser um ótimo começo.

Viva Joseph Campbell e os arquétipos universais.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Saco

É um saco quando você, depois de toda dificuldade, tenta esvaziar o ego numa ação simples e as pessoas entendem seu movimento justamente como uma jogada de ego. Sério mesmo, fico me perguntando de que vale ser simpático e de que adianta happy go-luckyzar a vida se o seu estereotipo já foi traçado e esculpido em mármore chinês. Isso é para eu aprender bem, porque sempre que eu bebo e converso com deus e o mundo, da velha dos cachorros ao vendedor de jujuba, faço mil amigos de uma noite, não adianta dar uma de Poppy, pois acordo praticando a amnésia induzida e querendo colocar uma máscara dos smurfs no rosto. E coloco.

Ao menos a Sally Hawkins entrou no meu coração.

domingo, 10 de maio de 2009

Pose

Tenho que combinar que gostaria de demonstrar minhas fraquezas com mais orgulho e menos vergonha, afinal numa dança com a presença de tantas forças de plástico, parece-me desnecessário acreditar numa ditadura da impavidez.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Afastamento

As coisas vão se desfazendo, perdendo o enlace e você só se dá conta quando já está tudo destruído.

Twitter

Aí hoje eu pensei em finalmente me render e fazer uma conta no twitter, só pra poder dar vazão a todas as bostas de pensamentos que passam na minha cabeça e pra poder olhar os twitters protegidos, mas imaginei como problema número 1, que já existia uma conta com o nome 'rodrigoalmeida'. Fui olhar e óbvio que existia. Pelo menos fez bem danado ao meu ego, porque eu acho que sou um rodrigoalmeida bem mais legal que esse e assim sendo, vou continuar outsider que é o melhor que eu faço.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Face/Off

Tenho de admitir que no final das contas sou super careta mesmo - talvez até mais careta que a Leila Lopes - mas é que se tem algo que me choca nesse mundo é uma coisa chamada transplante de face. Botox, plástica, queixo novo, nariz novo, orelha cortada, dente de ouro, tudo isso eu já me acostumei, mas transplante de face ainda me deixa de boca aberta sem reação. Sinto-me meio velho por isso. Sem contar que no pacote desse pensamento ainda me lembro daquele filme péssimo que o John Travolta troca de rosto com o Nicolas Cage e ambos assumem para todo sempre a decadência de suas carreiras.

As Manchetes e a Criatividade



sábado, 2 de maio de 2009

-

- Mas você não teve pique e agora não sou eu quem vai lhe dizer que fique. Não sou eu quem vai, lhe dizer, que fique. Não sou eu quem vai, lhe dizer, que fique. Não sou eu quem vai, lhe dizer, que fique. Não sou eu quem vai, lhe dizer, que fique. Não sou eu quem vai, lhe dizer, que fique. Não sou eu quem vai, lhe dizer, que fique. Não sou eu quem vai, lhe dizer, que fique. Não sou eu quem vai, lhe dizer, que fique. Não sou eu quem vai, lhe dizer, que fique. Não sou eu quem vai, lhe dizer, que fique. Não sou eu quem vai, lhe dizer, que fique.

- Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Lan House

Tenho de admitir que às vezes quando estou sozinho em lugares públicos, escutando as baboseiras que as pessoas falam alto o tempo todo, só consigo pedir a Deus que agilize a pandemia, porque qualquer dia desses minha paciência acaba e não vai ser bonito. Obviamente logo depois me sinto levemente culpado e depois de culpado, levemente estúpido, afinal, em caso de Holocausto, magro como sou, provavelmente eu não ia durar uma semana - a não ser que conseguisse atingir a tal vontade de viver que as pessoas tanto falam em situações-limite.

Kramer vs Kramer


Mesmo dublado, mesmo morto de sono, chorei horrores de ficar soluçando e passei um bom tempo na varanda tomando chá e me enchendo de esperança: se até os dezoito, dezenove anos, tinha uma vontade muito forte de ter um filho, até costumava sonhar com isso, entrei na casa dos vinte querendo uma vasectomia quase como um desesperado, o que só poderia acontecer oficialmente a partir dos vinte e cinco, decisão que tomei em especial por meus irmãos - um irmão e uma irmã - baterem da forma mais sem noção possível a cota de netos que minha mãe esperava. Sem contar que vi meus sobrinhos e sobrinhas crescerem ano a ano e mesmo tentando ser uma 'boa' influência para eles, digo logo que isso é utopia das velhas e não demora muito até perdemos o controle. Pois é, vê-los passar de coisinha fofa do tio pra cabelo descolorido e fã de saia rodada é uma barra. "Paternidade é uma puta loteria" é o que sempre me diz um amigo que será um grande pai. E ele está certo. Seu filho pode ser qualquer filho - a começar pense em você e em seus irmãos - e pior, você vai ter de amá-lo incondicionalmente seja ele quem for. Isso porque não quis comentar que o mundo é um lugar muito cruel para se colocar uma criança, pense em todos os perigos, pense em toda mediocridade, pense em tudo que você fez e seus pais nunca souberam e quando você se der conta o nível paranóia já chegou. Tudo contava contra e então veio a virada maníaca aos vinte e quatro anos e poucos dias: depois de Kramer vs Kramer (EUA, 1979), de Robert Benton, descobri que vale a pena correr o risco.
Agora tenho só que me preocupar com a mãe.

Déjà vu.

La Muerte de un Burocrata

"Ainda hoje pode-se dizer que o cinema está marcado por sua origem de classe. Apesar de, na sua curta história, ter tidos momentos de rebeldia, de buscas e de autênticas conquistas como expressão das tendências mais revolucionárias, o cinema continua sendo em grande medida a encarnação mais natural do espírito pequeno-burguês que animou seu nascimento".

Tomás Gutiérrez Alea,
diretor cubano que realizou, entre outros, Memórias do Subdesenvolvimento.


Fico me perguntando como ser cineasta, cinéfilo ou crítico sem ser yuppie, sem ter banda larga em casa e sem mamar nas fartas tetas de uma sedenta instituição cultural burguesa (que pode ser, inclusive, um mecenato familiar). Não consigo imaginar uma ação espontânea delineada nas bordas do sistema financeiro, exceto pelas oficinas e afins realizadas por nossas queridas elites, iniciativas também conhecidas como 'tenho culpa burguesa, vou ensinar os pobres a filmarem e escreverem sobre a vidinha de merda deles que nunca vai mudar, acalmo as massas em seus redutos para não matarem, não roubarem, não cheirarem e chamo ao final de responsabilidade social' (não incluo aqui o projeto Vídeo nas Aldeias, especialmente porque, pelo que conheço, admiro imensamente os resultados). É nesses raros momentos de 'e se toda a estrutura ruir e eu ficar com uma mão na frente e outra atrás' que me vejo mais próximo do ato de escrever que de qualquer outro ato de expressão: além de plenamente solitário, e desde pequeno sempre tive sérios problemas com trabalho em grupo, me parece que depois do holocausto suíno e da supremacia absoluta da propaganda, estarei em guerra por um lápis e não por uma câmera.

De qualquer forma, quanto ao questionamento pequeno-burguês, espero que o Simião Martiniano ainda possa me responder.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Coluna

É bem mais divertido ler os textos do Arnaldo Jabor ridicularizando alguns filmes depois de assistir Eu sei que vou te amar. Sério.

Favor usar máscaras e evitar os apertos de mão.

Quase ia esquecendo do típico encontro de Cine-PE que ocorre infelizmente a cada três segundos:

- Tudo bom?

- Tudo bem?

(fim do diálogo e tédio no rosto)

Pedido

Alguém podia colocar a música do Cine-PE em mute de uma vez por todas?

Entro no site pra ver a programação e me decidir se vou ou não, começa a tocar o jingle que tira qualquer pessoa do sério, todas lembranças de como o festival não vale a pena surgem na cabeça, fecho o site como quem foge do México, pondero se vou rir da euforia gripe suína na TV e decido voltar para o terceiro ensaio do livro do Tomás Gutiérrez Alea, Dialética do Espectador.

Livro bem Costa-Gavras, por sinal.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

segunda-feira, 20 de abril de 2009

valor de uso, valor de troca, valor

Nada como ler O Capital com um copo de coca-cola gelada nas mãos e um cigarro Marlboro Light na boca.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Futuro

Slumdog Millionaire é o símbolo maior da distopia da imagem.

Antony Gormley

Tinha a tendência a acreditar que a escultura, especialmente a que se vinculava a tradição representativa de formas humanas, enquanto técnica estava um tanto defasada diante dos inúmeros apetrechos contemporâneos das artes plásticas. Daí para provar que meu preconceito era apenas falta de conhecimento, cruzei em alguma esquina escura da internet com o trabalho do inglês Antony Gormley, que através do seu esculpir ou intervir, desmumifica a tradição metafísica da arte ao usar das potências do corpo metálico. Parece a cada peça, de maneira ambígua, despertar - ou se desesperar diante de - uma nova condição humana.













Inferno

A partir de hoje só entro em um ônibus metropolitano na cidade do Recife, especialmente em horário de pico, especialmente CDU / Várzea, especialmente enquanto não resolverem o problema de carros da UPE que termina por engarrafar metade da caxangá, com um bom amigo ou um bom livro embaixo do braço, porque passar uma hora e meia sem nada pra fazer, num trajeto que em média seria feito na metade do tempo, me passa uma detestável sensação de perda de vida.

É uma pena que metrô subterrâneo e mangue formem um paradoxo insolúvel: o máximo que conseguiríamos seria um metrô suspenso, mas do jeito que tudo termina no tosco, o projeto começaria na linha THX 1138 e terminaria como o minhocão. Pelo menos por aqui ainda não vi passageiro levando chicotada e isso, sem dúvida, é a grande ficção científica do momento.

sábado, 11 de abril de 2009

Outdoor

Estava num ônibus não lotado quando um senhor de cara e aspecto sofridos e sem uma das pernas começou a pedir moedas para comprar um tal remédio super caro que ele supostamente precisaria tomar mensalmente, mas que, como dava pra perceber, não tinha como seguir as recomendações por motivos óbvios. É raro eu dar moedas para pedintes, afinal fico noiando que minha ajuda é apenas um calmante social para que aquele indivíduo continue pedindo e não tome atitudes drásticas, mas cutuquei o bolso procurando algum troco enquanto refletia se aquele senhor teria alguma chance Quando na sequência vi um outdoor inteiro comprado por alguma fulana para desejar feliz aniversário para seu namorado tive certeza que não.

domingo, 5 de abril de 2009

Cronenberg como ciência


(Publicado originalmente no Dissenso)

Necessitamos de um mundo imaginário para descobrir os traços do mundo real que supomos habitar (e que, talvez, em realidade não passe de outro mundo imaginário)”.

Paul Feyerabend, Contra o Método (P. 42/43)

Dizem as más línguas que uma das melhores formas de se compreender um cineasta em toda sua complexidade não é percorrer sua filmografia filme a filme, ler seus aforismos um a um, conhecer o contexto histórico que o gerou, ter detalhes ínfimos de cada produção, desmistificar racionalmente suas escolhas estéticas ou conhecer toda sordidez dos amores e amantes que ocupavam o outro lado da cama, mas, simplesmente, assistir com a cara lisa ao seu primeiro longa. Permanent Vacation (EUA, 1980) serviria para desvendar Jamursch, assim como Acossado (França, 1960) para entender Godard e O Bandido da Luz Vermelha (Brasil, 1968) nos diria, sozinho, em que lugar do panteão encaixar o Rogério Sganzerla. É como se pudéssemos através de uma única obra vislumbrar todas as outras, como se as imagens primeiras confessassem uma antologia prévia de seu criador. Entretanto, tal premissa funciona mais como uma falácia em tom poético – ou profético – do que como uma prática a ser levada rigorosamente à sério, afinal se fôssemos tomá-la como norte ou metodologia, teríamos de nos preparar para o equívoco e para as apaixonantes acusações de aleatoriedade não ‘científica’. Isso porque já partiríamos ponderando, de um lado, os diretores cujos filmes não remetem ou até se opõem ao início de carreira e, de outro, os diretores cujo primeiro ensejo determinou ou antecipou, de fato, toda sua produção seguinte. Digamos que David Cronenberg se equilibra trôpego entre os dois grupos.

Antes de prosseguirmos, porém, preciso esclarecer que qualquer reflexão sobre obras de arte que estabeleça uma rígida separação entre forma, conteúdo e contexto histórico, além de se firmar enquanto anacronismo, deixa de enxergar a interdependência substancial de todos esses âmbitos e a própria necessidade de co-existência, na pesquisa científica e na concepção artística, dos diferentes aportes teóricos e dos distintos caminhos de expressão. É impossível que um ponto de vista fixo cerceie as variáveis facetas de um objeto. Mesmo assim, no caso específico do início deste texto, faço uma separação a título organizacional e não epistemológico, só para apontar em Stereo (Canadá, 1969), o primeiro média-longa do diretor canadense, o que me soa como antecipação e o que me soa como disjunção diante de sua filmografia. Como já estamos cansados de saber, Cronenberg se firmou no campo cinematográfico por usar de seus filmes para, rente a dilemas tecnológicos e científicos, erguer um violento e filosófico relacionamento entre os estatutos do corpo, da psique e da sexualidade, nos conduzindo a universos bizarros onde estatuto algum parece existir. É bastante perceptível como são recorrentes as noções de corpo mutilado por iniciativa científica e transformações físicas e psíquicas na natureza humana estritamente original (se é que podemos dizer que exista tal natureza). Ambas prerrogativas terminam se associando a uma disfunção 1 sexual “cuja estranheza é então percebida como a própria condição do poético” (GRANGER, 2002, P. 187). Se seguirmos por esse viés temático, Stereo funciona como um ensaio – não só no sentido teatral, mas acadêmico – de boa parte dos entrelaçamentos que seriam aprofundados e retomados posteriormente. Uma espécie de Cronenberg prefácio de Cronenberg.

Como no início de sua carreira, aos 26 anos, não tinha dinheiro para fazer um cuidadoso trabalho de captação de som direto, agravado pelo fato de sua câmera teco-teco fazer muito barulho durante as filmagens, o cineasta se aproveitou do obstáculo puramente técnico para transformá-lo num recurso narrativo. Assim sendo, formatou sonoramente Stereo como um falso relatório científico narrado em off – se apropriando vulgarmente de jargões típicos de um vocabulário ‘especializado’, além de criar inexistentes campos de conhecimento. Há um cinismo latente. A partir disso, destrincha, através de diversas vozes num entediado ritmo de fala, os efeitos de capacidades telepáticas, induzidas por um cientista, em um grupo de voluntários humanos. Todos isolados da sociedade, especificamente alojados na Academia Canadense de Pesquisa Erótica. Para que o acordo de crença entre o espectador e o realizador seja completamente firmado e aceitemos a falta de diálogos ao longo dos sessenta e poucos minutos, somos introduzidos num lunático regime do pós-sensório, onde os sentidos cederam completamente a uma hegemonia mental ao ponto da faculdade cerebral da fala ser extinta. O diretor coloca a telepatia como uma espécie de evolução psíquica do ser humano, que não se firma apenas pelo lado racional – não se trata de uma ‘vitória da razão’ – e sim um fluxo para além da simples experiência de ler outras mentes, funcionando a partir de uma transfiguração ampla nas camadas de memória, cognição, resposta emocional e impulsos psico-fisiológicos que geram o pensamento e a linguagem. A comunicação se torna um ato transcendental.

Se levarmos em conta que o texto da narração foi escrito, gravado e introduzido depois que toda parte de captura de imagens já estava concluída, podemos inicialmente até acreditar numa completa aleatoriedade entre o que vemos e o que ouvimos, entretanto, depois de re-assistir; parar; voltar; ‘moviolar’, podemos nos dar conta que tal disjunção não é tão radical. Muito do que é dito pode ser visto em momentos anteriores ou posteriores – de forma mais simbólica que literal, afinal trata-se de uma representação dúbia, às vezes da relação física, às vezes da relação psíquica. Nunca sabemos direito se são os corpos em ação ou a reconstrução mental dos corpos. É como se o diretor tivesse escrito o texto sobre o material bruto filmado, mas ao invés de colocá-lo linearmente sobreposto, tivesse quebrado, em vários pedaços, a relação direta entre imagem e som. Algo que Eisenstein já reivindicava há muito tempo em seu manifesto sobre o cinema sonoro. Resta a sensação de redistribuição a um bel prazer ilógico: o que nos confunde, mas nos deixa alerta. Ao longo de sua carreira, Cronenberg parece ter agarrado os tópicos eleitos em Stereo e se dedicado a fazer um filme inteiro sobre cada um deles, mergulhando e lambuzando a fundo nas conclusões do falso relatório científico.

Infelizmente aqui tenho de cair na bobeira detalhista para fortalecer minha hipótese, pois, ao contrário do que sugiro no primeiro parágrafo, não fui do primeiro longa-metragem para a filmografia e sim, da filmografia para o primeiro longa-metragem. Portanto, vejo Stereo como semente do discurso sobre a telepatia e o pós-sensório que viria a ser plenamente visualizado em Scanners – Sua Mente pode Destruir (1980); passando pelo inconsciente como materializador físico de angústias, algo marcante na diegese de The Brood – Filhos do Medo (1979); além de carregar em seu âmago a intervenção científica na criação de uma psicopatia dos hábitos sexuais, como acontece graças aos vermes em Shivers – Calafrios (1975) e graças a um tratamento experimental numa clínica de beleza em Rabid – Enraivecida na Fúria do Sexo (1977). Podemos e devemos continuar: temos as disfunções sócio-sexuais na constituição de uma nova forma de sexualidade, característica que viria a reger Gêmeos – Mórbida Semelhança (1988) e Crash – Estranhos Prazeres; e a sexualização de objetos que logo me lembra da televisão sedutora de Videodrome – A Síndrome do Vídeo (1982) e da bio-porta-sexo-anal de eXistenZ (1999). Por sinal, para que não restem dúvidas, só um adendo rápido: óbvio que as características apontadas não se restringem, nem se resumem radicalmente aos filmes com a qual foram relacionadas. Há um entrecruzamento impossível de ser registrado numa panorâmica de um parágrafo.

Quebrando um pouco o ritmo antológico, se em termos temáticos e discursivos, Stereo se aproxima e até condensa a filmografia em questão, temos de ressaltar que no tocante aos usos formais se distancia dos 'aparentes' desleixos estéticos que Cronenberg iria assumir nas décadas de 70, 80 e até 90, onde, além de todos os títulos já citados, incluiria Dead Zone – A Hora da Zona Morta (1983) e Naked Lunch – Mistérios e Paixões (1991). E o que dizer dos inspirados subtítulos brasileiros, hein? Durante essa época, o diretor ostentava o título de Barão do Sangue e Rei do Horror Venéreo não apenas pelos temas que abordava (também por isso), mas pela conjunção de tais temas com a forma que flertava com o trash, excluindo qualquer vaidade formalista clássica sem nunca hesitar na mise-en-scène e sem nunca perder uma força imagética. Explodiu cabeças em auditórios encharcando a platéia de sangue, reciclou a ideia de zumbis os inserindo em modernos complexos residenciais, levou o corpo humano ao extremo ao idealizar um híbrido de homem e mosca, colocou mulheres para lamber fetos recém-nascidos, injetou inseticida em veias humanas e revelou o pânico e o prazer de uma contaminação viral por transmissão sexual. Se nos apegarmos apenas aos aspectos técnicos, Stereo se distancia. Apesar de possuir um clima de cinema Underground, há nesse jovem Cronenberg uma rigidez sagaz, experimentos contidos, uma cuidadosa fotografia em preto e branco – algo ainda único em sua carreira – que inclui um controle absoluto da luz e enquadramentos milimetricamente pensados diante do cenário onde a história se passa (um prédio que se encaixa perfeitamente ao que chamamos genericamente de arquitetura moderna). Um sentimento de erudição se afirma nas imagens. Esse tipo de atitude em início de carreira me parece muito necessária para jovens artistas até como auto-afirmação, uma forma de dizer que aprendeu a controlar o belo tradicional para depois se lambuzar no grotesco, uma afirmação de que sabe seguir as regras do cânone para depois simplesmente recusá-las. Os percursos artísticos de Picasso e de Lars Von Trier logo surgem na cabeça.

Além do que já foi dito, provavelmente um dos pontos mais intrigantes do diretor canadense, que a meu ver, em Stereo, encontra seu ápice, é sua reflexão sobre a natureza, a ética e a metodologia da prática científica. Mesmo correndo o risco de soar patético, sinto-me tentado a refletir Cronenberg como filosofia da ciência. Apertem os cintos. Pra começar, vejo claramente uma preocupação (e uma defesa) da anarquia metodológica, da necessidade do cientista se arriscar pelo mundo do improvável: algo que pode tanto se dar na premissa inconseqüente do ‘tudo vale’, como simplesmente na liberdade de experimentar e pular de uma metodologia a outra de uma forma ágil, evitando as amarras acadêmicas e burocráticas. Um exemplo seria defender a importância, seja em forma de obstáculo ou de recurso, do pensamento contra-indutivo e do irracional para, assim como na criação artística – e há sempre uma aproximação de ambos os campos – alcançar o inesperado e se esquivar do que, mesmo inconscientemente, se ergue enquanto premeditado. Seguir uma uniformidade de métodos nos leva ao perigo de uma defesa inabalável da verdade. Cronenberg fundamentalmente sustenta, e esta é a grande ironia de seu primeiro filme, que as leis da ciência não são inabaláveis ou irrevogáveis, que o conhecimento científico não é seguro e indubitável. A proliferação de instituições que divulgam resultados diferentes sobre o mesmo fenômeno é apenas o começo. Precisamos ter consciência de que muitas vezes a razão e o planejamento extremo de resultados finais funcionam como doutrinação metodológica, fazendo inclusive com que a ciência atinja o status de mito na sociedade contemporânea. Uma espécie de religião técnica e instrumental. Cronenberg me parece defender – antecipando argumentos de filósofos contemporâneos como Gilles Gaston-Granger e especialmente Paul Feyerabend – a violação metodológica pelo bem do desenvolvimento do conhecimento. Não é a toa que suas obras trabalham com hipóteses absurdas que claramente contradizem o campo do possível, como se em algum lugar de sua mente martelasse o princípio de que a ciência pode se tornar conto de fadas e que os contos de fadas podem se tornar ciência. Jamais devemos esquecer que existe uma história das práticas científicas: certezas que substituem certezas ad infinitum.

Um segundo ponto importante destacado no relatório científico de Stereo, especialmente importante para as ciências humanas, se materializa eticamente a partir do momento que o pesquisador inicia sua pesquisa: os resultados só podem ser pensados se o pesquisador se coloca como interferência do processo, se constata e admite a não-neutralidade de sua relação com seu objeto. Na verdade, a originalidade da investigação reside no encontro, interpretação e estratégias do pesquisador para com seu objeto. E o resultado sempre será um em mil possíveis. Assim como o cientista do filme precisa refletir diariamente sobre a sua influência sob o grupo de cobaias, uma influência que modifica a natureza das interações sociais e que o coloca como objeto de si mesmo, pesquisadores podem estabelecer pesquisas teóricas associadas a uma interferência prática, algo que Gramsci conceituava como intelectual orgânico. Trata-se de se desvincular da distância cabível ao acadêmico tradicional, assumir uma causa – com ou sem instituição matriz – e intervir ativamente no objeto pelos mais diferentes canais. O estruturalismo e a tentativa de emendar as ciências humanas nos conformes das ciências exatas já não fazem muito sentido. A reafirmação dos Estudos Culturais e a ascensão da Cibercultura nesse início de século carregaram consigo a emergência dos acadêmicos não só apaixonados por, mas agentes de, seus objetos. De fato, essa aproximação natural transforma completamente o caráter da pesquisa, aprofundando-a de uma forma muito pessoal e reforçando a ideia de que, diante do perigo de nossos próprios julgamentos, algumas distâncias só ampliam as névoas ao invés de dissipá-las. A ciência pode personalizar seus hábitos sem receio de perder sua credibilidade.

Talvez haja quilos de contra-senso em meus argumentos, mas é justamente esse o princípio, pois Cronenberg tem uma relação de absurdo como paráfrase (e pastiche) da realidade, como se entrássemos num mundo imaginário, que não nos diz muito à primeira vista, que nos causa uma estranheza, mas que nos força a buscar relações simbólicas e finalmente questionar o nosso próprio mundo. Acho que as melhores ficções científicas funcionam dessa maneira: uma busca por uma dimensão oculta da realidade, meio como se fossem os óculos de They Live (EUA, 1988), do John Carpenter. Vejamos um exemplo novamente a partir do pseudo-relatório, e estou seguindo esse caminho porque acredito que podemos ultrapassar o nível superficial de observar tudo como sandice para alcançar o lugar onde surge a aura de revelação. Afrouxem os cintos. A essência do elo telepático é a dominância de um dos exemplares sobre o outro. Isso pode acontecer entre dois indivíduos ou em grupos (e que pode ser visualizado com detalhes em Scanners). A dominância é responsável por suprimir os elementos heterogêneos do grupo rumo a captar elementos homogêneos, enfraquecendo e amenizando os paradoxos e se fundando no ímpeto aglutinador entre os participantes. Daí a vontade do grupo se adequa de acordo com a personalidade dominante. Qualquer semelhança com uma manutenção das ideologias hegemônicas e dos padrões de comportamento no seio da sociedade não me soam como uma mera coincidência. Só depois que um status quo estiver estabelecido é que o dominante pode abdicar em favor de uma verdadeira vontade do grupo. Cronenberg fundamentalmente trabalha com microcosmos para deixar claro um pessimismo: afinal ele está num conto de fadas pseudocientífico insano ou está se debruçando sobre contradições políticas? Vê-lo como um diretor alienado é um equívoco primário.

Continuando no mesmo exemplo, chegamos a uma forma de resistência ao desejo da dominância, através de uma das cobaias que usa de uma técnica chamada partição esquizofrênica: para resistir às invasões telepatas, ela criou um ‘falso-eu’ e escondeu dentro de si o ‘eu-original’. Acontece que na iminência do falso-eu ter de ser usado de forma recorrente como defesa chegou um momento em que o original se perdeu nas entranhas da psique e deixou de existir. Não sei se é livre associação demais, mas fico pensando nas diferentes personalidades que assumimos em diferentes ambientes e relações sociais: podemos pagar de rude na família, de presunçoso no blog, de misterioso na faculdade, de tímido no trabalho, de bom moço na imobiliária e assim a perder de vista. Divertido não é apenas refletir como esses ‘eus’ se relacionam entre si, como se relacionam quando dois destes distantes ambientes convergem em um, mas principalmente, se debruçar sobre a relação desses ‘eus-criados’ com o tal ‘eu-original’ de quando estamos sozinhos, deitados na cama no final da noite – se é que, se tratando em natureza humana, podemos falar de um ‘eu-original’ ou apenas de ‘eus’ adequados e condicionados às situações sociais que somos postos diante. Às vezes me parece uma questão de sobrevivência social.

Para finalizar gostaria de me aprofundar num último tópico de Stereo. A partir da ideia de norma e desvio, o cineasta faz uma introdução da heterossexualidade como referência da norma e a homossexualidade como referência do desvio, mas quando se leva em conta que o sexo para reprodução representa apenas uma pequena parcela dentro do espectro de possibilidades sexuais humanas, incluindo uso de medidas contraceptivas, a própria noção de norma torna-se questionável. Toda sua filmografia parece compartilhar desse princípio: o que é desvio se mostra como norma filme após filme. Na telepatia ele defende que a norma é uma espécie de bissexualidade amplificada, que chama de omnisexualidade, uma espécie de sexualidade transcendental, onde todos da comunidade telepata conhecem os desejos de todos e podem desenvolver relações sexuais sem o toque – meio como as pílulas de Barbarella – além de poder modificar seu próprio sexo; fazendo do sexo entre dois homens, uma relação heterossexual, uma relação entre homem e mulher, uma relação homossexual e assim sucessivamente até esgotarem todas as saídas. Seria como se na mente de um homem, ele pudesse se relacionar enquanto mulher com outro homem, o que faria da relação entre dois homens, uma relação essencialmente heterossexual. Além de que, no campo telepático, não há diferença entre a ideia da coisa e a coisa ou a ideia do ato e o ato. Ou seja, o pensamento de um seio é um seio, o pensamento de sexo oral é sexo oral. O narrador ainda ressalta o uso de drogas afrodisíacas, e todo esse papo de liberação pansexual soa como bafo pós-68, no intuito não de aumentar o potencial ou a fertilidade, mas para agir na quebra dos muros de restrição psicológica e de inibição social que limitam – e que, de fato, limitam – as pessoas a uma monosexualidade. Satyricon neles. No final das contas, Cronenberg é um pervertido daqueles que não tiram o dedo e a língua das partes mais erógenas da sociedade. E, de fato, essa é sua maior ciência.

Bibliografia:

BEARD, William. The Artist as Monster: The Cinema of David Cronenberg. Toronto: University of Toronto Press, 2005.

CRONENBERG, David; RODLEY, Chris; Cronenberg on Cronenberg. Faber & Faber, 1997.

GRAMSCI, Antônio. Os Intelectuais e a Organização da Cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.

GRANGER, Gilles Gaston. O Irracional. São Paulo: Ed. da UNESP, 2002.

______________________ A Ciência e as Ciências. Sao Paulo: Ed. da UNESP, 1994.

FEYERABEND, Paul. Contra o Método. Rio de Janeiro: F. Alves, 1977.