Não que gostasse de soar dramático anunciando aos seus amigos a maior polêmica de todos os tempos da última semana; nunca teve simpatia pelos palermas que cultivavam em qualquer coffee break uma síndrome de plantão da Globo, mas antes mesmo do dia que Marcelo colocou o pé pela primeira vez em seu novo trabalho, um jornal popularesco do centro turístico da cidade, a Prefeitura já estava realizando uma reforma nos paralelepípedos da rua vizinha, numa rotina basicamente composta pela retirada, limpeza e reorganização das pedras. Como gosta de quantificar suas histórias e usar expressões de seu tio Nogueira, Marcelo nunca deixava de ressaltar: "digamos que essa obra já tem coisa de ano, mais de ano, todo dia os trabalhadores estão lá, mas acho que eles recebem ordens para irem devagar, devagarinho, quase parando". Recentemente, no entanto, o rapaz começou a notar para além da lentidão que algumas partes, depois de finalizadas, eram em seguida reabertas, as pedras novamente retiradas, limpas e reorganizadas, de modo que as obras simplesmente se arrastavam, se arrastavam e nunca chegavam ao fim. Depois de todo esse tempo, apenas uma rua de um projeto de oito, a Vigário de alguma coisa, tinha quase chegado ao fim do processo que oficialmente era chamado de requalificação, contava com incentivo de R$ 1,2 milhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento e deveria ser concluído em seis meses. O pior acontecia com as calçadas. Primeiro foram inteiramente consertadas e depois inteiramente destruídas, afinal os pedreiros precisaram incluir as tampas de esgoto / encanamento, algo que tinha sido aparentemente esquecido quando os urbanistas / restauradores deram a largada na pedra fundamental. É um caso pequeno, localizado, mas Marcelo tomava-o para si como parábola do funcionamento de tudo em sua cidade, cuja administração do prefeitinho manco vinha tontamente trabalhando na lógica da tentativa e erro, com a incrível margem de mais erros e menos tentativas, de modo que todos os dias antes de subir as velhas escadas de madeira, tinha a impressão de que estavam lavando dinheiro público bem ali, na frente de todos, literalmente no meio da rua. O rapaz pensava no assunto praticamente todos os dias, mas não conseguia tirar da cabeça uma história que tinha escutado anos antes, reforçada no início destas obras, falando que a iniciativa previa embutir os fios que inundam a vista aérea da região para potencializar a revitalização do patrimônio histórico. Nenhum fio tinha desaparecido da paisagem e Marcelo temia que as escolhas dos gestores terminassem no mesmo caminhar, destruindo e virando lesma tudo de novo para então descobrir, a impossibilidade de fazer o serviço. Só que aí os paralelepípedos não poderiam ser reaproveitados.
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terça-feira, 20 de março de 2012
quinta-feira, 3 de março de 2011
Herege
Beto nunca soube o que era morar em outro lugar, aprendeu a andar, a andar de bicicleta e a beijar no 'último' bairro antes da cidade acabar, durante sua infância o mundo se resumia as 48 casas da vizinhança, sempre que ia dormir na casa de um amigo longínquo, escutava os adultos reclamarem na hora de levá-lo embora: logo se acostumou a morar na putaqueopariu e depois da casa do caralho. Sua casa ficava numa vila, numa rua sem saída, atrás da matriz da igreja católica do bairro. A influência religiosa sempre foi imensa. O bairro corre junto ao sábio e batido dilema de ser simultaneamente campo e cidade. Cada vez menos campo. Algumas donas-de-casa ainda passam o dia com as portas abertas, colocam a cadeira na calçada no fim da tarde, comentam da vida de cada um dos que passam para comprar o pão. Luciana tá gorda, Priscila passou no concurso, Manoela vai casar. Quando era pequeno, ainda criança mesmo, Beto resolveu deixar de frequentar a missa, achava um porre, tudo não passava de uma obrigação familiar e seus amigos tomavam banho de leite de rosas o que lhe causava um enjôo daqueles. O pior vinha na sequência: metade rezava de pau duro olhando as ninfetas da rua da lama. Só que deixar a missa não era tão fácil. Inúmeras vezes Beto estava no terraço de sua casa, lendo o jornal de domingo às sete da noite, quando passavam seus amigos nos trinks, paravam na calçada e o chamavam de herege. Entre uma não-notícia e outra, olhava por cima do papel sujo abismado como poderiam saber que ele não tinha ido na missa da manhã (a famosa missa das crianças). Ali no último bairro antes da cidade acabar, se você perdia uma, TINHA que ir na outra. Alguns meses se passaram e Beto com um sentimento de vingança voltou a frequentar a igreja. Para ir fundo na ironia, até se tornou coroinha por uma única e fatídica missa, errou a hora dos sinos, fazia graça, ria do sermão, atrapalhava as cantorias. Beto era um garotinho muito do infiezado, só queria demonstrar para si mesmo sua capacidade de conquista. Perto de desistir 100%, sentia que precisava tomar uma última atitude: experimentar da óstia antes de fazer a primeira comunhão. Convenceu sua namoradinha ou a menina com quem andava de mãos dadas de vez em quando, entraram na fila, corpo de cristo, amém, de joelhos, gosto de pão velho amassado por pé sujo de padre safado. Não demorou a se gabar e os que gritavam herege, logo mostraram suas garras: dois deles foram conversar com Beto, tipo papo sério, dizendo que ele tinha estragado sua vida e a da sua família, que de agora em diante só iriam acontecer coisas ruins, morte de familiares, acidentes, doença, falta de dinheiro, fome, peste e viva o mundo medieval. Foram enfáticos no "sua mãe vai morrer por sua causa". Apesar da descrença, Beto ficou um tanto incomodado, começou a temer a morte de uma forma diferente, mas antes de tudo resolveu trocar de amigos. Anos depois, já na faculdade, nem lembrava desses acontecimentos até ler Eduardo Galeano: um excerto do Livro dos Abraços conta a história de um garoto que vai se confessar por ter se masturbado ou falado algum palavrão e o padre coloca a cruz com jesus crucificado pra o menino beijar dizendo: "você o matou, você o matou". Na casa de Beto também tinha um pequeno Jesus Crucificado de metal. Um dia ele sumiu sem deixar pistas.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Retorno de Clara
Caso decidisse brincar de matar todas as pessoas do mundo, olhando e fuzilando, olhando e fuzilando, olhando e fuzilando sem cansar, Clara, inundada de desfaçatez, perceberia que quando o campo de batalha estivesse finalmente inerte, quando os corpos mutilados não se distinguissem dos pedregulhos rugosos, um único homem permaneceria de pé... e ele sequer se daria conta de toda matança. Não demoraria muito até caminharem juntos, percorrendo dedicatórias e estorvos, entretidos com as histórias do tempo em que estiveram afastados. Os sorrisos seriam os mesmos e, como de costume, recordariam dos velhos, bons - e protocolados - momentos. Clara recordaria do dia, quando tinha dez anos, em que a avó lhe contou - recomendando com fervor pelo excesso de cálcio - que farinha de rosca era feita de ossos humanos infinitamente triturados após serem recolhidos no cemitério da cidade. Sua avó nunca usou de tapetes persas para ocultar as sujeiras da memória. Quando o primeiro homem voltou, o primeiro homem de Clara, ela não sabia como reagir, ele estava gordo, não disfarçava os primeiros fios brancos, mantinha o arroto matinal, e mesmo que todo seu otimismo lhe obrigasse a acreditar que ainda eram os mesmos, como se o tempo se costurasse sozinho para apagar distâncias galgadas com muita dor, não negou diante do circo místico seu próprio retorno ao campo de batalha. Temia ser obrigada a brincar de acreditar em todas as pessoas do mundo, fingindo e ressuscitando, fingindo e ressuscitando, fingindo e ressuscitando até cansar, mas não conseguia se desvencilhar do reencontro consigo mesma num universo de possibilidades. Clara odiava o seu segundo homem por ter se tornado uma mulher incapaz de amar o primeiro. Desde então, com os cabelos cacheados, sempre atravessa um beco finíssimo antes de se decidir.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Várzea-Derby; Derby-Várzea

Por uns bons anos, peguei ônibus todo santo dia para ir ao colégio, de forma que cerca de um décimo do meu tempo diário se passava dentro do cdu/várzea centro-subúrbio ou do cdu/várzea subúrbio-centro. Eventualmente pegava um cdu/boa viagem/caxangá na volta. Nunca na ida. Seja como for, ou melhor, sendo otimista, cada viagem devia durar cerca de quarenta minutos, o que dava uma hora e meia contando com a volta. Daí pra fazer o drama, em uma semana permanecia no mínimo 8 horas dentro de um ônibus; em um mês, 32 horas, em um ano, hmmm, digamos que 320 horas para compensar o uso diletante nos meses de dezembro e janeiro. Pois é, são mais de 13 dias inteiros. Entretanto, antes que alguém comece a reclamar da vida, dizendo que mora em São Paulo e passa 78959050950495 horas dentro de um ônibus ou do carro ou sei lá, que enfrenta quilômetros de trânsito, que mora em Piedade e estuda em Olinda, que a rotina é um inferno, comecei esse post só para dizer que passei a maior parte desse meu tempo observando as pessoas: olhava as roupas, os tiques, os gestos, a impaciência, quem levava sacola, quem fingia sono para não carregá-las, a forma de falar, sobre o que falavam, a altura da voz, o corte de cabelo, a cor dos olhos, o sorriso, a grossura da batata da perna, as relações quando estavam em grupo e claro, o corpo por debaixo das roupas. Havia todo um clima de quem tinha acabado de deixar a supervisão familiar e estava aprendendo a lidar com o mundo, num misto de impacto, encantamento e incerteza, mas usando de truques infantis para conseguir se safar.
Eventualmente reconhecia uma ou outra pessoa, que sempre pegava no mesmo horário que eu, muitas das quais nunca troquei uma palavra, só compartilhávamos o mesmo espaço, a mesma efeméride, o mesmo tédio. Conseguia até captar certas recorrências de comportamento nesses casos. Parece besteira, mas nunca consegui lidar direito com a sensação de estar perdendo tempo: mesmo parado, em pé, sentindo cheiro de suor seco misturado ao bafo da cidade, tinha que estar com a cabeça a mil. Nesse sentido, foi graças aos ônibus médio vazios, ou seja, os que davam pra sentar, que pude estudar para o vestibular: durante o último ano do ensino médio, virou um ritual, estudava da hora que entrava até a hora que descia, até porque em casa, lia livros, escrevia umas toscas poesias de amor ou fazia pesquisas - não existia o google, mas existia a barsa - sobre assuntos que me interessavam, mas que não podiam ser tratados como conteúdo de uma prova. Eram puro devaneio pessoal: uma clara obsessão pelas guerras da humanidade aqui, uma nóia em assistir os clássicos do cinema até a metade do século XX ali, um lamento por não ter como me tornar paleontólogo. Meus cadernos da época são verdadeiros tratados sobre a digressão juvenil: frases e mais frases tradutoras de um instante em meio a equações que já não me dizem nada. De qualquer forma, na maior parte do tempo que passava dentro dos ônibus, obviamente não estava estudando coisa alguma, daí me entregava ao deleite da observação: sentava na janela, olhava os transeuntes, escutava as conversas dos outros pela metade, piscava o olho para quem passava em pé nos coletivos que seguiam o caminho contrário. Entre um olhar e outro, entre uma frase pela metade e outra criava micronarrativas, procurando saber para onde as pessoas estavam indo ou de que fim de relacionamento tinha acabado de sair. Todo dia chegava em casa com uma criação mais absurda que a outra, mas não se sintam traídos, não foi assim que comecei a escrever os primeiros contos.
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segunda-feira, 23 de novembro de 2009
comédia romântica de baixo orçamento
Certa vez, perto dos trinta, Verinha se deu conta que sempre se apaixonava nos últimos meses do ano, outubro, novembro, meses que escancaravam os errantes finais de ciclos, ansiedade, universidade, mudanças de visual, arrependimentos, consumismo, listas dos piores, despedidas, desespero, projetos, nostalgia. Tinha a impressão dúbia de que a partir de setembro rolava o alinhamento cósmico em que as pessoas atraentes saíam de suas tocas, enquanto que ela se desfazia de suas paredes, muros e armaduras, provavelmente por, justamente nessa época, perceber a melancolia restrita aos domingos se alastrar aos outros dias. Era preciso amenizar o clima pesado, esquecer os protocolos do horóscopo e havia certo desespero-carmem-maura nisso. Na falta de outra escolha, aproveitava o fervor o quanto podia, vivia toda a vida em quatro ou cinco dias, mas bem confessava que de fato não durava muito. Antes do Natal já tinha certeza do fracasso, se lançava na farra familiar, virava a noite bebendo, comendo, reclamando e fugindo das perguntas anuais das tias velhas. Eventualmente amanhecia o dia embriagada assistindo Procurando Nemo e chorava horas após erguer e derrubar uma montanha de latinhas de cerveja. Abria o olho esquerdo, pois o direito estava grudado de remela, e pedia a Deus para não estar caída nua dentro do banheiro.
Desde os vinte e cinco, Verinha decidira trocar a auto ajuda que ganhava como brinde da paquera com o dono da banca de revista pelas composições barra-pesada do Paulo Vanzolini. Sentia desde então uma vertigem terrível, um medo por antecedência, como se o corpo rígido, de forma autônoma, antevisse e se protegesse para o ano que estava por vir. Todavia, quando pensava na contagem regressiva puxada pelo Faustão, quando tinha pesadelos onde ficava trancada num aposento com todos os artistas do show da virada, se tornava permissiva só pelo medo de ficar sozinha. Se pudesse fazer um testemunho de sua condição, escreveria em alguma pedra fina que enxergava a si como se estivesse presa a um labirinto de corredores novos, que apesar de levarem naturalmente a caminhos desconhecidos, eram feitos de azulejos e dores antigas, labirinto que se projetava a partir do vício de quem se encontra entre o amor platônico que doa a um e o amor hedonista que espera receber de outros mil. A própria vive pensando em desistir, mas na hora do gatinho, Verinha, mesmo tendo vivido todas decepções amorosas, mesmo se envergonhando da vontade de escrever melodramas cinquentões, sente o peso das olheiras e termina admitindo que espera ansiosa a chegada do reveillon em que terá a oportunidade de, vestida de vermelho, abdicar dos mil para encaixar seu corpo no abraço quente de apenas um.
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quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Diacronia / Sincronia
Tenho a tendência de idealizar os meus dias como crônicas, descobrindo em alguma brecha das vinte e quatro horas, um lampejo transcendental que possa carregar comigo para o resto da semana, do ano, quiça da vida. É como se partisse do arbitrário princípio de que os dias futuros são, em parte, constituídos de milésimos de segundo colhidos no percorrer dos dias passados. Por isso, toda vez que me arrisco a planejar os próximos passos, que me lanço num plano de ação a médio prazo, logo me deixo invadir por um sentimento nostálgico: leio posts antigos, descubro blogs abandonados, vejo filmes de infância, relembro bons momentos, mando emails saudosos, volto aos lugares que não frequento mais. Parece um mero tique errante, mas só assim me dou conta como tudo isso me pertence, cada fagulha, fragmento e fratura; redescubro quem eu 'era' / 'sou' 'antes de' / 'sem' conhecer cicrano ou beltrano, mais ou menos o que fala o Henri Lefebvre, em um de seus ensaios sobre o cotidiano e tomando para o lado pessoal, ao afirmar que "a história de um dia engloba a do mundo e a da sociedade". Pensar na vida anterior englobada pelo dia presente e pensar os dias como crônicas a serem descobertas por um olho não dormente, me desperta para um aprendizado eficaz: o de recortar momentos insignificantes para torná-los parábolas existenciais. Vinte quatro horas, vinte quatro anos, vinte e quatro quadros e a experiência me parece dizer que sempre há de chegar o momento em que os milésimos de segundo mostrarão sua exatidão cirúrgica.
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Pizza
Daí dia desses fui no centro comprar um livro e um sapato, tava na caxangá dirigindo de boa, quando não mais que de repente passaram umas seis ambulâncias, uma atrás da outra, na maior velocidade, cortando todo mundo, eu, a titia lesma da frente, o cdu várzea lotado. Ambulância sempre me dá uma sensação não só de que a cidade inexplicavelmente acelerou e tudo precisa ser mais rápido, como gera uma maldita internalização de que o caos reina - só que sem raposa, ejaculação de sangue e clitóris da Charlotte Gainsbourg cortado. ok, daí chego no derby, ali na ponte antes da praça, maior trânsito, aquela vibe 'tem-um-acidente-ali-na-frente-e-todo-mundo-ta-parando-pra-olhar', o pessoal do ônibus lotado se espremendo na janela e a fofoca rolando solta. Nessa hora sempre surgem milhares de teorias estúpidas. Passo o cruzamento, tem caídos uma moto dessas de entrega a domicílio com a caixa estourada e um motoqueiro, nenhuma ambulância por perto, um galo da madrugada de pessoas rodeando o coitado no chão. Minha última imagem foi a dele mexendo a perna. Continuei meu caminho, segui minha vida, só que logo na frente, outro trânsito, fiquei puto, xinguei geral, adoro gastar toda minha energia negativa enquanto estou no volante. Daí quando finalmente chego na causa dos carros lentos, tem uma saveiro branca parada e um carro de polícia ao lado, a maior discussão entre o motorista da saveiro e os policiais e o povo do ônibus se espremendo gritando coisas que não conseguia entender. Foi então que passei a saveiro e me senti a pessoa mais feliz do mundo, não porque o trânsito tava liberado na minha frente, mas porque olhei pra trás e vi a cena do dia: o vidro da saveiro estava todo rachado e sobre um amassado central, tinha uma pizza portuguesa toda espragatada. Merecia muito uma foto. Juro que fiquei pensando no cara que pediu a pizza, cogitei até a possibilidade dele ligar reclamando que passou de vinte minutos e que agora deveria ganhar uma pizza de graça. Olha só o que o consumo faz com a gente. Enfim, entrei na conde da boa vista com a sensação de que era possível entender o mundo olhando o conjunto direitinho: uma moto sozinha não fazia sentido, uma saveiro sozinha com uma pizza no vidro também não. Quer dizer, nem tudo fez sentido, afinal, onde foram parar todas as ambulâncias que passaram por mim na caxangá? Parece nada a ver, mas acho que a resposta pode estar escondida naquele seriado, O Reino, do Lars Von Trier.
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segunda-feira, 20 de julho de 2009
Treinamento
Há pouco mais de uma semana, acordei com o rosto molhado e os dedos dos pés doloridos, algo que não me acontecia há vários anos, desde pirralha pra ser sincero, quando sonhei que estava perdido numa mina cheia de placas. Eu andava e espirrava e em cada uma das placas tinha escrito o nome de uma profissão. Depois de longos passeios tomado pela claustrofobia dos corredores estreitos e diante do desmoronamento lógico que me esperava - super na linha 'A Montanha dos Sete Abutres', do Billy Wilder - eis que terminava encontrando uma derradeira maldita placa e no desespero, antes de lê-la, decidia por ela. Nem paleontólogo, nem médico, nem astronauta. Pois é, paleontólogo era a primeira opção na época. 'Assassino' era o que tinha escrito. Acordei com o rosto molhado e os dedos dos pés doloridos. Nem preciso dizer que corri direto pra cama da minha mãe. Acontece que nem o sonho de criança, nem o sonho da semana passada se comparam com uma história que escutei no treinamento do Periódicos Capes. Lá estava eu só querendo saber como fazer a senha para ter acesso gratuito e irrestrito nas mais diversas revistas internacionais, acesso de casa, e não da universidade, quando finalmente a mulher, meio confusa consigo mesma e pouco íntima da interface, explicou mais ou menos o caminho. Ok, entendido, fui pro gmail, orkut, twitter, inutilidade, inutilidade, irrelevância, irrelevância, daí chegaram duas outras pessoas para o treinamento e a instrutora liberou os que já tinham pego o espírito da coisa. Um senhor ao fundo totalmente alheio a tudo que estava sendo dito permaneceu sentado. Eu estava no computador diametralmente oposto ao dele. Foi então que a instrutora resolveu começar com a nova turma pela senha e não pelos blábláblá de ensinar a usar um sistema de busca. Alow, conhecemos o google, pode pular essa parte. Enfim, ela chamou o senhor "professor de biologia" pra se aproximar. Não vou negar que o achei estranho, não só pelos olhos tristes, pelos cabelos desgrenhados, pela pochete feiosa, pela roupa-fiz-figuração-no-elo-perdido-e-não-saí-do-personagem', mas especialmente pelo sotaque estranhíssimo, pois não conseguia identificar de onde vinha, sequer se era nacional ou internacional, ou mesmo se era sotaque de fato ou um problema de dicção. Ok, o senhor era um verdadeiro e legítimo jungle oldman: o que não é problema pra mim, pois apesar de odiar a natureza, as aranhas e os insetos, sou amigo de Mário, rapaz bonito que passou um bom tempo desencontrado no meio da Amazônia.
Voltando ao que nos interessa, a instrutora pediu ao professor que se aproximasse e avisou que para fazer a senha no portal de periódicos era preciso ter o SIGA ativo. Todos enquanto alunos e professores da universidade obviamente tinham SIGA. Explicando bem rápido, além de dar muita dor de cabeça e gerar mil problemas quando você mais precisa, o SIGA é o sistema virtual da UFPE onde todos os alunos fazem a matrícula, conferem seus históricos escolares, notas, grades curriculares, horários; onde também os professores colocam os resultados, os nomes das disciplinas, os horários. Sacaram mais ou menos? Pois é, é isso. Daí o professor falou: "eu não tenho siga". Nessa hora meu ouvido ampliou para além de minha orelha (sem piadas por favor), porque é incompatível que um professor da UFPE seja professor de fato e não tenha SIGA. Daí a instrutora bem boazinha e calminha, boazinha e calminha como geralmente são todas as bibliotecárias, falou que ele precisava falar com o pessoal do departamento pra adiantarem o SIGA dele. Ninguém queria saber mais do treinamento, havia algo de mais importante ali. Daí o professor começou um relato constrangido, afirmando que os professores companheiros de departamento não gostavam dele, que muitos sequer falavam com ele. O constrangimento era dele e a fraqueza do constrangimento nossa. Continuou dizendo que não era bom com computador, internet, que o chefe do departamento simplesmente dava o papel das disciplinas do semestre e, ao final, a secretária pegava o papel com as notas de volta. Tudo sem troca de palavras. Sério, eu fiquei meio emocionado, inclusive por culpa diante de meu olhar primeiro, apesar de que outsider, outsider, essa história pessoal já era demais. Ai de quem pensa na universidade como o templo dos bons modos e da ilustração. A instrutora, claramente passada e não só ela, sem saber se voltava pro treinamento, se enfiava a cabeça no monitor, disse desorientada que ele podia ir na biblioteca, só que logo depois se deu conta que na biblioteca ele nunca que ia fazer o SIGA. De fato, isso só seria resolvido no departamento. Ele achou que ela não tinha entendido e repetiu a história, enfatizando que não saberia fazer isso sozinho, que não era bom de computador, que não tinha computador em casa. A mulher querendo quebrar o gelo falou que também não tinha, que usava o do sobrinho. Foi a deixa: ele começou a ficar meio nervoso e disse que não podia pedir a filha até porque a filha tinha asco dele. Eu fiquei meio em estado de choque. Todos na sala. Depois do silêncio sepulcral, ele soltou a máxima do dia: "Ninguém fala comigo lá. É que eu sou leproso. Quando se tem lepra, é foda. Eu tenho um fedor que faz com que as pessoas não se aproximem de mim. Eu só posso feder muito. Muito mesmo. Desde que eu cheguei nessa cidade há vinte anos, eu nao paro de feder". Não se enganem, REALMENTE o fedor era uma metáfora. A mulher sem saber o que fazer mandou ele procurar o reitor, só o reitor poderia resolver o caso. Momento climãão instaurado e eu como um bom covarde, antes que ele continuasse a história, fugi da sala pensando como meu dia-a-dia só faz me confirmar que o mundo é um grande lixão cheio de urubus. Voltei pra casa péssimo. Só melhorou um pouco quando passei no laguinho e vi duas beldades tirando a camisa e fazendo contorcionismo na grama. Ainda bem que consigo curar tristeza profunda com um circo de corpos quaisquer.
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quinta-feira, 9 de julho de 2009
Be Kind Rewind
Às vezes desejo secretamente que a vida devia se configurar como um DVD, de forma que, quando completássemos dezoito anos, ganhássemos como prova da idade um controle remoto com lindos botões rewind and forward, nos dando a abertura de transitar por todos os nossos anos, rememorando a melhor trepa e nos arriscando a descobrir o nosso leito de morte. Talvez o excesso de viagens para frente e para trás, além de nos causar o enjôo típico da incerteza, além de nos confundir as emoções e de nos tornar existencialmente atemporais, terminaria se solidificando enquanto um longo tédio rotineiro e firmando permanentemente a resolução do porquê vivemos no, e devemos ao, presente. Não me parece ser por acaso. Ainda assim, fico com um sorriso distante só de pensar na possibilidade de acelerar a dor – sentindo-a mais intensamente numa durabilidade menor; na praticidade de mudar o ângulo de visão, brincar com o zoom – entendendo os pontos-de-vista que nos escapam, os contextos que não nos pertencem, as distâncias e aproximações. Parece um vício dos bons: pensem no prazer quadro a quadro – descobrindo o gozo de cada segundo, resgatando um sentido a cada gesto; na vontade sincera e justa de pular capítulos inteiros, pausar momentos de dúvida extrema, viver o mesmo frio na espinha uma centena de vezes. A velhice me parece ser a superação deste desejo: desejo de quem carrega uma juventude amada que começa a pesar e desejo de quem olha para frente sem olhos de farol. Por ora, na encruzilhada dos vinte e poucos anos, bem que a vida poderia ser cheia de funções técnico-afetivas, nem que fosse uma breve alienação de nós a nós mesmos, de nós em nós mesmos, afinal, a única função de DVD que nos resta enquanto seres humanos donos de nosso destino e condicionados por nossa realidade é a do botão eject. Nada mais. Ao menos, os anos têm passado, vinte quatro deles, e o único botão do controle tem se mantido intacto. Deve ser o sinal de alguma fé na humanidade. Quem diria.
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sexta-feira, 12 de junho de 2009
Contando
Eu sempre achei que a melhor maneira de medir o amor fosse a saudade e que a saudade vinha da simples vontade de compartilhar uma faísca de mundo com alguém. Às vezes vontade incontrolável, dependência assumida, simbiose desconcertante. É como se a vivência só se tornasse completa, por mais extraordinário que fosse o momento, ao contarmos, quase como revivendo, uma bela historia em um ouvido amigo. Só que quando a saudade acaba, o amor acaba, as histórias somem, novos ouvidos se erguem no ar e, depois de um tempo, começa tudo de novo. O melhor é que podemos voltar a contar as velhas histórias como novas. Não quero falar, por ora, das mágoas, um dia elas chegam, mas não agora e vou acabar o post pela metade ou isso pode ser musicado um dia e parar num voz e violão por aí.
segunda-feira, 30 de março de 2009
Trote
Nem ainda chegou o dia da mentira e já recebi uma ligação daquelas que meus amigos adoram. Eu acordei hoje pensando em colocar crédito no meu celular, basicamente porque precisava ligar para uma amiga e não podia surrupiar o celular da minha mãe como geralmente faço. Daí vi uma mensagem recebida, jurei que era alguma bomba matinal de Faltay, mas, na verdade, era um recado da claro, avisando que tinha chegado R$ 5,00 de crédito. Meu mau humor foi embora e realmente botei na cabeça que o cosmos tava do meu lado: o que soou ótimo levando em conta que tinha acabado de acordar com o barulho de portas alheias batendo e que era uma típica segunda de manhã. Fiquei macucando por três segundos se teria sido minha mãe ou engano de algum zé bocó. Decidi não pensar. Passou o dia, usei meu fogão novo pela primeira vez, comi decentemente, dormi, li Gramsci, olhei verbetes do Dicionário de Política de Bobbio, roubei internet do wireless do vizinho, recebi amigos em casa, daí toca meu celular. Número estranho. Atendo. A cobrar. Desligo. Coloco na pauta da sala de estar: número estranho, a cobrar, ligo de volta? Juliana sugere que eu ligue, escute a voz do destinatério e desligue. Me vem a cabeça que muito provavelmente era o cara que botou o crédito errado querendo me cobrar. Todos me chamam de paranóico sem noção. Decido ligar afinal sempre ligo a cobrar pro povo de forma que fazer uma ligação às cegas uma vez na vida não mata ninguém, além de que em algum lugar queria provar que não era um paranóico sem noção. Ligo. Escuto a voz de, acho eu, um senhor de idade, com certeza meio nervoso: "e chegou R$ 5,00 aí foi?". Claramente nunca escutei aquela voz antes. Desligo. Comunico que a paranóia venceu. Entro em pânico. Meu celular toca. Não sei o que fazer. Desligo. Seria trote de Fábio Leal? O celular toca de novo. Desligo. O celular não para de tocar. Fico louco. Alguém dá a sugestão de eu desligar tal número para sempre. Peso na consciência versus falta de coragem, diabinhos e anjinhos pulando na sala, desliga pra sempre, nunca atende, peraí, é só cinco reais. Mando uma mensagem: "amanhã coloco R$ 5 picas no teu cu. Perdeu playboy". Mentira. A mensagem era: "amanhã coloco cinco reais para você. Valeu". Feita a boa ação, não sei se coloco ou deixo passar. Sinceramente me pergunto se isso acontece por aí das pessoas botarem crédito errado e depois ligarem pro número errado pra cobrar o crédito errado. Já ouvi gente que recebeu crédito e ficou por isso, afinal se a pessoa confundiu o número, deveria depois não conseguir lembrar do número confundido: até porque, ok, os quatro primeiros dígitos eram iguais, mas os quatro últimos não tinham nada a ver. Ah, sei lá. Cansei de pensar sobre isso. Só sei que a moral da história é que eu claramente tenho problemas sérios em falar com pessoas que não conheço, o que me faz um alvo fácil de trotes de todos os tipos. Pois é, não devo ter digerido bem aquele velho conselho materno de não falar com estranhos.
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segunda-feira, 23 de março de 2009
Azar
Acho que sentimos o peso da urucubaca, quando uma situação constrangedora - daquelas que podemos passar a vida inteira sem ter de passar por - acontece duas vezes em uma única semana. E que tal quando acontece duas vezes em três dias para ser mais exato? No meu caso foram as notas falsas. Sexta-feira, fiz um saque no Banco do Brasil, fui ao passe fácil e quando pedi para a mulher colocar R$ 18, ela informou que minha nota de R$ 20 era falsa. Na verdade, ela disse que nem era falsa, disse que não podia aceitar porque estava 'arranhada demais'. Tentei argumentar, afinal tinha acabado de retirar a maldita nota de um caixa eletrônico. A mulher foi tudo, menos solícita soltando no meio da minha fala: "senhor, você está atrapalhando a fila. Próximo". Fiquei puto com aquela vontade de dar um golpe no mundo que só me acontece duas ou três vezes no ano. Daí como estava sem disposição de ir numa agência fazer a troca e armar barraco pelos transtornos, segui o conselho de uma velhinha que ouviu todo meu drama e passei a nota adiante, numa farmácia do governo, comprando um tylenol. A dica da velhinha foi providencial. Voltei ao passe fácil, pensei em ser atendido pela mesma moça, pensei em encher a fala de arrogância, fui atendido por outra, nada demais aconteceu e enchi meu cartão.
Daí hoje, morrendo de fome, por volta das 14 e tantas, fui almoçar perto de casa. Ao final da refeição, tento pagar no cartão, a máquina meio que dá pau, termino pagando com uma nota de R$ 20 e recebo no troco, além de outras notas e algumas moedas, uma nota de R$ 10. Vou direto em um posto de gasolina, peço para o cara colocar R$ 5 - hahaha - e na hora de pagar dou a nota de R$ 10 que tinha acabado de pegar. Adivinhem? Pois é, a porra da nota era falsa. Fiquei muito puto, além de obviamente constrangido, afinal o frentista ficou olhando pra minha cara como se eu fosse golpista do dia. Meio "quer café?", mas arquitetanto "vou chamar a polícia". Graças a Deus eu tinha outra nota e não estava de bigode. Voltei no restaurante pronto pra armar barraco quando, ao explicar a situação, o cara pegou a nota e quis me fazer acreditar que era verdadeira. Pior nem é o argumento, mas o fato de que se você parasse um segundo e olhasse pra nota dava pra perceber que ela era totalmente falsa. Era gritante pela qualidade tosca do papel e por como estavam lavadas as imagens. Quase uma nota do Banco Imobiliário ou do Jogo da Vida. Daí quando já ia começar a confusão, chegou o dono do estabelecimento, apaziguou geral o clima ruim, soltou piadas e um peido, verificou a nota com a maior carinha de juiz e rapidinho a trocou por outra. Com o rosto um tanto rubro, pediu perdão. Definitivamente só posso ter um mínimo apreço por senhoras espertas e com dicas na manga e por senhores dignos e de honestidade intocável. O resto é merda.
Daí hoje, morrendo de fome, por volta das 14 e tantas, fui almoçar perto de casa. Ao final da refeição, tento pagar no cartão, a máquina meio que dá pau, termino pagando com uma nota de R$ 20 e recebo no troco, além de outras notas e algumas moedas, uma nota de R$ 10. Vou direto em um posto de gasolina, peço para o cara colocar R$ 5 - hahaha - e na hora de pagar dou a nota de R$ 10 que tinha acabado de pegar. Adivinhem? Pois é, a porra da nota era falsa. Fiquei muito puto, além de obviamente constrangido, afinal o frentista ficou olhando pra minha cara como se eu fosse golpista do dia. Meio "quer café?", mas arquitetanto "vou chamar a polícia". Graças a Deus eu tinha outra nota e não estava de bigode. Voltei no restaurante pronto pra armar barraco quando, ao explicar a situação, o cara pegou a nota e quis me fazer acreditar que era verdadeira. Pior nem é o argumento, mas o fato de que se você parasse um segundo e olhasse pra nota dava pra perceber que ela era totalmente falsa. Era gritante pela qualidade tosca do papel e por como estavam lavadas as imagens. Quase uma nota do Banco Imobiliário ou do Jogo da Vida. Daí quando já ia começar a confusão, chegou o dono do estabelecimento, apaziguou geral o clima ruim, soltou piadas e um peido, verificou a nota com a maior carinha de juiz e rapidinho a trocou por outra. Com o rosto um tanto rubro, pediu perdão. Definitivamente só posso ter um mínimo apreço por senhoras espertas e com dicas na manga e por senhores dignos e de honestidade intocável. O resto é merda.
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domingo, 14 de dezembro de 2008
TAM 3515
Ao invés de passar meu último dia em Recife resolvendo as milhares de pendências, resolvi me afogar no vício Lost e aluguei dois discos da quarta temporada. Queria alugar discos aleatórios, o segundo e o quinto, mas como Juliana - seguindo os passos de Gabi - preza por toda uma rigidez de um episódio atrás do outro, terminei coagido a pegar os dois primeiros. Antes de qualquer coisa, para não dizer que dei uma de indiferente, assumo que bastaram dois minutos para me sentir igualzinho aos fanáticos bobocas da série e me considerar um viciado. Tudo bem que só assisti um ou outro episódio da terceira e um pouco mais da metade da segunda, mas isso não faz muita diferença no caso de Lost, afinal lendo um pouquinho aqui, pegando algumas informações com viciados ali, tudo continua sem explicação racional e você pode lançar todas as teorias esdrúxulas do mundo sem constrangimentos. Podem estar mortos, perdidos num espaço-tempo paralelo, em meio a uma viagem de ácido ou numa sessão coletiva de transe budista. O pior não são as explicações, mas o simples fato de todas elas poderem fazer um completo sentido. Terminei ficando em casa episódio após episódio e desisti de assistir ao Wong Kar-wai que passou na Fundaj - o que nunca aconteceria em condições ideais de temperatura e pressão. Ao menos , temos de combinar que essa história de seguir apenas episódios esporádicos, quando der paciência na telha, economiza a perda de tempo que, convenhamos, é esse seriado de merda: ao invés de 80 horas, perco 25, 20, sei lá.
Mesmo achando uma perda de tempo, não me atrevo a questionar a força de captura que Lost consegue exercer sobre o espectador. Você assiste, vicia e leva como filosofia de vida por uma ou duas semanas. Hoje, por exemplo, quando entrei no avião para São Paulo, me peguei olhando na cara das pessoas com cuidado, enquanto cogitava como seriam meus parceiros caso nosso avião, o TAM 3515, caísse numa ilha no meio do nada, fora do mapa, com fumaça do mal, os Outros, médiuns, físicos, ursos, Dharma e Ben. Por sinal, adoro o Ben, adoro como mesmo surrado, amarrado, humilhado, todo mundo continua perdendo a linha depois de conversar com ele: Sawyer bate na cara dele, Jack sai chutando a porta, Locke joga os pratos na parede. Quanto ao meu vôo, fiquei um pouco decepcionado mesmo com a gama variada de tipos: tínhamos crianças-felizes, gringos-perdidos, bichas-madonna. Engraçado que o vôo foi particularmente turbulento e desde a subida notei que o senhor sentado ao meu lado, na janela - um quarentão com os primeiros sinais de calvice - tinha um pânico controlado de avião. Fechou a janela, ficou de cinto durante toda viagem – só tirando para ir ao banheiro – e em qualquer tremelique ele sussurrava para si palavrões – porra, caralho, essa merda – meio indignado com o tremelique da aeronave e mais indignado com o seu próprio medo. Realmente deve ser difícil: não cai muito bem para um pós-pitboy quarentão de respeito se submeter a uma fobia tão besta. Durante as três horas no ar, o senhor abriu a janela duas ou três vezes, fechando-a em menos de trinta segundos e se jogando na poltrona com o coração claramente acelerado. Ele chegou a fechar até as janelas da frente, o que quase quase gerou confusão. Enquanto isso, eu lia uns artigos da Socine na maior tranqüilidade e enviava as piores energias para a vadia da mulher do check in da TAM, pois eu tinha pedido para ela me colocar na janela e no fundo do avião e terminei ficando numa das fileiras da frente e na poltrona do meio. Puta.
Depois do sanduíche frio de vento com queijo e da aeromoça me olhar feio por eu ter pedido duas bebidas, tivemos o ápice da tensão Lost ou não Lost, quando o comandante avisou que iríamos entrar numa área de turbulência. Pelas janelas dava pra ver um mar de nuvens suspeitas. O pós-pitboy só faltou rezar, mas o pior é que a aeronave balançou mais que o balanço normal, o que fez com que ele ficasse com os braços duros, fechando o punho com força suficiente para machucar a si mesmo. Eu particularmente estava num dia de amor e senti um pouco de compaixão, afinal medo irracional, medo irracional, eu e minhas aranhas. Cheguei a pensar em emprestar minha mão esquerda para ele segurar e se sentir melhor, mas achei que poderia se criar uma situação constrangedora até porque se ele aceitasse, além de machucar meus dedos, corria o risco de minha compaixão virar risada. Como me conheço, preferi não arriscar. Foi então que chegou a hora da aterrissagem. Na minha santa ignorância sobre fobias, imaginei que fosse o clímax, o grande momento do surto e me preparei psicologicamente para tal. À essa altura, não ia mais emprestar, mas alugar a minha mão. Nem foi o caso: outro senhor roubou a atenção. Esqueci de contar que durante a viagem, vi um rapaz de cabelo arrepiado se levantar – ele usava luvas – e pegar uma bolsa com seringas. Achei suspeito. Charlie? Ao final da viagem percebi que devia se tratar de um enfermeiro acompanhando algum passageiro enfermo - e era justamente isso - e que especialmente naquele momento, o doente precisava de toda assistência possível. Pouco tempo de entrada no processo de aterrissagem, rolou uma puta crise, não sei se pela doença, não sei se pela descida: respiração pesada, sons abafados, falta de ar, convulsões, muita tosse. A metade da frente do avião entrou numa apreensão coletiva, com direito a solidários se levantando para ajudar - e que obviamente não tinham como ajudar em nada - mas que terminavam espalhando mais o clima de angústia. Bateu uma sensação de que se o cara não ficasse bem, o avião iria cair. Bizarro que uma única pessoa estava fora dessa agitação: mesmo com os braços contraídos violentamente, o senhor sentado ao meu lado abriu um lunático sorriso tranquilo e mórbido. O avião finalmente tocou o chão: as crianças felizes continuavam felizes e não paravam de gritar.
Mesmo achando uma perda de tempo, não me atrevo a questionar a força de captura que Lost consegue exercer sobre o espectador. Você assiste, vicia e leva como filosofia de vida por uma ou duas semanas. Hoje, por exemplo, quando entrei no avião para São Paulo, me peguei olhando na cara das pessoas com cuidado, enquanto cogitava como seriam meus parceiros caso nosso avião, o TAM 3515, caísse numa ilha no meio do nada, fora do mapa, com fumaça do mal, os Outros, médiuns, físicos, ursos, Dharma e Ben. Por sinal, adoro o Ben, adoro como mesmo surrado, amarrado, humilhado, todo mundo continua perdendo a linha depois de conversar com ele: Sawyer bate na cara dele, Jack sai chutando a porta, Locke joga os pratos na parede. Quanto ao meu vôo, fiquei um pouco decepcionado mesmo com a gama variada de tipos: tínhamos crianças-felizes, gringos-perdidos, bichas-madonna. Engraçado que o vôo foi particularmente turbulento e desde a subida notei que o senhor sentado ao meu lado, na janela - um quarentão com os primeiros sinais de calvice - tinha um pânico controlado de avião. Fechou a janela, ficou de cinto durante toda viagem – só tirando para ir ao banheiro – e em qualquer tremelique ele sussurrava para si palavrões – porra, caralho, essa merda – meio indignado com o tremelique da aeronave e mais indignado com o seu próprio medo. Realmente deve ser difícil: não cai muito bem para um pós-pitboy quarentão de respeito se submeter a uma fobia tão besta. Durante as três horas no ar, o senhor abriu a janela duas ou três vezes, fechando-a em menos de trinta segundos e se jogando na poltrona com o coração claramente acelerado. Ele chegou a fechar até as janelas da frente, o que quase quase gerou confusão. Enquanto isso, eu lia uns artigos da Socine na maior tranqüilidade e enviava as piores energias para a vadia da mulher do check in da TAM, pois eu tinha pedido para ela me colocar na janela e no fundo do avião e terminei ficando numa das fileiras da frente e na poltrona do meio. Puta.
Depois do sanduíche frio de vento com queijo e da aeromoça me olhar feio por eu ter pedido duas bebidas, tivemos o ápice da tensão Lost ou não Lost, quando o comandante avisou que iríamos entrar numa área de turbulência. Pelas janelas dava pra ver um mar de nuvens suspeitas. O pós-pitboy só faltou rezar, mas o pior é que a aeronave balançou mais que o balanço normal, o que fez com que ele ficasse com os braços duros, fechando o punho com força suficiente para machucar a si mesmo. Eu particularmente estava num dia de amor e senti um pouco de compaixão, afinal medo irracional, medo irracional, eu e minhas aranhas. Cheguei a pensar em emprestar minha mão esquerda para ele segurar e se sentir melhor, mas achei que poderia se criar uma situação constrangedora até porque se ele aceitasse, além de machucar meus dedos, corria o risco de minha compaixão virar risada. Como me conheço, preferi não arriscar. Foi então que chegou a hora da aterrissagem. Na minha santa ignorância sobre fobias, imaginei que fosse o clímax, o grande momento do surto e me preparei psicologicamente para tal. À essa altura, não ia mais emprestar, mas alugar a minha mão. Nem foi o caso: outro senhor roubou a atenção. Esqueci de contar que durante a viagem, vi um rapaz de cabelo arrepiado se levantar – ele usava luvas – e pegar uma bolsa com seringas. Achei suspeito. Charlie? Ao final da viagem percebi que devia se tratar de um enfermeiro acompanhando algum passageiro enfermo - e era justamente isso - e que especialmente naquele momento, o doente precisava de toda assistência possível. Pouco tempo de entrada no processo de aterrissagem, rolou uma puta crise, não sei se pela doença, não sei se pela descida: respiração pesada, sons abafados, falta de ar, convulsões, muita tosse. A metade da frente do avião entrou numa apreensão coletiva, com direito a solidários se levantando para ajudar - e que obviamente não tinham como ajudar em nada - mas que terminavam espalhando mais o clima de angústia. Bateu uma sensação de que se o cara não ficasse bem, o avião iria cair. Bizarro que uma única pessoa estava fora dessa agitação: mesmo com os braços contraídos violentamente, o senhor sentado ao meu lado abriu um lunático sorriso tranquilo e mórbido. O avião finalmente tocou o chão: as crianças felizes continuavam felizes e não paravam de gritar.
terça-feira, 22 de julho de 2008
Experimento 248
Quando minha gata era bem nova, mas bem nova mesmo, quase não tinha pêlos em volta do olho, só cagava no lugar errado e era pouco maior que uma carteira de cigarro. Dado alguns dias, fiquei angustiado por ela ter perdido o contato com suas irmãs-gatas, irmãos-gatos, mãe-gata e por, a partir dali, só ter referências humanas e estranhas. Tipo eu, Juliana e Gabriela. Tudo bem que ela se apaixonou por mim, me escolheu como primeiro dono e vivemos uma grande história de amor, mas esses detalhes de nossa relação não vem ao caso agora. Dolores continuava uma gata com exclusivas referências humanas. Dormia por cima de Truffaut, adorava a trilha de Midnight Cowboys, passava a tarde assistindo A Vida Como Ela É e, quando alguém dava bobeira, corria para morder o vinil do Cartola e do Ave Sangria. Revezando um e outro dependendo do humor. Pensei em levá-la para visitar o gato Nino, ou o gato Valentino, ou mesmo o novo gato Mel Azul, mas a coitada era tão novinha que precisava se acostumar ao novo lar e só a viagem poderia deixá-la ainda mais insegura e desorientada (esses foram os melhores eufemismos para evitar o 'puta-da-vida'). Cheguei ao ponto de até pensar em deixá-la por uma noite e um dia na casa de dona Zefinha, uma vizinha idosa e excêntrica que cria mais de 15 gatos, mas fiquei com medo de Dolores voltar com alguma DST trash e de qualquer forma não sou muito a favor da pedofilia entre gatos. Então, na falta de opção tive a grande idéia para saciar seus instintos sociais felinos com toda segurança possível: na segunda semana de nossa convivência, coloquei a danada ao lado do teclado e abri mil vídeos de felinos no youtube. Miado alto, briga de gato, gata no cio, zoofilia, a porra a quatro de gato. Ok, a parte da zoofilia é mentira e o experimento não deu lá muito certo. Pequena demais, Dolores levou mais sustos do que demonstrou interesse, tentou até se pular de uma altura que não conseguia, mas ao menos cumpriu muito bem seu papel de cobaia e não atacou o cientista-dono-amor dela. O que já é alguma coisa levando em conta as várias marcas de arranhão e mordida que venho acumulando em meus braços. Um a mais ou um a menos faz toda diferença nesse caso.
Depois de dois ou três meses, a ex-gata preta, agora lindamente cinza, está do tamanho de um maço de Hollywood, se tornou uma caçadora exemplar, só bebe água das plantas e não caga mais fora de sua caixinha de areia. Hoje tivemos o experimento número 248. Eu estava sozinho em casa, curtindo o hábito felino da preguiça, jogado na cama, quase dormindo. Dolores resolveu me aperrear sexualmente - o que é de praxe - e mordiscou a ponta do meu dedão do pé. Odeio muito e ela sabe disso. Pior que não adianta expulsar, gritar, pular, porque se a maldita gata quiser voltar e fazer tudo de novo, ela vai voltar e fazer de novo. Foi então que, por falta de opção, tive a grande idéia: gravei minha voz no celular por uns 4 minutos, falando sobre crítica e filmes-adaptação, liguei o viva voz no mais alto possível, coloquei perto da gata e voltei a dormir. Dolores ficou louca. Pra começar fez um barulho que eu nunca tinha escutado: o barulho de briga. O miado é lindo, o ronronar é lindo, mas o barulho de briga é tudo o que eu queria desde que ela chegou aqui em casa. É inspirador. Posso até jogar a peste no mundo depois disso, desde que ela não vá se embrenhar na casa de dona Zefinha. Por sinal, eu já tinha tentado colocá-la pra brigar antes, com o secador de cabelo de Juliana, mas rolou tanto medo por parte de Dolores que não deu certo. Definitivamente minha gata não é um animal tecnológico: odeia monitor, odeia televisão, odeia fone de ouvido e adora fios. Fiquei tão interessado pelo 'grrrrr' ou seria 'tsssss' que perdi o sono e me mantive observando-a até acabarem os quatro minutos. Dolores olhava pra mim, atacava o celular e recuava. Voltava correndo, olhava pra mim, atacava o telefone de novo, recuava e assim ficou até o silêncio. Como gosto de levar meus experimentos até as últimas consequências, coloquei o celular versão viva voz na sala, perto do espaço onde Dolores tinha decidido ser seu cantinho e fiquei espiando da cozinha pra ver como a gata agia sem a minha presença. A danada estranhou um pouco, mas não demorou muito até perder o interesse e perceber que tudo não passava de um tolo experimento. O 248 se fôssemos seguir os numerais a risca. Blasé e mantendo semicerrados seus olhos grandes e verdes, deu na cara que estava me vendo desde o início ridiculamente escondido na cozinha e saiu andando com todo charme de um bom felino feroz. Deitou-se no exato lugar onde eu tentava dormir anteriormente, fez cara de boba, caiu num bocejo longo, longuíssimo e se espreguiçou como se quebrasse cada um de seus ossos. Fiquei boquiaberto com toda situação: a cientista lambia as patas, afiava as unhas no colchão, dominava a cena, enquanto o cobaia assumia a estupidez e pouco a pouco ia saindo de quadro.
Depois de dois ou três meses, a ex-gata preta, agora lindamente cinza, está do tamanho de um maço de Hollywood, se tornou uma caçadora exemplar, só bebe água das plantas e não caga mais fora de sua caixinha de areia. Hoje tivemos o experimento número 248. Eu estava sozinho em casa, curtindo o hábito felino da preguiça, jogado na cama, quase dormindo. Dolores resolveu me aperrear sexualmente - o que é de praxe - e mordiscou a ponta do meu dedão do pé. Odeio muito e ela sabe disso. Pior que não adianta expulsar, gritar, pular, porque se a maldita gata quiser voltar e fazer tudo de novo, ela vai voltar e fazer de novo. Foi então que, por falta de opção, tive a grande idéia: gravei minha voz no celular por uns 4 minutos, falando sobre crítica e filmes-adaptação, liguei o viva voz no mais alto possível, coloquei perto da gata e voltei a dormir. Dolores ficou louca. Pra começar fez um barulho que eu nunca tinha escutado: o barulho de briga. O miado é lindo, o ronronar é lindo, mas o barulho de briga é tudo o que eu queria desde que ela chegou aqui em casa. É inspirador. Posso até jogar a peste no mundo depois disso, desde que ela não vá se embrenhar na casa de dona Zefinha. Por sinal, eu já tinha tentado colocá-la pra brigar antes, com o secador de cabelo de Juliana, mas rolou tanto medo por parte de Dolores que não deu certo. Definitivamente minha gata não é um animal tecnológico: odeia monitor, odeia televisão, odeia fone de ouvido e adora fios. Fiquei tão interessado pelo 'grrrrr' ou seria 'tsssss' que perdi o sono e me mantive observando-a até acabarem os quatro minutos. Dolores olhava pra mim, atacava o celular e recuava. Voltava correndo, olhava pra mim, atacava o telefone de novo, recuava e assim ficou até o silêncio. Como gosto de levar meus experimentos até as últimas consequências, coloquei o celular versão viva voz na sala, perto do espaço onde Dolores tinha decidido ser seu cantinho e fiquei espiando da cozinha pra ver como a gata agia sem a minha presença. A danada estranhou um pouco, mas não demorou muito até perder o interesse e perceber que tudo não passava de um tolo experimento. O 248 se fôssemos seguir os numerais a risca. Blasé e mantendo semicerrados seus olhos grandes e verdes, deu na cara que estava me vendo desde o início ridiculamente escondido na cozinha e saiu andando com todo charme de um bom felino feroz. Deitou-se no exato lugar onde eu tentava dormir anteriormente, fez cara de boba, caiu num bocejo longo, longuíssimo e se espreguiçou como se quebrasse cada um de seus ossos. Fiquei boquiaberto com toda situação: a cientista lambia as patas, afiava as unhas no colchão, dominava a cena, enquanto o cobaia assumia a estupidez e pouco a pouco ia saindo de quadro.
domingo, 18 de maio de 2008
Lição número 1: usando meios escusos para fundar o amor.
Ontem saí de casa bem cedo, de manhã, dei comida para Dolores, a gata, fui ao cinema, não gostei do filme, fui jogar futebol, ganhei o jogo, fiz defesas sensacionais e estou na final. Daí pensei em passar na festa para tomar algumas cervejas e comemorar a vitória ou simplesmente tomar algumas cervejas sem motivo, mas decidido a voltar cedo para colocar comida para Dolores. Não voltei. Lá pras tantas, depois de grades de cerveja, de vodka, de pessoas dormindo por todos os lados, descolo uma carona super legal até o fim de mundo onde eu moro e começo a lembrar da gata. Provavelmente ela estava com fome e o leite já devia ter qualhado. No caminho, percebo que esqueci minha bolsa na festa, consigo falar com o dono da casa, não sinto falta de nada, só um livro e marco de ir pegá-la na segunda. Daí depois de um caminho com tremendas aventuras, comprei até um baguete, chego em casa e... percebo que a chave da porta estava na bolsa e a bolsa estava na casa do meu amigo. Quase que eu me jogo na piscina e esqueço que o mundo existe. A carona já tinha ido embora e eu fiquei fudidamente sozinho. Para me punir, resolvi ir andando, debaixo de uma puta puta puta chuva, de madrugada até a casa da minha mãe. O porteiro falou para eu deixar o celular com ele que era mais seguro, afinal "é o que geralmente os boys tão tomando dos outros por aí". Concordei. O trajeto era basicamente a Universidade Federal de Pernambuco. Como eles fecham os portões a partir de meia noite, sim, eu tive que pular a grade, ir andando naquele lugar inóspito, comer baguete, passar pelo laguinho do terror, pisar nas lamas do inferno e passar pelo buraco do bigode. Ninguém me importunou, ninguém me roubou, ninguém me estuprou e finalmente cheguei em casa. Ensopado. Graças a Deus minha mãe estava na praia e entrei sorrateiramente. Dormi na cama do meu irmão esperando que minha gata não morresse de fome. Acordei às 09:00 em ponto, peguei o carro (estava sem habilitação, pois minha carteira estava na porra da bolsa), fui na casa do meu amigo, peguei a bolsa, voltei louco pra casa, passei antes na padaria, peguei meu celular, cheguei na frente da porta vermelha da minha casa e comecei ouvir o choro da gata. Tadinha, mas ao menos estava viva. No começo da história, fiquei super noiando que ia abrir a porta e ter um cadáver de uma gata de três meses na minha sala. Acho que Gabriela ia me expulsar de casa na sequência. Daí eu dei comida pra ela, botei leite, troquei a areia, fiz carinho, chamei de fofinha, brinquei, assistimos filme juntos e simplesmente percebi que tudo isso foi ótimo para nossa relação. Meu olhar felino foi atiçado na hora.
Tudo não passou de um grande golpe: quem apareceu pra dar comida, leite e afeto quando Dolores estava nas últimas morrendo de fome? Eu. Genial. Como não tinha pensado nisso antes? Foi ótima essa estratégia de fazê-la passar fome, achar que estava sozinha para sempre e depois chegar com a comida e com a simpatia na ponta dos dedos. Funciona totalmente. Se ela já me amava muito e tinha me escolhido como favorito, imagina agora. Tudo bem, é recíproco, mas recomendo do mesmo jeito.
Agora ela está ali, toda encolhida, na frente do ventilador, viva e num sono profundo pós refeição.
Tudo não passou de um grande golpe: quem apareceu pra dar comida, leite e afeto quando Dolores estava nas últimas morrendo de fome? Eu. Genial. Como não tinha pensado nisso antes? Foi ótima essa estratégia de fazê-la passar fome, achar que estava sozinha para sempre e depois chegar com a comida e com a simpatia na ponta dos dedos. Funciona totalmente. Se ela já me amava muito e tinha me escolhido como favorito, imagina agora. Tudo bem, é recíproco, mas recomendo do mesmo jeito.
Agora ela está ali, toda encolhida, na frente do ventilador, viva e num sono profundo pós refeição.
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segunda-feira, 12 de maio de 2008
Lembrança do Carnaval
No último dia de carnaval, almocei em alguma das ruas dos quatro cantos e, já fim de tarde, resolvi subir a ladeira da misericórdia, Deus sabe lá porque, pra ir até a Sé. Acontece que no meio do trajeto, cansado da subida, do carnaval, do bobó de camarão, encontrei uma bandinha, num palco naturalmente torto, fazendo cover com sotaque estranho de todos os hits da manguetown. Quando cheguei lá em cima, sentei, acendi um cigarro e fiquei escutando a bandinha tosca e observando a platéia mais fim de carnaval do meu Brasil. Era bêbado pra cá, bêbado pra lá, super-herói e papangu. Acho curioso o senso de diversão em dias de carnaval, em especial no final da tarde da terça feira de carnaval. Tudo que faz barulho é virtuose e tudo que tem boca e mexe os bracinhos, uma possível paquera. Em dado momento, o vocalista resolveu apresentar os integrantes daquela confusão e, ao fim, falou que eles eram de Minas Gerais e que amavam Pernambuco, a terra da massa, o leão do norte. Pontes, rios e overdrives impressionantes esculturas de lama. Mangue, mangue, mangue, mangue. Sério, baixava nele personalidades diferentes durante a apresentação, daí uma hora era uma mistura de Lirinha e Lenine cachacinha mineira, outra hora Chico Science e Fred 04 queijo minas. Tirando a parte que a banda não sabia tocar, que o vocalista não sabia cantar e que só restava barulho daquela bandinha punk que nunca deveria ter saído da garagem, isso me lembrou quando eu estava em São Paulo e uma menina, ao perceber que eu era daqui, começou a tecer mil elogios, do sotaque até chegar num nível terra mítica, maravilhosa, inundada, afogada, alagada de uma cultura naturalmente cult. Ser de Pernambuco é cool. Daí lembrou músicas, artistas, filmes, quis saber do carnaval, de Olinda, do sertão idílico, das fantasias, das ladeiras, das festas, da noite, da movimentação cultural incessante, do movimento indie e quis cantar juntinho. Foi tanto ufanismo que a minha primeira reação, vaidosa talvez, foi mentir um pouco, tornando a idéia dela mais ufanista ainda. Virei o próprio guia prático, exagerado e final feliz pra cultura popular - agora massificada - da cidade do Recife. Um maracatu pra cada rua. Centros culturais pipocando por todos os lados. Frevo, frevo, frevo. Uma bandinha em cada supermercado. Vários cinemas alternativos. Leis de incentivo que é uma beleza. As pontes são lindas (e são), o chão é limpo e não temos trânsito. Soube que essa menina chegou a vir ao Recife, mas não tive muita cara de encontrar com ela. Melhor que a pernambucanidade pernambucana é a pernambucanidadeew estrangeira. Daí a galera vem pra cá, faz o curso de pastor - ou vira um cético legal, passa dois dias em Caruaru e diz que conheceu o sertão e volta para o seu fim de mundo, com a força da palavra. Novos totens com a imagem velha, cansada e clichê são erguidos todos os dias nos quatro cantos dessa país.
Pernambuco é meu pastor e nada me faltará.
Pernambuco é meu pastor e nada me faltará.
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sexta-feira, 11 de abril de 2008
Luz
Quando eu era pequeno, bem pequeno mesmo, estava dormindo na cama da minha mãe - provavelmente num desses dias de medo infantil - quando no meio da noite acordei assustado com uma luz muito forte vindo da janela. Hoje em dia não consigo diferenciar essa lembrança de um sonho: por mais que se trate de uma história real, a imagem na minha cabeça com certeza passou por interferências ficcionais ao longo de todos esses anos. Ao ver a luz, sentei na cama e tentei acordar meus pais. Sem sucesso. Demorei alguns meses acreditando que tinha me comunicado por transmissão de pensamento com Deus. Senti-me iluminado, escolhido na linha de todo blá blá blá católico. Passado algum tempo, talvez alguns anos, já não gostava muito de Deus e descobri que a igreja não passava de um lugar sem graça. Foi nessa época que minha personalidade-nerd começou a tomar forma, destruindo toda possibilidade religiosa e eu arrumei novos templos que se substituíam ou complementavam sucessivamente. Acredito que eu estava na fase Contatos Imediatos de Terceiro Grau, quando concluí que, naquele fatídico episódio da luz, não tinha visto Deus coisa alguma, mas uma nave extraterrestre. Algumas crianças, todas meninas óbvio, choraram quando eu contei essa nova versão dos fatos, tomado por uma euforia louca por desistir de Deus e amar a vida alienígena. Passei um bom tempo me achando uma pessoa super especial. Quase o cego que voltou a enxergar por causa de Jesus.
Aos 12/13 anos, minha mãe tinha viajado pra praia e eu estava dormindo novamente na sua cama, quando acordei no meio da noite com a mesma luz forte vindo da janela. Nessa época eu já estava preparado para viagens interestelares, achei que a nave tinha voltado para me buscar e fui destemido em direção ao foco luminoso. Abri a janela e... ahhh... acho que nem vou contar. hahahahahaha. Estou brincando. Abri a janela e a porra da luz não passava de uma lâmpada enorme da casa do vizinho. Foi uma decepção do caralho - até chorei. Eu sempre gosto de contar ou lembrar dessa história como um ótimo exemplo da efemeridade de nossas crenças - e da tendência ao ceticismo extremo, que se torna insuportável e então necessita de uma boa dose de misticismo. Não cabe nos dedos a quantidade de templos que já ergui e destruí durante a minha vida. E não levem 'templos' aqui no literal religioso, ok? Seria uma limitação idiota diante do que estou falando. Sinto-me, hoje, tão resultado dessas mudanças todas, como uma equação sem fim, que se torna outras equações sem fim simultâneas e paradoxais. Nunca o resultado seria um número inteiro. Sequer existe resultado. Engraçado eu ter escolhido me formar justamente num curso onde a discussão sobre crença e a descrença tomam o foco principal em proporções irreais. Mas como poderíamos abrir um jornal todo dia de manhã e não se perguntar: 'e agora, serei místico ou cético?' Eu vivo alternando, dependendo do espírito do dia e do nível de mau gosto das manchetes. Com aquele papel sujo nas mãos, consigo ver deuses, extraterrestres e lâmpadas.
Aos 12/13 anos, minha mãe tinha viajado pra praia e eu estava dormindo novamente na sua cama, quando acordei no meio da noite com a mesma luz forte vindo da janela. Nessa época eu já estava preparado para viagens interestelares, achei que a nave tinha voltado para me buscar e fui destemido em direção ao foco luminoso. Abri a janela e... ahhh... acho que nem vou contar. hahahahahaha. Estou brincando. Abri a janela e a porra da luz não passava de uma lâmpada enorme da casa do vizinho. Foi uma decepção do caralho - até chorei. Eu sempre gosto de contar ou lembrar dessa história como um ótimo exemplo da efemeridade de nossas crenças - e da tendência ao ceticismo extremo, que se torna insuportável e então necessita de uma boa dose de misticismo. Não cabe nos dedos a quantidade de templos que já ergui e destruí durante a minha vida. E não levem 'templos' aqui no literal religioso, ok? Seria uma limitação idiota diante do que estou falando. Sinto-me, hoje, tão resultado dessas mudanças todas, como uma equação sem fim, que se torna outras equações sem fim simultâneas e paradoxais. Nunca o resultado seria um número inteiro. Sequer existe resultado. Engraçado eu ter escolhido me formar justamente num curso onde a discussão sobre crença e a descrença tomam o foco principal em proporções irreais. Mas como poderíamos abrir um jornal todo dia de manhã e não se perguntar: 'e agora, serei místico ou cético?' Eu vivo alternando, dependendo do espírito do dia e do nível de mau gosto das manchetes. Com aquele papel sujo nas mãos, consigo ver deuses, extraterrestres e lâmpadas.
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terça-feira, 1 de abril de 2008
Pra não dizer que não falei de flores
Um dos meus maiores traumas aconteceu, há uns 8 anos, quando a minha mãe pegou e quebrou em vários pedaços o meu único vinil dos Beatles - chamado 'Beatles Oldies (But Goldies !)' - só porque eu estava o escutando demais. Anos depois, ela deu fim secretamente numa camisa do Calvin, do Bad Wolf e do SuperCrazy só porque não simpatizava com bonecos como estampas. Achava muito infantil. Minha mãe sempre quis me ver em camisa de botão e sempre comprou camisas que eu nunca usei. Poucos meses depois da história do vinil, ela leu várias das poesias, contos, escritos aleatórios, ironias, piadas, ataques sarcásticos que colocava no pretenso caderno de matemática. Óbvio que minha mãe era uma das principais citadas. Levei uma surra e ela nunca percebeu o quanto tinha invadido minha privacidade sem permissão. Parei de escrever em papel e em casa depois desse dia.
Adoro falar de ditadura nesses termos, mamãe.
(e essa não é a mentira de hoje)
Adoro falar de ditadura nesses termos, mamãe.
(e essa não é a mentira de hoje)
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domingo, 23 de março de 2008
Recife
Segundo o que consta, trata-se de uma cidade velha, maltratada e fantasma, abandonada pela própria população que vive escondida em seus apartamentos, com medo de sair a pé nas ruas por conta dos assaltos e por não curtirem esteticamente dar de cara com aquele trombadinha faminto, cheirando cola e com um vidro na mão. As calçadas estão vazias e cheias ao mesmo tempo. A cidade também é muito conhecida por seu calor infernal 4ever, mas sem esquecer das chuvas de 20 minutos responsáveis por transtornos homéricos: bocas de lobo entupidas de lixo são bóias nesse lugar e os motoristas sempre fazem questão de molhar os pedestres. As ruas e avenidas são estreitas, o que proporciona e estimula a utilização de meios alternativos, mas a quantidade de carros só tende a aumentar. Rodízio já é uma possibilidade concreta discutida em todos os cabarés da região. Por fim, não podemos esquecer que Recife é mais conhecida como a Veneza das construções megalomaníacas e inacabadas. Temos o Parque Dona Lindu em simulação 3D; o complexo Chanteclair me segura senão eu caio e a Fábrica Tacaruna que abre suas portas uma vez por ano (se é que ainda tem portas ali). Temos também o Centro Cultural da Caixa, o Centro Cultural Banco do Brasil, o Centro Cultural dos Correios. Tudo isso apenas nos jornais. Recife é quase um brinde ao mundo virtual.
E como poderia deixar de falar do Cinema São Luiz, inaugurado em 1952, todo glamouroso que há pouco tempo se tornou a batata quente da cidade. O São Luís era o último sobrevivente dos cinemas de rua do Recife e foi fechado. Agora é só no joga de lá, joga de cá. Assume de lá, assume de cá. Coloca debaixo do tapete e espera alguma igreja evangélica se interessar. Ave Maria... esse é o lugar onde moro and I fucking love it.
E como poderia deixar de falar do Cinema São Luiz, inaugurado em 1952, todo glamouroso que há pouco tempo se tornou a batata quente da cidade. O São Luís era o último sobrevivente dos cinemas de rua do Recife e foi fechado. Agora é só no joga de lá, joga de cá. Assume de lá, assume de cá. Coloca debaixo do tapete e espera alguma igreja evangélica se interessar. Ave Maria... esse é o lugar onde moro and I fucking love it.
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sexta-feira, 21 de março de 2008
Tradição
Como sempre acontece depois de dias seguidos de chuva e que antecipam uma temporada de chuva, o final de tarde de hoje, com o temporal já estiado, foi ideal para cair tanajuras. Nesses dias aqui na Várzea sempre foi assim: crianças (e até adultos) saem nas ruas com sacos nas mãos - alguns com medo, outros não - à procura dos insetos. Parece uma gincana que comove todo bairro. Era assim antes de eu nascer, foi assim quando eu era pequeno e é assim até hoje. Para quem não sabe, a Tanajura é um tipo de formiga responsável pela reprodução das formigas saúvas. Sendo fêmeas recebem espermatozóides de até oito machos, podendo gerar milhões de descendentes. Esse vôo é chamado de vôo nupcial. Caso elas consigam retornar vivas retiram as asas e iniciam um novo formigueiro. Além de aranhas, tamanduás e formigas de outras espécies, nós, humanos, também as comemos uma ou duas vezes por ano. O nosso procedimento é o seguinte: vassourada quando ela está voando, ninguém mata na hora, pega com uma mão e com a outra tiramos o ferrão, coloca no saco e assim se segue até encher o saco. Depois é só correr para cozinha e esperar que a mãe, empregada, irmã, pai, cozinheiros em geral preparem o prato.
Minha mãe sempre fazia uma farofa de tanajura, mas há quem coma crua e viva também... as patinhas até se mexem para fora da boca. =D
Descobri hoje no site do Globo Rural que comer tanajura é um hábito caboclo: "Quando o padre Anchieta chegou ao Brasil, um hábito curioso dos índios lhe chamou a atenção: em determinada época do ano, os nativos ficavam ansiosos para colher, aos saltos, 'frutos' que vinham do céu. Corriam alegres e enchiam vasos e mais vasos desse alimento que, torrado como amendoim, provocava verdadeiro deleite em toda a tribo e até nos homens brancos que o provavam. Os 'frutos', na verdade, eram formigas de abdômen avantajado, conhecidas por muitos como tanajuras ou içás. Segundo uma lenda indígena, foi uma cobra pequena quem ensinou aos índios consumir esse inseto. Certo dia, eles viram o réptil comendo a saúva, experimentaram e perceberam o quanto era gostoso". Por ser considerada uma praga nas plantações, a tanajura chegou a ser excomungada pela igreja católica. Os pobres insetos devem ter entrado em homéricos dilemas morais depois disso. ¬¬
Alguns dizem que tanajura tem gosto de camarão, mas para mim tanajura tem gosto de tanajura.
Minha mãe sempre fazia uma farofa de tanajura, mas há quem coma crua e viva também... as patinhas até se mexem para fora da boca. =D
Descobri hoje no site do Globo Rural que comer tanajura é um hábito caboclo: "Quando o padre Anchieta chegou ao Brasil, um hábito curioso dos índios lhe chamou a atenção: em determinada época do ano, os nativos ficavam ansiosos para colher, aos saltos, 'frutos' que vinham do céu. Corriam alegres e enchiam vasos e mais vasos desse alimento que, torrado como amendoim, provocava verdadeiro deleite em toda a tribo e até nos homens brancos que o provavam. Os 'frutos', na verdade, eram formigas de abdômen avantajado, conhecidas por muitos como tanajuras ou içás. Segundo uma lenda indígena, foi uma cobra pequena quem ensinou aos índios consumir esse inseto. Certo dia, eles viram o réptil comendo a saúva, experimentaram e perceberam o quanto era gostoso". Por ser considerada uma praga nas plantações, a tanajura chegou a ser excomungada pela igreja católica. Os pobres insetos devem ter entrado em homéricos dilemas morais depois disso. ¬¬
Alguns dizem que tanajura tem gosto de camarão, mas para mim tanajura tem gosto de tanajura.
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