Depois de dois dias de protesto, Ricardo acordou meio naquela ressaca política, meio solitário e percebeu meio em dúvida que a coisa estava meio assim: "começou o protótipo de guerra civil, cada um que pegue sua faca e canivete e mate ~o outro~ por razões de diferença de classe, raça, sexualidade, região, bairrismo, marca da cueca, time de futebol, gênero musical, doença, traços indígenas, profissão, preferência partidária, idade, roupa feia, alergia, placa do carro, tamanho da catota, tipo de cabelo, gosto cinematográfico, religião, jeito de andar, forma de falar, beatles ou stones, olheiras, tamanho do pau, tamanho da mão, sonhos atrelados, escolaridade, horas de trabalho, peso, força da peruca, cor do olho, carne ou alface, orelhas grandes, estilo da barba, perfume, prazer, inveja, recalque, grelo gerando na alta, truffaut ou godard, famosidades, saber nadar, número do sapato, posição na cama, casacos de pele, nariz torto, antecedentes criminais, performance, casa ou prédio, nível alcóolico, cores prediletas, gosto artístico, frutas prediletas, animais prediletos, número, lugar, objeto e todas as outras possibilidades dementes a sua escolha". Ricardo teve certeza que uns nunca gostaram muito dos outros, apenas engoliram a raiva enquanto podiam. O tempo da tolerância tinha se esgotado.
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quinta-feira, 27 de junho de 2013
sexta-feira, 31 de maio de 2013
Poema de si
Ao lado da pimenta e do conhaque,
brasas, marchas, vacas, avalovara,
montanhas congeladas pelo chá de alcaçuz.
Ian deitou no meu peito,
quente, colado, nevado
e pediu um breve poema de si.
Então, escreveu no papel:
"seja coerente"
e eu prontamente respondi:
"não seja"!
Zefini.
brasas, marchas, vacas, avalovara,
montanhas congeladas pelo chá de alcaçuz.
Ian deitou no meu peito,
quente, colado, nevado
e pediu um breve poema de si.
Então, escreveu no papel:
"seja coerente"
e eu prontamente respondi:
"não seja"!
Zefini.
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terça-feira, 14 de maio de 2013
desconsolo do gato
Olhando de lado,
como bicho aninhado,
salto e abrevio.
À espreita, cismado,
como num pulo arriscado,
corro e arrepio.
Durmo antes da hora.
como bicho aninhado,
salto e abrevio.
À espreita, cismado,
como num pulo arriscado,
corro e arrepio.
Durmo antes da hora.
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Literatura e Artes Plásticas
terça-feira, 9 de abril de 2013
Jatobá
Passeando sem rumo entre os jazigos da internet, deparei-me com uma história, digamos, ~curiosa~: no exato ano em que nasci, 1985, acho que não no exato mês, parece que foi um mês depois, maio, a ilha do bairro do Recife quase desapareceu do mapa da região metropolitana, por conta de uma iminente explosão que destruiria aproximadamente o perímetro de 5km² a partir da costa. A situação era a seguinte: três navios estavam atracados bem próximos, juntos carregavam cerca de 5 mil toneladas de gás butano, o gás de cozinha comum - sempre pirei nas pesagens dessas coisas invisíveis - mas o que interessa é que um deles, o navio-petroleiro Jatobá, começou a pegar fogo. Bastante próximo, havia ainda o Parque de Trancagem do Brum, com nada menos que 150m³ de materiais inflamáveis, fazendo com que os bairros de São José e Santo Antônio também entrassem na lista de espaços parcialmente ameaçados. Era madrugada, o então governador Roberto Magalhães estava no décimo oitavo sono, foi acordado, não costumava abrir os olhos de bom humor, mas ao entender a gravidade da situação mandou evacuar a ilha inteira e foi tomar um café reforçado para curar o whisky da noite anterior. "Era puta e marinheiro fugindo enquanto os bombeiros chegavam", relataram as testemunhas ocultas aos radialistas. Todo o contigente da cidade fora deslocado para o local. Contudo, como já passavam das duas horas da manhã, a evacuação se mostrou um ingrato ofício, exceto pelos profissionais e amantes da noite, a população em peso estava dormindo ou desmaiada no limbo pré-ressaca, de modo que a única saída possível era uma operação aparentemente suicida, que rebocasse o navio-petroleiro Jatobá em chamas para uma distância segura em alto-mar. Obviamente não surgiram muitos candidatos, mas um não tão jovem rapaz, aliás, também não tão atlético, não com tantos cabelos e já um velho lobo do mar, Nelcy da Silva Campos, se ofereceu como voluntário para liderar a missão. Enquanto alguns bêbados sem medo da morte se amontoavam no Marco Zero para ver os fogos de artifício, ele seguiu em direção ao incêndio num pequeno barco de reboque, precisou serrar as cordas que prendiam o navio-bomba-relógio sob uma temperatura insuportável e, então, presos os ferros, arrastou o Jatobá para quatro mil milhas náuticas da costa. Ciente da importância histórica do momento e da carência do povo brasileiro por heróis contemporâneos, Nelcy retornou ao porto na proa do navio, peito estufado, barriga seca, falta de ar, pernas e braços sincronizados numa posição cuidadosamente galante. Registrado por todos os jornais, a cidade acordava com mais um nome que se transformaria em busto, enquanto a aeronáutica havia sido acionada para bombardear o navio em chamas e terminar todo o evento em grande estilo. Não foi necessário, porém: como quase toda história recifense, essa também terminou com um sentimento de heroísmo frustrado, pois lá no alto-mar, o incêndio extinguiu-se sozinho. Bêbados, putas, marinheiros, maconheiros e donas de casa acordadas no meio da noite, pegas com suas calçolas na mão, foram os primeiros a reclamar. Fico só imaginando como os donos da Moura Dubeux não gostariam de ter uma máquina do tempo, enviarem seus capangas para esse dia específico, na tentativa de impedirem, tal qual nos filmes, a ação de Nelcy. Com tudo destruído, sem um vislumbre nas ruínas, porque o abandono atual ainda cabe um vislumbre, certamente seria mais fácil e rápido aprovar projetos disparatados. Ou, quem sabe, o incêndio poderia apenas se extinguir.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
#cortedecabelo
Buscando um cabeleireiro barato e que me despertasse alguma simpatia, segui para a algazarra central de Casa Amarela disposto a não pagar mais que R$ 20 cravados, enquanto concluía que viver uma pindaíba financeira pesada, de tudo estar bem contadinho, de abandonar os luxo menos superficiais, era uma situação que alterava em definitivo a minha disposição, percepção e atenção diante dos bens e serviços oferecidos pelo mundo. Na impossibilidade de simplesmente optar pelo mais fácil, pelo mais perto, pelo mais confortável, incluí a bicicleta no meu cotidiano para economizar o ônibus e por outros motivos, resolvi problemas caseiros com as próprias mãos para economizar os profissionais, fiz feiras baseadas no essencial e nos supermercados mais em conta, de modo que em menos de duas semanas, tinha transformado meus hábitos mais básicos, assumindo uma posição muito mais criativa no sentido de propor alternativas para gastos, em parte percebidos como desnecessários. Para vocês verem, troquei até a cerveja pela cachaça e, confesso, a economia bateu forte no miaeiro. Foi, então, que hoje tive que encontrar um corte de cabelo barato: não que cortasse cabelo em lugares caros, longe disso, costumava pagar entre R$10 e R$25 - hoje paguei R$15 -, mas sempre, desde tempos imemoriais, pagava esse valor, porque cortava nos mesmos lugares, com os mesmos cabeleireiros, seguindo a lógica dos mesmos cortes. Nunca me dei ao trabalho de experimentar uma coisinha diferente, exceto quando fiz um estrago feio na minha cabeça e tive que raspá-la. Um amigo de longa data chamava meu corte de cabelo de panetone ou brócolis. Eu achava parecido com o corte de xorxinho. Foi então que encontrei um salão bem chamativo, salão não, alguma coisa hair design, expressão que me deixou receoso, já entrei nervoso perguntando o preço, o rapaz respondeu calmamente o valor, recomendou que eu sentasse para decidir o corte através de uns recortes de revista, depois que terminou o serviço, disse que o corte combinava com meus óculos, gostei disso e saí de lá com meu primeiro cabelo fashion da periferia. O melhor é que ao final ainda recebi um cartão fidelidade: "traga toda vez que voltar - e com certeza vou - e na sexta visita, o corte sai de graça". Yes. Também gostei de escutar histórias diferentes dos salões anteriores, enquanto o rapaz estava cortando o meu cabelo - aliás, ele lembrava muito o personagem Karasu de Yu Yu Hakusho - soltava alguns comentários para o seu secretário sobre um ex-namorado que estava para ser demitido do trabalho no supermercado ali perto. Sem dúvida, o melhor foi: "menino, tu acredita que ele colocou no currículo que sabe falar italiano? A bicha assistiu duas ou três novelas, Terra Nostra, Passione e outra aí, aprendeu meia dúzia de palavras, babbo, puzzona e capisce e já colocou no currículo que sabe falar italiano? Só tenho uma coisa para dizer quando encontrar com ele, viu? PER FAVORE".
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Negociação
Joaquim tomou nota em seu caderninho que a diferença entre pegar um ônibus na sua cidade natal e em outra cidade qualquer se fundamentava no simples fato de que na primeira, ele necessariamente entrava, sentava, abria um livro e dormia, enquanto na segunda, terceira ou quarta, ele entrava, sentava e observava atento as miudezas do mundo. Todo santo dia que passava três vezes o tempo de viagem, entre a sua casa e o trabalho, apertado dentro de um coletivo lotado, com idosos passando mal, crianças chorando e um cheiro de suvaco daqueles, desejava avidamente matar o prefeito das mais criativas formas. Joaquim matutava com fé: lembrava da overdose de suco de cenoura que lera em algum livro e prosseguia confabulando até chegar na tartaruga arremessada por uma águia que matou o dramaturgo grego Ésquilo. Aliás, numa semana dessas, ele resolveu tomar uma cerveja e doze quartinhos com o líder da torcida organizada do maior time das redondezas para, finalmente, conseguir mobilizar a verdadeira revolução na sua cidade. Terminaram bêbados, não pagaram a conta, mas voltaram de táxi. Deixaram os protestos para outro dia.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
manhã augusta
ou o básico de toda relação:
violência e ternura.
violência e ternura.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Retorno de Clara
Caso decidisse brincar de matar todas as pessoas do mundo, olhando e fuzilando, olhando e fuzilando, olhando e fuzilando sem cansar, Clara, inundada de desfaçatez, perceberia que quando o campo de batalha estivesse finalmente inerte, quando os corpos mutilados não se distinguissem dos pedregulhos rugosos, um único homem permaneceria de pé... e ele sequer se daria conta de toda matança. Não demoraria muito até caminharem juntos, percorrendo dedicatórias e estorvos, entretidos com as histórias do tempo em que estiveram afastados. Os sorrisos seriam os mesmos e, como de costume, recordariam dos velhos, bons - e protocolados - momentos. Clara recordaria do dia, quando tinha dez anos, em que a avó lhe contou - recomendando com fervor pelo excesso de cálcio - que farinha de rosca era feita de ossos humanos infinitamente triturados após serem recolhidos no cemitério da cidade. Sua avó nunca usou de tapetes persas para ocultar as sujeiras da memória. Quando o primeiro homem voltou, o primeiro homem de Clara, ela não sabia como reagir, ele estava gordo, não disfarçava os primeiros fios brancos, mantinha o arroto matinal, e mesmo que todo seu otimismo lhe obrigasse a acreditar que ainda eram os mesmos, como se o tempo se costurasse sozinho para apagar distâncias galgadas com muita dor, não negou diante do circo místico seu próprio retorno ao campo de batalha. Temia ser obrigada a brincar de acreditar em todas as pessoas do mundo, fingindo e ressuscitando, fingindo e ressuscitando, fingindo e ressuscitando até cansar, mas não conseguia se desvencilhar do reencontro consigo mesma num universo de possibilidades. Clara odiava o seu segundo homem por ter se tornado uma mulher incapaz de amar o primeiro. Desde então, com os cabelos cacheados, sempre atravessa um beco finíssimo antes de se decidir.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
¢
Se não me engano foi Brenda, em algum episódio ainda da primeira temporada de Six Feet Under, que num diálogo sem grandes pretensões comentou que quando você perde um cônjuge, se torna viúvo ou viúva, quando é criança e perde o pai, se torna órfão de pai, quando é criança e perde a mãe, órfão de mãe, mas quando você perde um filho, a dor é tão terrível que não existe um nome.
Declínio
Para quem se acostumou a lidar com os obstáculos, espinhos amarelos e pedregulhos persistentes como objetos naturais de um jogo de xadrez contra uma força superior, onde para cada ato ou comentário politicamente incorreto, para cada pequena maldade prazerosa e sobretudo para cada golpe de esperteza, tinha de arcar com um ou dois peões em jogadas posteriores, tenho de admitir que desde que soube, há exatamente um mês, que não passei na seleção do doutorado da USP, todas as minhas peças-guerreiras parecem estar, uma a uma, sumindo do tabuleiro. Entre quadrados brancos e pretos abarrotados de sorrisos de nylon e chuvas de verão, lembro do cigarro que apaguei antes do banho de piscina em que perdi meus recém comprados óculos escuros, nada, claro, que se equiparasse ao fatídico dia antes do reveillon em que uma amiga derrubou uma taça de vinho - um lambrusco - no meu macbook pré-adolescente, resultando em perda total, apenas o HD e a bateria resistiram, a assistência não cobriu, considerou negligência, a técnica vesga me encarou de frente e riu na minha cara. Na maioria das vezes que o jogador perde uma peça inesperada no xadrez, se desespera, ataca sem consciência dos vacilos e termina por perder várias outras em sequência: respirei, dei algumas voltas na piscina, encarnei o jogador experiente, li Cortázar e aprendi sobre cronópios, famas e esperanças, mantive a calma e talvez tenha me aproximado com muito esforço da anestesia. Contudo, como um bom devorador de crianças, Moloch, Deus ancião adorado no submundo fenício, continuou sua investida: hoje meu notebook velho - e mutilado - de guerra parou de funcionar, a memória desistiu, o windows não abriu, o leitor de CD/DVD já não funcionava. Para fechar com chave de ouro o genocídio de extensões tecnológicas, semana passada fui assaltado com um picador de gelo e levaram meu celular ching-ling. Durante esse jogo de xadrez imaginário, os ganhos e perdas costumavam variar variar variar de tal modo a se igualar, nunca deixando um dos adversários completamente arrasado. Talvez os que tenham assistido O imaginário do Doutor Parnassus e conheçam de pactos faustianos entendam melhor e mesmo levando em conta os difíceis inícios de ano que percorri na última década - das cartas para tios desaparecidos, dos peitos escondidos na geladeira aos sonhos arrancados pelo talo - nada conseguiu me deixar tão desarmado, tão encurralado, como uma galinha depenada diante de uma raposa: prestes a receber um xeque-mate daqui duas ou três jogadas, não visualizo minhas torres, meus bispos ou cavalos, tento me mover na ausência de peças no maldito ano dedicado justamente aos peixes. Faz tempo que não jogo em 'L', o rei lembra um artista mambembe do centro da cidade e minha rainha continua embalsamada, devastada, escutando os ofegantes comentários familiares. O tempo passa, devo estar devendo uma temporada no inferno e Bryan Ferry, num rádio a pilha encontrado no lixo, seguindo os passos de Caetano e Beth Gibbons, não para de repetir trinta, setenta, duzentos e quarenta vezes: I didn´t know which way to turn, can´t control my feelings if I tried, right from wrong from left to right, I didn´t know which way to turn, walk on ice feel your fingers burn. O pior não é o fim do jogo, não é a repetição da música, não as perdas sucessivas, mas a sensação de estar sendo forçado a desistir.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Adaptação
Não sei se consigo me adaptar no mundo em que meninas ganham aplicação de silicone como presente de dezoito anos e mulheres fazem sua primeira lipoaspiração antes dos trinta.
sábado, 23 de outubro de 2010
Ausência
Como não consegui encaixar esse parágrafo no texto seguinte, decidi publicá-lo como uma espécie de prólogo diletante, afinal durante os minutos de decomposição da dúvida, do quase não gostar de O Estranho Caso de Angélica (Portugal / Espanha / França / Brasil, 2010), de Manoel de Oliveira, lembrei como numa tempestade de ideias de três filmes com estratégias narrativas bem distintas na contemplação da ausência. Todos, entretanto, sem qualquer resquício da suavidade e leveza proeminentes na obra do diretor português. O primeiro foi A Aventura (Itália, 1960), de Antonioni. Revisto antes de ontem, vaiado pelos espectadores de Cannes e usado repetidas vezes para exaltar características do cinema moderno, o filme começa acompanhando um mulher angustiada - discordante do pai e insatisfeita com o namorado - até seu desaparecimento, ainda nos trinta minutos iniciais, durante um passeio em uma pequena ilha do mediterrâneo. A partir desse acontecimento misterioso se desenvolve uma aproximação amorosa entre seu namorado e sua melhor amiga, a aproximação, no entanto, vai se entrelaçando à medida que procuram pela protagonista, ambos cada vez mais diminutos na vastidão das paisagens, onde a maioria dos diálogos recupera a ausência da amiga/amante e transborda um imenso sentimento de culpa. Continuam a procura mesmo inundados pelo desejo - e vergonha - do não retorno, temendo o encontro primevo e no último plano, naqueles três segundos em que você imagina todas as formas como poderia terminar e escolhe sua preferida, tive quebradas minhas expectativas - e minhas pernas - com o gesto sutil de uma mão feminina alisando a cabeça do rapaz. O segundo foi o recente Odete (Portugal, 2005), do também diretor português (não tão longevo e não tão inventivo, desculpem) João Pedro Rodrigues, em que um garoto morre num acidente de carro e desperta o cruzamento de obsessões entre o seu namorado e uma vizinha com quem não tinha contato, mas que, ao saber do acontecido, embarca num relacionamento prévio inexistente que desemboca numa gravidez psicológica. A ausência e carência fazem do luto, não um silêncio guardado, mas um culto radical ao falecido, uma dança de corpos cada qual com um desespero ardil. Se de fato toda estranheza do argumento está mal servida num encadeamento convencional, se os atores são sofríveis, a superestima não passa de uma árvore de natal, ainda assim temos um resultado belíssimo na última cena: depois da gravidez ser desmascarada, a garota passa a se identificar de maneira corpórea com o morto, veste suas roupas, tenta se transmutar nele ao ponto de simular uma transa - ela sendo ativa - com o namorado sob o cândido olhar do fantasma. Por fim, o último filme lembrado é provavelmente a obra-prima dessa linhagem: Rebecca (1940), primeiro trabalho norte-americano de Alfred Hitchcock e referência maior a todos os casais que precisam lidar com a esfera da lembrança, da impossibilidade do esquecimento - e das comparações - de ex-parceiros de seus atuais amantes. Depois de Rebecca, dessa ausência tenebrosa que paira do lado de fora do quarto, pura fantasmagoria que se confunde com materialidade, aprendemos a guardar carinhosamente todas as comparações positivas com o passado, certos de estarmos preparados para o dia em que encontraremos embaixo do tapete, escondida num porão, a coleção das negativas acumuladas por anos.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Caderno Antigo
Nada mais rebeldia adolescente que Nirvana escrito com 'a' de anarquismo, Beatles espalhados por todos os lados, todas as matérias, todos os horários, recados pelo meio, recados apagados, errorex seco e velho dando sentido duplo a mil e um comentários. Nunca fui de prestar muita atenção nas aulas de química do professor pardal e seu mundinho de cabritas no cio, balanceamento pelo método da oxirredução, definição de ácido, básico, neutro, pontos de fusão e ebulição: costumava intercalar cada cadeia de carbono com um punhado de poemas encantados e intermediar a cisão heterolítica com uma cesta de bolinhas de papel. Não sei bem como mantinha o ritmo, mas ao invés de estudar geometria, escrevia dezenas de contos onde a exacerbada atmosfera heterossexual - das brincadeirinhas, da brodagem, da cachaça - era usada para despertar enrustidas fagulhas de homoerotismo. Tudo se resumia a uma privada vomitada e a uma vontade interminável de fazer sexo. Era bem o clima nascente - entre a descoberta e o abandono - do primeiro semestre de 2001. Ainda mantinha o fascínio infantil pela Segunda Guerra, às vezes nos sonhos encarnava o herói e, numa Itália que pendia entre a imponência histórica e a tagarelice Terra Nostra, terminava salvando os amigos de trincheiras, atentados e bombardeios: atravessávamos com garrafas de vinho os becos de Nápoles e ouvíamos os gritos femininos sobre os varais de novela. No entanto, não tratava-se apenas de um fascínio lúdico, também tinha lá sua aspereza metodológica: montava cronogramas, dados e fichamentos, a Alemanha e seus 12 mil aviões de guerra, sendo 6 mil de primeira linha, via a Luftwaffe sobrevoando Londres, a vingança dos aliados na destruição de Dresden, mortos e mais mortos na Polônia; imaginava a tensão dos britânicos e americanos desembarcando numa França de orgulho remoído, pára-quedistas vivos, o general raposa do deserto no norte da África, frotas construídas e destruídas, toneladas de ferro contorcido todos os dias. Talvez aos dezesseis anos tenha escrito meu último poeminha de amor: desde então, toda vontade silencia-se em cartas e e-mails melancólicos. Não era muito bom em física e isso é óbvio: cinemática vetorial, eletrostática, deixei de entender matemática quando chegamos à função polinominal do segundo grau, não fazia ideia do que eram zeros ou raízes de uma função quadrática. Sou dos que nunca chegaram perto de aprender logaritmo.
Entre uma piadinha e outra, entre organizar e desfazer o clubinho de xadrez, até que prestava atenção nas aulas de literatura e, com todo clichê de 'garotinho de bagunça', odiava a primeira geração romântica, José de Alencar, Gonçalves Dias, vivia de riscar bancas fazendo 'trocadalhos do carilho' com seus pobres versos sobre palmeiras e índios. Depois ia na biblioteca, onde costumava passar alguns recreios conversando com a bibliotecária, e roubava Noite na Taverna, um livro de poesia concreta e dois ou três sobre a Segunda Guerra. O Ensino Médio era mesmo um arrastão de aulas desesperadas, três matemáticas, duas geografias, duas químicas, sei lá quantas físicas, professor de biologia cantando música-decoreba, redação, interpretação, gramática, classificação do sujeito, sujeito indeterminado, sujeito implícito e a professora de português fazendo a putinha com seus vestidos cada vez mais curtos. Pior que no meio disso tudo, batia a vontade sincera de estudar sobre a história da Rússia, da época czarista aos mencheviques, para poder, enfim, entender a formação dos sovietes. Essa ânsia vinha desde a sétima série, as coisas começaram a dar errado quando Stálin subiu ao poder, sacramentando a impossibilidade de eu chegar ao fim dos contos infinitos. Inúmeros envolviam grupinhos rebeldes - triângulos amorosos - durante a ditadura, brotando de toda minha pós-memória e exercitando a nostalgia pelo que não vivi. Misturava minha vida com a dos pichadores punidos pelos milicos de bigode, torturas num mundo de colégios internos violentamente religiosos, emboscadas de capatazes que usavam de chicotes em salas com correntes, uma verdadeira paródia de O Ateneu pra quem tinha assistido há pouco tempo O que é isso companheiro. Seja como for, realmente foi uma sorte danada eu não ter me tornado um psicopata dos bons, porque desenvolver um infográfico com cotação dos amigos da várzea só pode ser a prova viva que estava prontamente no caminho. Subdividia todos em categorias numa atitude assustadoramente racional. Contudo, para atingir o sétimo sentido do cosmo, o batido CD vermelho só com as músicas number 1 dos beatles me ensinava sobre a eterna vontade de estar longe-perto perto-longe dos amigos. As contracapas dos cadernos antigos deixam claro que - na capa tinha Daniella Sarahyba mostrando a barriguinha - foi em 2001 que comecei a acreditar que a psicodelia poderia salvar o mundo. Dali pro hotmail devem ter sido cinco passos.
Definitivamente não me interessava por História do Brasil, menos ainda pela península ibérica, sou Almeida, mas pouco me importava com os mouros, califas, preferia delirar com as cidades de Antuérpia, Veneza e Gênova no início da Idade Moderna ou mesmo Atenas e Roma na Idade Antiga. Torcia pela Itália nos campeonatos só por ser um país de beleza e quando os professores começavam a falar sobre a América, batia o tédio, decidia gazear, não entendia a relevância da conversa de índio, bocejava com a vingança da antropologia. Enquanto isso, escrevia mais contos. Inventava dois irmãos gêmeos, um judeu e um nazista, criando um melodrama da falta de noção levemente incestuoso. Sempre adorei Éramos seis e simpatizava com Biologia até estudar o corpo humano, reprodução, escroto, frênulo, grandes e pequenos lábios, um mar de espermatozóides. Certa vez fiz um desenho genial de um coração pulsando. Sunshine, sins and flowers - algumas lembranças hão de ficar sem tradução. Uma amigo vivia dizendo que eu devia acabar com minha pose de presidente da Academia Brasileira de Letras, mas não me continha e, quando possível, corrigia todos os erros do professor de História Geral que ensinava processos através de subtópicos. Socialismo utópico, científico, unificação da Itália. Vivia enxergando os camisas vermelhas conquistando o sul ao som de A Day in the Life. Entre as aulas da Primeira Guerra e da Revolução Russa, descobria uma pirâmide social onde os mujiques se escondiam lá no fundo. Cultivei uma obsessão pelos domínios sangrentos, por cada guerra ou batalha da humanidade, pela ânsia de inventar armas, desde as guerras médicas, do peloponeso, sonhava com a destruição de Cartago. Quando descobri na Barsa que a Guerra dos Cem Anos tinha durado cento e dezesseis deixei de acreditar em muita coisa, mas continuava a odiar Nero todos os dias pela petulância de colocar fogo em Roma. As amigas riscavam os cadernos dia sim e dia não. Cyba. R.P.N. Rebeka. Ana p. Ana c. Um desenho de raposão. O tico e teco de Maíra prontos para não funcionarem. Entre cada bloco de matéria era possível encontrar curiosidades de StarWars, uma cronologia maluca da família Skywalker, sugestões de filmes entre os filmes existentes. Nas duas últimas folhas, todos os livros do primeiro e segundo anos da Escola de Magia de Hogwarts, com a relação de cada professor e a disciplina correspondente. Minha barba era uma rala barbicha e ainda escrevia fugir-de-casa com j.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Diploma
Formado há quase três anos, não me sinto constrangido em admitir que, primeiro, em muito só cheguei até o fim do curso universitário por morar pertinho do campus ao ponto de ir e voltar a pé todos os dias e que, segundo, minha identificação com a categoria jornalística, essa mistura que envolve cordialidade, respeito e admiração, adquiriu nos últimos meses um caráter de descida de montanha russa, daquelas bem verticais em que o brinquedo quebra e morrem todas as crianças.
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terça-feira, 24 de agosto de 2010
#
O perigo sempre há de carregar suas satisfações.
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domingo, 25 de julho de 2010
¢
Um tanto condicionado pela vontade de partir, a cada dia que repito o mesmo lugar, imagino um outro, inelutavelmente distante e desconhecido, desaparecer. É como se o tempo de desbravar o mundo, um sétimo continente que seja, estivesse, como uma ampulheta num filme de aventura, se esgotando pouco a pouco. Para quem passou tantos anos vivendo na mesma casa, ligado profundamente a uma recorrência das mesmas cerimônias, é quase como se tivesse cultivado uma bela de uma bolha que está prontíssima para estourar. Nunca pensei que o sedentarismo iria me consumir como um terrível monstro mitológico.
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domingo, 4 de julho de 2010
travessuras
sopa de ervilha, bolo de cenoura,
ziquizira,
bandolim.
pão de avéia, guarabrahma,
remelinha,
trampolim.
peito de moça, jambo roxo,
malamanhado,
chapolin.
lasanha fria, tanajura e farinha,
rafaméia,
pirlimpimpim.
mel de abelha, pó de flu,
suco de mangaba
- ariano, varzeano, marciano -
estopim!
ziquizira,
bandolim.
pão de avéia, guarabrahma,
remelinha,
trampolim.
peito de moça, jambo roxo,
malamanhado,
chapolin.
lasanha fria, tanajura e farinha,
rafaméia,
pirlimpimpim.
mel de abelha, pó de flu,
suco de mangaba
- ariano, varzeano, marciano -
estopim!
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sábado, 29 de maio de 2010
Ninho
Uma semana longe de casa e, pela primeira vez, não sinto saudades dos meus lenga-lengas de sempre, da cidade que me brota e do ritmo que satisfaz, das pessoas mais próximas, dos tons de pele, do calor infernal e até do fedor de merda do rio. Não estou me inundando de nostalgia, mapeando os afetos, resgatando palavra por palavra até silenciosamente reafirmar os vínculos, os laços, reviver as histórias boas e compartilhadas. Nada disso. Estou muito com a cabeça num mundo distante, com os olhos virados para outra direção, imaginando que posso prosseguir em ares também fedorentos sem receio de desfazer o nó que liga morbidamente certeza e insegurança, nó que nos aprisiona, se faz de seda enquanto nos mortifica num casulo. Ainda que nos alimente e nos aqueça, que nos deixe mimados e cheios de vícios, chega uma hora que não há nada a se fazer a não ser arrancar o fio umbilical com os próprios dentes. No entanto, permaneço atento para não soltar e perder as pontas.
De fato, tudo isso não é por Salvador, pelo axé e pelo pelô, nem se enganem, não é o tipo de gatilho que vem de fora, é quase como uma respiração que se torna mais intensa a cada fluxo, não bem o fim da nostalgia que me persegue, mas a inquietação, vinte cinco anos, de que no mundo das permutas, meu mundo das maravilhas, a vantagem de estar longe das pessoas que lhe conhecem de ponta a ponta, as desvantagens são inúmeras, é escapar um pouco do olhar viciado, às vezes preguiçoso, que seus amantes lançam sobre você. Tenho a impressão de que a intimidade, como todo ninho afetuoso, pode ser tão conformista que se torna espectral, fantasmagoria do cotidiano, amor maior do mundo de quem arma o estúdio com mil câmeras na sua direção, firma a bela visão oficial e parte com os olhos fechados para longe. Nada pode ser tão castrador quanto acordar todos os dias com o cheiro de café e encontrar um sorriso matinal delineado de ternura.
Não se trata de uma crítica ao colo, à boca cuja voz nos envolve em poucas frases ou ao cheiro que nos acostumamos, mas que continua a nos atrair: o problema é que para não nos levantarmos do sofá da sala ou não mudarmos o nosso sanduíche predileto no McDonald's, terminamos aceitando todos os clichês, os que impomos a nós mesmos e os que provêm de olhares estrangeiros, perspicazes em boa parte dos casos. Enquanto isso, a banha parece se acumular. Seja como for, acordei hoje sem vontade de seguir como um personagem de um script/relação repetitiva, meio como se fosse a décima oitava temporada de um seriado em que tudo permanece no mesmo marasmo, tudo é previsível demais de forma que os olhares dos espectadores impedem muitas vezes de seguirmos na maravilhosa opção de sermos sem pudor, também, aquele que não somos, de entrarmos num estado dentro fora de si. O que mais gosto em Salvador é a revolta do mar e a tranqüilidade das pedras.
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segunda-feira, 12 de abril de 2010
Mudança
Sempre que conheço pessoas novas, aproveito para reinventar minha relação com o mundo.
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