terça-feira, 2 de março de 2004

Carnaval

sem muito confete ou serpentina, 
nada de pierrot ou colombina. poucos blocos vistos, poucas marchinhas seguidas, 
risadas por tão pouco e pouco frevo no pé. 
encontros, desencontros, reencontros de tempos em tempos. 
novos velhos rostos, 
velhos novos corpos. 
o vento mais fraco, o eco mais alto, a sujeira por trás da multidão. 
vozes trocadas, falsetes caídos, uma poética ébria de meio de rio seco. 
uma cerveja, dois vinhos baratos, uma vodka bielorussa. 
duas doses e meia de alerquim.

ao menos, gritei que jesus era bissexual dentro de um ônibus cheio de beatas.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004

Rock in the Casbah

Começa com três acordes de guitarra no repeat e, por muito menos, Matheus já estava mexendo o corpo sem qualquer senso de harmonia, extrapolando o jeitão estranho de observar as pessoas em sua volta, mantendo os olhos semicerrados e o volume gigante na calça apertada. Quando se cansava, meio por causa do efeito das drogas, meio pela vontade de pagar de gatão, encostava uma das botas de couro preto num poste, às vezes numa parede toda pichada. Colocava os óculos escuros e emulava sua postura a partir das fotos de seus ídolos. Antes, só curtia um baseado, mas quando se aproximou do punk inglês, do que chamava de verdadeiro punk, o baseado caiu no anacronismo, só conseguia ficar chapado com coquetéis de remédios derretidos numa colher e enfiados em suas veias. O emagrecimento brutal foi apenas uma das consequências.

O som de sua antiga banda, com letras superficiais, compostas de palavrões e palavras de ordem, expunha tudo que ele sempre quis expor. Arrastava uma corja de idiotas, lançava estilo entre os mais novos e como um bom vocalista pulava,  jogava-se no chão, berrava e olhava nos olhos de sua garota, dedicando duas ou três canções para ela, o que lhe rendia nove ou dez ótimas transas nos dias seguintes. De quando em quando pegava outras no banheiro do metrô. Acontece que era um cara solitário, só poderia chegar sozinho em seu destino, acordava, dava dois ou três gritos e colocava todas e todos para fora. Matheus passou o começo da vida adulta preso entre o lixo e a fúria, tão inquieto que o descanso costumava lhe causar um estranho tipo de desconforto. Mudava as trancas de seu apartamento regularmente e às vezes passava dias acompanhado apenas de uma seringa.

O santinho do pai que lhe espancara inúmeras vezes na infância estava no bolso da calça quando Matheus perdeu os sentidos pela última vez. Realmente tinha extrapolado: passara a semana com as mesmas roupas rasgadas, visitara todos os bares da cidade com um whisky barato nas mãos, trocou sua televisão, seu tapete persa e sua guitarra. Ainda assim, as garotas comentavam sobre um charme da decrepitude. Acontece que ele nunca mais tinha tido uma transa boa, estava rodeado de prostitutas, sua banda tinha acabado, ele tinha sido expulso, Sid Vicious estava morto e ele não tinha mais quem emular. Tentou sair, abrir a porta, comer uma maça, recuperar as forças, ouvir o som, abrir os olhos. Não tinha volta, não havia palco, cena, nada. Apenas um colchonete e um cheiro de cadáver que se arrastou por três semanas até alguém chamar a polícia.

Utopia e Psicodelia

Toda vez que algum de seus colegas do curso de filosofia falava sobre Zeitgeist imaginava dezenas de crianças morrendo no Nepal. Sandro foi o primeiro a deixar o bigode, o primeiro que surgiu com o papo místico de reaver a essência do ser humano, enquanto escutava música indiana ou praticava meditação, só para exacerbar seu pacto cafona com a cultura oriental. De repente, Sandro não estava sozinho, sua capacidade de arregimentar pessoas era encantador, quase como se entre uma noitada e outra entupida de ácido lisérgico, todos em sua volta tivessem descoberto o terceiro olho. O grupo começou a dividir o mesmo apartamento, uma ocupação abandonada no centro que recebia sempre novos pupilos desesperadamente em busca de uma utopia, ainda que passassem mais tempo ruminando o clima da época do que efetivamente vivendo-o. Tratava-se de um transe entre a vontade de experiência e ausência de poder.

Logo descascaram parte da pintura da parede e preencheram o espaço com cores fortes e móveis abandonados, enquanto Sandro estimulava que cada um descobrisse seu talento natural, de modo que foram emergindo pouco a pouco danças desconcertantes de pouca ou nenhuma genialidade. Como bons estudantes de filosofia, vários usavam da poética do aleatório para se expressarem, criando frases como "círculos verdes sobre os cantos do amanhã", "natas douradas no desnecessário do saber", "gotas de inexistente soltas no espaço". Espalhavam pelos quartos e salas como se fosse ensinamentos metodológicos. Ninguém entendia coisa alguma e também não reclamava, por isso eles preferiam ditar a falta de sentido como ápice da lucidez interna, sempre conclamando sobre outro plano existencial, outro plano espiritual, com cores funcionando como melodias, guinadas de ritmos, uso do desuso. A maioria só durava uma semana no apartamento e o próprio Sandro mal conseguia acompanhar seus pensamentos.

Escutavam Syd Barrett todos os dias e organizavam orgias semanalmente. O apartamento já existia há dois anos e estava com uma configuração mais estabilizada, sem tantas idas e vindas, o que de certa maneira contradizia o ímpeto inicial de movimento. As roupas estavam mais exageradas, também mais sujas, alguns foram empestados por piolhos, bichos de pé, até carrapatos e o chão estava coberto de cabelos de todos os tipos e partes do corpo. Sandro sabia que o seu sonho não duraria para sempre, sabia até que não duraria nem mais um ano. Era preciso acabar, pois os próprios loucos estavam se traindo. Syd havia sido, enfim, expulso da banda. As paredes foram perdendo a cor, o apartamento estava ficando vazio, servindo apenas de depósito de coisas deixadas de lado. Sandro assim terminou seu projeto, tomando o esquecimento como fuga de um novo tempo. Não queria participar. Ficou sozinho até desaparecer.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2004

Nostalgia

Tenho saudades das entrelinhas, das linhas tortas e de todos os versos mal escritos. Tenho saudades de não saber qual é o próximo passo, de cair bêbado na sarjeta e de passar a madrugada inteira chorando por um filme. Tenho saudades dos meus sonhos infames, das minhas crenças desajeitadas e de me sentir um tanto inseguro. Tenho saudades de não ter responsabilidades de adulto e ao mesmo tempo não ser tratado como uma simples criança. Tenho saudades do colo da minha mãe.

Tenho saudades de quando eu não tinha saudades. Que eu ficava triste só de ter dúvidas e não feliz por ser um garoto curioso. Tenho saudades de correr nu pela praia, de me melar de merda de boi e de nadar no açude da fazenda do meu pai. Tenho saudades de fazer xixi na cama e ficar envergonhado, de ter pesadelos, de levar sustos infantis e de prender o choro da queda só para fingir ser forte. Tenho saudades do conforto dos braços do meu pai.

Tenho saudades de não ser maior de idade, de ser o símbolo da juventude rebelde e de me olhar no espelho, enquanto o mundo palpita. Tenho saudades de ir a escola, de ser expulso das aulas de inglês e ouvir as pessoas me chamarem de irresponsável. Tenho saudades de tomar banho na bica da igreja em dia de chuva, de olhar o rio estando sentado na ponte e de mandar um beijo para a lua. Tenho saudades dos passos, dos gritos e das histórias que não esquecerei. Tenho saudades das folhas secas do outono de Gravatá e dos carinhos do meu melhor amigo.

Tenho saudades dos meus lençóis coloridos, que me escondiam do que eu mesmo criava. Tenho saudades das brincadeiras ingênuas, do meu cachorro que foi levado e de meu primeiro beijo na boca. Tenho saudades de subir nas árvores e de cair delas também. Tenho saudades de chutar a bola na casa do vizinho, de correr dos cachorros ferozes e de entrar nas casas mal-assombradas. Saudades de estar namorando no dia dos namorados e de ter uma namoradinha no maternal. Tenho saudades da minha sempre presente infância.

Tenho saudades das minhas poesias de amor, dos meus contos que só tinham drogas e de todos os cadernos de matemática que eu não usava. Tenho saudades de chegar atrasado na aula todos os dias da semana, de perder meu sapato e de fazer aviãozinho de papel. Tenho saudades das guerras de coração de nego, dos uivos dos cachorros e das conversas sobre extraterrestres. Tenho saudades do sapo chamado Ambrósio mas que todos conheciam como Frederico.

E tenho saudades de chorar ouvindo Beatles, de abraçar o desconhecido e de fumar maconha na varanda do teu quarto. Tenho saudades de ficar doente e ver as pessoas preocupadas comigo. Tenho saudades dos meus primos que não vejo há mais de dez anos. Tenho saudades de riscar as paredes, de roer as unhas do pé e de cuspir para cima. Tenho saudades de cada palavra que já disse e de todas as outras que um dia esqueci. Tenho saudades de guardar o universo na minha caixinha de segredos.

Diálogo

1
A intensidade é uma doce ilusão, meu amigo. A profundeza não.

2
Sempre me questiono se uma amizade se faz pelos anos passados ou pelos últimos dez minutos de desconforto... e nunca chego numa resposta.

3
Provavelmente nos forçamos a crer nos anos, ainda que estejamos sob o destino dos minutos.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2004

Conselho

Se você pretende tomar minhas palavras como um resgate da sua falta de crença ou usar das minhas frases como homeopatia para sua singela depressão, pode ter certeza que dentre todas as funções sociais, a de auto-ajuda é a que menos me fascina. Se tivesse vontade de ser yuppie, seria a que mais me fascinaria sem dúvida. De qualquer modo, coloque uma roupa bem bonita, aquela que suas banhas ficam mais discretas e vá em qualquer um destes supermercados que vendem os livros mais badalados do momento, os guias para executivos, um montão de generalidade e, se você estiver com sorte, o Dalai Lama estará lhe esperando em alguma prateleira.

domingo, 25 de janeiro de 2004

sábado, 17 de janeiro de 2004

17 de janeiro de 2004

O fato das cortinas não serem estáticas sempre foi ponto de discórdia, de modo que as rugas sob a luz de velas e as taças de vinho já vazias sempre pareciam distintas quando mudavam os castiçais da sala. Um deles chegou carregando uma bolsa sem forma e as desvantagens de uma palavra. Não fora o fim da poesia, estavam apenas no início e tinham todos, os anseios e as inseguranças. Não havia desespero em cartas de suicídio. No hay banda. There is no band. It is all an illusion. Mudaram o espelho de lugar e reencontraram os lápis e os papéis que tinham perdido. Não fora o fim dos abraços, nem das belas piadas ou destes últimos solares. Aprenderam a agradecer todos os dias pelos beijos que não deveriam ter dado se entorpecendo com uma bebida barata.

Agora sequer precisavam dos pseudônimos femininos e do medo de discar o telefone. Não fora um fim, mas outro recomeço. A chuva pela janela e os cantos orientais, a dança solitária e as cartas do baralho jogadas na cama. Havia um rastro de formiga num antigo móvel de madeira. Ouviram / contaram histórias de infância e desejaram ouvir as primeiras palavras de seus filhos. Estavam dando um tempo na falsa honestidade. Parece patético, mas havia um papo sobre ser e reacender o introspectivo e o eu. Não queriam guardar segredos, deixaram as desculpas pra lá, agarraram os cabelos e estenderam seus sorrisos no varal. Estavam ali pelos abraços mais fortes e por alguns beijos também. Um fusca azul. 17 de janeiro. Nada de águas de março ou semana santa ou época natalina. 17 dias depois do fim do ano, estou pronto.

Tenho que ser mais sereno.

sábado, 10 de janeiro de 2004

quarta-feira, 7 de janeiro de 2004

A história de uma gotinha

No início era apenas uma típica gotinha d’água daquelas que chegam discretas pelo teto da sala e que em quatro ou cinco invernos se tornam uma artística infiltração. De fato, foi um début de baixo orçamento, apesar dela carregar aquela presença cínica de quem concentra toda sua umidez. Não demorou muito até fazer daquele canto um antro espiritual, receitando energias a torto e a direito, invocando karmas novos, fazendo e desfazendo mau olhado. Era antes de tudo uma gotinha esotérica. Lia todo santo dia seu horóscopo por intermédio das moscas e todo santo dia tirava tarô para alguém. Algumas baratas descontentes com seu destino morreram depois disso.

Era também uma gotinha ambiciosa e com consciência de classe. Conhecia a história das gotinhas, seus feitos mais homéricos, sua posição na sociedade, os teóricos mais relevantes e tinha sempre um astuto argumento para se defender do que não lhe ameaçava. Por ser única naquela sala de pouco movimento, tinha sempre um sorriso dúbio e um ego para apontar. Tornou-se também terapeuta e após algumas seções, vaga-lumes com problemas sexuais voltaram a acender suas companheiras. Não demorou muito até a gotinha se tornar cada vez mais popular e aprender a ser uma atriz tão boa que conseguia passar uma boa primeira impressão para quem fosse. Comercializava simpatia com as aranhas.

No círculo de falácias, cada um dizia uma coisa, mas todos inundados de uma convicção assustadora: uns a tomavam como pai de santo em exílio de algum país não laico, outros comentavam na fresta da janela que não passava de um psicóloga problemática sem referências, alguns evocavam sua candidatura nas próximas eleições e a grande maioria afundada em seus delírios maternos mal resolvidos, enxergavam-na como uma criança doce e traquina. Logo chegaram as chuvas de verão, a gotinha tinha contraído alguma mazela com os mosquitos transmissores, de forma que sentia a presença de milhares de gotinhas, mas, isolada de seu mundo, permanecia sozinha. A consciência histórica não lhe servira de nada.

Cada vez mais gotinha-inha-inha, terminou se dedicando aos mexericos do cotidiano das vidas alheias. As lesmas contavam as grandes novidades da semana passada (os fuxicos que todos já sabiam e que já estavam cansados de saber), as moscas os pequenos segredos (aquela coisa que você escuta e treme nas bases antes de acreditar). Era no fim de sua jornada uma gotinha fofoqueira. Odiava o complexo de perseguição das baratas, besouros e lagartixas e sempre falava mal das formigas perdidas e das formigas trabalhadoras. Repetia todos os dias que se tivesse antenas e patas, antes de tudo teria sido uma rebelde. Só que a gotinha era apenas uma gotinha.

A chuva parou. O teto foi reformado. Nenhuma gota iria cair. Pintaram as paredes. A gotinha secou.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2003

Bu!

Às vezes sinto tesão com gritos de horror.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2003

Rémy

A cada dia me convenço mais de que o pior não foi ter passado por uma miríade de 'ismos' e ter desembocado a maturidade no conforto burguês, não foi, como comentam as apaixonantes personagens de Invasões Bárbaras (Canadá, 2003), de Denys Arcand, ter sido um jovem nômade ora separatista, independecialista, ora imperialista, imperialista-associado; antes, existencialista, depois, anti-colonialista, depois ainda, marxista, marxistas-leninista, trotskista, maoista, estruturalista, situacionista, feminista, desconstrucionista. O pior, de fato, é não ter passado por nenhum desses estágios, manter-se na suspensão perpétua de quem nasceu depois das grandes ideologias; não poder contar, na condição de avô sentado numa cadeira de balanço perto da fogueira, histórias de 'quando mudei o mundo' durante a juventude. Sinto um temor imenso, me controlei bastante para não chorar no cinema, chorar pelo tempo errado que parece contaminar cada espaço vazio: aliás, ultimamente, na falta de uma crença, ou de várias delas, tenho acreditado mais e mais que minha geração inteira vai morrer de câncer.

domingo, 7 de dezembro de 2003

Vazio


É um vazio.

Sou o afeto no olhos refletidos pelo vidro da janela, as palavras de desprezo soltas no vento e o eco dos intermináveis passos num corredor sem fim. Sou a inofensiva bolinha de papel batendo no seu rosto, o cuspe escorrendo de seu queixo e o Judas enforcado pelo fio do telefone.

É um vazio. Um vazio tão imenso que vai além dos contornos de meus dedos. Um vazio que pinga, que apaga as luzes dos postes e que esquece de trazer o amor para o seu seio. É um vazio que dói, que desanda nos passos da dança, que nos chama de tolo e corre em passos de lebre. É um elefante no meio da sala, uma pressão que me estala. É o medo de viver.

É um vazio. Um vazio que fere a minha carne, que cospe no meu rosto e beija a minha boca no banheiro. É vazio que se faz culpa pelos livros, que faz da biblioteca desperdício, é a vontade de se vingar. É um vazio que passa invisível, que torce o nosso corpo e desliza sem sentido. É um elefante em cima da mesa, um choro de tristeza. É o ímpeto de fim desde o começar.

É um vazio. Um vazio na falta de ar, na ausência de palavras a se dizer, na lembrança das eternas quedas e no anseio por dormir no chão. É um vazio ao lado da cama, do telefone que nunca descansa e do abandono que não deveria existir. É um vazio nas ameixas pisadas, nas amizades deixadas. É um elefante na minha cabeça, um momento de total estranheza. É o futuro perdido em minhas mãos.

Sou a loucura da existência, o delírio do vazio dos anjos e um tiro em câmera lenta. Sou o esquecimento da lembrança, a última angústia de uma ânsia, o som de Beethoven mal tocado em meu piano.

É um vazio.

(Sensações pós-sessão de Elephant (EUA, 2003), de Gus Van Sant)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2003

Respeito

Impossível não desenvolver carinho pela pessoa com a qual você descobriu a singular alternância entre os dias em que encarnamos o ilusionista e os outros em que nos rendemos à ilusão.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2003

Platonismo

Ele não se conforma com a condição de conhecê-la há poucos meses e sentir o seu desprezo como se a amasse há séculos.

quinta-feira, 27 de novembro de 2003

Belas e cinderelas

Ainda que tenha passado a maior parte da infância diante das princesas da Disney, Eliane nunca se mostrou muito esperançosa quando o assunto era amor. Primeiro foi se apaixonando, sempre de maneira silenciosa, pelos coleguinhas mais bonitos da sala, os galeguinhos de olhos azuis e traços quase femininos, os mesmos que as meninas mais bonitas gostavam; depois, para fugir da concorrência e despistar seu próprio estilo de patinha feia, passou a olhar os supostamente sem gracinha, escondidos atrás dos óculos fundos e do jeito desengonçado, até que, em dado momento da adolescência, aprendeu a não esperar mais príncipe encantado algum, desgostou dos cavalos brancos e implodiu todos os castelos. Desde então, quando muito, Eliane torce para que nos dias em que estiver sentada na janela, com o lugar vago no corredor e o ônibus de portas abertas naquelas paradas em que sobem dezenas de passageiros, o homem mais mais mais mais bonito, ao menos, sente ao seu lado. Se acontece, os chiados começam a virar rugidos.

quinta-feira, 20 de novembro de 2003

Noite

Enquanto a fumaça dos carros se misturava a fumaça dos cigarros, enquanto os cachorros latiam e protegiam a sua ninfa, enquanto os vendedores trocavam de rosto, alguns tantos olhos e um único olhar diferente dos outros. Não se esqueçam, amigos, a vodka acabou. Peguemos nossas cervejas e brindemos agora. Mantinham uma pose de bandidos burgueses que nunca os levou a lugar algum, sequer entraram em cartaz no cinema mais próximo. O tempo voa, a rua está deserta e novamente estamos ébrios. Não veriam as luzes nos velhos prédios em reforma se acenderem. Depois da canção de ninar, não esquecerão, nenhum deles, de beijar os filhos e de, antes de partirem, depositarem as memórias em parte de seus sonhos.

quinta-feira, 13 de novembro de 2003

Vertigem

Estamos esquecidos,
Revividos de sombra,
Perdendo o controle.

terça-feira, 11 de novembro de 2003

sexta-feira, 7 de novembro de 2003

Casal

Às vezes vejo dois corpos se unindo e desejo secretamente me dividir em dois.

domingo, 2 de novembro de 2003

Substituição

Dois anos foram o bastante para deixarmos nossa infância de lado, deixarmos o futebol de campo e de botão, esquecermos as longas férias na fazenda e perdermos o interesse pelos bonecos de cavaleiros do zodíaco. Desde então, ando dando pouca bola ao que ficou para trás me escondendo cinicamente na presença dos amigos que há pouco surgiram e até mesmo na penumbra dos que estão por vir. Carrego certa culpa por me sentir tão capaz e, ainda assim, incapaz de racionalizar os relacionamentos como operações matemáticas: o resultado da substituição de pessoas por pessoas sempre nos lança numa equação arriscada.

quarta-feira, 29 de outubro de 2003

Vestibular

Henrique era só mais um desses meninos que escolheram biologia por acaso, que não sabiam o que fazer, escolhiam pela matéria no colégio, pelo tesão na professora, pela secreta vontade de produzirem seus próprios lolós, nem imaginavam que estavam costurando ali, a decisão fundamental que os definiria para o resto da vida. De qualquer forma, na hora de marcar um X, escolheu com convicção, passou a se interessar verdadeiramente, embarcou na botânica e não pretendia mudar de curso, não pretendia pelo simples temor em deixar de lado e não encampar nenhum outro. Bem que faria filosofia ou psicologia; terminaria em jornalismo; jamais, administração. O caso de Arlindo foi diferente. Fez jornalismo convencido de que era o que mais queria na vida, desistira da pressão da família para fazer Direito, tinha ficado numa tremenda dúvida por Letras por razões óbvias, mas ao ver a grade curricular, decidiu pelo primeiro porque tinha ao menos algumas disciplinas práticas. Daí fez também Relações Internacionais, pra ter uma certeza de curso, caso não passasse na UFPE, e porque sempre gostara de ler sobre guerras, desde àquelas bem antigas, guerra do Peloponeso, Guerras púnicas, de modo que em algum momento bateu o destempero de ser correspondente em conflitos atuais. Hoje não faz mais sentido algum. Antes de se formarem, Henrique e Arlindo pensaram: "decidir os próximos 50 anos aos 17 é foda".

segunda-feira, 20 de outubro de 2003

Recuperação

Depois do fim, acordou na segunda atropelado por um trator. Abriu os olhos cinco vezes antes de conseguir se mexer. Na terça-feira, despertou atropelado por uma bicicleta. Mexia com facilidade apenas os dedinhos dos pés. Na quarta, Alfredo pegou a bicicleta para andar.

segunda-feira, 13 de outubro de 2003

Argentina

Para os que nunca aprenderam a assobiar, todo assobio é um chamado que a primeira vista parece não poder ser respondido, tal qual os gritos de saudade que costumava dar sempre que voltava ao nosso quarto. Simulava um sussurro meu em ouvidos seus e devaneios mil. Lembrava gesto a gesto os malandros lábios disfarçados, aquele meu sentir de garoto inconformado, o velho desvencilho de olhos contra olhos que tanto nos marcou. Não lembro onde deixei a foto, mas continuo me encarando todos os dias no espelho. Vejo o suave balançar de seu vestido meio channel, as pernas bem encaixadas, a reclamação sobre o sereno; vejo o garçom tombar de bêbado com os nossos copos, nosso riso desengonçado e lembro da brisa que embalava o seu desejo eterno de inventar. O tango argentino numa boca rugosa com dentes brancos, os amigos de longe sambando como bons brasileiros que nunca sambaram e eu perdido no teu, com dois vinhos diferentes, um em cada mão, e com as palavras de Chico bem baixinhas. Você me culpa pelas flores que nunca mandei, devolvendo meu cartão de natal como um carro bomba pronto para matar quarenta e tantas pessoas numa boate chilena. Sempre gostei da forma como deixaste a canção seguir sem dor, mas nunca conseguimos lidar com o peso que empunhaste em cada um dos versos. Passaram os dias e ainda sinto vontade de sair andando devagar em busca do teu sorriso. Sou um garoto sem pressa num passo rápido, esqueço o chapéu e danço uma fina valsa sussurrando ao teu ouvido as palavras de uma música em português com um sotaque bem carregado. Pois é, meu bem, nunca gostei dessa sua mania de insistir no tango.

segunda-feira, 29 de setembro de 2003

Oremos

Seu sexo havia sido renegado desde que desistira viver fora dos muros do seminário católico, desde que decorara cada um dos salmos, provérbios, que acumulara a oratória hipócrita dos sermões, de tomar vinho e comer o sagrado pão abençoado por Deus. Sua sexualidade, entretanto, se mantinha mais ativa do que nunca: sonhava com bacanais envolvendo freiras, anjos e diabos que escorriam pelas bordas dos desenhos sacros; se masturbava para santas e relicários; assistia filmes religiosos com o tesão de um espectador pornô, honrava abstinência se inundando de culpa. Todos da sua família alertaram-no da precocidade pela sacristia, sequer tinha chegado aos trinta, as experiências reais, pêlo a pêlo, podiam ser contadas nos dedos. Enlouquecia em sua perversão dia a dia, tanto que depois de tomar todo vinho da eucaristia, se encontrava nuns dos motéis mais chinfrins da cidade - de outra cidade que não a sua. Estava disfarçado, calça jeans, camisa de botão, um colar de prata. Tinha vergonha das palavras idiotas que lia e apoiava, vergonha de ficar excitado durante a missa imaginando toda as mulheres da platéia sem calcinha - inclusive as mais velhas beatas. Despiu-se em poucos movimentos e abriu uma das malas jogadas em cima da cama, vestiu a batina, deitou-se sobre ela e se encarou profundamente pelo espelho do teto. Queria viver o outro lado que sempre esteve lá. Seu sexo havia sido renegado desde que desistira de viver fora dos muros do seminário católico que ingressara ainda jovem, sua sexualidade, no entanto, lutava permanentemente para superar tamanha abdicação. Bateram na porta uma, duas, três vezes. O padre-ex-padre fingiu não escutar.

sábado, 20 de setembro de 2003

Geração

Os hippies estão mortos. Os punks não passam de piada. A contestação parece apenas habitar as lembranças dos que viveram intensamente numa nostálgica década de sessenta ou setenta. Agora tanto faz. Ninguém está mais interessado em mudar o mundo, querem apenas trocar as roupas, retocar a maquiagem, mudar o próprio visual. Somos os filhos dos que viveram a ditadura; dos que foram torturados ou dos que fugiram para o exílio. E da forma como nos contam, parecem cheios de orgulho apesar do tom de lamento. Não vivemos nenhuma grande guerra, nenhuma grande depressão, nenhuma grande coisa. Parecemos contentes com o que há de pequeno em nossas vidas.

Fazemos parte da geração do depois, do não acontece. Somos o barco perdido num mar sem ondas, a folha seca se deteriorando sem nunca ser levada pelo vento. Vivemos reféns da impossibilidade, como se estivéssemos presos entre os fatos da história e o nosso espírito do tempo fosse justamente o de se entregar ao hiato. Fazemos parte de uma geração que sente ter nascido tarde demais e que se embriaga da sensação de que morreremos antes da hora. Talvez, para sobreviver, devamos pensar que a nossa revolução, a revolução do depois, seja a pequena revolução em nós mesmos ou nos contentar, com sorrisos colgate, que não há mais revolução alguma a ser feita.

segunda-feira, 8 de setembro de 2003

electroburros

Na parada de ônibus,
a vida passa e ele não passa.
Depois da terceira ponte,
ninguém lembra do último banho de rio.

sábado, 6 de setembro de 2003

FIRUFPE

Das últimas 48 horas, só dormi 3 e nos últimos meses tenho reclamado mais que o normal sobre cansaço, mas é que é difícil manter um resto de humor quando se passa quase oito horas dentro de uma sala de aula todos os dias escutando mais baboseiras que coisas legais. Imagino que em termos de acúmulo de atribulações, a tendência seja só piorar com a idade, estamos sempre nos enchendo com mais responsabilidades do que somos capazes, fazendo questão de acelerar a boa hora em que o corpo se cansa de vez. Costumamos chamar isso de vida com realização profissional. Bullshit. Pois é, só queria dizer que não sei como estou conseguindo levar as duas faculdades, entrei oficialmente na fase de precisar admitir isso para mim mesmo, só que se desistir agora, a indecisão ainda neblina minha cabeça, me conheço, vou me sentir culpado e ficar pensando em todas as pessoas que conseguem terminar dois cursos universitários simultaneamente sem problemas. Queria só saber onde esse perfeccionismo vai me levar. De qualquer forma, tem um lado positivo nessa rotina transbordante, afinal fico até chocado com a determinação que desenvolvi, se é que esse impulso suicida pode ser chamado de determinação.

sexta-feira, 5 de setembro de 2003

Duelo

Aos olhos verdes, e dependendo da incidência do sol, verde-escuro, verde-claro, verde-musgo, parecia tão improvável e tão lentamente os olhos expressavam o medo, o receio, até formarem as lágrimas que ele nunca teve coragem de mostrar. Logo veio o mal estar, a vontade de se ausentar, o peso mórbido diante de um maldito amigo que conhecia antes mesmo de nascer. Tão sem movimentos veio a tona a conversa de dois dias atrás, o esforço danado para se esconder, a queda-de-braço, a bituca de cigarro, a insegurança que fingiam não existir. Viram-se fugindo, se evitando e não resistindo. Como nas outras vezes, uma espécie de ira plácida dominou os seus olhos, contaminou com raiva todos os seus freios, esculpindo uma vontade de lançar o outro na parede cento e vinte vezes. Comportavam-se às vezes como dois cães raivosos se estranhando sobre a grama. Orgulhosos, negavam a manipulação para identicamente negarem o perdão, ambos usavam de seus comentários inocentes como gatilhos de armas equipadas com silenciadores, de forma que na maioria dos casos eram precisas poucas palavras. Poucas semanas foram o suficiente para que tudo estivesse montado para a famigerada separação, sem despedidas ou panos, caminhavam como cowboys em sentidos contrários e então, deixavam o queijo de lado e se abraçavam sem chorar.

terça-feira, 2 de setembro de 2003

Refúgio

Estamos dentro.
Dentro da noite escura,
dentro da selva profunda.
Dentro do medo,
dentro da dor de dentro pra fora.

Dos grandes tombos
que nasceu a vontade pela dança.
Das grandes mágoas
que surgiu a temperança.
Do sempre certo, do sempre tédio.

Do sempre sempre é que veio o suicídio.

sábado, 30 de agosto de 2003

Cotidiano

Aprendeu a encarar as mulheres desconhecidas que sentavam ao seu lado no ônibus e se punha a pensar nas inúmeras histórias fantásticas que cada uma delas poderiam guardar. Seriam capazes de convencê-lo? Imaginava seus corpos diante de qualquer besteira e suas bocas carnudas mentindo: se existia um jogo que lhe estimulava era o de decifrar, só pelo sibilar das palavras, a distância natural entre o que contamos e o que vivemos. Era uma forma de fazer o relógio girar, pois precisava parar de lamentar a perda do pouco tempo que lhe restava, do pouco tempo que permaneceria sempre sendo pouco.

sexta-feira, 29 de agosto de 2003

Pomo de Adão

Ninguém notaria qualquer mudança naquele bairro décadas antes ou depois da passagem de qualquer forasteiro. À noite, então, notaria menos ainda. O caso é que não haviam muitas testemunhas de recordação ou artistas representativos, eram raros os que se arriscavam a um passeio seguro e decadente entre as paredes de tijolos caídos, cachorros magros, indigentes, baratas e putas bêbadas com mais de cinquenta. Toda lembrança passava de cabeça para cabeça e justamente por se sentir atraído pela negação das generalidades, nosso jovem rapaz - belo rapaz para as bichas travestidas - resolvera sentar no chão, talvez bêbado, talvez não, se encostando a um poste cuja lâmpada velha falhava a cada dois minutos cronometrados. Seus cabelos eram tão curtos quanto os dos soldados recém recrutados para a Guerra, se um segundo andarilho se aproximasse na penumbra, notaria em primeiro lugar os brilhantes olhos vermelhos, olhos inumanos, comuns aos jovens abandonados pelos amores que fugiam daquela região. No entanto, tratava-se de olhos de quem não era dali, não daquela rua, nem daquele lugar, até mesmo do país, olhos de assassino, olhos de gato, um sorriso discreto de solidão. Acostumado a também não respeitar coisa alguma, o rapaz não durou muito sentado, olhou com certo rancor para toda decrepitude a sua volta na desesperança de encontrar um de seus convivas: tinha se dado conta dos sinais, sinais não semióticos, da forte tempestade que vinha acometendo todo aquele vilarejo nos últimos dias. Pegou sua jaqueta da moda, acendeu um cigarro de rolo barato e inundado de filáucia entrou no beco escuro onde garotos se passavam por homens.

Pietro era um daqueles típicos personagens de filme de espião, sem o glamour das armas, carros e mulheres de um 007, talvez estivesse mais para um pastiche da madrugada, capengando como um trôpego de Bukowski sem talento algum para proteger a rainha: estava ali só para matar um comunista, um desses intelectuais chatos que reclamam de tudo, adoram a miséria e gostam de escrever poesia. Mesmo com passos milimetricamente coordenados e curtos, não demorou muito para que estivesse em pé, ainda com seu cigarro, em frente ao bar boêmio célebre por suas reuniões subversivas. O lugar, contudo, estava vazio, tudo um pouco revirado, mesas, cadeiras, cacos de vidro por todos os lados, algumas paredes marcavam os quadros roubados, apenas um espelho se mantinha intacto. Uma mulher sentada com a perna quebrada não parava de gritar adensando a insalubridade da região: só não conseguia entender porque teria sido contratado para matar alguém numa bodega que iminentemente seria destruída. Pretendia tomar até duas cervejas antes do serviço. Não seria daquela vez. Parado, não se olhando no espelho, contemplando a dor da mulher machucada, relevando que ao menos já estava com metade do dinheiro, escutou um barulho nas suas costas, levou um susto por não estar acostumado a ser surpreendido. Virou devagar, quase em reconhecimento, e se deparou com um garoto sentado no chão, murmurando algum dialeto, encostado em um poste com um isqueiro em suas mãos em permanente faísca. Pietro reconheceu instantaneamente a sua vítima. Colocou a mão na arma guardada na calça, decidiu pelo pescoço e hesitou: não por matar de forma desleal sem dar possibilidade de defesa, não por sequer dar a entender que estava atacando. Isso era inteiramente comum no antro dos caçadores. Não o faria pelo arranjo arbitrário das pernas na calçada que lhe deu uma estranha vontade de comer mostarda. Pietro nunca mataria alguém que sentasse de forma idêntica a sua. Não sem primeiro fazer um ritual.

Terminou colocando as mãos dentro da jaqueta, se aproximou e ofereceu um cigarro. A voz de Pietro não fez o outro rapaz, Fabrício era o nome que tinham lhe dito, esboçar uma mínima reação. Insistiu. Fabrício pegou cigarro e o acendeu com seu próprio isqueiro. Pietro sentou ao seu lado e os dois ficaram sem dizer uma única palavra. A fina chuva tornava-se mais forte todavia nenhum dos dois pareciam se preocupar: olhos vermelhos diante de olhos vermelhos saberiam sempre se reconhecer. Foi pelo silêncio que começaram a se respeitar. Ficaram olhando o raro movimento das ruas: alguns carros de senhores bem vestidos contratando putas, dois imigrantes gritando ao longe alguma língua deplorável, a mulher de perna quebrada perdendo a voz de tanto gritar. Fabrício se levantou, foi até as ruínas do bar, Pietro hesitou novamente, relaxando em seguida ao ver o rapaz voltar com duas garrafas de vinho abertas. Não sabiam bem como tinham sido contaminados, conversavam sobre o passado, ambos desconheciam o momento da transição. Fabrício era o que Pietro considerava intelectual de esquerda, aquele que quis se reprimir individualmente para tentar viver coletivamente e Pietro era para Fabrício um rebelde sem causa, sem rumo, não se apegava a ideologia de época alguma, um matador de terceira que trocava qualquer coisa por sangue de suas vítimas. No final das contas, nem sentavam de maneira tão parecidas assim. Terminaram os vinhos, se levantaram, cumprimentaram-se pelos olhos e seguiram caminhos opostos. Pietro não completou dois de seus milimétricos passos, virou e atirou três vezes. Ainda que vampiro, não deixaria aquele pomo de adão escapar.

terça-feira, 26 de agosto de 2003

The End

Quando penso nas pessoas que não cortei pela raiz no início do encantamento, que deixei mais que as raízes fossem o mais profundo possível, expandindo a relação para além da fronteira do dizível, pessoas cujos galhos, flores e gravidade floresceram aos meus olhos até se tornarem a árvore mais bonita, preciso dizer que quando for necessário me despedir, sendo naturalmente uma despedida daquelas que não podem ser desfeitas e daquelas que titubeamos vinte nove vezes antes de decidir firmemente, às vezes nem decidimos, gostaria que não houvesse peso, mas beleza, que as pessoas não sentissem falta, eu sou assim, e levassem consigo as palavras a seguir:

This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end
Of our elaborate plans, the end
Of everything that stands, the end
No safety or surprise, the end
I'll never look into your eyes...again
Can you picture what will be
So limitless and free
Desperately in need...of some...stranger's hand
In a...desperate land ?
...
This is the end, Beautiful friend
This is the end, My only friend, the end
It hurts to set you free
But you'll never follow me
The end of laughter and soft lies
The end of nights we tried to die
This is the end

sábado, 23 de agosto de 2003

Sonho

“Sophia Loren, o que fazes aqui nesse baile mantendo essa face tão nova? Dentro deste vestido estás formosa como nunca antes te vi. Por que crias essa neblina em volta de teu pescoço? A quem queres seduzir, senão ao meu pai, que sequer consigo imaginar por aqui? Fumaça, jóias e palavras; as suas estão acima de todas as outras e não há como competir. Você é a mais charmosa das senhoras e é por você que todos estão aqui.”

“O que fazes aqui, meu filho querido? Esse tempo não é seu e aqui, nesse baile, ainda nem conheço o seu pai que está muito longe de ser um Marcelo Mastroianni. Apaixonarei-me mais tarde pelo coração dele, mas aprenderei que isso não será o bastante em minha vida e por isso sempre esconderei um olhar triste em meu parecer. Voltas para a tua vida de anos mais tarde. Voltas e vê o tempo em minha face. Voltas para olhar a tua mãe sem más palavras. Esqueces do que vistes aqui, pois isto não passa de um sonho seu invadindo uma lembrança minha. Este é um passado que não vive em nenhuma foto e que não encontrarás em parte alguma de minha memória.”

“Volto como mandas, mas me agracie com um beijo antes disso. Nunca pensei em te ver assim. Eras antes de dormir apenas a minha mãe.”

“Voltas e me abraças lá como nunca antes fizeste, pois é lá que sou a tua mãe e disso não te esqueças em nenhum momento. Aqui, para você, não passo de uma estranha.”

sábado, 12 de julho de 2003

Minotauro

Para não submergir na melancolia, cartografar a alma de labirinto.

sexta-feira, 11 de julho de 2003

quinta-feira, 19 de junho de 2003

Fusão

Isso sem cores que acontece entre olhos é o tempo que nos afasta e a inspiração que me atrai.

segunda-feira, 16 de junho de 2003

Vagabundos

A falta de um convite, a falta de sono, os cigarros desgarrados e as marcas no colchão fizeram o sol se confundir com a lua, fizeram a elucidação do colírio uma saída de loucura; fizeram a poética renascer no âmago de dois olhos cegos. O abraço desprendido, o olhar curioso, o catarro nervoso que deixou escapar pelo seu rosto tornaram a pose um delubro; o passado, um escombro; fizeram os garotos porem o dedo na tomada e sentirem o choque com prazer nos lábios. O relógio fora de tempo, as horas que não passavam, as tramas que não vingaram fizeram da noite um arrastado de britas; do desejo uma culpa gigante; fizeram a violência crescer e crescer e crescer durante toda fuga. A coragem estendida, o frio na garganta e o frio na barriga, as palavras e o fim ríspido num contido silêncio fizeram do seu sorriso, uma boca sem dentes; fizeram com que aqueles dois garotos vulgares caíssem novamente com a face esgotada sobre chão.

quinta-feira, 5 de junho de 2003

Meng Po

Um dia ela acordou como se desconhecesse o homem com quem dormia, como se não lembrasse do parco vestido branco e da fracassada noite de núpcias, olhou as tulipas amarelas de plástico e ignorou a antiga presença dos convidados anônimos e de seus punhados de arroz. Acordou e esqueceu de passar a roupa dele, não fez cuscuz com ovo como suas tias tinham lhe ordenado, tomou sozinha um chá de carqueja, olhou as cuecas no balde - algumas com o fundo bem sujo de merda - e mergulhou em sua antiga rotina. Costumava beijar seus amigos na boca e na testa, tomava banho de açude nas quintas e bebia todos os copos nos finais de semana, misturava cachaça, cerveja, homem, pó, maconha e gaia, passava o domingo esperando o cheiroso almoço de sua mãe, na segunda terminava o sudário da recuperação e na terça adentrava a vidinha saudável, fazia natação e jantava granola com iogurte de laranja com cenoura. A pequena e negra Camila era uma dessas garotas que viviam atrapalhadas com a solidão, tinha uma aliança no dedo e apenas planejava desistir da conformação, de maneira que na fila do supermercado, fazendo a segunda feira do mês sem batatinhas - estava de regime - ignorou os preços abusivos, as marcas repetidas, despertando apenas quando dois garotos atrás dela na fila não paravam de empurrar um ao outro: "onde tu cortou esse teu cabelo não tinha pra homem, não?". Os dois riam, riam e riam, enquanto ela pagava a conta com o cartão do marido. Antes de voltar de bicicleta, tomou um chá de erva doce num quiosque pobretão, observou as famílias saindo pela porta, descendo a ladeira, felizes com seus carrinhos inundados de compras e lembrou de uma palavra que aprendeu com sua avó: perdulário. "Que ou o que despreza seus interesses. Gastador, dissipador". Chegando em casa, fez um bolo, desistiu da cobertura de limão, tomou um chá de hortelã, arrumou a mala do rapaz com quem tinha casado e que sequer lembrava o nome, ele não tinha aparecido depois do expediente, era uma sexta, devia ser normal e ela resolveu passar a noite escrevendo num diário como há anos não fazia. Entre um chá e outro, talvez nunca tivesse feito. Quando o dia já ia amanhecendo, escreveu sua última frase, desejando que o mundo sucumbisse ao apocalipse zumbi "só para sobrar mais chocolate para mim". Tomou seu último chá dos cinco sabores, um chá forte de camomila adoçado com mel, e acordou às seis com a casa absolutamente vazia. Botou um biquini e foi nadar.

domingo, 1 de junho de 2003

Mensagem Subliminar











Matrix (EUA / Austrália, 1999), de Larry e Andy Wachowski