sábado, 30 de agosto de 2003

Cotidiano

Aprendeu a encarar as mulheres desconhecidas que sentavam ao seu lado no ônibus e se punha a pensar nas inúmeras histórias fantásticas que cada uma delas poderiam guardar. Seriam capazes de convencê-lo? Imaginava seus corpos diante de qualquer besteira e suas bocas carnudas mentindo: se existia um jogo que lhe estimulava era o de decifrar, só pelo sibilar das palavras, a distância natural entre o que contamos e o que vivemos. Era uma forma de fazer o relógio girar, pois precisava parar de lamentar a perda do pouco tempo que lhe restava, do pouco tempo que permaneceria sempre sendo pouco.

sexta-feira, 29 de agosto de 2003

Pomo de Adão

Ninguém notaria qualquer mudança naquele bairro décadas antes ou depois da passagem de qualquer forasteiro. À noite, então, notaria menos ainda. O caso é que não haviam muitas testemunhas de recordação ou artistas representativos, eram raros os que se arriscavam a um passeio seguro e decadente entre as paredes de tijolos caídos, cachorros magros, indigentes, baratas e putas bêbadas com mais de cinquenta. Toda lembrança passava de cabeça para cabeça e justamente por se sentir atraído pela negação das generalidades, nosso jovem rapaz - belo rapaz para as bichas travestidas - resolvera sentar no chão, talvez bêbado, talvez não, se encostando a um poste cuja lâmpada velha falhava a cada dois minutos cronometrados. Seus cabelos eram tão curtos quanto os dos soldados recém recrutados para a Guerra, se um segundo andarilho se aproximasse na penumbra, notaria em primeiro lugar os brilhantes olhos vermelhos, olhos inumanos, comuns aos jovens abandonados pelos amores que fugiam daquela região. No entanto, tratava-se de olhos de quem não era dali, não daquela rua, nem daquele lugar, até mesmo do país, olhos de assassino, olhos de gato, um sorriso discreto de solidão. Acostumado a também não respeitar coisa alguma, o rapaz não durou muito sentado, olhou com certo rancor para toda decrepitude a sua volta na desesperança de encontrar um de seus convivas: tinha se dado conta dos sinais, sinais não semióticos, da forte tempestade que vinha acometendo todo aquele vilarejo nos últimos dias. Pegou sua jaqueta da moda, acendeu um cigarro de rolo barato e inundado de filáucia entrou no beco escuro onde garotos se passavam por homens.

Pietro era um daqueles típicos personagens de filme de espião, sem o glamour das armas, carros e mulheres de um 007, talvez estivesse mais para um pastiche da madrugada, capengando como um trôpego de Bukowski sem talento algum para proteger a rainha: estava ali só para matar um comunista, um desses intelectuais chatos que reclamam de tudo, adoram a miséria e gostam de escrever poesia. Mesmo com passos milimetricamente coordenados e curtos, não demorou muito para que estivesse em pé, ainda com seu cigarro, em frente ao bar boêmio célebre por suas reuniões subversivas. O lugar, contudo, estava vazio, tudo um pouco revirado, mesas, cadeiras, cacos de vidro por todos os lados, algumas paredes marcavam os quadros roubados, apenas um espelho se mantinha intacto. Uma mulher sentada com a perna quebrada não parava de gritar adensando a insalubridade da região: só não conseguia entender porque teria sido contratado para matar alguém numa bodega que iminentemente seria destruída. Pretendia tomar até duas cervejas antes do serviço. Não seria daquela vez. Parado, não se olhando no espelho, contemplando a dor da mulher machucada, relevando que ao menos já estava com metade do dinheiro, escutou um barulho nas suas costas, levou um susto por não estar acostumado a ser surpreendido. Virou devagar, quase em reconhecimento, e se deparou com um garoto sentado no chão, murmurando algum dialeto, encostado em um poste com um isqueiro em suas mãos em permanente faísca. Pietro reconheceu instantaneamente a sua vítima. Colocou a mão na arma guardada na calça, decidiu pelo pescoço e hesitou: não por matar de forma desleal sem dar possibilidade de defesa, não por sequer dar a entender que estava atacando. Isso era inteiramente comum no antro dos caçadores. Não o faria pelo arranjo arbitrário das pernas na calçada que lhe deu uma estranha vontade de comer mostarda. Pietro nunca mataria alguém que sentasse de forma idêntica a sua. Não sem primeiro fazer um ritual.

Terminou colocando as mãos dentro da jaqueta, se aproximou e ofereceu um cigarro. A voz de Pietro não fez o outro rapaz, Fabrício era o nome que tinham lhe dito, esboçar uma mínima reação. Insistiu. Fabrício pegou cigarro e o acendeu com seu próprio isqueiro. Pietro sentou ao seu lado e os dois ficaram sem dizer uma única palavra. A fina chuva tornava-se mais forte todavia nenhum dos dois pareciam se preocupar: olhos vermelhos diante de olhos vermelhos saberiam sempre se reconhecer. Foi pelo silêncio que começaram a se respeitar. Ficaram olhando o raro movimento das ruas: alguns carros de senhores bem vestidos contratando putas, dois imigrantes gritando ao longe alguma língua deplorável, a mulher de perna quebrada perdendo a voz de tanto gritar. Fabrício se levantou, foi até as ruínas do bar, Pietro hesitou novamente, relaxando em seguida ao ver o rapaz voltar com duas garrafas de vinho abertas. Não sabiam bem como tinham sido contaminados, conversavam sobre o passado, ambos desconheciam o momento da transição. Fabrício era o que Pietro considerava intelectual de esquerda, aquele que quis se reprimir individualmente para tentar viver coletivamente e Pietro era para Fabrício um rebelde sem causa, sem rumo, não se apegava a ideologia de época alguma, um matador de terceira que trocava qualquer coisa por sangue de suas vítimas. No final das contas, nem sentavam de maneira tão parecidas assim. Terminaram os vinhos, se levantaram, cumprimentaram-se pelos olhos e seguiram caminhos opostos. Pietro não completou dois de seus milimétricos passos, virou e atirou três vezes. Ainda que vampiro, não deixaria aquele pomo de adão escapar.

terça-feira, 26 de agosto de 2003

The End

Quando penso nas pessoas que não cortei pela raiz no início do encantamento, que deixei mais que as raízes fossem o mais profundo possível, expandindo a relação para além da fronteira do dizível, pessoas cujos galhos, flores e gravidade floresceram aos meus olhos até se tornarem a árvore mais bonita, preciso dizer que quando for necessário me despedir, sendo naturalmente uma despedida daquelas que não podem ser desfeitas e daquelas que titubeamos vinte nove vezes antes de decidir firmemente, às vezes nem decidimos, gostaria que não houvesse peso, mas beleza, que as pessoas não sentissem falta, eu sou assim, e levassem consigo as palavras a seguir:

This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end
Of our elaborate plans, the end
Of everything that stands, the end
No safety or surprise, the end
I'll never look into your eyes...again
Can you picture what will be
So limitless and free
Desperately in need...of some...stranger's hand
In a...desperate land ?
...
This is the end, Beautiful friend
This is the end, My only friend, the end
It hurts to set you free
But you'll never follow me
The end of laughter and soft lies
The end of nights we tried to die
This is the end

sábado, 23 de agosto de 2003

Sonho

“Sophia Loren, o que fazes aqui nesse baile mantendo essa face tão nova? Dentro deste vestido estás formosa como nunca antes te vi. Por que crias essa neblina em volta de teu pescoço? A quem queres seduzir, senão ao meu pai, que sequer consigo imaginar por aqui? Fumaça, jóias e palavras; as suas estão acima de todas as outras e não há como competir. Você é a mais charmosa das senhoras e é por você que todos estão aqui.”

“O que fazes aqui, meu filho querido? Esse tempo não é seu e aqui, nesse baile, ainda nem conheço o seu pai que está muito longe de ser um Marcelo Mastroianni. Apaixonarei-me mais tarde pelo coração dele, mas aprenderei que isso não será o bastante em minha vida e por isso sempre esconderei um olhar triste em meu parecer. Voltas para a tua vida de anos mais tarde. Voltas e vê o tempo em minha face. Voltas para olhar a tua mãe sem más palavras. Esqueces do que vistes aqui, pois isto não passa de um sonho seu invadindo uma lembrança minha. Este é um passado que não vive em nenhuma foto e que não encontrarás em parte alguma de minha memória.”

“Volto como mandas, mas me agracie com um beijo antes disso. Nunca pensei em te ver assim. Eras antes de dormir apenas a minha mãe.”

“Voltas e me abraças lá como nunca antes fizeste, pois é lá que sou a tua mãe e disso não te esqueças em nenhum momento. Aqui, para você, não passo de uma estranha.”

sábado, 12 de julho de 2003

Minotauro

Para não submergir na melancolia, cartografar a alma de labirinto.

sexta-feira, 11 de julho de 2003

quinta-feira, 19 de junho de 2003

Fusão

Isso sem cores que acontece entre olhos é o tempo que nos afasta e a inspiração que me atrai.

segunda-feira, 16 de junho de 2003

Vagabundos

A falta de um convite, a falta de sono, os cigarros desgarrados e as marcas no colchão fizeram o sol se confundir com a lua, fizeram a elucidação do colírio uma saída de loucura; fizeram a poética renascer no âmago de dois olhos cegos. O abraço desprendido, o olhar curioso, o catarro nervoso que deixou escapar pelo seu rosto tornaram a pose um delubro; o passado, um escombro; fizeram os garotos porem o dedo na tomada e sentirem o choque com prazer nos lábios. O relógio fora de tempo, as horas que não passavam, as tramas que não vingaram fizeram da noite um arrastado de britas; do desejo uma culpa gigante; fizeram a violência crescer e crescer e crescer durante toda fuga. A coragem estendida, o frio na garganta e o frio na barriga, as palavras e o fim ríspido num contido silêncio fizeram do seu sorriso, uma boca sem dentes; fizeram com que aqueles dois garotos vulgares caíssem novamente com a face esgotada sobre chão.

quinta-feira, 5 de junho de 2003

Meng Po

Um dia ela acordou como se desconhecesse o homem com quem dormia, como se não lembrasse do parco vestido branco e da fracassada noite de núpcias, olhou as tulipas amarelas de plástico e ignorou a antiga presença dos convidados anônimos e de seus punhados de arroz. Acordou e esqueceu de passar a roupa dele, não fez cuscuz com ovo como suas tias tinham lhe ordenado, tomou sozinha um chá de carqueja, olhou as cuecas no balde - algumas com o fundo bem sujo de merda - e mergulhou em sua antiga rotina. Costumava beijar seus amigos na boca e na testa, tomava banho de açude nas quintas e bebia todos os copos nos finais de semana, misturava cachaça, cerveja, homem, pó, maconha e gaia, passava o domingo esperando o cheiroso almoço de sua mãe, na segunda terminava o sudário da recuperação e na terça adentrava a vidinha saudável, fazia natação e jantava granola com iogurte de laranja com cenoura. A pequena e negra Camila era uma dessas garotas que viviam atrapalhadas com a solidão, tinha uma aliança no dedo e apenas planejava desistir da conformação, de maneira que na fila do supermercado, fazendo a segunda feira do mês sem batatinhas - estava de regime - ignorou os preços abusivos, as marcas repetidas, despertando apenas quando dois garotos atrás dela na fila não paravam de empurrar um ao outro: "onde tu cortou esse teu cabelo não tinha pra homem, não?". Os dois riam, riam e riam, enquanto ela pagava a conta com o cartão do marido. Antes de voltar de bicicleta, tomou um chá de erva doce num quiosque pobretão, observou as famílias saindo pela porta, descendo a ladeira, felizes com seus carrinhos inundados de compras e lembrou de uma palavra que aprendeu com sua avó: perdulário. "Que ou o que despreza seus interesses. Gastador, dissipador". Chegando em casa, fez um bolo, desistiu da cobertura de limão, tomou um chá de hortelã, arrumou a mala do rapaz com quem tinha casado e que sequer lembrava o nome, ele não tinha aparecido depois do expediente, era uma sexta, devia ser normal e ela resolveu passar a noite escrevendo num diário como há anos não fazia. Entre um chá e outro, talvez nunca tivesse feito. Quando o dia já ia amanhecendo, escreveu sua última frase, desejando que o mundo sucumbisse ao apocalipse zumbi "só para sobrar mais chocolate para mim". Tomou seu último chá dos cinco sabores, um chá forte de camomila adoçado com mel, e acordou às seis com a casa absolutamente vazia. Botou um biquini e foi nadar.

domingo, 1 de junho de 2003

Mensagem Subliminar











Matrix (EUA / Austrália, 1999), de Larry e Andy Wachowski

sexta-feira, 30 de maio de 2003

Barbie

Não era meio-dia, não tinha acordado de ressaca, não precisaria roubar absorventes da sua cunhada. Ainda assim, levantou um pouco zonza da cama, viu por uma persiana que a empregada da casa de seu namorado-quase noivo estava perto de terminar o almoço e caminhou descalça para alimentar os hamsters e trocar a água. Passaram trinta minutos no rádio-relógio, para que ela, depois de fumar seu segundo cigarro na varanda e olhar todas aquelas casas condenadas, depois de guardar no cesto duas ou três roupas dele espalhadas pela sala, depois de escutar a canção-tema do Globo Espetacular, pa-pa-pa-pa pa-pa-pa, precisou admitir que não era mais capaz de conduzi-lo até onde ela queria chegar, que mesmo que desejasse muito, quisesse muito, sonhasse muito, simplesmente não conseguiria reverter a mortificação dos corpos. Tinha cansado das tangentes viciosas, não aguentava mais comparar o que tinha sido com o que estava sendo, os olhares daquela terça e os olhares de ontem, de tal modo que, num ímpeto de felicidade e confusão, num ímpeto de força que quase a deixou ser ar, se tornou uma dessas mulheres que cada vez mais estão preparadas não apenas para o fim como para dez mil passos além.

quinta-feira, 29 de maio de 2003

Lojas Americanas

Fiquei sabendo há poucas horas de uma história engraçadinha e ordinária que aconteceu com uma amiga minha. Ok, pra ela deve ter sido super foda, mas como estou aqui pra rir da desgraça alheia, vou adentrar pelo lado humorístico da coisa. Essa minha amiga costumava pegar coisas nas Lojas Americanas e não pagar, geralmente material escolar, tipo folhas de fichário, caneta, lápis, borracha, corretivo. Acontece que na sua última investida, ela foi pega pelos seguranças da loja e isso ocorreu justamente quando, mais ousada, tinha decidido fazer seu primeiro roubo de médio porte. Pois é, tava fazendo a feira escolar. Não sei bem como foi a abordagem inicial, se foi algo escandaloso presa-em-nome-da-lei-pessoas-correndo ou algo na linha serviço-secreto-tudo-silencioso-e-discreto, só sei que a levaram para uma sala, fico imaginando aquelas salas vazias com uma cadeira no centro, e deixaram ela lá esperando os seus pais chegarem. Passados uns vinte minutos, o segurança voltou e não fez o esperado e clichê terror psicológico, pelo contrário, avisou de antemão que ela não ia descer para o "bom pastor" porque era 'dimenor', nem que ia parar na DPCA porque não tinha cara de 'alma sebosa'. Daí chega o pai, pensa logo que alguém havia servido de cúmplice ou mentor até a própria, queridinha-xixuxa, afirmar que estava 'agindo sozinha'. Putz, eu pagava pra escutá-la dizendo isso. Obviamente depois de tudo resolvido, seus pais tiveram uma longa conversa, perguntaram se estava com algum problema, se queria ajuda médica, se estava fumando maconha, o básico de sempre na tentativa de entender o que tinha levado sua filhinha-queridinha-xixuxa a fazer aquilo. Claro que a garota se fez de vítima pra sair na boa. Ficou acertado que ela não seria punida porque claramente estava passando por um momento delicado e que este fato se manteria escondido do resto da família. Bem típico da classe média. Só sei que no mesmo dia ela me disse que foi para o bigode jogar dominó e se a bem conheço, beber vinho carreteiro. Eita, quase ia esquecendo de um detalhe importante: claro que quando o pai dela chegou na loja, a primeira coisa que ele pediu para ver foi a fita do sistema de segurança, daí alertaram que se ele visse a fita, a famigerada fita, o caso seria levado ao tribunal. Pelo que consta, rolou ainda um momento moral-da-história-em-forma-de-ameaça por parte de algum responsável da loja, dizendo que se ela se envolvesse em outra empreitada dessa em qualquer uma das Lojas Americanas, não ia ter boquinha, ia direto para a DPCA. Se eu estivesse por lá não deixaria de lembrar que ela completa 18 anos no final do próximo mês. De qualquer forma, tenho que admitir que adoro mesmo meus amigos por me nutrirem de furadas tão legais e originais: a cereja do bolo é o simples fato de que essa amiga, toda certinha, era uma das quais eu achava impossível passar por uma dessa. Ainda bem que as pessoas mudam. Só assim para nos surpreenderem.

segunda-feira, 19 de maio de 2003

Óptica

Olhos de vidro, de espelho quebrado, de rosto ferido: os vesgos olhos estão fechados nesse vivo corpo de eterna cegueira.

quinta-feira, 15 de maio de 2003

Utopias

"A vida deveria ser de trás para frente. Nós deveríamos morrer primeiro, se livrar logo disso. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante para puder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, faz festas e se prepara pra faculdade. Você vai para o colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta para o útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando e termina tudo com um ótimo orgasmo!!!"

(Supostamente) Charles Chaplin

sábado, 10 de maio de 2003

:

Conto os dias nos dedos, faço risquinhos nas paredes, guardo as unhas dos pés.

domingo, 4 de maio de 2003

Cerveja

Aí deu uma vontade louca de tomar cerveja, daquelas que você fica feliz só pela vontade, liguei para minha companheira oficial de cachaça ltda e ela recusou toda braba porque tinha que fazer brigadeiro. Fiquei meio desolado, estava ali pela Rosa e Silva, não sabia bem onde passava meu ônibus, então decidi seguir uma rua qualquer e andar sem lenço e com documento no começo da noite. É sempre bom fazer um passeio de reconhecimento nos bairros que você pouco frequenta. Daí quando cheguei na parada de ônibus, numa praça bem bonita cheia de eucaliptos, fui perguntar sobre o riodoce/cdu a uma senhora que ali se encontrava. Meu irmão, posso até não ganhar no bingo ou no pernambuco da sorte, mas é incrível como as pessoas se abrem comigo sem motivo aparente até porque, pra começo de história, estou muito longe de ser a barraca da simpatia. Então, a senhora começou a dizer todos os ônibus que passavam por lá, um por um, qual demorava mais, qual demorava menos, depois explicou que a parada tinha mudado de lugar, explicou o motivo, reclamou porque não concordava com o motivo, disse que morava não sei onde depois de San Martin, que passava mais de uma hora dentro do coletivo e que nem sempre os jovens ofereciam o lugar para ela sentar. A bichinha falou tanto em tão pouco tempo, tão exasperada, que quase a convidei pra tomar uma cerveja comigo, se fosse mais jovem até rolava, mas logo depois fiquei intrigado, pensando nas pessoas que falam muito com estranhos, tomado pela sensação de que isso acontece, para além das que são naturalmente gralhas e grilos, por ser a primeira vez no dia que elas estão, de fato, conversando com alguém. Bateu a culpa melancólica e terminei dando a maior bola pro papo da senhora, ela era bem solícita pra falar a verdade, tanto que fez questão de me avisar quando meu ônibus apareceu, mesmo que eu já o tivesse visto bem antes, e fez questão de dar parada i-n-s-i-s-t-e-n-t-e-m-e-n-t-e. Subi no coletivo, lotado, normal e quando estou pegando meu passe-fácil, sinto uma mão segurando meu braço com força e tremelique. Olho desconfiado achando ser alguém conhecido e dou de cara com uma mulher que nunca vi mais gorda, daí faço uma expressão de dúvida e ela solta: 'desculpa, achei que você fosse cair'. Sem dúvida tava chapada, não porque ficou a viagem toda traseirando e falando besteiras sem sentido, mas pelo simples fato de que senti o bom cheiro da erva maldita quando passei por perto. Talvez isso tenha contribuído para que eu ficasse a caxangá inteira visualizando uma cerveja, de tal modo que, desci duas paradas antes só pra dar um pulo num lugar onde sempre tem conhecidos dando bobeira. Ontem não tinha uma alma sequer e beber sozinho é fim de carreira demais até mesmo para mim. Cheguei em casa todo cabisbaixo, finalmente tinha admitido a completa derrota, liguei o computador pronto pra reclamar da vida com alguém no msn, quando eis que minha mãe entrou sorrateira no meu quarto e perguntou pela primeira vez desde que me entendo por gente: "Rodrigo, quer uma cerveja? Comprei algumas...". Você nega o quanto pode, faz a adolescência valer até o último minuto, mas tem coisas que só a sua mãe pode fazer por você.

sexta-feira, 2 de maio de 2003

Chatolino

Daí chegam os dias de chuva na cidade, me deixo guiar pela preguiça mórbida, bate aquela vontade de ficar em casa, sentir o frio que só rola no meu bairro, adentrar no transe que o som de água caindo proporciona e tudo se encaminha perfeitamente para o fluir completo da mazela humana. Parece-me tão dentro dos conformes ter seus dias de vegetal, que não consigo entender a motivação das pessoas que grudam suas mãos ao telefone e não entendem o princípio básico dos que desertaram da matilha: chamam pra ir ao cinema, digo que não, ligam de novo pra saber o que estou fazendo, digo que nada, ligam pra assistir filme na casa de não sei quem, mando se fuder. Pronto, mal-estar criado, só tenho a agradecer pelos convites, liguem sempre, mas por favor não insistam. Gostaria até de desenhar minha lógica e sei que se o fizesse direitinho, terminariam compreendendo. De qualquer modo, basta correlacionar 'tenho mais o que fazer' e 'não tenho o que fazer' e fingir que ambas as orações adquiriram o mesmo significado.

sexta-feira, 25 de abril de 2003

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Devo rasgar apenas uma foto, mas se preciso toco fogo no baú inteiro.

sábado, 12 de abril de 2003

Pérfido

Foi das poças de lama que tiraste as folhas secas
E reviveste de fulgor o fio de tua ira.
Foi da noite, nunca esqueças,
Que nascera o mais belo dos teus filhos.
Foi do seio de uma loba
Que rasgaste o véu que encobria a tua face.

Não cansas de fluir o tango que carrega em mãos
E os corpos que se esvaem em mil.

quinta-feira, 10 de abril de 2003

Harry

Dois sonhos arruinados e oito notas perdidas.

terça-feira, 18 de março de 2003

Mexericos

diante das janelas,
sem vista,
contínuas,

olhando nuvens,
sem chuva,
antigas,

imagino um lago,
imagino um rio,
imagino um mar, 
sem peixes,
macios.

nego calçadas,
sem cadeiras
e sem fofoca.

nego a praça,
sem conversa,
sororoca.

as ruas,
as pontes,
as linhas,
sem pessoas,
estão mortas.

e o pior: ninguém quis pular corda

terça-feira, 4 de março de 2003

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Nunca neguei o prazer de inventar mistérios só para depois destruí-los.

(e não desvendá-los).