sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Mãe (Coréia do Sul, 2009), de Joon-ho Bong













































































sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Um novo olhar para o cinema

Fonte: Programa / Folha de Pernambuco / Cinema Escrito

Conheça os novos jovens turcos do Recife

LUIZ JOAQUIM

Você sabe quem é Apichatpong Weerasethakul? E Raoul Walsh? ou ainda Elem Klimov? Não? Qualquer um desses aí na foto acima não apenas sabe como pode conversar horas sobre a obra destes e de outros cineastas. Em grupo ou individualmente, eles vêm atuando como uma nova geração de pensadores de cinema no Recife, gerando boas reflexões pela prática da crítica cinematográfica, seja por blog, sites ou ainda pelo jornal impresso.

Assim como Marcelo Gomes, Paulo Caldas, Adelina Pontual e Cláudio Assis e outras figuras que eram apenas promessas nos anos 1980, quando participavam do Cineclube Jurando Vingar, onde hoje funciona o Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, uma parte do grupo na foto também pode figurar no futuro como um nome importante do audiovisual pernambucano. Alguns deles atuam no Cineclube Dissenso (curiosamente também no Cinema da Fundação). Um cineclube que, na verdade, nasceu das reuniões do grupo para discutir pautas críticas para seu blog (http://dissenso.wordpress.com).

"Fui convidando algumas pessoas em que acreditava para colaborar com o blog. Para estimular a ida às reuniões, definimos que a cada encontro alguém levaria um filme. Era sempre uma sessão surpresa, isso em 2008. Em maio de 2009 os horários disponíveis na UFPE foram complicando e passamos a nos encontrar na Fundaj, todo sábado às 14h", conta o jornalista Rodrigo Almeida, de 24 anos.

Ele é uma espécie de centralizador e também lançador do grupo Dissenso. Rodrigo leva tão a serio sua criação que a transformou em trabalho de conclusão do curso de jornalismo e ainda a utiliza como estudo de campo para sua dissertação de mestrado na UFPE, que deve defender em março próximo.

Entre as "pessoas em que acreditava" estavam os estudantes de jornalismo Hermano Callou, 20, Luís Fernando Moura, 21, - hoje estagiário de cultura do Jornal do Commercio -, e André Antônio, 21, - estagiário da produtora Símio Filmes. Nos três, o gosto pelo cinema vem desde a pré-adolescência. "Naquela época eu já escrevia sobre cinema, mas não na forma estruturada de uma crítica. A opção por estudar jornalismo passou por essa minha prática", recorda Callou.

André, que conheceu os colegas em uma oficina de linguagem e estética cinematográfica, conta que a experiência na Símio está lhe abrindo novos horizontes para a montagem cinematográfica: "Adoro pensar e escrever sobre cinema". Já Luís Fernando, apenas tem certeza que seu oficio tem a ver com filmes. "O que me atraiu nesse campo foi a possibilidade de produzir, mas terminei por me apaixonar pela reflexão sobre o cinema. É uma atividade que penso em investir, não sei ainda se pela ótica da realização ou da reflexão, acadêmica ou não", pondera.

Ainda no Dissenso - cujo site deve sofrer, em breve, atualização no design - participam, num grupo fixo, Paulo Faltay, Pedro Neves, Fernando Mendonça e Thiago Correia. Além destes, os encontros do Dissenso atrai outros jovens escritores de cinema no Recife, um deles é Hugo Viana, 25, estagiário de cultura desta Folha de Pernambuco, que também já realizou algumas oficinas de cinema, entre elas a de crítica promovida pelo Janela Internacional de Cinema. Ele define a experiência como um "ponto de virada" em sua iniciante carreira.

"No Janela conheci pessoas com visões diferentes da minha, o que só enriqueceu meu repertório. Antes analisava filmes de forma bem metódica. No curso me deparei com a urgência do tempo e o volume grande de filmes para analisar. O mesmo acontece no jornal quando me vejo obrigado a escrever sobre um filme que não gosto e daí percebo novos aspectos sobre o cinema e sobre mim mesmo", conta. Desejoso em ampliar seu conhecimento teórico, assim como Rodrigo, Hugo irá trabalhar na conclusão do curso investigando o mercado, a programação e a distribuição de filmes no Recife.

Foi também por uma oficina, sobre design para pôster de cinema, ministrada por Fernando Vasconcelos (do site Kinemail), que Filipe Marcena,21, deu seus primeiros passos na crítica. "Nunca havia pensado na crítica, até que Fernando me encomendou um texto e o resultado foi tão positivo que acabei sendo convidado para colaborar no site. Lá escrevo sobre lançamentos em DVD e eventualmente sobre algum lançamento nos cinemas", relembra Filipe, hoje estudante do curso de graduação em cinema da UFPE.

Já Osvaldo Neto,24, recebeu o estímulo para escrever a partir de um site que freqüentava, o "Boca do Inferno", passando, depois, a ser seu colaborador. Em 2006 criou o próprio blog, "Vá e Veja" (o nome é uma homenagem ao filme homônimo de Elem Klimov), e depois começou a participar do site Cine Flash. Uma das peculiaridades de Osvaldo é sua predileção por filmes "B", de baixo orçamento e independentes. "Claro que posso também apreciar uma superprodução ou filmes mais sofisticados mas, de certa forma, me dá prazer saber que talvez meu blog seja o principal canal do Recife que lida com o universo de filmes renegados", ressalta.

Uma das figuras mais interessantes nesse meio de jovens promissores chama-se Matheus Cartaxo, e não apenas pela pouca idade (17 anos), mas também pela sagacidade e impressionante demonstração de conhecimento e discernimento quando abre a boca para falar sobre cinema. "Meu interesse começou ainda muito criança, com os quadrinhos e literatura, depois (rindo) fui apresentado a 'Freddy Kruger' e, há dois anos, comecei a me aprofundar através de blogs que indicam filmes e livros".

Matheus, ainda no ensino médio, pretende prestar vestibular para cinema aqui e em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Até lá, vai cuidando de sua formação, ao mesmo tempo em que trabalha como editor-adjunto da "Foco: Revista de Cinema", cujo último volume é dedicado a Samuel Fuller e João Bénard da Costa. Lá, tem traduções que ele fez para o português de textos originais em inglês e francês, além de análises escritas pelo próprio Matheus. À propósito, você sabe quem foram Fuller e Bérnard da Costa?

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onde ler os jovens críticos

Dissenso
Rodrigo Almeida, Luís Fernando Mouta, André Antônio, Hermano Callou
(http://dissenso.wordpress.com)

Blog de Rodrigo Almeida
(http://www.velhoshabitos.blogspot.com

Foco: Revista de Cinema
Matheus Cartaxo
(http://focorevistadecinema.com.br)

Vá e Veja
Osvaldo Neto
(http://vaeveja.blogspot.com)

Cine Flash
Osvaldo Neto, Rafael Nogueira, Alexsandro Vasconcelos, Léo Peixe
(http://www.cineflash.com.br)

Kinemail
Filipe Marcena
(http://www.kinemail.com.br)

Folha de Pernambuco
Hugo Viana
(http://www.folhape.com.br)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Inglórios


Bastardos Inglórios não é um filme sobre a Segunda Guerra Mundial, mas um inventário do repertório cinematográfico de Tarantino; uma mistura do seu apelo cinéfilo pessoal com o imaginário audiovisual do conflito, forjado película a película, durante os últimos cinquenta anos. Mais uma vez o cineasta aponta para o próprio cinema, faz um filme de mediação desta vez tomando um evento histórico como pano de fundo para inundar a tela com suas referências. Traça, portanto, uma releitura do blaxploitation italiano Quel Maledetto treno blindato (1978), de Enzo Castellari, homenageia com a sua cena inicial Era uma vez no Oeste (1968), de Sérgio Leone, e numa sequência parodia O Poderoso Chefão (1972) com um Brad Pitt emulando descaradamente o Don Corleone de Marlon Brando. Tarantino é um detalhista convicto: recria cartazes de filmes da época, copia cabelos, refaz o vestido vermelho de Verônica Voss, revela suas paixões por meio da trilha sonora, pega de empréstimo expressões sutilmente sarcásticas. A narrativa acompanha dois planos para assassinar Hitler, o primeiro organizado por uma mulher judia dona de um cinema em Paris, outro planejado por um grupo de soldados judeus americanos, conhecidos como Bastardos Inglórios, movidos pela vingança. Famosos por quase não fazerem reféns, por terem ordens de matar cem nazistas para cada um, o grupo gera um temor nos oponentes por deixarem os raros sobreviventes marcados com uma suástica na testa. Decerto, a força da produção está em parte na capacidade de Tarantino em construir uma encenação segura, elevando ao máximo a ênfase dramática do elenco e dos elementos em quadro. Aliás, o diretor norte-americano costura clichês e subversões de inúmeros gêneros, literalmente como um montador costura um filme de guerra por meio de recortes deslocados, vindos de épicos, de faroestes, da comédia, do melodrama e até mesmo do terror. Tarantino propõe uma transgressão absoluta diante do compromisso com o campo histórico, o filme reforça uma imagem autônoma numa espécie de realidade paralela, um universo que trata de uma época sugerindo outras ações e consequências. Bastardos Inglórios não é um filme sobre a Segunda Guerra Mundial, mas uma colcha de retalhos audiovisuais do tempo que nos separa do próprio evento.

Cinema

Desde sua invenção, o cinema já nos deu de tudo: de seres não humanóides em galáxias distantes a longas caminhadas por corredores vazios, nos vimos dentro de tramas mentais, policiais, sexuais, caímos em crônicas delicadas do cotidiano, vislumbramos as sinfonias das metrópoles, fomos mortos com mais de dez facadas dentro do banheiro. Continuamos o rumo. Conhecemos psicopatas mascarados, disfarçados, sonhamos com uma cena, com uma atriz, com várias delas. Vimos nosso planeta ser destruído uma dúzia de vezes. Não recuamos mesmo quando um diretor nos lançou em um labirinto infalível, deixando nossas mãos suadas, nos causando um riso nervoso, tal qual o que nos acomete quando a película1 se refere diretamente a um momento em que estamos passando. Conversamos com a morte, jogamos xadrez, vimos o vento balançar as folhas de um campo quase como se o víssemos agir pela primeira vez. Iniciamos a marcha. Desistimos das utopias de nossos pais, enfrentamos filas nas calçadas, nos shoppings e nos torrents, acordamos de madrugada para não perder um filme e, como últimos espectadores, desligamos emocionados as luzes dos cinemas de bairro. Logo depois se tornariam igrejas evangélicas e lojas de eletrodomésticos. Decoramos frases, posturas e sotaques, nos apaixonamos por personagens e acompanhamos a natural mercantilização do amadorismo das câmeras caseiras. Desvendamos a idiossincrasia ao discordar dos críticos, dos amigos e ao sermos atingidos com assombrosa força por uma ou duas expressões minimalistas. Sentimo-nos, na falta de outra coisa, subversivos só por burlar a classificação etária indicativa.

O cinema realmente parece nos ter dado de tudo: de esboços poéticos sobre o próprio dispositivo a retratos sociais devastadores, nos apegamos às vanguardas, guardamos carinho por certa retaguarda, e, talvez por termos lido os livros, não entendemos algumas das livres adaptações. Traduzimos legendas, vestimos figurinos idênticos, dançamos e choramos com várias trilhas sonoras, revimos obras queridas até perder a conta, montamos uma pilha de lembranças cruéis. Crescemos aos socos e chutes nos jogos de luta do playtime da esquina e acompanhamos a gradativa velocidade que fez de nosso cotidiano pequenos videoclipes. Desistimos de separar o documentário da ficção, admitimos os momentos de opacidade e translucidez, nos acostumamos com o pressuposto de que, independentemente da ordem, estávamos prontos para abdicar de um começo, um meio e um fim. Percebemos a política de pequenos passos, desafiamos a ligação ontológica entre imagem e realidade, experimentamos a fundo a nostalgia pelo que não vivemos e aprendemos a não cansar com a duração de um plano. Passeamos pelo mundo, pelo tempo, pelas faces, recorremos ao discurso cinematográfico para nos salvar em intrépidos debates, canonizamos a animação, unimos metáfora e matéria, criamos um presente feito de memória. Vimo-nos rodeados de um descontrole ao ponto de nos confundirmos: ora estávamos nos identificando com a dura vida de prostitutas francesas, ora sentindo vontade de largar a sobriedade e sair cantando na chuva, ora nos distanciando de regionalismos que, apesar de nos interpelarem, parecem não nos pertencer.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

São Luiz

"Para essa sessão, que se realizará à meia-noite do dia 3 de outubro, no cinema São Luiz, serão distribuídos convites especiais às figuras de projeção em nossos meios artísticos e às autoridades. Às 22 horas, no salão de honra do Grande Hotel, a Prefeitura oferecerá um coquetel aos artistas e diretores do filme e às autoridades". (JC, 29/set/53, p.4)


A primeira vez que fui ao cinema, nos primeiros anos da década de 90, foi justamente ao São Luiz para assistir alguma comédia romântica com a Whoopi Goldberg, que sequer lembro o nome agora, mas que meu pai, um defensor ferrenho do velho Arraes, tinha me levado não pelo filme, mas para eu conhecer 'o cinema mais importante da cidade'. Ele frequentava mais pelo valor afetivo com o espaço do que propriamente pela programação. Mesmo só tendo faíscas de lembranças dessa época, como uma festa em que me fantasiaram de Rambo ou uma briga que arrumei no São João do colégio por bater num menino no meio da quadrilha, mantenho guardadas vagas imagens daquele dia. Não lembro como fui, como voltei, mas lembro em detalhes dentro do cinema, especialmente os vitrais, pois não parava de olhá-los e continuariam a me fascinar várias e várias vezes durante a adolescência até o fechamento. A última vez que estive no cinema da Rua da Aurora foi num show de Jorge Mautner: lembro que, após o show, me mantive sentado com duas outras pessoas olhando a tela branca por um longo tempo, enquanto os outros se dirigiam para uma rave no primeira andar. Os vitrais estavam apagados. Talvez estivesse me despedindo. Depois disso, vi apenas por fora o cinema numa reforma que não parecia ter fim.

Daí finalmente, depois de um mundo de adiamentos, de toda indecisão possível, do quase risco de não dar em nada, graças ao empenho da Fundarpe, empenho louvável, o cinema São Luiz foi reinaugurado com uma cerimônia de deixar as celebridades de hollywood inundadas de inveja. O filme escolhido para ser exibido na ocasião foi Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, clássico absoluto da galerê oldschool do cinema de retomada. Trata-se na verdade de um ensaio, afinal deixando o glamour de lado e se dando conta que o champagne é sidra, o cinema São Luiz foi reinaugurado mais ou menos, afinal, ontem, foi apenas a reinauguração para convidados, vips, autoridades, jornalistas e ceninha cultural da cidade em geral - isso inclui toda aquela galerinha que você encontra em todo canto, que não faz ideia de quem seja, especialista em fazer amigos e que sempre dá um jeitinho de entrar. A reinauguração pra mundiça do meu Recife vai ser só no dia 12 do próximo ano. Tentarei ir como um bom suburbano que sou: estou curioso pra ver o público de fato. No entanto, preciso dizer que a reinauguração só estará completa quando a sala arrancar de si o fantasma de palanque político, palanque que se repete sistematicamente ao longo das décadas e adquirir um projetor digital. É imprescindível ambas as coisas.

Enfim, aproveitando a pompa do evento, o clima premiere que se abateu sobre a cidade e desejando sinceramente longa vida ao cinema mais bonito que já entrei, lembrei - força da expressão - de um outro evento ocorrido no mesmo local no dia 03 de outubro de 1953, pouco mais de um ano depois de sua abertura em 6 de setembro de 1952. Na ocasião, estreava o filme O Canto do Mar, de Alberto Cavalcanti, cuja produção fora toda realizada em nosso estado, com participação de 'profissionais da região', gerando polêmicas e expectativas, pondo em questão até a sexualidade do diretor, briguinhas entre os cronistas dos principais jornais, todo um rebuliço digno de novela em horário nobre. Para se ter uma ideia do vuco-vuco na província, "momentos antes da pré-estréia, o deputado José Santana foi assassinado na calçada do cinema, quando chegava para assistir ao filme. Motivo do crime: brigas políticas no clã dos Santana, natural da cidade de Flores, no interior do estado, que devido às violentas intrigas da família passa a ser conhecida como a 'Coréia do sertão''. Vejamos o que foi publicado em alguns dos periódicos nos dias que se seguiram à sessão, um pouco cruéis, convenhamos, mas que mesmo sendo da época em que Jomard participava de um cineclube católico e que as pessoas caminhavam pelas ruas, não pelos shoppings, acredito que, de alguma forma, têm muito a nos dizer:

"Como acontecimento social, o lançamento de O Canto do Mar confirmou as expectativas. Como filme, deixa muito a desejar" (Carlos Frederico, DN, 05/out/53, p.6)

"Não condenaríamos os atores porque seus fracos desempenhos deveram-se a Cavalcanti que não criou tipos convincentes, mas condenaríamos, com rigidez, o senhor Hermilo Borba Filho, autor dos diálogos, mal feitos, monótonos, sem inspiração (tal qual suas peças teatrais). Da montagem nem é bom se falar: uma lástima. Somente absorveríamos o fotógrafo Cyril Arapoff" (Ângelo de Agostini, JP, 08/out/53,p.4)

"Pernambuco, este estado cheio de tão belas e puras tradições, serviu de cenário para um filme dirigido por Alberto Cavalcanti. O Canto do Mar imergiu nos seus maracatus, percorreu xangôs e apresentou o frevo. fotografou nossas praias. Mostrou igrejas 'grávidas de ouro'. E também a miséria do povo sertanejo, a terra seca e suas paisagens mais tristes. Focalizou tudo isso como numa sucessão de cartões postais que a gente manda para uma pessoa muito distante daqui com uma dedicatória mais ou menos assim: 'aí vão os costumes populares e a terra pernambucana'. Nada mais" (Paulo Fernando Craveiro, DN, 07/out/53, p.3).

"Não há meio termo nas opiniões sobre O Canto do Mar. Para uns, foi a segunda tragédia do São Luiz, sendo a outra a morte do deputado sertanejo; ou que a bala que matou o deputado Santana, pegou casualmente o representante petebista, dirigida que fora, não contra ele, e sim contra Cavalcanti. Para outros, trata-se de uma obra-prima; das tais que o sujeito, depois de fazê-la, vai dormir nos braços da posterioridade (L., DP, 07/0ut/53, p.6)

"Durante uma semana não se falava em outra coisa no Recife. Cartazes. Faixas. Convites. E, finalmente, o filme começa a rodar; o São Luiz super lotado, pessoas em pé, sentadas pelos degraus do balcão, estava vitorioso o cineasta Alberto Cavalcanti. Aparecem as primeiras imagens do alto sertão. A seca. Os esqueletos de animais. Vem o narrador. Não era necessário o narrador, mas o sr. Cavalcanti caprichosamente, achou o contrário; e provocou os primeiros bocejos na platéia" (Duarte Neto, FM, 08/out/53, p.4)

"Bumba-meu-boi, xangô, frevo, maracatu, etc, a película é extremamente valiosa. Estamos, pois, diante de uma obra cinematográfica essencialmente honesta, bem diferente de outras que, ao retratar os nossos costumes, enveredam por caminhos falsos e pretensiosos. A direção de Cavalcanti, crua e vigorosa, soube tirar o máximo de todos os atores" (Jomard Muniz de Britto, DP, 11/out/53)

"Em verdade, o zabumbamento que precedeu a exibição de O Canto do Mar foi excessivo para ele. Também não merecia a depreciação dada pela Prefeitura, com aquela enxurrada de letras minúsculas num convite bem impresso" (Mário Melo, JC, 11/out/53)

"O Recife tem destas coisas surpreendentes. A noite de sábado foi marcada por duas tragédias terríveis. Uma, lá fora, na calçada do cinema, onde tombou um deputado com a cabeça esmigalhada por uma bala misteriosa. A outra, foi a exibição do filme O Canto do Mar. Ambas, quase na mesma hora e com uma semelhança de motivos telúricos que nos dá o que pensar. O filme começa no sertão e se espapaça para praia. A outra tragédia, dizem os jornais, também teve origem no sertão e terminou em pleno coração do Recife" (Aderbal Jurema, JC, 11/out/53).

"Todos nós que nos dirigimos aquela noite de sábado ao Cinema São Luiz (desde os beneficiados pela política do DDC até os 'sem convite' que de uma maneira ou de outra conseguiram penetrar no cinema; e este foi o caso aqui do cronista), estávamos crentes de que afinal chegara a hora de enchermos a boca para falarmos sem constragimentos e sem medos sobre o cinema brasileiro". (Luiz Felipe, FM, 15/out/53)

"Dos 450 convites impressos, dez ficaram com Cavalcanti e o resto, com exceção do de mais uns poucos que foram dirigidos a quem realmente tinha direito, foi transformado em prenda eleitoral. No mínimo dois vereadores serão eleitos por intermédio daqueles convites e mais dois filmes desses e a campanha para a sucessão governamental estará assegurada" (Alexandrino Rocha, FM/08/out/53).

Para mais informações ver: ARAÚJO, Luciana. A Crônica de Cinema do Recife dos Anos 50. Recife: FUNDARPE; 1997.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Dedicatória

Ao meu pai (in memoriam), por ter patrocinado minha vasta coleção de dinossauros de plástico durante a infância e por, atendendo aos meus melindrosos pedidos, ter me levado à estréia de Jurassic Park, aos meus oito anos, conseguindo ingressos mesmo quando o bilheteiro tinha nos avisado que a sala estava lotada.

A minha mãe, por, há muito, muito tempo, quando eu não passava de um garoto, ter me contado inúmeras histórias incríveis de amor e guerra, sempre distorcendo os detalhes ao prazer de sua imaginação, mas cujos motes partiam de filmes italianos, franceses e americanos que tanto gostava. Um dia, resolvi vê-los.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Ausência

E só para dar uma satisfação de minha ausência, não abandonei o blog, não ainda, acontece que estou escrevendo finalmente a minha dissertação de mestrado, que atualmente se chama Consumo Cinéfilo e o Prazer da Raridade, talvez faça um post em janeiro com trechos, mas a questão é que preciso terminá-la, a dissertação, até o início de fevereiro pra dar tempo de mandar pra revisão. Ou seja, desespero pra que te quero. Estou sonhando quase todos os dias com perseguição e um amigo me disse que isso significa que meu inconsciente está me dizendo que não vai dar tempo. Daí virou uma questão de honra, preciso conseguir terminar e mostrar quem é que manda nessa cabeça aqui. De qualquer forma, só sei que já fugi de helicópteros em arranha-céus, usei até lança míssil de uma varanda; já fugi de badboys cariocas em cidades condomínios, de insetos em hospitais contaminados e de mulheres a beira de um ataque de nervos dentro de um shopping em liquidação. Ok, até que estou me divertindo.

Many Happy Returns (Reino Unido, 1997), de Marjut Rimminen



Nada como um bom trauma de infância.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Várzea-Derby; Derby-Várzea


Por uns bons anos, peguei ônibus todo santo dia para ir ao colégio, de forma que cerca de um décimo do meu tempo diário se passava dentro do cdu/várzea centro-subúrbio ou do cdu/várzea subúrbio-centro. Eventualmente pegava um cdu/boa viagem/caxangá na volta. Nunca na ida. Seja como for, ou melhor, sendo otimista, cada viagem devia durar cerca de quarenta minutos, o que dava uma hora e meia contando com a volta. Daí pra fazer o drama, em uma semana permanecia no mínimo 8 horas dentro de um ônibus; em um mês, 32 horas, em um ano, hmmm, digamos que 320 horas para compensar o uso diletante nos meses de dezembro e janeiro. Pois é, são mais de 13 dias inteiros. Entretanto, antes que alguém comece a reclamar da vida, dizendo que mora em São Paulo e passa 78959050950495 horas dentro de um ônibus ou do carro ou sei lá, que enfrenta quilômetros de trânsito, que mora em Piedade e estuda em Olinda, que a rotina é um inferno, comecei esse post só para dizer que passei a maior parte desse meu tempo observando as pessoas: olhava as roupas, os tiques, os gestos, a impaciência, quem levava sacola, quem fingia sono para não carregá-las, a forma de falar, sobre o que falavam, a altura da voz, o corte de cabelo, a cor dos olhos, o sorriso, a grossura da batata da perna, as relações quando estavam em grupo e claro, o corpo por debaixo das roupas. Havia todo um clima de quem tinha acabado de deixar a supervisão familiar e estava aprendendo a lidar com o mundo, num misto de impacto, encantamento e incerteza, mas usando de truques infantis para conseguir se safar.

Eventualmente reconhecia uma ou outra pessoa, que sempre pegava no mesmo horário que eu, muitas das quais nunca troquei uma palavra, só compartilhávamos o mesmo espaço, a mesma efeméride, o mesmo tédio. Conseguia até captar certas recorrências de comportamento nesses casos. Parece besteira, mas nunca consegui lidar direito com a sensação de estar perdendo tempo: mesmo parado, em pé, sentindo cheiro de suor seco misturado ao bafo da cidade, tinha que estar com a cabeça a mil. Nesse sentido, foi graças aos ônibus médio vazios, ou seja, os que davam pra sentar, que pude estudar para o vestibular: durante o último ano do ensino médio, virou um ritual, estudava da hora que entrava até a hora que descia, até porque em casa, lia livros, escrevia umas toscas poesias de amor ou fazia pesquisas - não existia o google, mas existia a barsa - sobre assuntos que me interessavam, mas que não podiam ser tratados como conteúdo de uma prova. Eram puro devaneio pessoal: uma clara obsessão pelas guerras da humanidade aqui, uma nóia em assistir os clássicos do cinema até a metade do século XX ali, um lamento por não ter como me tornar paleontólogo. Meus cadernos da época são verdadeiros tratados sobre a digressão juvenil: frases e mais frases tradutoras de um instante em meio a equações que já não me dizem nada. De qualquer forma, na maior parte do tempo que passava dentro dos ônibus, obviamente não estava estudando coisa alguma, daí me entregava ao deleite da observação: sentava na janela, olhava os transeuntes, escutava as conversas dos outros pela metade, piscava o olho para quem passava em pé nos coletivos que seguiam o caminho contrário. Entre um olhar e outro, entre uma frase pela metade e outra criava micronarrativas, procurando saber para onde as pessoas estavam indo ou de que fim de relacionamento tinha acabado de sair. Todo dia chegava em casa com uma criação mais absurda que a outra, mas não se sintam traídos, não foi assim que comecei a escrever os primeiros contos.