sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Rapidinhas

I

Depois de trabalhar com metade do elenco de Harry Potter no mesmo filme (Alan Rickman / Snape, Timothy Spall / Pedro, Helena Bonham Carter / Bellatrix) bem que o Tim Burton podia dirigir os dois últimos produtos da franquia - ok, isso é praticamente impossível afinal apenas o diretor do último ainda continua em aberto, semi-aberto, digamos. De fato, não sei se ele iria aceitar, não sei se ele já negou, mas acho que ele materializa universos sombrios e fantásticos como ninguém. Boa parte dos filmes de Burton tem uma estrutura de fábula-aventura melada de sangue, o que em teoria Harry Potter deveria se firmar em todos os seus capítulos. Convenhamos que enquanto realização cinematográfica essa franquia nunca passou do medíocre. Acho que JK Rowling devia ter exigido a presença do Tim Burton ao menos no primeiro. Todas as personagens iriam ser tão mais freaks e legais. Caso ele negasse, pegava a equipe como bem fez o ótimo Desventuras em Série... um filme e uma série de livros para crianças inteligentes.

Entretanto, não gostei de Sweeney Todd, filme mais recente do diretor em questão, e assumo que, em parte, pela antipatia com musicais. As produções desse gênero precisam realmente me impressionar muito para causar algum efeito. E apesar de algumas letras interessantes; das canções serem bem introduzidas na narrativa, até causarem tensão ou reforçarem um humor negro, os atores novatos são todos detestáveis, detestáveis, detestáveis e as coincidências do roteiro chegam a ser irritantes. Óbvio que a direção de arte, fotografia e o trio Depp-Helena-Burton estão perfeitos, mas isso é geralmente inquestionável em seus filmes, então vamos nos poupar. Definitivamente prefiro o Burton escuro escuro escuro, como ele sempre é, mas também o prefiro menos cantante e saltitante e, contraditoriamente, menos sangrento. Parece que essa afetação fantástica fábrica de chocolates colou e não passa mesmo com todas as mortes.

Para mim, desde 1994 quando realizou Ed Wood, Tim Burton só produziu um filme realmente genial: (Big Fish, de 2003). Ainda vou escrever um texto grande sobre essa película no Dissenso, porque apesar de entender a legião de fãs desse diretor, não me deixo atrair por qualquer peido escuro que ele solta (referência direta ao desnecessário remake de Planeta dos Macacos) e acho importante destacar o que realmente acho válido em sua filmografia. Sei que muitos discordam desse meu reducionismo. Não ligo... Mas Burton-genial para mim é resumido em: Vicent; Os Fantasmas se divertem; Batman; Edward Mãos de Tesoura; Ed Wood e Big Fish. O Estranho Mundo de Jack ele não dirigiu, mas é sua criação e também acho foda. Fora esses dou algum crédito à Batman - retorno, A Fantástica Fábrica de Chocolates e à Noiva-Cadáver. Mas deixemos o passado. Entre seus futuros projetos, sei que o Burton está produzindo uma versão em animação stop-motion para o seu média Frankenweenie (que nunca vi); além de sua própria versão para Alice no País das Maravilhas, cujas filmagens começam agora em maio. Entretanto, o que me parece mais promissor - isso soando quase como uma aposta - é um projeto chamado "The Spook's Apprentice". Segue a sinopse: "Thomas Ward is the seventh son of a seventh son and has been apprenticed to the local spook. The job is hard, the spook is distant, and many apprentices have failed before him. Somehow Thomas must learn how to exorcise ghosts, contain witches, and bind boggarts. But when he is tricked into freeing Mother Malkin, the most evil witch in the country, the horror begins...". Vamos esperar uns 2/3 anos...

II

O outro filme que assisti hoje foi Cloverfield - Monstro. Não se enganem, apesar dessa minha carinha de cult rato de cinema de arte, adoro essas produções com super efeitos, explosões, destruição. Só pra vocês sentirem o nível: em 1999, aos 14 anos fui pra pré-estréia do Episódio 1 de Star Wars na madrugada de natal, depois de passar... sei lá... dois anos, louco por esse lançamento. Sempre lembrando que blockbusters são a maior diversão... ou ao menos deveriam ser. Mas voltando a Cloverfield, sentei na cadeira e esperei mais um Godzilla destruir Nova York: "ok, estou aqui para ver americanos mortos", mas terminei vendo muito mais que isso. Infelizmente não posso contar o motivo desse mais, porque foi uma surpresa extremamente agradável de se ver desde o início e de acompanhar todo processo. Quase no nível de assistir O Hospedeiro, esperando o Godzilla e ver aquele filme coreano mutilfacetado que consegue ser todos os gêneros em um só - todos bons, um único excepcional. Aqui, entretanto, a surpresa é outra: e incrível como a platéia acostumada à uma estabilidade de câmera hollywoodiana, não tenha se incomodado tanto com a quebra desse estigma. Óbvio que uma série de produções anteriores, inclusive de outros países e do próprio Brasil, são responsáveis por isso.

Por conta dessa surpresa, o filme me causou uma sensação próxima de quando cheguei em casa no dia dos ataques terroristas de 11 de setembro - ataques esses altamente referenciados ao longo de todo filme. É incrível ver pela TV algo inacreditável daquele porte em tempo real: o ataque ao world trade center é realmente o meu maior exemplo. Ainda me lembro do choque de ver as torres caindo - fiquei gritando pra minha mãe ver até ela responder que já era reprise e que a outra torre ia cair também. Segundo ela, eram os chineses atacando. Trata-se de uma questão do momento de um ataque, de ninguém saber de nada, de não saber de onde veio e de não mostrar uma solução. O velho friozinho da incerteza daquele e somente daquele instante. Depois de anos, tudo se soluciona, entre mentiras e verdades e aquela sensação do momento desaparece. Cloverfield trabalha com o desespero e a falta de informação do tempo real de uma maneira surpreendente. Lembro também de imagens da guerra da Bósnia quando jornalistas entravam ao vivo e eram alvejados no meio da transmissão. Para quem pensava encontrar mais um Godzilla chato, acho que terminei, como li numa crítica do Omelete, encontrando um Tubarão blair. Sem exagero e com algum humor negro.

Também pensando nessa mesma crítica do Omelete, discordo quando o Marcelo diz que duas produções são necessariamente diferentes por conta de seus custos, quando uma custa 30 mil e a outra 30 milhões. Sinceramente, acho que esso é o último critério que levo em comparação entre filmes. Por fim, só queria considerar mais duas coisas. A primeira é que esse pessoal dos seriados tem mesmo que começar a se aventurar no cinema. Cloverfield foi produzido por JJ Abrams, escrito por Drew Goddard e dirigido por Matt Reeves. Os dois primeiros estão envolvidos respectivamente em Lost e Alias como criador/roteirista e produtor e o terceiro é o criador/roteirista de Felicity. Acho que além de terem uma afinidade na introdução de novas tecnologias (e consequentemente novas formas de registro fílmico), na própria intimidade com a geração youtube, esse pessoal conseguiu fazer no cinema algo bem próprio do cinema - planos longos - de uma maneira muito particular. Em O Hospedeiro também tem isso dos planos longos diferentes, também distintos dos daqui. Além de que, a maneira como o flashback é inserido dentro do filme é particularmente genial. Longe de todo aquele lenga lenga de lembrança bem demarcada já clichê por demais. Pra mim, isso faz desse pessoal muito mais moderno que os que ainda estão na vibe Godzilla, Independence Day e tal tal tal tal que já deu e deu muito mal. A outra coisa que queria dizer é como esses criadores sabem lidar com personagens, a partir do processo natural de identificação, já que essa característica é essencial na permanência/sucesso de qualquer seriado. O início é primordial pra que se estabeleça essa relação, mas é durante o desespero que ela se aprofunda. Hitchcock é mestre nisso. Acho que eu até veria de novo esse filme, mas agora que soube que vai ter uma continuação, acho que vou esperar... e provavelmente me decepcionar. hahaha


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

O Carnaval e horror nacional

Apesar de gostar de carnaval desde pequeno, nunca tinha saído nas ruas vestindo qualquer espécie de fantasia. Esse ano resolvi, já no caminho para Olinda, criar uma máscara feita de manga de camisa. Um furo para cada olho e um rasgão da boca ao nariz. Uma máscara feita de resto de fantasia dos outros. Ok, convenhamos que a máscara ficou super trash e feia, mas e daí? Até então algumas pessoas olhavam apenas com certo receio pra mim, talvez desconfiadas com o fato de eu poder fazer qualquer coisa sem ser reconhecido. Entretanto, a grande maioria em Olinda, nem ligava pra quem tava de máscara, quem não tava, quem tava nu, quem era o homem aranha, nada. Todo mundo tira onda com todo mundo, fica todo mundo muito bem e ponto. Me chamaram de super herói quando um bloco passava aqui e de mordedor de OB quando outro passava por ali. Essa despreocupação total naquele calor dos infernos me fascina.

Foi então que resolvi turbinar quando a tarde veio chegando e fui embora das ladeiras pan pan pan panranran: além da máscara, acrescentei uma peruca loira de cabelos longos e um óculos escuro estranho. Ok, agora ninguém me reconhecia mesmo e já no Recife Antigo percebi como as pessoas ficaram realmente incomodadas com essa fantasia. Eu tava lá na minha no Quanta Ladeira dançando, rindo, bebendo, fazendo mal a ninguém. Então recebo uma ligação de uma amiga assustada gritando: "Rodrigo, tira essa máscara agora e joga fora... ouviu? tem um cara que ta te confundindo com alguém e ta atrás de tu". Tirei a máscara, a peruca e os óculos e óbvio que não joguei fora - só fiquei imaginando que me confundiram com alguém que fugiu do Cotel. Pois é, sem saber passei momentos de tensão e aventura, sendo caçado entre os prédios históricos do Recife Antigo pan pan pan panranran. Tudo isso só porque usava uma máscara bizarra, super freak. E já que eu to escrevendo aqui, vocês podem pressupor sozinhos que, dessa vez, o caçador não teve sorte. De qualquer forma, a partir do momento que tirei a máscara, a caçada foi finalizada. Quem correlacionaria Rodrigo Almeida com aquele diabo loiro demoníaco? Cybele, shiu.

Foi então que não contente com essa interferência arrumei na mesma noite outra máscara. Quer dizer, uma fantasia. Coloquei um óculos vermelho e um batom borrado na cara tipo Coringa Ledger. Sim, já era de noite. Novamente todos comentaram que minha fantasia tava muito assustadora (exceto as minhas amigas que me pintaram, porque elas têm senso de humor e horror) e eu percebia que as pessoas olhavam com um medo / agressividade pra mim. Foi então que estava dançando com uma amiga na Rua Marquês de Olinda, rumo ao Marco Zero, estavamos, de fato, histéricos e batemos sem querer e sem força em duas ou três pessoas. No meio da dança eis que surge um pé: do nada um cara me deu uma pezada fuderosa no meio do peito, disse "hahahaha, foi sem querer, desculpa", olhei pra cara dele e ele sumiu. Foi muito covarde esse cara não ter olhado nos meus olhos antes de fazer isso, porque eu teria tido a mínima possibilidade de me defender, mas só o fato de eu ter levado aquela porrada muito forte e não ter caído no chão, salvaguardou a minha honra do horror. Magrinho, magrinho, mas fiquei de pé. Isso não é autocomplacência.

E digo e repito: o horror não está no horror e eu acredito no horror nacional.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Sinal

E fico pensando se a força humana usada pra fechar o bicho, proibir cigarro, fiscalizar bar fosse totalmente transformada pra ações, digamos, mais urgentes. Fiquei pensando nisso ontem, enquanto esperava um amigo no bompreço da rosa e silva. Observei por meia hora, por volta das 7 da noite, o sinal, onde uma menina de no máximo 5 anos vendia jujubas. Sinal vermelho e lá ia ela de carro em carro. Caminhonetes, carros de luxo e ela lá, pequenina, tentando vender e sendo totalmente ignorada sinal vermelho após sinal vermelho. Mal alcançava o vidro, de modo que tinha de ficar na frente dos veículos. Apenas algumas mulheres pedestres não a ignoravam e lhe doavam algumas moedas. Sentiam-se aliviadas e seguiam seus caminhos. Um senhor parado com uma carroça, possível pai, avô, chefe gritava com a menina a cada sinal vermelho em que ela se distraía: "O SINAL FECHOU, MENINA, VAI LOGO". Mas isso é só uma parte: comecei a observar o olhar fuderosamente triste dela, olhar que a deixava justamente distraída, recorrente quando passava uma criança de mãos dadas com a mãe. Putz... aquele olhar me destroçou. Acho que foi o olhar mais triste que já vi na minha vida. Fiquei com tanta raiva do mundo, tanta, tanta, que sem dúvida comecei a achar que o mínimo que nós recifenses de classe média e alta podemos ter, dentro dessa cidade, é medo da violência. Nós merecemos demais esse medo, uns assaltos nos sinais, nas ruas, uns tiros, tudo isso. Confirmo: é uma merda, merda, merda, mas é o mínimo.

Bicho

E agora quando eu sonhar com bicho o que eu faço?

Nesse ritmo de proibições semanais, vamos longe. ¬¬

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Governo britânico quer legalizar cópia de CD

do JC Online

Fonte: Diário do Grande ABC

"O governo britânico está pensando em legalizar as cópias de CDs em computadores pessoais, uma prática muito difundida atualmente, mas ainda ilegal no país, pois viola as leis sobre direitos autorais.

Segundo a agência Ansa, o subsecretário para Propriedades Intelectuais, Lord Triesman, disse à BBC que a lei deveria ser modificada "para estar em sintonia com os tempos atuais".

As associações da indústria fonográfica britânica, a principal, BPI, e a que reúne os selos independentes, a AIM, acolheram com cautela as propostas, que são alvo de uma consulta pública (estão sendo interrogados funcionários de vários setores e consumidores) até 8 de abril.

As mudanças serão aplicadas apenas a quem copia o CD para uso pessoal. Fazer mais cópias ou trocar arquivos pela Internet continuará sendo ilegal, assim como permitir a circulação da cópia original, ainda que seja impossível impedir esta circulação no meio privado.

A AIM observa, no entanto, que as propostas do governo não são muito inovadoras, já que os CDs poderiam se tornar obsoletos dentro de 10 anos".


Acho isso legal.


quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Smoking / No Smoking

Sempre que penso em parar de fumar, vejo uma dessas campanhas antitabagistas, esse conglomerado de ONGs caça níquel denunciando o ar poluído por fumantes, daí acontece que a primeira coisa que me dá vontade de fazer é acender um cigarro e soltar um monte de fumaça no ar.

Vamos só ver no que vai dar essa lei de ambientes livres do fumo.

Pra começar, podia dar prejuízo.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Brasileiro faz macaca mover robô usando apenas o pensamento

A manchete é engraçada, mas o fato é extraordinário: daqueles que dão a sensação de que o futuro é pra já. Todo o enfoque da matéria é relacionado ao uso de próteses, mas é claro o desenvolvimento dessa tecnologia não vai se restringir apenas a esse setor.

“Um pequeno passo para um robô e um grande salto para um primata”. Foi assim que o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis resumiu para o jornal americano “The New York Times” a pesquisa em que conseguiu fazer uma macaquinha nos Estados Unidos mover um robô do outro lado do mundo, no Japão, apenas com a força do pensamento.

O feito de Nicolelis traz esperança de uma revolução na área de próteses para amputados. E se conseguir isso foi complicado, o princípio da coisa é fácil de entender. Ninguém pensa antes de fazer coisas como andar, pular ou pegar um objeto. Quando você pegar o mouse para ler a continuação deste texto mais para baixo, não vai pensar “eu quero esticar o braço, pegar o mouse, movimentar meu dedo e apertar o botão”. O ato é tão automático quanto o pensamento. Você nem pensou e já fez.

É essa naturalidade que o brasileiro tenta repetir com as próteses. A idéia é que quem precise usar um braço ou uma perna artificial não tenha que “aprender”: pense em andar e ande.


Pela manchete podemos entender confusamente que o brasileiro fez a macaca se mexer pelo pensamento e então ela mexeu o robô.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Nerd

Putz... eu sou muito nerd: sonhei hoje que era um mutante perdido com outros X-men numa ilha dos dinossauros (que funcionava meio como uma ilha de extermínio de mutantes montada pelo Governo ho-ho-ho). Meu poder era de ficar invisível, mas os dinossauros carnívoros conseguiam sentir o meu cheiro o que tornava tudo mais animado. Ai ai... no início, tinha uns humanos sem poderes misturados aí todo mundo ficava no maior desespero, com nojo ou, quando mutante, usando os poderes para matar os pobres dinos. Nem preciso dizer que eu achava os dinossauros a coisa mais linda do mundo, que morreria com maior prazer e dignidade sendo comido por um deles - preciso ressaltar que quando tinha 6/7 anos, eu queria ser paleontólogo e cheguei a pedir de presente uma viagem pra áreas de escavação. o_O

O mutante que era meu melhor amigo era o vilão (que na verdade, não era vilão coisa nenhuma) que cansava dos mutantes, por causa da violência excessiva para se 'proteger' e se transformava num Spinossauro e ia viver com os dinossauros. Achei que era uma referência direta a mário.

No meio do sonho eu já tinha me tornado uma espécie de ecologista, 'salvem os dinossauros desses mutantes loucos' e ficava dando pequenos golpes nos X-men pra me vingar por cada morte. Criava intrigas ou situações estranhas - poder ficar invisível é muito legal. Mas, não deu muito certo: a ilha de extermínio de mutantes virou a ilha de extermínio de dinossauros.

Acordei com uma só conclusão: definitivamente os homens não sabem conviver em harmonia com seus vizinhos. Sejam eles árabes, judeus ou dinossauros.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Eu.doc

Santiago (2007), de João Moreira Salles

(Publicado originalmente no Dissenso)

Esse texto pode até soar inicialmente como uma mera cordialidade barata entre um pretenso jovem crítico e um documentarista brasileiro burguês, mas aviso de antemão, que pouco me importo com essas desconfianças primárias. Mesmo se fôssemos amigos (eu e o João Moreira Salles – o que não é o caso), procuraria não fazer diferença, sabendo dos riscos e falhas, entre falar bem, mal ou bem e mal simultaneamente. Além disso, o juízo de valor nesse molde maniqueísta teria pouca importância em uma crítica-crônica, que desde o princípio assumisse e destrinchasse alguns laços de amizade. Entre pontuar uma série de desgostos e não falar, prefiro ultimamente – e só ultimamente – não falar: nesses casos, acredito que o silêncio carrega a crueldade necessária. É uma pena que os críticos vinculados às ‘sérias’ empresas de comunicação não possuam essa mesma possibilidade de escolha, já que não decidem sobre quais obras irão se debruçar e sobre quais irão se omitir: apenas se dividem entre os lançamentos de uma lista pré-definida semana após semana. Alguns até se esforçam, mas nem sempre é fácil produzir meia dúzia de palavras anuais sobre a Xuxa sem cair pelo menos uma vez no chulo. Pensando assim, tenho que também admitir de antemão e com a maior cara lavada possível que é muito prazeroso falar sobre o que se quer, dentro dos moldes quaisquer, podendo seguir sem pudores percursos mil. Sei que essa liberdade tende a não durar para sempre, a universidade nos lembra disso diariamente, mas, por ora e aproveitando o momento, a crítica se desvincula do ranço da obrigação, se assentando plenamente como um ato de criação.

Convenhamos que essa escrita (ou escritura) não se fundamenta apenas sob a sombra de um prazer narcisista, mas a partir do estabelecimento de uma rede que une sem tensões conhecimento, produtividade, densidade e reconforto. A vontade de falar ou de escrever depois do impacto de uma obra se torna um processo de autoconhecimento e autoconsciência, para além de uma resposta natural diante da experiência estética (e também como uma resposta natural). Quando somos honestos em nossas produções, podemos discutir qualquer assunto através de qualquer meio, enquanto implicitamente falamos também sobre nós mesmos. Não há como fugir completamente disso, apesar dos disfarces que se multiplicam todos os dias. Em Santiago (Brasil, 2007) o documentarista burguês em crise de meia-idade traz o mordomo para frente, revisita a mansão da infância (hoje o Instituto Moreira Salles), cai na nostalgia e devassa o seu longa fracassado ao mesmo tempo em que versa sobre si, com uma franqueza desconcertante. Decidido a se expor, o criador entra de cabeça na aventura: não hesita em mostrar como uma busca formalista se metamorfoseia em autoritarismo, em agressividade, em falta de tato. Havia um filme a ser feito e por pouco ele não fora concluído de forma completamente equivocada. João Moreira olha para si e faz de sua falha arrogante o seu às de copas.

Muitos se incomodam com essa voz pessoal (escrita por João e narrada por Fernando, seu irmão) que se impõe de maneira tão clara e tão diretamente ao espectador. Eu não me incomodo nem um pouco. Pelo contrário: esse é o tipo de produção que, a priori, se aproxima de minhas intenções de estilo. Santiago está entre os três filmes que mais me impressionaram nesse último ano (2007 – dentro das produções lançadas originalmente nesse mesmo ano). Não por acaso assisti duas sessões sem intervalos num Cinema da Fundação vazio vazio: percebi de imediato o quão esse documentário funcionava como referência dentro do que estava pensando e desenvolvendo em relação à crítica. Quem mais poderia ter realizado esse filme senão o próprio João Moreira Salles? Apenas outro Moreira Salles chegaria próximo e apenas próximo. Afinal de contas não estamos falando simplesmente de um obra assinada, tal como se idealiza na política de autores, mas de uma produção pessoal, subjetiva e irretocável. Como uma marca de infância que nos acompanha em toda vida. João Moreira aparece na tela apenas uma única vez, entretanto, sua efígie demarca ocultamente toda trajetória narrativa. Espero que possamos fazer um paralelo. Imagino, inclusive, que depois de seis textos publicados, já seja possível identificar uma voz, a minha voz, dentro de tudo que escrevo.

Seguindo adiante é preciso lembrar que numa época em que as narrativas críticas estão se uniformizando aceleradamente, sendo constituídas de um banco estático e compartilhado de referências, nada mais necessário que resgatar o poder da inventividade e da experiência particular, a partir do próprio cinema. Às vezes, os críticos estão tão preocupados em explicações e descrições que perdem esses detalhes sutis, mas cruciais se funcionarem como metáforas dentro de suas próprias práticas. Temos que saber o que nos diferencia: se são as pequenas percepções, os momentos cotidianos despercebidos, as piadas desmedidas ou os olhares desencontrados. Temos que saber o que nos diferencia para sabermos o que nos pertence. Receoso com a resposta do público ao seu filme, João Moreira Salles chegou a pensar que sua obra não iria interessar a ninguém, que sequer deveria ter um lançamento comercial (a mesma preocupação pontuada pelos críticos em relação a O espelho, de Andrei Tarkovski). Mas o documentarista burguês de meia idade e em crise deixa a mostra, numa entrevista da Bravo, os argumentos para se defender de seus próprios temores ao ler uma frase do cineasta francês Chris Marker: “O uso da primeira pessoa num filme equivale a um ato de humildade. Tudo o que tenho a oferecer sou eu mesmo”. Nada mais justo.

O documentário (a crítica e toda obra artística) me parece mais intensa quando fecundadas a partir de uma posição pessoal do autor – uma posição chamada de criativa pelo roteirista, scriptdoctor e amigo argentino Gualberto Ferrari – encontrando uma harmonia entre uma busca estética e uma busca temática, casando as duas possibilidades, sem abdicar de nenhuma delas. E principalmente, sem abdicar de si mesmo: todo preconceito diante da pessoalidade precisa ser desfeito. Não podemos nos amedrontar diante das regras que limitam a criação, seja literária, cinematográfica, pouco importa, afinal, como resgata André di Tella, em sua conferência publicada no livro Cinema do Real, a partir de uma lembrança do escritor polonês Witold Gombrowicz “a palavra ‘eu’ é tão fundamental e primordial, tão plena da realidade mais palpável – e em conseqüência disso a mais honesta – tão infalível como guia e tão severa como critério, que em lugar de desprezá-la, deveríamos cair de joelhos perante ela” (Mourão, Labaki, 2005, p. 70). Novamente me atrevo: nada mais justo.

Infelizmente, poucos seguem essa linha. É preciso deixar claro que estou falando de algo muito diferente do que o Michael Moore faz: não é se usar de personagem para fazer discurso político. Não façamos confusão: meus argumentos estariam mais próximos de trabalhos como Zelig (EUA, 1983), de Woody Allen e F for Fake (França / Irã / Alemanha), de Orson Welles. Às vezes me parece que vários documentaristas (e pior, muitos dos quais iniciantes) concebem o gênero do documentário como cinematograficamente fechado, repetitivo até, e enquadrado dentro de certo formato pouco variável, que segue tais e tais regras e pretende atingir tais e tais objetivos. Partem do princípio “o documentário a serviço de…” de forma muito radical. Engraçado que uma instituição como a Fundação Joaquim Nabuco desenvolve discussões extremamente contemporâneas sobre a linguagem do documentário, enquanto realiza na prática as produções mais corretas, certas e caretas que vi nos últimos tempos. Ter trabalhado lá me alertou para essa contradição: é quase como se o discurso não conseguisse encontrar o ato produtivo, por este último estar viciado em amarras estéticas invisíveis, necessariamente ultradidáticas, impossibilitando a diluição das fronteiras do gênero. Essa obrigação de usar a arte como processo educativo baseado num ideal pedagógico acadêmico (e geralmente ultrapassado) só tende a criar mais algemas para essa expressão já tão moldada. Texeira Coelho defendeu numa palestra em São Paulo que a escolha desse caminho tendia a domesticar o processo criativo, acrescentando-lhe objetivos a priori inexistentes.

Há um pouco de exagero nessas palavras, afinal apenas uma parte da produção cinematográfica se finca nesse controlador estímulo produtivo, o suficiente para fazer com que os vídeos documentais realmente surjam no inconsciente coletivo, como uma expressão artística que segue, mais ou menos, um mesmo caminho estrutural: depoimentos diretos, câmera parada, imagens da cidade. Na verdade, essa opinião fechada é bem clichê e superficial. Os documentários convencionais costumam se sustentar numa trinca temática, seguindo estruturas corriqueiras de depoimento, ao tratar de uma personalidade ou anônimo atípico, um lugar exótico, manifestação artística incomum ou um fato especifico na linha histórica. Como diz o próprio Moreira Salles, os documentaristas “retratam mundos alheios, o sertão, a favela, a periferia ” enquanto sugere que “olhar para si é mais complicado não como desafio estético, mas como desafio existencial”. A alteridade se torna fetiche em documentários dos pequenos burgueses que vão a favela, que vão ao sertão, que vão até a pobreza: numa época em que se discute a necessidade das comunidades construírem sua própria representação social, essa idéia de documentário do homem que vem de fora me parece muito retrógrada. E hipócrita. O Brasil parece gostar desse impulso há 500 anos.

Sem dúvida, a experiência de Santiago se aproxima bastante do meu discurso no desenvolvimento desse projeto, pois essa obra não se resume apenas ao retrato de um mordomo exótico, nem apenas a um desenho metalingüístico dos bastidores da arte cinematográfica. Funciona como uma reflexão de um João Moreira Salles sobre outro João Moreira Salles. O homem que narra diante da própria infância, que narra diante das lembranças, que narra diante das imagens. Ele revela sobre si, enquanto fala sobre outros temas: e se engana quem acha que isso tudo não passa de uma egotrip vazia. Sinto-me particularmente atraído tanto pelo documentário de busca, quando o cineasta inicia um projeto sem saber que trajetória vai seguir e que objetivos alcançar, como por essa tendência do documentário falso, do documentário pessoal que resolve mostrar justamente as imagens, que todo documentarista convencional tenta esconder ou apagar dentro de uma sala de edição. Godard fazia o mesmo em suas ficções. O João Moreira Salles 13 anos mais velho resolve revelar as intervenções que o João Moreira Salles 13 anos mais novo faz agressivamente e num tom autoritário para que o personagem Santiago se comporte e fale exatamente o que ele, enquanto documentarista procura. As relações entre chefe e mordomo não foram apagadas,apenas camufladas.

Podemos transferir essa autocrítica direcionando o foco de reflexão para todo documentário: já presenciei várias produções e vários documentaristas se comportam de forma idêntica ao João Moreira Salles 13 anos mais novo. Sempre detestei os filmes extremamente didáticos, que não se utilizam de recursos estéticos próprios do cinema e que se resumem a uma série de entrevistas entrecortadas, todas sob o mesmo enquadramento. Parece jornalismo e isso me assusta. Além disso, os personagens se produzem em outros personagens para falar de si mesmos. Não falo de uma encenação como proposta, mas, por exemplo, quando um mendigo se arruma todo para falar da vida de um mendigo que apesar de ser ele, naquele momento exato, não parece ser ele. Isso se dá geralmente sem autoconsciência e não como proposta. Infelizmente, essa é a linha que a maioria dos documentaristas pernambucanos segue e o estilo que a maioria dos espectadores está acostumada a ver (daí a idéia de gênero limitado). Não se determina o olhar. O cineasta também precisa ser um provocador e não apenas o apaziguador simpático que quer que tudo corra da melhor maneira possível. De repente, a pior maneira é a melhor maneira. E como de costume, abrindo uma digressão é preciso registrar que o único documentário da última edição do Festival de Vídeo de Recife (2007) que se aprofunda na direção de uma liberdade criativa, sendo conduzida conscientemente pelo diretor foi Morro, de Gabriel Mascaro. E por favor, não achem que agora estou formando uma cordialidade barata entre o pretenso jovem crítico e o jovem cineasta em ascensão. Afinal, ao falar dele, estou falando simultaneamente de todos os outros inscritos no sentido contrário. O filme de Gabriel tem imagens belíssimas de objetos singelos e banais, que soam novos até por quem conhece a festa do Morro da Conceição, além de não possuir nenhum depoimento direto para câmera. Essa produção destoou imensamente de todas as outras. O nível estava realmente muito baixo: e como já disse, prefiro não falar.

Por fim, podemos traçar algumas comparações. De fato, só me interesso pelos documentários que fogem do lugar comum, porque os que seguem todas as linhas corretas terminam parecendo reportagens especiais de jornais televisivos. Engraçado que mesmo os projetos que se debruçam sobre uma personalidade ou anônimo atípico – como o próprio João Moreira fez, ou que investigam um lugar paradisíaco ou manifestação artística incomum podem fazê-lo de uma maneira menos objetiva (ou quase impositiva em alguns casos), mas sim, seguindo um caminho emocionalmente mais livre, assumindo o caráter autoral que esse gênero possui, ainda que muitos tentem mascará-lo. Há um ponto de vista do diretor em seu filme, isso é fato, seja esse filme um documentário ou uma ficção. O mito de que trabalhar com documentário é trabalhar com a realidade objetiva precisa ser desfeito. Pensar assim é seguir o mesmo caminho da objetividade / imparcialidade utópica que o jornalismo tediosamente busca e que eu simpaticamente (sic) refuto desde a primeira linha desse trabalho. Por pouco, não me tornei um pouco chulo também. Nada como senso de humor guardado ao lado dos chicletes.

A edição ou montagem, a exclusão e inserção de depoimentos ou até o estudo dos planos podem parecer escolhas simplesmente ingênuas, mas não o são – e também não sejamos ingênuos, metade dos escritos sobre documentário tocam nesse assunto. Todas as escolhas carregam mesmo nas entrelinhas, uma bagagem cultural e estética de quem as produziu. Então se tudo é uma questão de escolhas, porque não fazê-las de modo dissonante, consciente e provocador? Documentário não é realidade, é um ‘olhar’ sobre a realidade, é um discurso que se apresenta, uma interpretação, um desafio lançado por alguém. Acho interessante a brincadeira muito séria de Magritte (contada por 9 entre 10 professores e ainda reprisada aqui): quando pintou o quadro de um cachimbo e escreveu sob ele: “isto não é um cachimbo”. Atualmente deveríamos nos me perguntar: e quem diria o contrário? Mas parece que não aprendemos nada nesse meio tempo. A maioria diria o contrário.

Santiago Brasil, 2007. Direção e Roteiro: João Moreira Salles. Narração: Fernando Moreira Salles. Fotografia: Walter Carvalho. Edição: Eduardo Escorel e Lívia Serpa. Entrevistado: Santiago. 80 minutos.

Para baixar: Santiago

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Projetos literários premiados



Dois jovens pernambucanos ganham bolsas nacionais: uma para escrever um livro, outra para pesquisa acadêmica

Schneider Carpeggiani
carpeggiani@gmail.com

Talles Colatino
tcolatino@jc.com.br

Pernambuco foi destaque em dois concursos que procuram reter a literatura contemporânea por dois ângulos distintos, mas que se complementam: o de quem produz ficção, o de quem analisa essa produção. O estudante de jornalismo Rodrigo Almeida, de 22 anos, foi um dos vencedores da 3ª edição do Rumos Literatura do Itaú Cultural, com o projeto Processos Multimidiáticos de Colaboração e Interatividade na Crítica Literária Brasileira Contemporânea: Um Estudo de Caso do Site Overmundo. O Overmundo é um endereço online participativo – onde os internautas constroem o seu conteúdo, ressaltando a máxima de quem nenhum texto é isolado em si mesmo.

A também estudante de jornalismo Julya Vasconcelos, 23 anos, foi vencedora de uma das bolsas da Funarte de estímulo à criação literária, para desenvolver um livro, no valor de R$ 30 mil. A cada ano, a Funarte distribui 10 bolsas para candidatos de todo o Brasil. Na lista de vencedores, faz parte nomes consagrados como o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar. Seu projeto é Agudo como mordida, que tem de ficar pronto até julho deste ano.

Enquanto os concursos literários premiam a obra final, a Funarte estimula o necessário “rascunho”. “É uma bolsa de estímulo, não uma premiação para uma obra já realizada. Então, dez projetos de livros com trechos já produzidos – e não livros finalizados – foram selecionados para que os autores pudessem escrever a obra. Acho uma iniciativa fantástica, porque é difícil ter a possibilidade de ser patrocinado para escrever. No geral, os autores passam por maus bocados para conseguir finalizar um livro”, afirma Julya.

Essa é daquelas autoras para quem rótulo é perda de tempo. Seu texto trafega por inúmeros gêneros, com vários disfarces. “O livro (Agudo como mordida) é uma coletânea de poemas, mini-contos e pequenos textos organizados em três capítulos, mais estéticos que temáticos. O primeiro aglutina poemas e pequenas narrativas amarradas por um clima de auto-revelação, todos em primeira pessoa. O segundo é um amálgama de pequeníssimos textos, exercícios de micropercepção que chamo Na dose certa para não matar os cavalos. O terceiro é dedicado a três personagens: Tereza, Silvia e Rita”, explica.

Julya faz parte de uma geração que encontrou o futuro do romance mais uma vez sendo questionado. Não que poucas narrativas longas sejam lançadas, mas qual o valor delas num mundo onde a fragmentação é cada vez fala mais alto? “Eu concordo que os textos fragmentados são tendência natural do nosso tempo. Só não concordo com uma certa visão fatalista e lamentosa disso. E acho que a tendência do romance é de decadência, sim. Há muito tempo se fala sobre isso. Mas também acredito numa posterior renovação, por que não? As coisas estão em eterna mutação e acredito que podem conviver e renascer”.

RUMOS

O programa Itaú Cultural: Rumos Literatura divulgou, no final do ano passado, os selecionados na categoria Literatura. O projeto, na categoria crítica literária (ambição de muitos estudiosos, por garantir um apoio financeiro e acadêmico para projetos de pesquisa), contemplou apenas um pernambucano. E engana-se quem pensa se tratar de um doutor em letras ou ao menos um graduando na área. Rodrigo Almeida tem apenas 22 anos, está terminando o curso de jornalismo e foi classificado com um trabalho bem inusitado sobre os processos interativos numa crítica literária atípica: a publicada no site colaborativo Overmundo.

O Overmundo permite que qualquer internauta ajude na construção do seu conteúdo, aprimorando o processo de circulação da informação. “Basicamente, meu ensaio pretende investigar as metamorfoses acontecidas – e que ainda estão em andamento – nas críticas literárias publicadas na internet, as diferenciando inclusive das publicadas em mídia impressa, tomando como objeto central de estudo o Overmundo”, explica Rodrigo, assumidademente fã de tecnologia, literatura e cinema. “No caso do Overmundo, além da palavra escrita propriamente dita, o colaborador pode complementar a crítica literária com fotos, vídeos, flash-art, arquivos de áudio, toda uma gama de recursos que são bem limitadas na mídia impressa. Não existe um formato pré-estabelecido para a crítica literária: ela se mistura, flerta com outros gêneros, torna-se outra”, complementa. O desafio de Rodrigo nesse trabalho é justamente fazer um paralelo entre o tratamento que a crítica literária recebe nas mídias ditas tradicionais e nos novos campos midiáticos. “Pretendo me focar na abertura que o mundo online dá a criação e divulgação do trabalho crítico”.

Em novembro passado, o programa realizou um colóquio entre todos os selecionados, para uma apresentação do mapeamento dos trabalhos inscritos. No encontro, a experiência de trocar idéias sobre o seu trabalho e o dos outros garantiu ao jovem pesquisador uma certeza maior da consistência do seu projeto. “Dentro do colóquio, achei que o meu projeto foi um dos mais contemplados tematicamente. Rolou uma oficina de literatura não-linear e todas as discussões sobre crítica literária contemporânea terminavam enveredando para o lado da tecnologia”. Para tal realização, o Itaú Cultural garante uma bolsa mensal de R$ 850 e R$ 400 em livros para o desenvolvimento do projeto, além do prêmio de R$ 1.800 pela publicação do texto.

Rodrigo termina a graduação esse mês, apresentando seu site de crítica crítica de cinema, o Dissenso (www.dissenso.wordpress.com), como o projeto de conclusão de curso. E uma nova etapa termina para que outra comece logo mais: ele acabou de ser selecionado no mestrado em comunicação da UFPE. ”Estou me formando agora em janeiro e em março já começo o mestrado. Tenho, sim, pretensão em seguir carreira acadêmica, mas o que quero mesmo é assumir um caminho interdisciplinar que envolva cinema, comunicação e literatura”, confessa.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

A palavra neutra 3x

Jules e Jim (1961), de François Truffaut

(Publicado originalmente no Dissenso)

Numa primeira visão desatenciosa, presa a uma mera busca vanguardista (o que era – é? – determinante no meu olhar durante minhas incursões pelo cinema da década de 60), não me parece muito difícil achar, atualmente, Jules e Jim (França, 1962), de François Truffaut um filme bobo. Talvez bobo até demais. Também não me parece muito difícil ainda no ritmo desse primeiro lampejo, refletir como a fortuna crítica dessa produção - elogiada repetidamente desde seu lançamento até hoje – soa um tanto excessiva, deslumbrada. As contemporâneas me parecem ainda mais idiotas cheias de repetições e repetições como se ainda estivessem em 1961. Afe Maria, como diria minha avó. Se formos ser sensatos e estabelecermos uma comparação próxima, o trabalho do cineasta francês se mostra pouco ousado diante do cinema que era produzido por seus contemporâneos (de Nouvelle Vague ou de não-Nouvelle Vague). E não tenho como negar que desde sempre me acostumei a preferir Godard à Truffaut, Resnais à Truffaut, Bresson à Truffaut mantendo uma imensa dívida por não conhecer melhor os cinemas de Eric Rohmer, Claude Chabrol e Jacques Rivette para poder seguir com a lista ou diminuí-la vertiginosamente. Para mim, o próprio Truffaut-crítico se destaca diante do Truffaut-cineasta.

Nunca disfarcei uma antipatia enorme pela simpatia enorme de François; sempre o considerei extremamente conservador e monotemático, tomando como parâmetro a diversidade e a ousadia das produções e opiniões de Godard. Não à toa o primeiro freqüentou razoavelmente o gosto do público, chegou até ser premiado com um Oscar com A Noite Americana (1973), enquanto o segundo, vez ou outra, caía na total indiferença, sendo inclusive referenciado como “o mais célebre dos esquecidos” pela revista Bravo. De fato, o exercício de linguagem em Jules e Jim se mostra uma tolice diante de uma obra-enigma como O Ano Passado em Marienbad, de Resnais, assim como simplório diante da liberdade criativa impressa nos formalismos, brincadeiras, metalinguagens e sarcasmos de qualquer filme de Godard. E não podemos nos esquecer, antes de tudo, que Truffaut e Bresson definitivamente não compartilham do mesmo preceito sobre a inocência: enquanto François a acolhe carinhosamente em seus braços, Robert a joga desnuda e sem defesas no mundo. Cada cineasta desenha o seu próprio caminho apesar do velho costume de colocá-los em um único pacote carimbado “nouvelle vague for the world”. Estou numa fase em defesa das individualidades construtoras de um coletivo fragmentado e entupido de contradições internas, em oposição ao coletivo centrado que minimiza os desvios pessoais em favor da rigidez de sua própria estrutura. É o que sinto enquanto espírito do meu tempo.

Essas primeiras palavras sobre Jules e Jim se deram também como resposta natural – obviamente não só isso – à maneira apressada, ansiosa ao qual me debrucei sobre o filme, graças ao meu desejo em revelar logo o mito-obra-prima de Truffaut tão falado, tão escrito, tão devotado cujo meu interesse não conseguia mais esperar. Depois de visto, continuou o mito. Terminei vendo no computador, antes mesmo do lançamento em DVD, com legendas traduzidas do espanhol por mim mesmo. No final de todo trabalho (em especial do longo e detestável processo de sincronização) Jules e Jim me pareceu apenas uma película extremamente normal, o relato de uma história extremamente qualquer, sem humor refinado ou incursões experimentais para lado algum: nem estético, nem no uso literário, nada. Sequer o possível confronto moral tão pontuado conseguiu resistir a todos esses anos. Uma decepção repentina me abateu e teve sim como uma das causas esse processo de desmistificação ao qual me submeti – essa coisa de traduzir, ver pedaços soltos para sincronizar, fazer revisões ortográficas tornou a sessão propriamente dita, um espetáculo tedioso. Antes das imagens, já tinha o texto todo na cabeça e confesso que imaginava tudo de uma maneira bem diferente.

Não faltaram queixas momentâneas: Jeanne Moreau não é tão atraente, nem tão charmosa quanto Anna Karina; sua personagem, Catherine, não é tão doce e sensual quanto as da mulher de Godard. Jim não é um amante vigoroso como o japonês de Hiroshima, Mon Amour e assim como Jules nunca entenderia a arte da pura malícia do Michel, de Acossado (França, 1960), de Jean-Luc Godard (e ironicamente roteiro de Truffaut) e do Michel, de Pickpocket – Batedor de Carteiras (França, 1959), de Robert Bresson (personagens que deveriam ter dado umas voltas juntos pelos subúrbios de Paris). É engraçado que minha aversão pelo filme colocou o exímio diretor de fotografia, Raoul Coutard, como deveras convencional, apesar de que já conhecer seus trabalhos com Godard e estes se firmarem em mim como deveras experimental. Mesmo diante desse compartilhamento, sugerir uma semelhança aos resultados estéticos seria uma nova tolice: Os incompreendidos, Atire no Pianista, Jules e Jim, Antoine y Collete (todos de Truffaut) mantém uma linha sóbria entre si muito mais consistente do que consegue estabelecer com Acossado, O Pequeno Soldado, Tempo de Guerra, Une Femme est une Femme, Viver a Vida e O Desprezo. Sem contar que internamente em seu conjunto Godard é muito mais versátil. Pois é sobrava antipatia pelo queridinho francês… precisava passar horas falando mal até estar perigosamente limpo para uma nova sessão.

Em todos os sentidos, o filme me soava menor ou pior se posto de frente aos seus próximos: como já disse, anteriormente, pode ser muito precipitado chamar de ’seus próximos’, afinal uma aproximação geográfica pode nos contextualizar diante de um momento histórico, mas não justificar a estética de cada cineasta. E não há como constituir uma regra quanto a isso. Truffaut trabalha a inocência de uma maneira muito lírica e bela, envolvendo suas personagens de uma aura pura, esperando que nos identifiquemos com sua felicidade e bondade: sem dúvida, isso era o que mais me irritava. Detesto esse complexo “A Vida é Bela”. Godard também se apropria da inocência, mas por outro lado termina tripudiando dela, tornando-a patética e saco de ironias. Isso fica muito claro em Tempo de Guerra (França, 1963) e Viver a Vida (França, 1962). Há um pessimismo cheio de humor intrigante que me fascina. Ok, também não se enganem tão rápido: essas são conclusões cruelmente apressadas pelo lado de Truffaut, pois estamos apenas no começo. E desatenciosos. Não quanto a Godard.


Só a possibilidade de assistir um filme pela segunda vez – experiência geralmente negada à maioria dos críticos – traz consigo a capacidade de colocarmos em diálogo duas impressões sobre a mesma obra, constatadas e refletidas em momentos diferentes, criando um fundamento maior de crítica e autocrítica. Além disso, há a facilidade de desde o primeiro segundo já sabermos tudo (ou aparentemente tudo), sem nos esquecer de toda maneira, como pontua Jacques Aumont no livro A Estética do Filme que “quando se fala de um filme, fala-se da lembrança do filme, lembrança já re-elaborada, que foi objeto de uma reconstrução” (Aumont, 1995, p. 265-66). Acho que essa reconstrução é permanente. Se por um lado não há tantas surpresas (e ainda há), por outro se entende melhor as personagens, seus gestos e pensamentos desde o início – afinal já presenciamos os desdobramentos dos atos ou as premissas que geraram tais atos (no caso de uma história ser contada em flashback). Desenvolve-se uma noção precoce e confortável de conjunto da obra, onde as impressões primárias do não-conjunto passam a ser questionadas.

Nesse sentido, não foi preciso esperar muito até re-visitar o filme em debate. Truffaut logo deu as cartas. Ao final dessa nova sessão, onde não por acaso já me encontrava contextualizado e de bom humor, foi possível traçar um paralelo entre um pensamento particular de Jules sobre Catherine e a minha nova opinião sobre o filme: “Ela não é especialmente bonita, nem inteligente, nem sincera. Mas é uma mulher de verdade e é essa mulher que amamos e todos os homens desejam“. Se na primeira instância nada, nenhum ponto específico chamou a minha atenção excessivamente, a partir de agora parece óbvio perceber (e sentir) o turbilhão de detalhes e histórias e sentimentos agregados à película. Até tecnicamente o filme se tornou mais ousado: seja pela edição rápida e estranha que acelera o fluxo da história repentinamente para desacelerar em seguida, seja pelas imagens congeladas de expressões essenciais das personagens. Catherine mostra como costumava ser rancorosa e como naquele exato momento estava alegre – 1 segundo, 2, 3 – ou o olhar de reencontro no pós-Guerra entre Jules e Jim que lutavam em lados opostos – 1 segundo, 2, 3. Um frame que permanece.

É inusitado que só então percebi o quanto Godard e Resnais estampam suas marcas desde o primeiro segundo de seus filmes, deixando muito claro o intuito de suas práticas de cinema, enquanto Truffuat (e mesmo Bresson) permanecem calmos, desenhando sem pressa seus quadros e expondo, delicadamente, suas idéias. Tudo num ritmo muito mais sutil e cheio de vida (‘vida’ – a tal palavra neutra em alemão). Isso me fez lembrar uma frase do Cristian Metz, presente no livro Introdução à Teoria do Cinema, de Robert Stam: “filmes totalmente desconstrutivos exigem uma transferência libidinal em que as satisfações tradicionais são substituídas pelos prazeres do domínio intelectual, por um sadismo do conhecimento. O prazer do brinquedo transforma-se no prazer de quebrar o brinquedo” (grifos meus – Stam, 2003, p. 173). Esse pensamento me trouxe uma idéia de autocrítica imensa: as razões que justificavam o meu gosto pela obra de um e o não-gosto na obra do outro passavam a não ter uma diferença bem definida, pois eu simplesmente tinha trocado o gosto do brinquedo (Truffaut), pelo prazer de quebrar o brinquedo (Godard).

Óbvio que não passaram três dias até eu considerar essa idéia precipitada, apesar de valer como mote de reflexão sobre a validade de qualquer processo desconstrucionista. Fica um pouco mais fácil diferenciar a desconstrução parnasiana da desconstrução reflexiva: torna-se essencial questioná-las repetidamente para saber o que sobra além do exercício formal ou do impacto pelo impacto. Por outro lado, comecei a enxergar que nem todo trabalho linear e narrativamente correto demais devia ser taxado de antemão com desprezo. Isso sem dúvida redirecionou o meu olhar sobre Jules e Jim: nunca mais ia considerá-lo um filme bobo, nem uma mera tolice superestimada. Finalmente começava a me dar conta da força artística do que estava diante de mim. Mas nem tudo mudou fantasiosamente: continuava preferindo Godard à Truffaut, Resnais à Truffaut, Bresson à Truffaut ao mesmo tempo em que já começava a achar meio idiota, quando essas comparações se tornavam uma predisposição diante dos filmes ainda não vistos (ansiedade positiva e apaixonada para um Godard, negatividade dos infernos e antipatia à um Truffaut). Essa pré-disposição é difícil de controlar e assim o sendo o crítico-François continuava superando o cineasta-François.


Nessa segunda visão, depois de todo debate existencial anterior, passei a perceber o ritmo simbólico ao qual Truffaut submeteu seus personagens, colocando cada sentimento em seu devido lugar, criando um enlace incorruptível entre eles. Jules e Jim não se resume a uma única história, mas várias e várias e várias. Truffaut utiliza pequenos contos aparte do eixo central e põe suas crias ficcionais para contá-las e contá-las. Assim como o narrador conta a história do próprio filme. E nada melhor do que descobrir a personalidade de alguém, a partir das histórias que ela expõe. Não só o teor da história, não só a lembrança por si só, mas o modo de encadear as palavras, a expressão ao falar ou mesmo a opinião implícita no porquê daquela determinada história naquele determinado momento. São fábulas incríveis contadas por personagens incríveis. No filme, também não demora muito até que o comportamento dos três esteja conjugado ao ponto de se tornarem partes de um movimento único, por mais que ostentem visivelmente diferenças enormes. Os diálogos agradecem e a juventude logo se identifica.

Durante o caminho de reflexão terminei entrando num questionamento ainda mais profundo: passei a acreditar que se identificar com a inocência é muito mais complicado do que com a não-inocência. É um movimento que despe o espectador de uma série de defesas pessoais e naturais: é mais confortável se mostrar firme, que frágil; mais fácil se entregar ao menos para mim ao extremo do sarcasmo, que ao extremo da ternura. Devíamos conseguir bailar entre essas diferenças sem pudores, criando um ambiente neutro, como a ‘vida’ em alemão. Jim e Catherine conseguiram bailar, mas não pararam. Vaguearam sem pudor ao mais fundo do amor e do ódio sem encontrar um porto seguro. Jules nunca conheceu tais extremos – e ele sim, é um personagem difícil de nos associarmos, apesar de toda sua beleza humana. Uma beleza ideal e distante.

O terceiro momento diante da obra aparece como decisivo, como um aprofundamento do segundo. Truffaut parece ficar mais charmoso a cada nova visita. O nosso último encontro se deu depois da leitura do romance homônimo, escrito por Henri Pierre Roché, que serviu de inspiração ao filme. Jules e Jim é uma adaptação impressionante – Truffaut captou a essência das personagens de maneira tão profunda, que conseguiu misturar cenas literalmente transferidas do livro para o filme, palavra por palavra, como outras de sua própria criação sem que se formasse uma diferença espiritual entre essas duas formas. Quando fui ler o livro naturalmente transferi os caracteres de Oscar Werner para Jules e de Henri Serre para Jim (acredito que esse seja um processo natural desse diálogo), da mesma forma que quando voltei ao filme, entendi mais do que nunca, que os personagens estavam sendo interpretados de maneira excepcional (apesar de inicialmente ter tido uma dificuldade imensa em simpatizar com eles). As adaptações são sempre questionadas como piores que o original, como vulgarização do original, mas nesse caso essa relação se dá de maneira diferente. Truffaut descobriu o livro num sebo, escreveu uma crítica positiva sobre, recebeu uma carta do autor, conversou com o autor e trocou correspondências, sugeriu a adaptação, pensou em fazer o roteiro a quatro mãos. Roché morreu antes disso. Truffaut fez o filme. O livro – antes menosprezado pelo público – se tornou um Best Seller. Acho que essa fraternidade de admiração mútua entre os dois – um jovem cineasta e um velho intelectual – criou uma aura diferenciada em ambas as obras. “Duas Inglesas e o Amor”, outro livro do Roché – também desconhecido – seria adaptado por Truffaut em 1971. A aura se reforça.

Ainda sobre Jules e Jim (que recebeu na versão brasileira o subtítulo ‘uma mulher para dois’) é preciso dizer que franqueza do filme se sustenta a partir de uma profunda amizade entre os personagens-título. Uma relação de extrema maturidade, de uma grandeza que poucos experimentam em vida. Há segurança e é realmente muito bonito. Se escreviam um romance, caíam naturalmente na autobiografia e no enlace dos seus dias. Se lutavam na guerra, em lados opostos, tinham medo de nas trincheiras terminarem matando um ao outro. Ainda assim, nem Jules, nem Jim formam o eixo dessa história. A força motriz se chama Catherine. Força que tudo harmoniza, que tudo abala. Mulher, amante, mãe. Gentil, severa, louca. Não demorou muito até que os dois rapazes estivessem apaixonados, rendidos, desarmados. E nada mais charmoso do que delegar essa posição de balanço e contrabalanço a uma mulher (e a uma mulher com a força representativa de Jeanne Moreau – com olhos expressivos de Jeanne Moreau). Nada mais intenso. Nada mais feminino, apesar dessa posição ser vinculada comumente à idéia de masculino. Essa inversão é essencial.


“Catherine vai a fundo em todas as coisas, uma por uma. É uma força da natureza que se exprime através de cataclismos”, comenta Jules com toda sua sabedoria. No filme essa situação se agrava pela personagem constituir além de si mesma, a condensação das personalidades de diversas outras mulheres presentes apenas no livro. Isso a torna mais onipresente e poderosa. Os três iniciam um tempo juntos, cercados de belos quadros, apostando corridas, indo à praia e ao teatro, trocando palavras e histórias. Uma explosão de vigor juvenil e uma cumplicidade incrível os envolve, mas ambas logo se deterioram. Entre os dois rapazes e a moça sempre existiu uma força que os aproximava vorazmente, que os puxava um para perto do outro. Antes, essa força os tornava felizes, mas em dado momento se torna mais voraz e destrutiva impulsionada principalmente por Catherine. Uma dama como ela não pode se sentir menosprezada ou devora sentimento por sentimento, lembrança por lembrança.

Todos os relacionamentos escondem ambigüidades, por mais belas que sejam suas exteriorizações iniciais. A velha história do deslumbre inicial que se desfaz gradativamente. E não é diferente com Jim e Catherine, apesar de Truffaut indicar durante boa parte do filme que aquele amor e somente aquele amor podia ser diferente dos outros, podia não se esvaziar ao longo do tempo. Continuamos acreditando no potencial da pureza e proteção de Jules mesmo quando os problemas se instauram de forma irremediável. Logo a relação envelhece, expõe as feridas coletadas com o tempo e formada por instintos particulares. Pois é, Truffaut nos enganava: a morte de suas personagens preenchidas de inocência soa melancólica (tenho que confessar que não me emociona nem um pouco e olhe que eu choro às vezes vendo propaganda na tv). Toda felicidade e todo sofrimento presentes nessa película tem uma única fonte: o amor que compartilhavam entre si. Nada mais sincero, aliás. Truffaut criou o seu turbilhão assim como a canção faz lembrar. E vale ressaltar que ver Jeanne Moreau cantando impressiona em todos os momentos. No primeiro, no segundo, no terceiro.

* Queria apenas deixar registrado um comentário sobre a péssima qualidade das legendas presentes no DVD do filme lançado pela Versátil. Na internet se encontram traduções mais interessantes, realizadas por não-profissionais. Na literatura há um pensamento sobre o trabalho de tradução infinitamente mais profícuo e denso, que nas obras cinematográficas. Sinto que o trabalho de legendagem é sempre delegado a um segundo plano. Além dos erros ortográficos, sobram resumos do que foi dito literalmente e acontece até traduções equivocadas (erradas mesmo), que modificam o significado, como na cena em que Jules fala a Jim “Para Catherine apenas uma fidelidade é importante: a do outro” que terminou legendada como “Para Catherine apenas a fidelidade é importante ao outro“. Uma simples mudança que trouxe uma grande mudança.

Jules e Jim. França, 1961. Direção: François Truffaut Roteiro: François Truffaut e Jean Gruault, baseado no romance de Henri-Pierre Roché Fotografia: Raoul Coutard Trilha Sonora: Georges Delerue Elenco: Jeanne Moreau, Oskar Werner, Henri Serre, Boris Bassiak, Marie Dubois, Sabine Haudepin.

Para baixar: Jules e Jim

Referências Bibliográfica:

AUMONT, Jacques e outros. A estética do filme. Campinas, SP: Papirus, 1995.
Outros autores: Alain Bergala, Michel Marie, Marc Vernet.

ROCHÉ, Henri-Pierre; TRUFFAUT, François. Jules e Jim: o romance, o roteiro; tradução de André Telles. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2006.

STAM, Robert. Introdução à Teoria do Cinema. Campinas, SP: Papirus, 2003.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Editorial - Dissenso

(Publicado originalmente no Dissenso)

Tentarei ser o mais breve possível: é difícil explicar as pretensões de qualquer novo projeto sem cair num conjunto de palavras repetidas ou explicações óbvias que, se usadas equivocadamente aqui, podem vir a criar certo impasse ou um paradoxo diante dessa idéia de ‘novo’. De fato, preciso dizer que nem tudo começa agora, afinal não sou presunçoso o suficiente para descartar todo legado crítico anterior em favor dos modismos discursivos. Entretanto, sempre acreditei ser mais interessante esperarmos que cada um tire suas próprias conclusões sobre um objeto a ser refletido, para que, então, pudéssemos confrontar uma série de idéias, opiniões e repertórios. De qualquer forma, essas palavras previamente escritas não vão retirar o livre-arbítrio de ninguém, nem menosprezar a proposta em si: a reflexão pela reflexão se estabelece desde já e não só pelo recorrente tom de provocação. Essa página pretende se firmar como um espaço de debate sincero entre cinéfilos, constituindo uma espécie de amizade intelectual entre eles, a partir da publicação de escritos sobre cinema não determinados ou delimitados pelo gênero da crítica ou do ensaio, mas que possam flertar com crônicas, ficções, com a linguagem da internet e outros desvios, desde que compartilhem de um estilo literário individual e de uma capacidade reflexiva e imaginativa densa. Estamos aqui para pensar na possibilidade do escritor – e não sei se deveria usar jornalista nesse caso – assumir um estilo particular ao escrever, provocando seu leitor através de pequenos chistes ou jogos de palavras, mas sempre fugindo dos desvios repressivos, sem se enrolar em inibições literárias ou temores gramaticais. É preciso ser um pouco como Dean Moriarty, de On the Road: um pouco ousado que seja. É preciso se desvencilhar dos caminhos preconcebidos, da quantidade-limite de palavras e termos e da falsa liberdade de imprensa: a ânsia quase desesperada por velocidade, concisão e objetividade na informação só torna o resultado menos profundo, não outra coisa. É preciso encontrar um anti-formato – que nem precisa ser tão ‘anti’ assim – mas que nos compreenda, não nos rotule e nos posicione enquanto tal.

A idéia dessa página, assim como todo desenvolvimento posterior dela se deu graças ao aprofundamento (e entrega) de meu estudo e amor pelo cinema, simultaneamente ao repúdio diante de diversas questões que envolvem os meios de comunicação tradicionais: não entendo a noção de um único centro-tirano emissor de informação, nem o motivo pelo qual o jornalismo se tornou tão seco e rígido; tão preso a uma linha editorial conservadora, marcada por um pensamento rasteiro e estruturas menores. Não me sinto parte das notícias objetivas e objetivas, das manchetes ordinárias submetidas ao mercado, nem das opiniões que se repetem uniformemente. Não me identifico e até entendo quem o faz. Sobram motivos dos mais variados. Na página Dissenso não estamos interessados nas palavras que se assumem como verdade diante dos fatos, nem nas que pretendem explicar a arte em critérios científicos e rígidos ou meramente descrever e contar sinopses. A própria arte não pede essa domesticação: o que caracteriza o trabalho artístico é a impossibilidade de redução do enigma criativo. Assim sendo, o perfil jornalista impresso, televisivo, radiofônico nos soa ultrapassado enquanto não desperta para uma produção de sentidos próxima de um artista transmídia e livre. De fato, estamos distantes da lógica de guia de consumo ou do agendamento imposto aos críticos tradicionais – disponibilizamos, inclusive, os links de todas as obras sobre o qual nos debruçamos (com exceção das que não existem previamente na internet), não só para que o debate se torne mais fecundo, mas porque acreditamos no compartilhamento como forma de democratização ao acesso de obras e informações – a política contrária sempre marginalizou grande parcela da população. Não se pode ficar omisso quanto a isso (ou ao menos até nos processarem ou nos patrocinarem).

Queremos desvincular os escritos sobre cinema da relação com o consolo instantâneo, fundando um ambiente de reflexão, perturbação e disseminação de sentidos. Se por acaso estiver procurando estrelinhas como cotação esse definitivamente não é o lugar certo. Basta virar à esquerda ali atrás que não vão faltar opções – algumas interessantes inclusive. Não posso esquecer que vários críticos conseguem superar as amarras impostas pelo sistema que os envolve, alguns o fazendo até com muita classe. Preciso sempre entrar nessa ressalva da exceção para não soar generalista, mas acredito plenamente que todos sabem bem sobre qual jornalismo estou me referindo. Digamos que é um implícito gritante. Estamos aqui para discutir incessantemente novas teorias, práticas, pontos de vista e compartilhar nossa paixão pelo cinema. Ou seja, você só é bem vindo se tiver uma opinião a defender. Essa página também não pretende se firmar como a instituição de uma voz, mas como uma confusão de vozes e sussurros, de discursos que se complementam e se sobrepõem. A internet não foi escolhida como meio por acaso ou por facilidade (e também por facilidade), mas principalmente por abrir caminhos no desenvolvimento da própria linguagem (através do hipertexto, inserção de podcasts e vídeos, por exemplo), por criar condições de se sustentar numa aparente liberdade (podemos ser irônicos, obscuros, sinceros e sarcásticos até cansar ou até se cansarem de nós) e essencialmente por tornar possível o interdiscurso através da colaboração e da interatividade. Sem contar que o alcance dos escritos se torna infinitamente maior – saímos do cercadinho de sempre, da fazendinha de sempre. Ainda nos demoramos muito num sistema jornalístico ultrapassado. Não precisamos ser tão passivos, nem melar as mãos com papel sujo para ler um encadeamento de palavras insípidas ou meramente publicitárias (ou anti-publicitárias) que, pelo bem ou pelo mal, estarão lotando o lixo de amanhã. Até os ambientalistas e as plantinhas vão agradecer. Há algum tempo que o jornalista não exerce mais o papel de gatekeeper. Existem outros caminhos. A crítica – ou como você quiser chamá-la – não pode mais ser encaminhada numa linha normativa; precisa se libertar de amarras direcionais e traçar seu próprio caminho (também não tomando o anti-normativo como regra).

É sempre importante ter o domínio sobre as estruturas antes de criticá-las; importante o bastante para poder desconstruí-las, remontá-las e tocar fogo em tudo sem ter de pagar a conta ao final. A Universidade me ajudou muito nesse sentido – as cadeiras de redação não foram de todo em vão. Obrigado a todos, apesar de tudo. Essa página também pretende se fincar como um espaço onde a leitura se concretiza enquanto encontro do discurso do leitor com o discurso do autor, produzindo durante esse contato significados mil – e onde todos os rostos estão bem revelados. Em Dissenso quem assina o texto ainda é estritamente responsável por ele. Já passou o tempo de se esconder atrás das linhas editorais ou do anonimato vazio. É preciso assumir o rosto e levar a tapa quando necessário (como as que eu levei na defesa deste mesmo projeto). Precisamos nos desprender de textos idênticos e escritos por qualquer um, afim de privilegiar os que possuem um caráter e são elaborados pontualmente por alguém. Por favor, não nos deixemos levar pelo ‘Ctrl C + Ctrl V’, pois já estamos estigmatizados demais como a geração dessa maravilhosa e maldita combinação. Ainda prefiro o Ctrl Z ou o Ctrl F. Há também um reposicionamento do leitor nesse processo: devemos escolher o tipo de texto de nossa preferência, afinal somente nós mesmos somos responsáveis por isso. Não esqueçamos que o mais interessante ainda é encontrar o seu próprio espaço, responder por seu discurso, ser responsável por cada uma das escolhas – do design aos possíveis patrocinadores – e estar presente em todos os resultados. Acredito que a produção textual mais autêntica ainda parta dessa premissa. É mais complicado e menos glamouroso é bem verdade, mas quem se importa com glamour num calor desses?

Não estamos aqui para trabalhar pelo consenso, mas pelo dissenso, pelo debate das idéias que se diferenciam, se confrontam, se devoram; pela substituição do determinante pelo ambíguo ou pelo ponto de vista duplo. Estamos aqui para tornar a conclusão apenas o mote de uma nova e nova discussão. Todos os cinéfilos – resgatando o sentido não pejorativo da palavra – estão convidados. Nem tudo é novo todos sabem, mas continuaremos mesmo assim.

Para colaborar ou se tornar um colaborador fixo envie um e-mail para cinedissenso@gmail.com

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Coexistência e Transmutação: Resnais, Tarkovski

O Ano Passado em Marienbad (1961), de Alain Resnais
O Espelho (1974), de Andrei Tarkovski)

(Publicado originalmente no Dissenso)

Não há dúvida de que poderia escrever (e não só eu) um ensaio inteiro, apenas sobre os travellings paralelos em O Ano Passado em Marienbad (França / Itália, 1961), de Alain Resnais (e Alain-Robbe Grillet?), onde o movimento corta o movimento, onde a câmera percorre um espaço imutável, isolado (que pode ser em Marienbad, Baden-Salsa, Frederiksbad), entre corredores, salões, portas e corredores, capturando a coexistência de diferentes tempos, sonhos, memórias, projeções e delírios. Mas, sinceramente, depois do ensaio anterior, falar simplesmente sobre travellings se tornaria um tanto repetitivo. Ainda que aqui exista um diferencial muito claro: a câmera se move não apenas de um cômodo para outro, mas o faz, num mesmo plano-sequência, a partir do espaço-momento suspenso de onde o narrador X descreve o ambiente, ações, gestos e encontros diretamente para suas lembranças (ou lembranças-falsas); para seus sonhos (ou sonhos-inventados); para estados mentais ou desejos encobertos e revelados. E durante esse movimento vagaroso, esse mesmo narrador se encontra enquanto personagem X (ou enquanto narrador) dentro de sua própria história, direcionando suas palavras de maneira persuasiva para sua ouvinte/amante A (ela nega, confirma, hesita), reflexiva para si mesmo e assertiva para o espectador. Quando não inverte e mistura todas essas enunciações – o que torna tudo deliciosamente mais ambíguo.

Há uma síntese – numa descontinuidade aparentemente ilógica – onde todas essas formas de contar um encontro passado (ou um encontro passado fictício, projetado) se unem sob a efígie de uma única realidade. E claro que falar em realidade (a maioria falaria numa não-realidade) pode parecer uma contradição diante da experiência da obra de Resnais, entretanto, o próprio conceito de realidade se transforma. Quem nos dá as diretrizes nesse sentido é o próprio diretor no livro esgotado nas livrarias French Cinema, de Roy Armes: “realismo não consiste apenas em filmar nossa conversa, mas também em mostrar as imagens que aparecem na minha cabeça durante esse momento” (Armes, 1970, p. 123). Há uma série de sutilezas, como as mudanças repentinas no figurino da personagem feminina, que indicam alguns caminhos não seguros em O Ano passado em Marienbad, onde a visão externa dos personagens, o ambiente suntuoso e o imaginário particular estão a todo o momento dialogando: se interpenetram e se influenciam mutuamente. Se em Hiroshima, Mon Amour (França, 1959), seu filme anterior, a diferença entre o momento-presente e o momento-passado aparece bem demarcada, aqui essa linha se torna tênue o suficiente até desaparecer por completo (a idéia de continuum). Todos os tempos convergem em um só tempo. Alain Resnais reconstrói a memória se desfazendo dela como massa uniforme, pincelando da mesma maneira como os pintores cubistas concebiam o espaço do objeto: diferentes e confusas perspectivas numa única tela.


Podemos aprofundar esse pensamento em O espelho (União Soviética, 1974), de Andrei Tarkovski, onde também há essa idéia de coexistência, sendo aqui marcada pelo apontamento de uma vida à outra, de um único tempo convergido através de diferentes memórias. Uma série de elementos de períodos distintos (como a mãe velha que pertence ao tempo atual caminhando com os filhos novos de uma época já transcorrida) são colocados em convivência, criando imagens que não são nem completamente passado, nem completamente presente, mas os dois de forma simultânea. Essas memórias se misturam formando um reflexo eternamente distorcido (e em um eterno processo de distorção). Trata-se de uma espécie de transmutação a partir de um sonho ou flerte com o passado; das sobreposições de um tempo por outro, como uma lembrança modificada pelo presente. O pai se torna o filho em suas memórias da guerra. A mulher se torna a mãe nas lembranças de infância do marido. O filho sente ter vivido anteriormente (‘déjà vu’) numa casa em que visita pela primeira vez. Também não há dúvida que poderia escrever (e não só eu) um ensaio inteiro sobre os travellings dessa obra (ou de toda filmografia do cineasta russo), afinal já se tornou clássico discorrer linhas e linhas sobre seus longos planos-sequência. Não quero, por ora, repetir esses chistes.

De fato, os planos de Tarkovski não resumem seu teor reflexivo, apenas pelo tempo literal de duração (podemos aqui pontuar, inclusive, experiências mais ousadas nesse sentido como Festim Diabólico (EUA, 1948), de Alfred Hitchcock ou Arca Russa (Rússia / Alemanha, 2002), de Aleksandr Sokúrov), mas por possuírem e alargarem um tempo espiritual próprio, revelando uma expressão da vida, para além da ilustração. Isso é bem indicado pelo intimismo autobiográfico e metafísico das imagens, pela transformação sucessiva e não determinante da fotografia, pela inserção de documentários antigos russos e estrangeiros ou mesmo através das trucagens simples, como a variação para mais ou para menos fotogramas por segundo (que se torna quase imperceptível, mas sensível – em especial nos longos travellings). A imagem está no tempo e tem o tempo dentro dela. Há em O espelho uma série de cenas naturalistas, que se transmutam em metáforas e cenas metafóricas que se transmutam em naturais: a rajada de vento que balança o gramado é apenas vento e não é; a mulher que levita sobre a cama é a representação poética de um estado interior banal e não é. Tarkovski em seu livro Esculpir o tempo (obrigatório a qualquer amante da arte cinematográfica e infelizmente também esgotado nas livrarias) faz referência ao haicai, como uma fonte de inspiração estética ao afirmar que esse tipo de poesia japonesa “cultiva suas imagens de tal forma que elas nada significam para além de si mesmas, ao mesmo tempo que, por expressarem tanto, torna-se impossível apreender seu significado final” (Tarkovski, 1990, p. 123 / 124).


Tanto Marienbad, como O espelho suscitam uma idéia de labirinto, que transcende as estáticas barreiras impostas classicamente ao tempo (e suas indeterminações) e ao espaço (e seus desdobramentos) – sem descartar a complexidade dos diferentes estados de consciência. Para o espectador tentado a encontrar uma delimitação racional nessas obras, procurando incessantemente uma saída qualquer, uma solução fácil não vai encontrar outra coisa, senão uma seqüência de paredes de concreto. Corredores, portas, salões e corredores. Não precisamos de um guia prático. Nesse sentido, é muito simples – quase cômodo – taxar essas duas produções de impenetráveis: o problema não está tanto nas obras (e como está), mas na maneira de percorrê-las. Akira Kurosawa, certa vez – escrito disponível integralmente no DVD de extras de O espelho – respondeu algumas críticas à obra de Tarkovski (e que coloco aqui também para Resnais) afirmando que ‘temos de ter consciência da maneira fragmentada, com o qual nos relacionamos com nossas próprias lembranças’, sobrepondo fatos, esquecendo detalhes, ressaltando detalhes, distorcendo histórias, formulando descontinuamente nosso próprio labirinto. Natural que todos os coadjuvantes se tornem zumbis. Ao invés de justificar ou explicar os labirintos, podemos nos focar num embate, num meio de confrontá-los, compará-los, torná-los nossos durante a projeção (ou não-projeção). O mesmo se dá quando três amigos diante de uma mesma estátua criam três histórias diferentes. Há como separar o que é estátua de quem sou eu? É uma pena que parte dos verdadeiros amantes do cinema se tornem estritamente técnicos, perdendo parte da percepção primitiva tão cara a filmes como esses: contam minuciosamente os segundos dos travellings ao invés de montarem e desmontarem as horas em seus relógios.

Esqueçamos a razão cartesiana e o tempo newtoniano como parâmetros de verdade. Como podemos colocar os critérios antes das obras se o próprio processo de criação segue caminhos bem peculiares e não programados: Tarkovski acrescentou várias cenas durante as filmagens, com todo material pronto realizou cerca de 20 cortes diferentes, além de esconder dos atores durante a produção uma idéia de conjunto do próprio filme (fazendo com que trabalhassem independentemente cada cena, sem saber os caminhos seguintes de suas personagens). Mesmo me arriscando a criar um estigma desnecessário, é preciso ressaltar que tanto O espelho quanto Marienbad são filmes-ruptura. Não que iniciem algum movimento específico e glamouroso. Nada disso. Mas por firmarem densamente uma desestabilização da narrativa clássica, do tempo clássico, do espaço clássico (dos critérios clássicos). Ambas as produções permanecem suspensas, causando impactos e novos impactos até mesmo nos espectadores contemporâneos, antenados a meia dúzia de desconstruções diárias. Acredito que apenas David Lynch consiga causar semelhante impacto atualmente. Não à toa ambos os filmes inspiraram uma série de textos e reações (como cartas que o cineasta russo recebeu), pouco preocupadas em discutir um dito hermetismo formal e vazio (que foi reforçado por parte dos críticos cheios de critérios), para desenvolverem linhas extremamente intimistas, que apesar de se sustentarem numa subjetividade imensa causam mais impacto reflexivo que qualquer conjunto de palavras secas (ou padrões jornalísticos). “O espelho não é um filme sobre mim, mas sobre meus sentimentos” poderia dizer (e escreveu) Tarkovski e poderia escrever você. Existe, de fato, um pudor diante dessa possibilidade da auto-ficcão: parece difícil entender esse caminho apenas como uma forma de refletir sobre situações muito amplas, a partir de casos específicos e híbridos (acontecidos e não-acontecidos). É como falar de toda vida, a partir de uma simples vida.


A representação desse pensamento se dá através de uma carta de uma espectadora de Gorki ao diretor russo: “Obrigado por O espelho. Tive uma infância exatamente assim, mas você como pode saber disso? Havia o mesmo vento e a mesma tempestade… ‘Galka, ponha o gato para fora‘, gritava minha avó… O quarto estava escuro… e a lamparina a querosene também se apagou e o sentimento da volta de minha mãe enchia-me a alma… E com que beleza você mostra o despertar da consciência de uma criança, dos seus pensamentos! E, meu Deus, como é verdadeiro… nós, de fato, não conhecemos o rosto das nossas mães. E como é simples… Você sabe, no escuro daquele cinema, olhando para aquele pedaço de tela, iluminada pelo seu talento, senti pela primeira vez na vida que não estava sozinha…” (Tarkovski, 1990, p. 5). Alguns críticos e até amigos acusaram Tarkovski de seu filme ser apenas uma insípida viagem ao próprio ego (as autoficções geralmente são taxadas de ‘certa literatura’ pejorativamente, assim como no jornalismo se busca cada vez mais uma impessoalidade nos textos). Parte da equipe técnica – previamente formada – se negou a participar da produção. E agora me pergunto: o que sobra dessas acusações premeditadas diante das palavras tão sinceras da carta aqui reproduzida ou da própria experiência fílmica? Não sobra nada. Todos esses comentários – cheios de critérios – se esvaziam.

É óbvio que também não ficarei (e não só eu) na percepção primitiva para sempre – acreditar nisso não passa de uma utopia idiota. Mas aproximar um discurso teórico, de uma experiência pessoal poética, distancia qualquer escrito da chatice do jornalismo diário, da leitura que vai para o cesto de lixo no dia seguinte. Depois desse adendo, sigamos em frente: apesar dos dois filmes terem como questão central a memória (o próprio Resnais é referenciado comumente como cineasta da memória e Tarkovski não estaria tão distante desse título – ou rótulo), não é possível perceber a utilização do recurso narrativo dos flashbacks para percorrer o passado, já que não existe um tempo-referência fixo, mas uma coexistência e transmutação em diferentes ramos. O próprio flashback – que nos primórdios do cinema aparecia como uma transgressão – se configura atualmente como um procedimento convencional (e até didático), pois demarca estritamente em pontos antagônicos o passado, o presente e o futuro, colocando na passagem entre eles uma neblina, um colorido que vira preto e branco, referências óbvias a mudança de tempo: “como se houvesse um leitreiro: atenção, lembrança!” ironiza Gilles Deleuze, em seu livro A imagem-tempo (obra que apesar de não referenciada até agora, está diluída em todo esse texto). O filósofo francês desenvolve um confronto entre a imagem-movimento e a imagem-tempo, essa última tendo como marca essencial a indiscernibilidade de pólos tidos anteriormente como opostos: não serão buscadas situações ópticas e sonoras puras do objetivo ou do subjetivo; da realidade ou do imaginário; do físico ou do mental, mas uma série de opsignos e sonsignos – como ele mesmo nomeia – responsáveis pela comunicação estreita entre esse antagonismo e responsáveis para que toda essa estrutura maniqueísta se esgote (tendo então os hyalosigno). Penso no jogo presente no filme de Resnais onde o convidado sempre perde para o jogador experiente e passa a tentar explicar suas derrotas com “quem começa ganha” ou no oposto “quem não começa ganha” até se dar conta que seu adversário ganha todas – indiferentemente de quem começou. O jogo não era impenetrável ou impossível de ser ganho, apenas os caminhos escolhidos pelo iniciante é que não revelavam sua lógica. O mesmo perigo surge diante de nós e temos de ser cautelosos para não passar várias rodadas sem sair do lugar.

O Ano Passado em Marienbad, O espelho e mais recentemente 2046 (China / França / Alemanha / Hong Kong, 2004), de Wong Kar-wai e de forma até mais radical Império dos Sonhos (EUA, 2007), de David Lynch funcionam como um grande movimento destoante da narrativa clássica, por apagarem o pontilhado e as placas de aviso entre todas as fronteiras de imagens-sonhos, imagens-presente, imagens-lembrança (e no caso de Lynch, entre realidade e ficção cinematográfica). O que vemos não é mais um encadeamento de fatos previsíveis e racionais, nem, como pontua Deleuze, “o curso empírico do tempo como sucessão de presentes, nem sua representação indireta como intervalo ou como todo, é sua apresentação direta, seu desdobramento constitutivo em presente que passa e passado que se conserva, a estrita contemporaneidade do presente com o passado que ele será, do passado com o presente que ele foi” (Deleuze, 2005, p. 325). É engraçado lembrar que apesar de toda constituição anti-narrativa, tanto Tarkovski, quanto Resnais recorrem a um rigor técnico e uma beleza plástica imensa: a fotografia em Marienbad – cujo todo ambiente remete à uma cultura clássica – ficou sob a supervisão de Sacha Vierny, que trabalhara com Resnais desde Noite e Neblina (França, 1956) e que mais tarde assumiria a mesma função nos filmes do Peter Greenaway. Os dois filmes parecem coexistir numa única suspensão, aparte da forma tradicional de se contar uma história, distante da montagem que coloca presentes sucedidos por presentes até o final feliz mais óbvio. Compartilham, inclusive, de um denso viés literário: em Marienbad, através de Alain-Robbe Grillet, com seu texto marcado por características do Nouveau Roman (descrição, repetição…) e em O espelho, através de Arseni Tarkovski – pai do diretor – que declama seus próprios poemas em vários momentos do filme. Nesse sentido, (e mesmo me colocando como responsável por essa mediação) ambas as obras criam pontos infinitos de convergência, de entrada e saída entre elas, causando após sessões seguidas e seguidas, uma possível transmutação. O espelho parece cada vez mais conter um pouco de Marienbad e Marienbad parece cada vez mais conter um pouco d’O espelho. Permanecem suspensos e calmos à espera de um espectador desavisado.

O Ano Passado em Marienbad. França / Itália, 1961. Direção: Alain Resnais. Roteiro: Alain-Robbe Grillet Fotografia: Sacha Vierny. Trilha Sonora: Francis Seyrig Elenco: Delphine Seyrig, Giorgio Albertazzi, Sacha Pitoëff. 94 minutos.

O Espelho União Soviética, 1974. Direção: Andrei Tarkovski. Roteiro: Aleksandr Misharin e Andrei Tarkovski. Fotografia: Georgi Rerberg. Trilha Sonora: Eduard Artemyev Elenco: Margarita Terekhova, Ignat Daniltsev, Larisa Tarkovskaya, Alla Demidova, Anatoli Solonitsy. 108 minutos.


Para Baixar: O Espelho.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Sobras 2

Ou não-projeção já que dificilmente essas obras serão vistas numa sala de cinema tradicional – a não ser que entrem na programação de algum cineclube, como os vários cineclubes não-cineclubes que existem em Recife (afinal cineclube não é simplesmente eleger filmes aleatórios, pegar numa locadora perto para facilitar, colocar no dvd player e apertar o botão). Sinceramente, o movimento cineclubista contemporâneo (não que haja, de fato, um movimento) precisa atentar para a lógica de compartilhamento de filmes na internet e fundar a base de sua programação e discussão (cineclube não é apenas projeção e ponto) em filmes que não tem veiculação comercial no país. Não esqueçamos que isso inclui o próprio cinema nacional.

domingo, 16 de dezembro de 2007

A Persistência da Memória


No decorrer da história do cinema, não foram poucos os flertes entre a linguagem audiovisual e a literatura. E também não foram poucos os filmes que na tentativa de enlaçar esses dois campos, terminaram por suplantar um ou outro. Quando não ambos. São os filmes que possuem um texto articulado, proveniente de uma base literária, mas sem nenhum apuro imagético, ou os que até possuem um apuro imagético, mas não conseguem rearranjar o conteúdo lingüístico na tela. Afinal elaborar um roteiro não é o mesmo que escrever um livro por mais abrangentes que sejam as possibilidades. É muito fácil qualquer frase bonita soar patética ou qualquer bela imagem tornar-se desencontrada. Essas produções perdem qualquer tipo de consistência, a partir do momento que os seus próprios recursos se tornam incompatíveis dentro de uma única obra, a partir do momento que o discurso e a estética se fragmentam em pesos desiguais. São diálogos que não cabem nos personagens, narradores poéticos em olhares precipitados ou expressões faciais que não dizem nada.

Hiroshima, Mon Amour (França, 1959), de Alain Resnais, porém, segue por um caminho bem distinto. A película impressiona pela maneira como o vigor literário não enevoa, em nenhum momento, o poder imagético do filme. E como a música aparece como um terceiro viés, intensificado e retificando a proposta enquanto narrativa. Esses elementos estão sempre se renovando na forma de se relacionar, sempre se reiterando, se complementando. Quase como num jogo de encaixe. Se por um lado, a palavra assume um papel fundamental no jogo de sensação e impressão dos personagens, sendo transmitida através de um tom peculiar e sonoro onde cada sílaba é submetida a um ritmo próprio; do outro, surge uma preocupação estética profunda em enquadramentos e composições de cena expandindo sensorialmente, através de objetos, tempo de imagem e movimentos de câmera, todas as questões filosófico-existenciais já ditas e reditas. Funcionando a música como um recurso sensibilizador, tênue e permanente. Tudo se auto-completa. Tudo se torna lírico. Tudo coexiste harmoniosamente, por mais angustiante que seja a temática. Hiroshima não é um grande filme apenas pela literatura que contém ou pelo cinema que representa, mas pela difícil missão de criar um laço que os une quase que organicamente. E nesse campo, foram poucas as tentativas que deram certo.

Mas a película de Alain Resnais não é um grande filme apenas por isso. Começar a assistir ‘Hiroshima, Mon Amour’ é certeza de acompanhar densamente o filme até o fim, de se envolver no lirismo literário-imagético que permeia toda película. Não existem desistências ou interrupções. O começo é intenso e ele lhe consome. São 15 minutos de total suspensão. Dois corpos nus, enlaçados. Um feito na medida do outro. Trata-se de uma atriz francesa e um arquiteto japonês. Ela fala de tudo que viu sobre Hiroshima. Ele diz que ela não viu nada. Nada. Ela reconta a história da cidade pós bomba atômica através dos meios que teve acesso. Jornais, noticiários, filmes, visita ao hospital, quatro vezes ao museu, pedras queimadas, cabeleiras anônimas caídas e ferros retorcidos numa exposição. A história e as reconstituições na falta de outra coisa. O japonês, porém, sempre intervém; replica que ela não viu nada. Nada. E não viu mesmo. Nenhum de nós viu. Há um formato documental marcante no filme, herança do próprio Resnais que antes de Hiroshima realizou alguns documentários, assim como há uma marca poética e repetitiva provinda do roteiro da escritora Marguerite Duras, que dá um toque extremamente literário às palavras ditas pela linda voz da atriz Emmanuelle Riva. Quase como se recitasse. Terminado esse primeiro momento do filme, se revelam as faces dos personagens. Aquele que era para ser apenas mais um encontro casual numa noite qualquer se torna, segundo após segundo, num relacionamento profundo, num envolvimento profundo. A atriz vai voltar para França. O japonês quer que ela fique. O tempo entre eles não pode ser nem prolongado, nem abdicado. Resta ao casal aproveitarem suas últimas horas juntos, um na medida do corpo do outro, sofrendo por não poderem mudar seus próprios destinos. Perambulam pela cidade, conversam; ela revela detalhes trágicos do seu passado. Detalhes de quando era jovem, de quando estava durante a Segunda Grande Guerra em Nevers, na França, apaixonada por um soldado alemão. Quase uma sessão de psicanálise. Agora ela já havia esquecido esse amor antigo e acreditava que logo, logo esqueceria o novo. Mas ela não pôde antes e não pode novamente. A atriz está mentindo, tentando esconder a passionalidade que a domina. Que a confunde e enlouquece se for preciso. Que a faz gritar, que a faz arranhar suas mãos contra a parede. Assim como por mais amarga que seja a lembrança da bomba atômica de Hiroshima, o japonês não poderá esquecê-la. Nenhum japonês poderá, ainda que tornem as ruínas de sua cidade em pontos turísticos. A francesa diz “assim como existe no amor, a ilusão de poder nunca esquecer, eu tive diante de Hiroshima. A ilusão de jamais esquecer como no amor. Como você, eu conheço o esquecimento”. O japonês a responde “Você não conhece o esquecimento”. Ele sabe que ela não conhece, porque ele próprio não também não conhece. Nenhum de nós, para ser bem sincero. A memória persiste.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

9

Sempre considerei 9 o meu número de sorte. Nasci num nublado dia 9 e sempre achei o máximo esse maldito número ser o último o suspiro de criatividade antes que todas as coisas começassem se repetir.

Agora mais um 9.