segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

00 ou 10? 20 ou 30? 40 ou 50? 60 ou 70? 80? 90 ou 00?

O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante (1989), de Peter Greenaway

(Publicado originalmente no Dissenso)

I

Não há inutilidade mais divertida do que os pequenos jogos espontâneos, mesmo os esquizofrênicos acordados entre as pessoas e o destino: ‘volto para casa se aquele carro branco dobrar à esquerda, vou ao cinema se um cisne cair em cima dele’. Alguns esperam pacientemente pelas penas brancas, outros, menos preocupados, participam de brincadeiras mais refinadas. Trata-se quase de uma aposta criativa (e, felizmente, nem tudo se torna irrelevante). Há uns cinco/seis anos propus uma dessas brincadeiras espontâneas a mim mesmo, quando decidi entrar em contato constante com alguns filmes, todos pegos numa locadora perto da universidade (Edit: só pra nomear, Fox Vídeo) . Não à toa: havia promoções e pacotes para VHS – 5 fitas, 5 dias, 5 reais, pois o dono do estabelecimento tinha de fazer aqueles produtos renderem o máximo antes de vendê-los, por conta da iminente consolidação do mercado de DVD (mídia que nessa época já deixava de lado o furor de novidade, sendo largamente popularizada no Brasil em 2002/2003). Assisti muitos filmes em VHS durante toda essa época de transição: nenhum lançamento (os lançamentos deixava pra pegar em DVD caso já não tivesse visto no cinema). Foi então que iniciei o maldito jogo adolescente: a partir de filmes aleatórios do qual nada sabia, tinha de descobrir a década e se possível o ano de cada produção. Não valia ler sinopse, críticas, nada – tinha de decifrar apenas pela obra em si e alugá-la simplesmente pela capa. Para facilitar geralmente pegava 5 filmes que estavam dispostos sequencialmente na estante, o que trazia surpresas boas e ruins. Descobri dessa maneira cineastas, entre outros, como Wong Kar-wai – Amores Expressos, Anjos Caídos e Felizes Juntos permanecem até hoje sem lançamento em DVD – e Tsai Ming-Liang, além de obras como o peruano Não conte a ninguém (1998), que aborda como poucos a questão da autorepressão homossexual, o francês melancólico e autobiográfico Noites Felinas (1992), de Cyril Collard sobre Cyril Collard com atuação de Cyril Collard e o independente americano non-sense Gummo (1997). Em VHS, tudo era mais simples, graças as denotações de velhice presentes na qualidade da própria mídia (o que tirava um pouco a graça inicial da brincadeira).

Pois é: a pedra fundamental de meu interesse cinéfilo não foi outra coisa, senão um jogo espontâneo associado a uma promoção de fitas. Fui aos poucos, naturalmente e depois de certa prática vinculando uma ‘recorrência imagética’ a determinadas décadas: de maneira grosseira e desordenada, mas que necessariamente reverberaram a posteriori (em confrontos ou confluências de minhas conjunturas presentes diante das passadas). Num texto excepcional datado de março de 2002, Kléber Mendonça Filho toca nesse assunto e começa escrevendo que “foi foda rever ET aos trinta”. Reitero: tem sido foda rever vários filmes depois dos 20 (foda aqui no sentido de forte pra caralho pros acadêmicos desentendidos). Sejamos compreensíveis: não se podia esperar uma detalhada conduta metodológica de um adolescente se arriscando em prováveis análises estéticas. Mesmo agora, nenhuma rigidez inabalável precisa ser firmada, afinal os critérios da crítica estão envelhecidos se confrontados pela produção contemporânea. Há um certo mal estar diante desse possível julgamento/enquadramento e sua aceitação; há um certo mal estar diante da própria opinião que, vez ou outra, se transveste de verdade através dos meios de comunicação tradicionais, instaurando assim, uma tendência ao consenso (e aqui temos de considerar os próprios leitores que fazem da crítica seus guias de consumo). Não se trata de um repúdio ao passado, longe disso – observo com extrema clareza uma trajetória jornalística da qual não canso de aplaudir. Trata-se mais de uma hibridização entre as ferramentas de análise crítica propostas até então (além do legado crítico e teórico cultural e cinematográfico) e a imanência de se estabelecer novas ferramentas – que para corroborarem com a contemporaneidade não precisam seguir outro caminho, senão o da fluidez, do estilo próprio e da possibilidade de transformação. Afirmar qualquer modelo pré-concebido, normativo ou imutável pode ocultar todas as escolhas e desvios pessoais uniformizando não só o processo, mas os resultados da reflexão. O perigo do compartilhamento de referências similares está rondando todos nós.

Mas voltando para a adolescência do início do texto, não demorou muito até a indústria de DVDs se firmar no mercado (no Brasil, o lançamento oficial aconteceu em 1998 e enquanto no final de 1999 não existiam nem 300 títulos disponíveis, no início de 2002 já passavam de 1100 – os VHS na locadora citada ficaram à venda por R$ 5, depois baixando para R$ 2). Logo em seguida, além dos lançamentos filmes antigos começaram a ser re-comercializados. O jogo adolescente (já incorporando algum rigor híbrido) se tornou mais difícil: cada vez mais, havia produções de diferentes épocas e países nas prateleiras, o que ratificou meu crescente interesse pelo cinema não-hollywoodiano (cinema esse que já tinha degustado, gargarejado e vomitado). Sem contar toda propaganda tecnológica sobre processos de remasterização, de restauração, além da própria preservação que acompanharam a ascenção do DVD – e que agora acompanham as novíssimas mídias, o HD-DVD e o Blu-Ray (logo mais estaremos falando em ausência de mídia e espaços compartilhados virtuais [Edit: chamado já de 'Cloud Computing'). Óbvio que não eram só propagandas: aquele costume de filmes velhos com qualidade péssima sofreu, de fato, um abalo. Lembro particularmente do impacto de ver Jack Nicholson em Um estranho no ninho (EUA, 1975), de Milos Forman. A diferença na qualidade da imagem dessa (em DVD) e de sua mais recente obra no cinema, Alguém tem que ceder (2003 - lançado no Brasil em 2004), era praticamente nula. Apenas pesadas rugas separavam os dois momentos (sem contar a pesada diferença qualitativa entre as duas produções). Mais recentemente aconteceu o mesmo: assisti Estrela Solitária (EUA, 2005) e só meses depois Paris, Texas (França / Alemanhã, 1984) - ambos dirigidos por Wim Wenders; ambos com roteiro de Sam Shepard. Fiquei refletindo como esses dois filmes poderiam ter sido concebidos numa mesma época, sob um mesmo espírito (ou pelo menos como há um diálogo forte entre eles): há aproximações imensas nas cores e em todo tratamento fotográfico; na própria temática de retorno à família; no ambiente que cerca a história até mesmo nas atuações e no comportamento das personagens. Relevemos o detalhe que 21 anos separam as duas produções. Pergunto-me diariamente sobre o impacto dessa atualização de produções antigas na comunidade não-cinéfila que pouco se importa em saber ano, diretor ou país dos produtos audiovisuais que consomem. Tiro pela minha sobrinha mais velha: preto e branco é muito antigo e colorido é lançamento.

Os vínculos grosseiros realizados até então entre imagens e década já não valiam tanto (apesar de constituírem um repertório quanto alguns elementos como figurino, por exemplo [Edit: algo que minha sobrinha já começa a perceber]). Havia apenas uma exceção: os anos 80. Era sempre a década mais fácil de ser identificada e continuava sendo: os próprios anos eram fáceis. Havia todo um ranço datado que eu identificava em quase todas as suas produções. Também não à toa: é a única passagem de dez anos que possuo um contato direto mediado em diferentes idades. Quando criança, no início da década de 90, os filmes que passavam na televisão aberta eram basicamente produções juvenis dos anos predecessores (e até hoje há certo bafo disso). Entre eles os ditos clássicos da infância: Os Gonnies (EUA, 1985), de Richard Donner; Clube dos cinco (EUA, 1985) e Curtindo a vida adoidado (EUA, 1986), ambos de John Hughes, Conta Comigo (EUA, 1986), de Rob Reiner e Quero ser grande (EUA, 1988), de Penny Marshall. Acrescento aqui o próprio ET. Nem preciso comentar a influência estadunidense implícita nesse processo (que também incluem a trilogia Indiana Jones, a trilogia De volta para o futuro, a trilogia Star Wars entre outros). Entretanto, na época da locadora, anos mais tarde, comecei a evitar justamente os filmes da década em questão: tudo passou a me soar muito tosco e nunca entrei na nostalgia cíclica particularmente direcionada a esse período (exceto pelas produções que mantinham essa relação emotiva infantil). Nasceu daí um rótulo para essa estética: a partir de então qualquer obra podia ser chamada de “década de 80″ (mesmo as não produzidas nesses fatídicos anos).

Esse adjetivo durou por algum tempo, enquanto consumia descontroladamente as fitas VHS ou mesmo os DVDs da locadora, sempre me desviando a todo custo da estética oitentista: me desviando das roupas coloridas descombinadas, dos cabelos assanhados esdrúxulos, das histórias-paródias-adaptações tosco-idiotas de patos extraterrestres ou de casais numa ilha perdida (sem dúvida, foi na mesma época em que me tornei um chato). É bastante irônico eu ter evitado alugar filmes dessa década já que foi justamente nela que o mercado de home video se consolidou “a ponto de pôr em crise a própria indústria cinematográfica clássica, ocasionando o fechamento de mil salas de projeção de filmes na América Latina” (Carreiro, 2003, P. 55) como pontua Rodrigo Carreiro, em sua tese “O gosto dos outros”. Permaneci abusado, colhendo influências essencialmente nas décadas de 60/70/90/00 até descobrir o conceito de idiossincrasia e tomá-lo como elemento essencial para o entendimento de qualquer conjunto de filmes (e de qualquer experiência fílmica). Com certeza há reflexos desse pensamento nos ensaios-crítica anteriores de / sobre / a partir de Limite e Cantando na Chuva. De acordo com os olhares diferentes, de culturas diferentes, de passados diferentes teremos um único fato e várias memórias; uma única década e várias memórias. Cada uma distinta da outra, apesar de compartilharem um mesmo cerne e fundarem todas sua própria verdade. É interessante perceber essa lógica no filme 11 de setembro (2002), composto de 11 curtas dirigidos cada um por um cineasta diferente. Como dizer que os ataques terroristas foram idênticos para crianças iranianas e jovens novayorkinos? O 11 de setembro não foi apenas um. Mas essa questão vai além. O próprio estigma sobre uma determinada época ou fato se transforma diversas vezes, quando posteriormente o referente temporal envelhece e também passa por suas descobertas pessoais e transformações (inclusive transformações de repertório). A visão sobre o mesmo passado é uma aos cinco anos, outra aos catorze e outra ainda aos vinte e dois. Na verdade, isso acontece até entre civilizações inteiras, depende muito de quem conta a história: vide as diferentes denotações já atribuídas à Idade Média, por exemplo (ora ressaltando uma estagnação ou retrocedimento histórico, ora re-descobrindo e valorizando manifestações culturais). Apesar dos fatos serem taxados de idênticos e os produtos culturais estejam nas prateleiras à disposição de todos, a maneira de interpretar continua a se transformar. Minuto a minuto, metro a metro, fotograma a fotograma.

Aliás, tenho sorte do sir multimídia (que não é sir de verdade) Peter Greenaway concordar comigo: “o que mais surpreende é que nunca houve história, mas apenas historiadores. O cinema sempre conta uma história de cada vez. E sabemos que é artificial, porque as histórias de todos interagem. Acontece tudo de uma vez só. Minha história, sua história, a história de todo mundo. Retirar apenas uma única história desta bagunça toda é um fenômeno artificial. Eu tento fazer filmes que representam essa complexidade” (retirado da entrevista “O cinema morreu (ou não)” realizada pela jornalista Camila Viera). Não há como falar de uma década, apesar de todo complemento de uma pesquisa, através de apenas uma memória – seria de uma extrema limitação não produzir um mosaico formado por diferentes vozes. Eu sei que estamos acostumados a expressão ‘história oficial’ e que vários orgãos tomam pra si a responsabilidade por essa versão, mas essa lógica é a mesma que marginaliza uma centena de manifestações culturais colocadas – pela história oficial – como secundárias. E a idade do referente é fundamental nesse pensamento, pois se há o passado com o qual nos relacionamos apenas através de documentos, obras, relatos, contos e registros (que constituem sim uma forma de memória e às vezes até uma nostalgia inventada), também há o passado recente, o passado que vivemos na infância e que habita de alguma maneira o nosso inconsciente, como uma permanente evocação – Manuel Bandeira sabe bem do que estou falando. É o caso do final da década de 80 / começo da década de 90 no meu caso compartilhado por todo um grupo de jovens que estão com seus vinte e poucos anos. Dos cinco aos catorze anos, guardo certa nostalgia imaginária e dos catorze aos dezenove, uma repulsa agressiva. A partir dos vinte é preciso entender a potencialidade de significados que são e que podem ser agregados a um único momento histórico – e a tudo que lhe envolve. A década de 80 são várias – temos inicialmente que saber qual o ponto de vista que estamos aferindo, para, então, entendermos toda complexidade desse olhar. Há um período de dez anos e várias memórias diferentes. Enxergar (e entender) isso é fugir um pouco da ‘egotrip’ (já tão marcada nesse texto) e ir além. A década de 80 (e qualquer outra década) pode e não pode ser a mesma.Vamos esquecer por ora os conceitos binários ao qual estamos acostumados e nos deixar levar, como pontua Daniel Piza, por “toda a riqueza de percepções humanas, da lógica mais abstrata à emoção mais primeva – e também mais sutis, em que os meio-tons tomem o lugar dos maniqueísmos e as ironias da vida sejam explicitadas” (Piza, 2004, P. 50 – grifos meus).
É seguindo o pensamento da primeira parte do texto, que “O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante” (Reino Unido, 1989), de Peter Greenaway possa ser considerado um filme datado para as pessoas que o assistiram no âmbito de seu lançamento, ainda que para outros (e me incluo nesse segundo grupo) soe sem vínculo restrito com época alguma. Há uma clara distância reflexiva entre o referente que pensa a produção, enquanto ela lhe é contemporânea – que é o maior desafio do trabalho crítico – e o que se senta num sofá confortavelmente a quase 20 anos de distância. Com perdas e ganhos para ambos os lados. Os conceitos estéticos que me fazem associar tais e tais recursos, cores ou climas com uma década específica (no caso, a de 80), surgem a partir da construção de signos que esse período conotou em mim (num mesclado de infância, senso comum, experiências fílmicas e pesquisas posteriores). Só para ilustrar, Scanners (EUA, 1981) e A mosca (1986), amobos de David Cronenberg, por exemplo, resumem bem a minha recorrência imagética da década de 80 (e pela primeira vez nesse texto, usando essa expressão não como juízo de valor, afinal admiro as duas produções). No caso do segundo, trata-se de uma história de ficção científica trash, com toda uma tendência de efeitos grotescos, permeada por um figurino atrapalhado e desconexo, além de um estranho design de objetos dispostos em cenários de cores escuras ou durante a noite. Além de que Geena Davis tem carimbado na testa a década que a consagrou (e mesmo que Thelma e Louise seja só de 1991). Existe uma quantidade ilimitada de produções oitentistas nessa linha. Aos dezessete, odiava todas, fazia piadas, ria das partes dramáticas e tensas. E apesar de atualmente saber desenvolver questões específicas para além do visual (como questões culturais, políticas e de gênero em Minha adorável Lavanderia (Reino Unido, 1985), de Stephen Frears, por exemplo), continuo sem grande interesse por essa produção.

Peter Greenaway é uma das poucas exceções – não a única (acrescentemos aí pelos menos David Lynch e os Irmãos Coen só para começar). O seu filme – citado no parágrafo anterior – não se encaixa em nenhuma das associações toscas oitentistas, exceto por um certo esboço de escuridão e obviamente pelo culto ao grotesco, ainda que um grotesco em outros tons (e tenho a impressão de que esse meu imaginário década de 80 se refere, em essência, à década de 80 norte-americana e ao BRock – to até inspirando minha cabeleira na Cláudia Raia dessa época). Praticamente tudo se diferencia na obra do cineasta inglês (já em Lynch e nos Coen essa distância não é tão clara, o que não interfere em nada em minha plena admiração por seus cinemas). Para falar de Peter Greenaway não podemos nos desviar de seu esteticismo pomposo, neo-barroco, extravagante que liga cinema ao teatro e à pintura sem pudor. Se nas primeiras décadas do século passado, o cinema ainda procurava se afirmar como arte, procurava se distanciar do ‘teatro filmado’ e se afirmar enquanto linguagem (e de fato era uma lógica importante naquele momento), aqui não há mais esse tipo de preocupação, não há mais um limite fixo entre as linguagens: há apropriações, diálogo, intertexto, referências e auto-referências. O cineasta inglês traz em seu cinema uma modernidade mórbida e pervertida – em seus filmes trata de canibalismo, vingança, submissão, decomposição, morte, violência, zoofilia, sexo, mutilação e continua fino. Finíssimo. Se por um lado, toca permanentemente em temas sujos, por outro, usa de um extremo cuidado artístico para fazê-lo. O grotesco em Greenaway é extremamente belo.

Falemos um pouco de um recurso que ele sabe usar muito bem e de maneira bem pessoal: os travellings. Em O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante usa desse movimento para apresentar os cenários-ambientes: os planos-sequência que transitam do estacionamento até o restaurante (e vice-versa) mantém um ritmo que acompanha os personagens principais, mas que sempre dá destaque a todos os outros elementos de cena – a luz, a própria movimentação de coadjuvantes, tudo. Cada ambiente parece ter um tempo diegético próprio: a cozinha com suas figuras medievais, o salão com frequentadores requintados, o banheiro ’suspenso’ de qualquer vínculo temporal. Em essência, apenas os personagens-título (ou seus criados) transitam por todos os cômodos. E lá estão os travellings acompanhando fielmente: o que Albert arrasta Georgina pelo chão me parece o mais forte. Quando a câmera está parada fragmenta a visão do espectador em planos abertos, através da ação simultânea dos diferentes personagens-título, com atuações e gestos independentes. O Cozinheiro serve um prato enquanto o Ladrão humilha um dos presentes na mesa, enquanto sua mulher troca olhares com o amante que lia algum livro até então. Em O Livro de Cabeceira (1996) também fragmenta a visão, mas ao invés do recurso clássico do plano aberto investe em colagens e sobreposições de telas sobre telas, criando um ambiente hipertextual. O cineasta não se repete apesar de costurar em seus filmes uma ferida pessoal. Temos também Z00 – Um Z e dois zeros (Reino Unido, 1985), onde cineasta inglês usa do travelling (e por vezes, até do zoom óptico) para passear em salas de zoologia, onde dezenas de câmeras fotográficas registram sistematicamente vários animais em diversos estágios de decomposição. O trabalho fotográfico realizado por Sacha Vierny, que na década de 60 trabalhou com Alain Resnais em, entre outros, Hiroshima e Marienbad, é magnífico: flashs estouram por todos os lados em meio a uma penumbra pertubadora. Greenaway nos aproxima da escatologia pelos caminhos mais belos. A fotografia, sua própria direção, os atores, os cenários, a direção de arte é toda impecável, entretanto o que se sucede na tela é um encadeamento de fatos absurdos. Primeiro um cisne bate num carro branco onde duas mulheres morrem e uma terceira perde a perna (ok, agora vou ao cinema). Em seguida os ex-maridos das mulheres mortas, dois irmãos siameses separados se tornam simultaneamente amantes da sobrevivente, enquanto planejam voltar a se unir em um só corpo. Ambos são zóologos e entram numa paranóia diante do fato científico da vida e da morte, passando a estudar a fundo a decomposição dos seres e assim sucessivamente até armarem uma sessão de fotografias sistemáticas da decomposição deles mesmos. A cada novo filme, o cineasta inglês junta uma série de eventos bizarros e o trata da maneira mais limpa e natural possível. Uma atração-repulsa se instaura sem problemas, mas dependendo do pudor ou do humor, apenas graus diferentes de repulsa.

Há uma série de escolhas bem delineadas no Cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante que consolidam essa idéia da beleza. E abrindo aqui uma digressão (mais uma), vale ressaltar que o termo ‘beleza’ e a expressão ‘década de 80′ na mesma frase formavam, para mim, uma espécie de paradoxo – assim como para François Truffaut, os termos ‘britânico’ e ‘cinema’ numa mesma frase também constituíam uma incompatibilidade. De fato, ambos não conhecíamos Peter Greenaway quando formulamos essas frases. Por motivos diferentes: em 89, Truffaut estava morto há 5 anos, eu mal tinha me libertado das minhas fraldas e acho que não preciso repetir tudo que já escrevi anteriormente. Enfim, voltando à sequência de escolhas do filme podemos pontuar: o exuberante palco-cenário-restaurante onde se desenrola praticamente todo filme; Gaultier como responsável pelo figurino que muda de cor em determinadas situações; a trilha sonora de Michael Nyman (que também assina a trilha de Z00 com o qual forma uma espécie de atos diferentes de uma única peça musical transfílmica), da teatralidade dos atores diante do cenário e, por fim, a escolha de colocar o quadro “Banquete dos Oficiais da Companhia da Guarda de São Jorge“, do holandês Frans Hals no fundo do salão principal. Em alguns momentos, a mesa do filme se confunde com a mesa do quadro (e vice-versa). Consolida-se uma imagem dupla em distâncias focais diferentes ou um falso espelho a base de tintas. Greenaway não nega suas inspirações e seus caminhos prévios: em Z00, reproduz em cenas quadros do pintor holândes Vermeer (aquele da Moça com brinco de pérola), o faz numa semelhança desconcertante, além de durante todo filme soltar – por meio de suas personagens – diversas referências orais ao artista.

O cineasta-pintor-artista-multimídia inglês que não é sir nem nada está aqui impecável – insisto nesse elogio. Quase um transtorno obsessivo compulsivo estético. Tudo tão simétrico, irretocável e belo (e beira o irritante, por conta disso). De qualquer maneira, infinitamente distante do que a década de 80 nos oferece constantemente de tosco ou trash – toda aquela arte de descombinar em tão pouco espaço. Ainda assim, os que acompanharam o lançamento do filme, naturalmente o encaixam no ano em que foi concebido. Afinal o foi e é fato – não há como fugir. A década permanece a mesma (mas é sempre importante descobrir o que há além do véu escuro ou do veludo azul). Os olhares é que a retratam de modos tão diferentes conotando tons tão diversos. Peter Greenaway é realmente perspicaz: “Há escolhas! E eu quero dar todas essas escolhas, porque faz parte de todo o fenômeno. Quando você fala com sua avó, quando você fala com seu cachorro, quando você fala com seu amante, quando você fala com sua mãe, você conta histórias de forma diferente, porque são subjetividades diferentes, e você está querendo comunicar e você comunica de acordo com o que seu cérebro manda. Então, devemos fazer cinema – eu acredito – de maneira tão complicada quanto isso”. (citação retirada da mesma entrevista citada anteriormente). Nossas subjetividades se transformam de acordo com o tempo, com a idade, com o lugar, com o meio que transmitimos e para quem nos referimos. Há um charme enorme por trás disso. Não entendo a necessidade de ocultar essas subjetividades na tentativa de vestir meia dúzia de palavras como soluções fáceis. Alguns jornalistas adoram negar a existência de si mesmos dentro de seus textos. Sem dúvida, prefiro jogar com as cartas viradas na mesa.

Antes de terminar esse ensaio, dois pontos não podem ser esquecidos. O primeiro se refere a como Peter Greenaway supera o classicismo cinematográfico, tomando como classicismo a linearidade narrativa, os enquadramentos corretos com todos personagens, mostrando que sabe manejá-lo ao seu bom gosto (como um cineasta-pintor), mas que também sabe desconstruí-lo quando necessário. É só comparar diretamente O cozinheiro… e O Livro de Cabeceira. Apesar de causarem efeitos similares, a estrutura narrativa é completamente diferente – plasticamente é diferente. Na verdade, todo grande artista passa por esse processo. Se Lars Von Trier fez “Europa” (1991), um filme tecnicamente impecável, com uma fotografia em preto e branco deslumbrante antes de lançar o movimento Dogma 95, foi para deixar claro que possuía conhecimento sobre a técnica; mas que simplesmente também podia usá-la de outras maneiras a partir dali. É uma opção do artista em tomar para si outros padrões ou buscar novos projetos estéticos (acho que Picasso é uma referência e tanto nesse caso). Peter Greenaway não separa tanto um momento do outro; não separa a construção e a desconstrução e isso é o que o torna mais contemporâneo. O segundo ponto se refere a como seria fácil e plenamente possível qualquer personagem ou qualquer narrativa perder todo seu valor diante de tanta beleza estética. Isso acontece o tempo todo nos filmes de ficção científica recentes, onde a beleza engana tanto quanto a tosquice. Entretanto, Greenaway consegue fazer com que o contorno visual não encubra totalmente o desenvolvimento narrativo – discordo de sua verborragia em afirmar que o cinema não deveria contar histórias, porque esse processo de narração seria apenas um fenômeno literário. O que seria de Albert sem seus comentários desagradáveis? A palavra tem sim um papel fundamental, inclusive para tornar os momentos silenciosos mais emblemáticos.

E já que falei nela, vamos à história. Albert Spica (Michael Gambon) é o ladrão, a repugnância em seu estado mais podre. É a grosseria sem direção, a fonte da violência gratuita, o desprezo por tudo que o cerca. Provavelmente uma das figuras mais detestáveis criada por um cineasta e com um vasto espaço para usar da palavra. O filme todo é quase um monólogo desse calhorda. A sua mulher se chama Georgina (Helen Mirren). É a representação máxima de uma submissão velada e silenciosa quase irritante de tão passiva. Mas, ao mesmo tempo, é a fonte de onde parte a vingança sobre o marido: é um silêncio que se acumula. Michael (Alan Howard) sempre soa neutro em seu eterno paletó marrom. É o amante calmo, desajeitado, apaixonado por livros (alguns o colocam como sofisticado, não concordo). E, por último, temos o cozinheiro Richard Boarst (Richard Bohringer). Personagem que está em um plano superior e que ostenta certo orgulho em todos os seus atos, quase todos também silenciosos: é o único que não se humilha perante o ladrão e o responsável por acobertar os encontros amorosos entre Georgina e Michael. Tudo isso enquanto serve pratos aos seus clientes (por sinal há uma associação entre comida e sexo, assim como no Livro de Cabeceira, entre caligrafia e sexo). A história é simples, mas os personagens são extremamente fortes. Conseguem impressionar ora com seu silêncio (em especial o silêncio entre os amantes), ora com seu racismo e preconceito (contra judeus, africanos, ginecologistas…), ora com suas intimidades. A história é simples, mas se sustenta na beleza visual e, insisto, na violência textual. Peter Greenaway é um homem refinado e mórbido: cozinha a Margaret Thatcher como ninguém. Sempre o leve para jantar no ‘Le Hollandais’. E não esqueça de pedir Albert ao molho Spica. Bon appétit.

It’s French.

O Cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante. Reino Unido, 1989.
Direção e Roteiro: Peter Greenaway. Fotografia: Sacha Vierny. Trilha Sonora: Michael Nyman Figurino: Jean-Paul Gaultier Elenco: Richard Bohringer, Michael Gambon, Helen Mirren, Alan Howard, Tim Roth. 124 minutos.

Z00 – Um Z e dois zeros (1985), de Peter Greenaway)


Referências Bibliográfica:

CARREIRO, Rodrigo. O Gosto dos Outros: Consumo, cultura pop e internet na crítica. Recife: PPGCOM, 2003. [dissertação de mestrado].

PIZA, Daniel. Jornalismo Cultural. 2ª Edição. São Paulo, SP: Contexto, 2004.

TRUFFAUT, François. O Prazer dos Olhos: escritos sobre cinema Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar Editor, 2004.

domingo, 9 de dezembro de 2007

sobras

De fato, meu interesse por cinema nasceu e se tornou possível dentro de uma locadora – de maneira tão íntima que até hoje percebo, quando um filme antigo foi adquirido recentemente ou sei onde estão localizadas quase todas as obras do acervo (na adolescência, também costumava brincar de achar o filme antes da atendente gostosa).

Acho que isso já é digressão demais pros ensaios.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Revista alemã publica 160 mil capas diferentes para a mesma edição

Retirada do Portal de Comunicação 'Comunique-se'

Cada exemplar da revista mensal Cicero que chegou às bancas da Alemanha nesta quinta-feira (22/11) é uma peça única. A edição deste mês da publicação, que se autodenomina a "revista para a cultura política", saiu com tiragem de 160 mil exemplares. Cada um deles tem uma capa diferente. Para experimentar o projeto de publicidade “imagens do ano 2007”, a redação teve acesso ao acervo de imagens da agência Reuters do ano inteiro.

"Criamos algo que não tinha sido feito até agora. O que nos fascinou foi o contraste entre o fluxo informativo de imagens e o momento único capturado por uma fotografia", afirmou Martin Pfaff, gerente da Editora Ringier, proprietária da Cicero, ao apresentar o último número.

Onze mil personalidades alemãs das áreas de política, economia, imprensa e marketing encontrarão nas caixas de correios um exemplar da Cicero com sua própria foto estampada na capa. A publicação premiou ainda 500 leitores com a chance de encomendar seu exemplar com a foto que quisessem impressa na capa.

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Faltay, compra pra mim uma revista dessa. A capa tu escolhe.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Like bacon and eggs

Cantando na Chuva (1952), de Stanley Donen e Gene Kelly

(Publicado originalmente no Dissenso)

Depois de assistir a Cantando na Chuva (EUA, 1952), de Gene Kelly e Stanley Donen, em maio desse ano (2007), me deparei com uma série de questões já pontuadas no ensaio anterior, referentes à postura que uma obra de arte (ou o conjunto delas) assume diante de um repertório pessoal – podendo causar diferentes reações, de acordo com o estágio de conhecimento, experiência e discurso cinematográficos impressos em sucessivos momentos de um mesmo espectador (podendo causar, inclusive, diferentes ou complementares reações de acordo com o estágio emotivo, físico, lisérgico, etc…). Assim, a presença de alguns filmes e a ausência de outros na nossa memória, além do senso comum, do conjunto de textos acadêmicos, teóricos, jornalísticos; das viagens e pessoas que conhecemos, dos comentários profundos e inúteis ao qual tivemos contato, entre mil outros aspectos interferem não apenas numa concepção ampla sobre o cinema, mas também na construção valorativa para a película seguinte. Algumas permanecem sólidas, outras se desmontam em pedaços. Todas as obras recentemente vistas serão dimensionadas a partir do repertório construído por cada um até então – para além da temporalidade da própria obra. Tornam-se eqüitativamente importantes o contexto original do filme X – e em alguns casos isso se perde – e o momento em que esse filme X passou a fazer parte do imaginário do espectador contemporâneo Y, levando em conta que esse espectador pode tanto consumir a atualidade, como entrecruzá-la com referências distantes temporal ou espacialmente, através do amplo – e cada vez mais simples – acesso dado pelas novas tecnologias. Um singelo clique num mouse nunca foi tão significativo.

É como se o estigma (ou valor) sobre um filme antigo não seguisse apenas o seu legado histórico, mas se firmasse a partir da negociação entre a cronologia fixa da película e a cronologia em processo do espectador (se adequando ao repertório de cada um). Não se pode pensar em uma das cronologias e excluir a outra. Qualquer discurso que o faça corre o risco de cair nas seguintes armadilhas: ou irá soar idealista ao resgatar e ressaltar um conjunto de elementos distantes, numa preocupação quase hermeneuta, imaginando que a atualidade não está imbricada na nossa cognição ou irá soar excessivamente ingênuo, a-histórico e preconceituoso diante de uma possível totalidade contextual. De fato, diante dos musicais me encaixava perfeitamente no segundo erro: falava dessas produções como um todo, apenas pelos quatro ou cinco filmes contemporâneos que tinha tido acesso (e falava firme, sem hesitações). Essa verborragia precipitada me despertou para a necessidade dessa negociação entre dois tempos – com perdas e ganhos para ambos os lados. As obras não estão apenas situadas diante das obras ao qual são contemporâneas, como pontuei no ensaio sobre Limite, mas também, das que se tornam contemporâneas através da intermediação de um espectador. Ou seja, qualquer conjunto de filmes, de qualquer época ou qualquer lugar pode ser colocado em diálogo dependendo dos argumentos apresentados. Toma-se como elementos opostos (mas que se apontam) o conhecimento prévio sobre os objetos escolhidos e a fundamentação sutil e particular para uma nova abordagem. A relevância ou não dessa convergência espaço-temporal, desse resgate contemporâneo como uma nova forma de disseminação e contestação de sentidos será re-discutido a posteriori e de preferência não só por mim. Toda uma geração está envolvida nesse processo de re-significação (e cada vez mais envolvida).

A partir disso e antes de prosseguirmos, talvez seja necessário assumir (e explicar) a existência de certo preconceito meu – nesse exato momento já moderado – diante do gênero musical (e detesto a palavra-limitação ‘gênero’, apesar de nesse caso me parecer inevitável). Também é preciso ressaltar que não se trata daquele velho receio pontuado ano após ano por críticos de cinema, afim de justificarem essa antipatia inicial do grande público; antipatia tratada e sintetizada como presunção ignorante no artigo Cantando e Dançando à saída do cinema, de Ruy Castro: “basicamente, fazem-se duas acusações aos musicais: são filmes chatos porque, no meio de uma cena, o sujeito começa a cantar e são irreais porque, neles, qualquer marinheiro ou mata-mosquito dança e canta como um profissional” (Castro, 2006, P. 19). No meu caso específico, o preconceito não se fundamentava em nenhum desses argumentos até porque o recurso de ruptura climática (ou exposição de um clima interior) por si, mostra o quão ligados à liberdade criativa estão os musicais – há um desprendimento notável de qualquer realismo fiel, de qualquer continuidade óbvia quando um mata-mosquito grosseiro se transforma num bailarino estonteante e, em seguida, volta a ser o velho mata-mosquito grosseiro. Meio o que acontece em Sete noivas para sete irmãos, de Stanley Donen (EUA, 1954): aqueles sete caipiras nunca seriam ótimos dançarinos… e são. Ponto. Admiro essa liberdade recorrente nos roteiros dos musicais; esse contrato diegético implícito e silencioso entre o cineasta e o espectador. A pontuação dos críticos na tentativa de explicar o porquê das pessoas não gostarem de musicais, pelo contrário, sempre me fascinou um pouco. Talvez influenciado por algumas irônicas cenas do seriado Six Feet Under ou pelo clipe It’s oh so quiet, da Bjork, dirigido pelo Spike Jonze. De fato, me interessei primeiro pelos pequenos desvios contemporâneos que brincavam e se apropriavam do gênero, remodelando-o ao bel prazer de suas propostas narrativas. Desvios (homenagens?) maiores, como Amores parisienses (FRA, 1997), de Alain Resnais e Todos dizem eu te amo (EUA, 1996), de Woody Allen só viriam bem depois. Se aparecessem antes não teriam efeito algum dentro de minha cronologia difusa. Eu precisava ser conquistado em passos curtos.

Meu preconceito (como a maioria deles o é) partia de uma pura e simples ignorância, afinal sequer possuía uma base vasta de filmes vistos desse gênero (sic): o musical sempre me pareceu bobo, pouco engraçado e romântico-meloso demais (como minha grande amiga Lia disse: “é do seu feitio, Rodrigo, assistir um filme chamado ‘Amor, sublime Amor’ e dizer que é um saco”). Assumo que tenho uma queda mais pelo estranho amor que pelo sublime amor. Naturalmente essa aversão retardou meus passos nesse campo. Nada me impedia de assistir Cantando na Chuva anteriormente, além da pura falta de interesse – fundada pela influência rasteira e por enquanto negativa de meu próprio repertório meia boca. Até então, tinha visto Moulin Rouge e Chicago (e os ainda mais jovens estão assistindo High School Musical, Dreamgirls e Hairspray), achava o primeiro um desperdício de bons atores num baile Pop e o segundo uma realização tecnicamente eficiente entupida de momentos constrangedores (Richard Gere dançando, por exemplo). Sinceramente não entendia o saudosismo selado envolta dessas produções, afinal em mim não havia nostalgia alguma. Vi as duas obras isoladamente e não como uma retomada de ‘um passado glorioso, esplêndido, magnífico’ como comentava repetidamente o crítico Rubens Ewald Filho na festa do Oscar 2003 (sic, sic, sic). Às vezes, eu sinto que o mesmo vício de apontar para trás e dizer que tudo foi melhor, acontece quando se pega a obra presente e a aponta para trás dizendo que ela é tão boa quanto. Eu entendo o charme do jogo de referências, mas esse é um vício que pode surgir tanto fundamentado como numa afirmação solitária e vazia. Um risco.

De qualquer maneira, temos que perceber também que a perspectiva de isolamento – não comparativa com qualquer outra época – é recorrente em boa parte da platéia jovem contemporânea que não vivenciou uma produção intensa dos musicais, nem ouviu falar em nomes como Fred Astaire (e sua classe), Busby Berkeley (e sua extravagância) ou Cyd Charisse (e suas pernas). Há um ano, me incluía perfeitamente nesse grupo. É um processo natural e não precisamos lamentar. Obviamente, já tinha assistido Hair e não me deixava convencer por toda sua aura de afetação datada (pois é, já superei minha fase neo-hippie juvenil). Além desses, conhecia um ou outro trabalho de Carlos Saura – e ainda permanecia um pouco indiferente, mal lembrava de Grease, Flashdance e outros ‘sessão-da-tarde’ e fazia o favor de encaixar o The Wall, Hedwig and the Angry Inch, Velvet Goldmine e Dançando no Escuro (e não só esses) numa modalidade aparte. Dentro do preconceito plenamente estabelecido, os filmes citados, em especial o de Lars Von Trier nunca poderia ser classificado como um musical. Primeiro: eu o adorava. Segundo: como 80% das pessoas chorei horrores ao final. Terceiro: não pretendia viver nesse paradoxo do gosto e do não-gosto simultâneos (ainda que essa produção tenha perdido um pouco de seu impacto depois de Não Matarás, de Krzysztof Kieslowski e eu de fato tenha entrado nesse paradoxo). Tratava-se de uma lógica ambígua mesmo: via-me extremamente encantado por diversas cenas musicais inseridas em filmes não-musicais, mas os musicais-musicais (ou pelo menos, os que eu tinha visto até então e lembrava) me aborreciam ou entediavam profundamente. Profundamente.

Cantando na Chuva, entretanto, se impôs de maneira brutal diante de meus olhos previamente desacreditados. Até então cantarolava singing in the rain sarcasticamente por conta de Laranja Mecânica (EUA, 1971), de Stanley Kubrick e apesar de ter uma vaga idéia da cena original preferia ignorá-la (a homenagem surgira antes do homenageado, o que se torna cada vez mais comum e confirma a idéia de negociação entre cronologias). Em maio desse ano (Edit: 2007), depois de assistir à obra de Gene Kelly e Stanley Donen, me entreguei a uma auto-crítica onde foram reveladas ignorâncias sobre a história e os desdobramentos do estilo e desfeitas as cristalizações conceituais taxativas: a cada ironia ou passo de dança, um caminho para dezenas de outros filmes começava a se formar. E engraçado que esse percurso no tempo, em busca do conhecimento histórico é marcado essencialmente pela descontinuidade: como se a cronologia ‘original‘ fosse recortada em mil pedaços e re-montada, aos poucos, pelo desbravador contemporâneo a partir de cada novo-filme-antigo visto. A ordem de revelação de qual será assistido antes ou depois se torna totalmente arbitrária, a não ser que adotemos um metodismo acadêmico. Pensava no gênero em questão de maneira extremamente limitada diante das variantes possíveis. Entre tantos filmes para conhecer, os musicais poderiam ser simplesmente os últimos da fila. Passei anos alimentando esse receio opressivo, mas mesmo depois de todo preconceito estabelecido, firmado, enraizado a 400 mil metros, Cantando na Chuva criou seu próprio paradigma e ditou suas próprias regras (uma unanimidade sim – apesar de na época de seu lançamento ser considerada uma obra abaixo de Sinfonia de Paris, vencedor do Oscar em 1951). Em quinze minutos de filme, qualquer espécie de aversão já tinha se esvaído e minha valoração estava plenamente sob controle. Provavelmente não teria buscado os musicais e seus contextos sem esse primeiro passo. E aí que reside, para mim especificamente, a maior importância dessa obra.

O modo como se estrutura o sistema cinematográfico americano sempre é lembrado, enquanto conjunto – e admito: essa é uma afirmação grosseira – pela presença marcante do produtor a frente da obra – vide a influência de Arthur Freed ou mais recentemente de Harvey Weinstein – e por sua lógica estritamente comercial e pouco artística – e não que esses dois elementos sejam necessariamente opostos (essa história de colocar dinheiro e arte em lados opostos, quase como inimigos mortais às vezes me parece um tanto infantil). Cantando na Chuva representa uma época em que Hollywood sabia brincar consigo mesma, sabia utilizar recursos típicos e criticá-los em uma mesma instância – ainda que para atingir os objetivos comerciais de sempre (até porque os musicais eram produções caríssimas que precisavam de algum retorno para se manterem em produção constante – e a MGM mantinha). Por sinal, o gênero em questão é especialista em construir sua diegese dentro do próprio show business, se utilizando sempre de uma ironia metalingüística ou da exposição de plena-consciência sobre si. Tudo bem que no filme de Gene Kelly e Stalen Donen há uma cordialidade imensa, pois não existe uma pretensão em revelar sujeiras de bastidores, mas apenas tirar um bom sarro e debochar de sua própria condição (coisa que High Society (EUA, 1956), de Charles Walters faz muito bem). As críticas sérias a Hollywood – produzidas fora de Hollywood – às vezes soam como outsiders, se estigmatizam demais como repúdio ao esquemão e terminam se formatando enquanto tal. O filme de Gene Kelly e Stanley Donen não. Estão inseridos dentro de um sistema produtivo e ao mesmo tempo jogam com esse sistema, através do humor e da ironia – e certa leveza tonal. Cantando na Chuva brinca com tudo que representa ao mesmo tempo em que também as valoriza.

Há deboches de todos os tipos e todos são auto-reflexivos. Dentro daqueles estúdios enormes qualquer história cretina levemente modificada pode se transformar num belo conto hollywoodiano. Com falso glamour, mas glamour. Isso é Hollywood: um boteco decadente que se passa por um conservatório de Belas Artes, um dia péssimo que se passa por um lindo dia se sol, uma narrativa trash que se passa por um épico monumental. Isso é Hollywood: um produtor que entra no set de filmagem e ordena que o suposto filme épico se torne um musical. E não poderia ser de outra maneira. Na história do filme, a atriz Jean Hagen interpreta Lina Lamont, uma estrela gasguita do cinema mudo que, com o advento do cinema sonoro, precisa ser dublada pela iniciante Kathy Selden, personagem interpretada por Debbie Reynolds. Entretanto, “o que poucos sabiam é que, na verdade, a voz de Debbie Reynolds dublando Jean Hagen é que fora dublada. Por quem? Pela cantora Betty Royce e pela própria Jean!” (Castro, 2006) , nos revela Ruy Castro (e todo seu detalhismo biográfico) em seu desmistificador artigo ‘Uma serenata ao maior musical do cinema’. O trabalho da atriz Jean, geralmente confundido pelos espectadores, é um ótimo exercício para diferenciarmos a personagem irritante da atuação genial. Cantando na Chuva não é outra coisa, senão uma caricatura, uma paródia de si mesmo e de toda cultura de celebridade na qual se funda. É como se Gene Kelly com aquela sorriso imenso apontasse o dedo para si, para toda equipe técnica, especialmente para Debbie Reynolds e para alguns de seus espectadores e chamasse a todos (inclusive ele mesmo) de idiotas. De maneira bem sutil e charmosa é bem verdade – ninguém chega a se ofender – mas idiotas. Como os pudores são menores, fazem piadas-piadas-piadas e riem juntos-juntos-juntos. Tudo é divertido. Muito divertido. Logo no início do filme, há um comentário sobre o casal de astros principais que funciona como uma parábola de todo esse pensamento: “Ladies and gentlemen, when you look at this gorgeous couple, it’s no wonder they’re a household name all over the world… like bacon and eggs. Lockwood and Lamont!“. Para além do humor nonsense, essa frase resume – novamente de forma irônica – toda arbitrariedade comparativa de um sistema produtivo altamente etnocêntrico, sistema que tende a afirmar sempre que possível sua importância diante da história do cinema mundial. Hollywood gosta de mostrar não apenas sua face, ostentar não apenas sua influência – gosta de dizer, de assegurar, de se comparar a todo o momento (colocando-se como centro, óbvio).

Engraçado que ainda continuo achando a grande maioria dos musicais bobos e melosos-românticos demais (exceto, talvez, alguns como Sapatinhos Vermelhos (UK, 1948), de Michael Powell e Emeric Pressburger). O próprio Cantando na Chuva é bobalhão e excessivamente romântico-meloso, entretanto, já não enxergo isso como um problema a priori. Talvez eu tenha evoluído, de fato, no acordo diegético entre o cineasta e o espectador; tenha criado a pré-disposição para musicais (que antes, se dava como uma anti-disposição). Mas, além disso, há um detalhe ainda oculto. Nas produções contemporâneas, de Moulin Rouge a High School Musical, a montagem se porta de maneira extremamente agressiva, com cortes exagerados e exagerados. MTV pura. Não que eu seja contra esse tipo de edição, pelo contrário, não há preconceito algum nesse caso, afinal me criei nessa estética gravando videoclipes durante toda adolescência. Mas em Cantando na Chuva (e vários outros musicais entre as décadas de 30 e 60), a câmera deixa os atores dançarem, representarem e cantarem, porque de fato são dançarinos, atores e cantores – excepcionais nos três âmbitos. Essa me parece a primeira grande diferença. A câmera e o tratamento dos planos ao invés de esconder, se preocupar ou trucar uma inabilidade do ator tornando-o aparentemente hábil (o que também tem lá sua magia), toma uma postura de contemplação do ato. Assim, boa parte da responsabilidade é lançada ao intérprete (e ao diretor-coreógrafo, não esqueçamos), enquanto o enquadramento simplesmente busca o olhar mais privilegiado, uma otimização do show. O que já é um deleite aparte, pois convenhamos que alguns atores abusam do talento (o número de O’Connor ‘Make ‘em Laught é genial). E só para não fugir do clichê-mor é preciso dizer que Gene Kelly abusa mais que todos. Suas apresentações transpõem a idéia de virtuosismo técnico tão cobrada dos dançarinos, passando a explorar uma afirmação de vigor literalmente físico. Poucas vezes a desenvoltura, a técnica e a força caminharam tão bem a partir de um único corpo acrobático.

Um segundo ponto é a performance do elenco e a ação dos executivos sobre a obra. Gene Kelly é um produto e um ator / dançarino, Zac Efron é, por enquanto, apenas um produto. Sinto-me até meio idiota comparando qualidades artísticas tão discrepantes. No caso do primeiro a intervenção da figura do produtor se dá de maneira estrutural ao reunir os melhores profissionais da área para trabalharem juntos, e de maneira artística, afinal Arthur Freed é responsável pelas letras de quase todas as canções de Cantando na Chuva, canções escritas na transição do mudo para o sonoro num pedido / ordem de reciclagem da própria MGM. Foi daí que nasceu o roteiro. Isso deu uma liberdade enorme ao que Gene sabe fazer de melhor. Já no caso do segundo, a empresa Disney funciona como um Deus moral e publicitário que modifica do roteiro à escolha do diretor, cortando cenas ao bel prazer do marketing da franquia até se focar no elenco a partir de padrões meramente estéticos. E aqui não podemos esperar que Zac mostre o que sabe fazer de melhor, além de pentear seu cabelo milimetricamente sem erros ou aparecer num evento mais maquiado que a Cate Blanchett. Em terceiro lugar (quase que caio naquela ‘e não menos importante’), vale lembrar que o filme de Stanlen Donen e Gene Kelly resume muito bem uma característica dos musicais de sua época, no que se refere a como a cena é pensada para a dança e para a câmera, como os dançarinos se conectam diretamente com os recursos cinematográficos, sem menosprezarem seu próprio virtuosismo técnico. Isso só acrescenta. É importante notar também que, durante algumas apresentações cantadas, as personagens interpelam diretamente para a câmera, diretamente para o espectador, como se saíssem por um segundo do universo ao qual estão inseridos para fazerem um adendo urgente – que precisa ser feito e não pode esperar (como os que eu fico fazendo insistentemente através desses parênteses).

Por fim, assistir Cantando na Chuva será sempre como assistir, simultaneamente, três contextos históricos do filme-musical: o contexto da diegese fílmica, o contexto da produção do próprio filme e o contexto atual do espectador. Ou melhor, é assistir simultaneamente o primeiro contexto sob a ótica e desvios do segundo; o segundo sob a ótica e desvios do terceiro e o terceiro sob o grande dilema de analisar a si mesmo. O primeiro, vinculado à história do filme se passa num momento muito emblemático para o cinema no final da década de 20 do século passado: os anos do advento do som. Naturalmente são retratados anseios e mil questões, ainda que de forma caricatural, exagerada, referentes a esse processo: atores que não se adequaram; cineastas que não se adequaram; receios quanto à vulgaridade do novo recurso. É uma mudança brusca no modo de se fazer e pensar filmes por mexer, estritamente, na estrutura da linguagem. A passagem do mudo para o sonoro foi tema de diversos estudos por parte de cineastas e teóricos – entre eles Eisenstein, Pudovkin e Rudolph Arnheim. Assim, o filme está repleto de cenas em bastidores de estúdios inserindo esse espaço oculto (hoje já tão banalizado pela publicidade): fica uma sensação de alargamento do recorte da tela, no intuito de alcançar um recorte mais amplo. E quando Hollywood aprendeu a falar já começou cantando. No segundo momento, em 1952, quando o filme foi concebido e lançado, Hollywood estava no ápice de sua Era de Ouro dos musicais – iniciada depois da Segunda Grande Guerra depois de “um estudo que indicava que as comédias musicais eram as favoritas entre todos os tipos de histórias, de modo que a MGM reviveu o gênero. Com Gene Kellye e Fred Astaire como principais dançarinos, desafiou a concorrência da [recém lançada] televisão com belas e sofisticadas produções musicais em cores, duas e às vezes três das quais figuraram anualmente entre os maiores sucessos de bilheteria da indústria” (Sklar, 1975, p. 329). E repito: essa idéia de colocar dinheiro e arte em lados estritamente opostos, como se a presença do primeiro invalidasse a existência do segundo (e vice-versa) pode se tornar, dependendo do contexto aplicado, um conceito deveras equivocado. Ou melhor, um pré-conceito (rá).

Esse momento próspero em Hollywood prosseguiu firme antes decair no final da década de 50 / começo da década de 60. Até então foram produzidos os ditos melhores filmes do gênero de todos os tempos como Marujos do Amor (1945), Desfile de Páscoa (1948), Um Dia em Nova york (1949), Sinfonia de Paris (1951), o próprio Cantando na Chuva (1952), A Roda da Fortuna (1953), Cinderela em Paris (1957), Meias de Seda (1957), My Fair Lady (1964) ou A Noviça Rebelde (1965) entre outros (para mais detalhes dos bastidores, leia o conjunto de artigos de Ruy Castro que formam “Toró Mágico: Cantando na chuva”. Nada que eu tente escrever aqui vai chegar perto do trabalho de apuração que ele fez: quase chamando Gene Kelly de ‘brother’). No terceiro momento, hoje, só consigo enxergar que o musical se tornou uma seqüência de tentativas ‘produto pelo produto’ com toda uma apelação teenage: onde não importa a técnica, a história, as piadas, o cinema, nada. Basta uma seqüência de rostos bonitinhos, cortes, cortes, cortes, revistas, celebridades, adolescentes enlouquecidos. A única exceção são diretores famosos que resolvem brincar com o gênero, como os já citados Alain Resnais e Woody Allen e mais recentemente Tim Burton. O resultado nem sempre é dos melhores. Obviamente posso está sendo precipitado (e novamente preconceituoso) por desconhecer e não buscar (por pura falta de interesse) uma série de lançamentos, mas High School Musical é o símbolo maior dessa opinião. E, infelizmente, vi não só essa produção como sua sequência desastrosa. Há um vazio desconcertante. Só de pensar que estão preparando o número três da franquia, que milhões de dólares estão sendo investidos nessa bobagem, passo a sentir que aquela nostalgia ao qual me referi ironicamente no início do texto começa a me abater também: mas diferente do Rubens, não de maneira otimista.

Cantando na Chuva. EUA, 1952. Roteiro: Adolph Green e Betty Comden. Direção: Gene Kellye e Stanley Donen Produtor: Artur Freed. Elenco: Gene Kelly, Jean Hagen, Donald O’Connor, Debbie Reynolds, Cyd Charisse. 103 minutos.

Para Baixar: Cantando na Chuva

Referências bibliográficas:

CASTRO, Ruy. Um filme é para sempre. Cia das Letras, 2006.

SKLAR, Robert. História Social do Cinema Americano. São Paulo, SP: Cultrix, 1975.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

terça-feira, 13 de novembro de 2007

jornalismo-ufpe@yahoogrupos.com.br

"Concordo com Nane quando diz que para dinheiro todos se empolgam"

¬¬

frase lugar-comum do dia.

será que alguém vai incluí-la no próximo discurso?

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Tropa de Elite

Cioe chega no Aníbal Bruno tocando música de "Tropa de Elite"

"Ao som da música do filme "Tropa de Elite", uma unidade tática da Companhia Independente de Operações Especiais (Cioe) entrou agora pela manhã no presídio Aníbal Bruno, para controlar a rebelião que recomeçou no início da manhã de hoje (12). Neste momento a situação no presídio parece tranqüila. Os sons de bombas de efeito moral e tiros pararam e a fumaça também diminuiu".

o_O

ok, eu tenho pena de quem tenta entender / explicar o nosso país.

sábado, 10 de novembro de 2007

Queda

E quando você ta feliz feliz, nada como uma boa queda pra colocar os pés no chão. Ou a cabeça.

Conta da noite: 5 pontos na minha testa. [tired]

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Quem viu, viu.

Passou hoje na novela Duas Caras, Suzana tosca Viera interpretando o reitor da UFPE Amaro Lins. Tinha tudo: ocupação da reitoria, ameaça de invasão pela polícia, gritos estudantis hilários, barricada de pneus, marília pêra engraçada de morrer e uns atores bem péssimos que não prestem muita atenção.

Não entendi se a cena era pra ser séria ou hilária, mas sinceramente fazia tempo que não ria TANTO.

Carreteiro

Dona de 65% do mercado de vinhos populares nos Estados de Alagoas, Pernambuco e Paraíba, a Indústria de Vinhos Carreteiro anunciou a construção de mais duas plantas de envasamento no Nordeste: no Ceará e na Bahia.

Expandindo os negócios, hein?

Quando eu tinha dezessete anos e bebia carreteiro de forma frequente (argh!), sempre ficava noiando que cada garrafa tinha um gosto diferente da outra. Algumas vezes, extremamente diferentes. Daí um dia coloquei isso em discussão numa mesa de bar enquanto bebíamos lá na rua do Apolo, no saudoso 'fogão'. A maioria concordou: principalmente depois de cinco garrafas consumidas. Foi então que uma amiga concluiu: é a quantidade de baratas na garrafa que diferencia uma da outra.

E quando vimos ela tinha uma patinha de barata no canto da boca.

Nem preciso contar o resto né?
(se quiserem saber continuem descendo...)







































































































hahahahahahah
a parte da patinha é mentira.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

>_< (vergonha alheia)

Mais um clássico da falta de noção do jornalismo pernambucano (do Blog de Jamildo, óbvio):


JARDIM DA INFÂNCIA 06/11/2007 21:20

Batalhão de choque não chega junto e estudantes continuam ocupação do prédio da UFPE

Mesmo sem sentido, ocupação dos estudantes já dura 11 dias.

O prédio da reitoria da UFPE permanece ocupado pelos estudantes ligados ao movimento estudantil.

Na segunda-feira, oficiais da PM estiveram com o reitor Amaro Lins, mas nada resolveram.

A polícia disse que não era assim fácil, que estava se organizando e que tinha que se preparar. Sabe como é, depois do Capitão Nascimento, a estratégia tem que ser valorizada em cada ação.

[...]

Mas sério... que espécie de comentário é esse?

terça-feira, 6 de novembro de 2007

O Elicangate de Tropaceiro

"Premiados e rentáveis, estes filmes divulgam idéias nacionalistas com soluções evasivas, impõem um espírito de produção, envolvem as massas com estes temas, dominam as elites indecisas, prendem inocentes úteis e são facilmente utilizados pelas forças reacionárias que encontram, neste tipo de nacionalismo pseudo-revolucionário, uma boa válvula de escape. Em todas as épocas os políticos sabem muito bem usar os meios de comunicação."

Glauber Rocha sobre O Cangaceiro, de Lima Barreto (Revisão Crítica do Cinema brasileiro, 1963, P. 72)

Só lembrei de Tropa de Elite, pega um, pega geral.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Papai Noel

E segundo a ONU, vem aí o tsunami do ópio:

Agência France Presse

CABUL – A Ásia Central corre o risco de ser vítima de um “tsunami” do ópio por causa de uma produção no Afeganistão superior ao consumo mundial, advertiu na quinta-feira em Cabul um alto responsável da Organização das Nações Unidas (ONU).

“Há um excesso” de produção “em relação ao consumo” no mundo, declarou Jean-Luc Lemahieu, o chefe para a Europa, Ásia do Oeste e Central do Escritório da ONU para a Droga e o Crime (ONUDC), na terceira conferência do Pacto de Paris sobre o Afeganistão e os Países Vizinhos.

A produção de ópio (substância que é extraída da papoula), no Afeganistão deu um salto de 34% em 2007 e dobrou desde 2005, atingindo 8.200 toneladas, segundo relatório recente da organização.

“Esta enorme quantidade vai criar um tsunami na região, e é necessário responder a isso”, disse Lemahieu, explicando que esse excesso se traduzirá em preços mais baixos nos mercados regionais, correndo o risco de aumentar a dependência dos consumidores, sobretudo na China e na Índia, países próximos ao Afeganistão.

Por enquanto, explicou, “o vínculo com o mercado na China não foi estabelecido” a partir do Afeganistão, enquanto que isso já aconteceu com o “Triângulo de Ouro” no Sudeste Asiático (Vietnã, Tailândia e Mianmar), onde a produção de ópio está em vias de erradicação.

Especialistas de 55 países e organizações internacionais reunidos durante dois dias na capital afegã dedicaram uma parte importante de seus trabalhos às conseqüências desse problema na China.

“As intervenções dos participantes foram, principalmente, sobre os meios de combater o tráfico em nível regional, com ênfase em uma maior troca de informações entre os países vizinhos e patrulhas fronteiriças mistas”, destacou o ministro interino afegão da Luta Antidrogas, general Khodaidad.

Programas financiados pela comunidade internacional já estão em aplicação entre países fronteiriços e um esforço particular foi observado, segundo uma fonte diplomática européia, por parte do Irã, pelo qual transita, rumo à Europa, uma parte do ópio já transformado em heroína nos laboratórios afegãos.

Este ano, Paquistão, Irã e Afeganistão assinaram um acordo de cooperação na luta contra as drogas. Esses países, chamados de “Crescente de Ouro”, em alusão ao “Triângulo de Ouro” do Sudeste Asiático, vêm se reunindo em nível ministerial para discutir medidas comuns.

Em relação a medidas específicas de luta contra a droga no Afeganistão, “é preciso dar tempo ao tempo”, disse um responsável da ONUDC, lembrando dos 20 a 30 anos necessários para obter resultados tangíveis, sobretudo ao longo dos últimos dez anos, na erradicação do ópio no interior do “Triângulo de Ouro”.

“A estratégia antidrogas no Afeganistão é boa. Do que precisamos é que ela possa se aplicar de maneira eficaz com um apoio ao mesmo tempo regional e internacional”, observou o responsável da ONUDC para o Paquistão, Vincent McLean.

Entre as dificuldades encontradas no Afeganistão, um especialista americano em questões de drogas na região, Barnet Rubin, citou o envolvimento de personalidades públicas, ou de seus familiares, no tráfico, o que já foi apontado por ONGs no passado. De acordo com o general Khodaidad, “não há nenhuma prova (da presença) de traficantes afegãos em um nível governamental importante”.

Acho foda essa falsa preocupação, porque até parece que as autoridades ocidentais estão super preocupados com a Ásia: alguém tem alguma dúvida de que esse tsunami vai crescer, crescer e quebrar nas praias frias da Europa e dos EUA? Alô, quem produz em massa não é quem consome em massa. Papai Noel vai levar muita heroína pros europeus e americanos passarem bem o inverno.

Mas só se forem bons garotos.

CAPA

O Diario de Pernambuco saiu hoje com uma manchete de capa bem espirituosa:

“BALA NELES”

(referente aos dois gols que o jogador Carlinhos Bala, do Sport fez contra o Palmeiras).

sábado, 3 de novembro de 2007

Metamórphosis

Limite (1931), de Mário Peixoto

(Publicado originalmente no Dissenso)

No decorrer dos últimos meses, tenho refletido bastante sobre a influência de obras sobre obras. Não de maneira determinista como em quase todas as críticas de cinema esse pensamento é posto em discussão, mas numa perspectiva onde tendências estéticas, diretores ou mesmo filmes avulsos têm seus princípios redimensionados, a partir da inclusão de especificidades de diferentes contextos. Não são traçadas linhas formais de seqüências a seqüências, de enquadramentos a enquadramentos ou de utilização de luz a utilização de luz. Nada disso. Também não questiono as possíveis paródias ou homenagens diretas. De fato, elas existem, se multiplicam e se vislumbram, mas na situação que pretendo aqui tratar, tudo se dá num caráter mais fluido e menos prático – esquecendo e desrespeitando qualquer linearidade. É preciso perceber que nem sempre as influências se mostram completamente conscientes por quem as utiliza e que nunca permanecem as mesmas depois de utilizadas: entre as supostas linhas formais que se apontam existe um conjunto de desvios que precisam ser lembrados. Só para ilustrar não é tão raro acontecer de críticos formularem ligações externas dentro de uma obra (seja um filme, um disco ou uma performance), cujo criador sequer conheça ou tenha antevisto / atinado como fonte de inspiração. Se por um lado essa postura pode estabelecer um clima constrangedor, propondo um questionamento à validade e credibilidade do trabalho crítico; também pode, por outro, consolidar duas reflexões mais importantes: a que o jornalista carrega consigo uma rede de influências próprias, geralmente ocultas em seus textos e que as obras de arte podem sim desenvolver algum diálogo com artistas desconhecidos ao criador. Para tanto, alguns conceitos precisam ser abandonados e outros instituídos.

Proponho, então, uma tênue, mas pontual distinção de percurso: não se trata em encontrar no trabalho do artista póstumo o que permaneceu como ensinamento ou determinação do anterior, mas perceber como o engatinhar e os primeiros passos, dados pelo anterior, foram estritamente necessários para que o póstumo pudesse desenvolver seu próprio jeito de andar e iniciasse seu percurso já de pé. As preocupações se tornam outras sucessivamente: sofrem as metamorfoses precisas para que as obras não caiam na estagnação ou se percam na repetição que, diariamente, preenche todas as nossas telas e que, particularmente, me entorpece de um imenso tédio. O cinema não passou incólume por Griffith, por Eisenstein ou mesmo por Godard. Também não se viu livre da repercussão do advento do som, da inserção da cor ou da diminuição no tamanho das câmeras. O cinema nunca ignorou os projetos estéticos por mais diversos e estranhos que fossem, nem fechou os olhos para as iminentes revoluções culturais, sociais e tecnológicas. O cinema presenciou e resistiu ao nascimento da televisão; se apropriou das novas mídias e, com uma intimidade desconcertante, devorou e se deixou devorar pela cultura Pop. Todas as artes transpõem seus dilemas através desse tipo de embate. Às vezes sutil, mas embate. Lembremos, por exemplo, que um dia a pintura se viu diante da invenção da fotografia e nunca mais foi a mesma, a ponto de se libertar “definitivamente de quaisquer pressupostos realistas [...]e do fantasma platônico de ser eternamente imitação das aparências” (Menezes, 1997, P. 45). Há um permanente aprendizado implícito e contextual não necessariamente referenciado.

De alguma maneira, é como pontua Pierre Bourdieu ao escrever que “mesmo que não se refiram uns aos outros, os criadores contemporâneos estão objetivamente situados uns em relação aos outros” (Bourdieu, 1996, P. 54-56) . A presença de cada um se afirma durante o processo criativo seguinte (retificando, refutando, transformando, dialogando, etc), o que prova, ainda na linha de raciocínio do sociólogo francês que “nenhuma obra existe por si mesma, isto é, fora das relações de interdependência que a vincula a outras obras” (idem). Esboça-se um resultado eternamente híbrido, possivelmente inspirado e distinto da corrente teórica original. É como se firmasse uma subliminar consolidação do intertexto artístico (e transartístico) – regido, disforme e expansível à maneira do repertório de cada um. As diferentes perspectivas de conhecimento/reflexão sobre estética precisam ser resgatadas e colocadas em conflito. Talvez por isso, tenho refletido ainda mais, na possibilidade das influências de obras sobre obras provirem não de um ou dois, mas de diversos estilos, surgidos em realidades até contrárias, sob aspectos também contrários. Além de mesclar princípios e indicações, aplicam-nos ao seu próprio meio, transfigurando-os através do tempo e os desapropriando de si mesmos. A contemporaneidade está cheia disso. Tudo na busca por uma instância estética, poética e técnica particular, diferente de todas anteriores que, em algum momento, serviram ao processo de criação. Pensando assim, não poderia ter assistido Limite (Brasil, 1931), de Mário Peixoto em um momento mais adequado.

Ainda que não possamos estabelecer uma genealogia cinematográfica (e fazê-lo seria uma grande bobagem ou um grande desafio), não é difícil notar que esse filme (único do diretor) funciona como um baú brasileiro, onde estão depositadas algumas proposições, inventividades ou pós-proposições de todas as vanguardas cinematográficas européias surgidas até então: para dentro e além do Expressionismo Alemão, da Avant Garde Francesa e do Formalismo Russo. O que não acontece por acaso, afinal Mário Peixoto participou de algumas sessões do primeiro cineclube nacional, o Chaplin Club e colaborou nas discussões que fundamentaram as 9 edições do jornal cinematográfico O Fan (1928-1930), além de ter estudado e morado na Europa, tendo um contato relativamente próximo com a movimentação cinéfila que se formava. Uma de suas viagens ao continente – a mesma em que descobriu a imagem-inspiração de Limite na revista francesa VU – foi destinada apenas ao ato de assistir filmes. Há uma influência: não nego, nem meço. E qualquer tentativa racional, nesse sentido, se mostraria falha. Por ora, digamos que Limite é apenas uma forma alternativa de contar a história do cinema até 1931. Não como um documentário preocupado com a didática (trata-se de uma ficção experimental), mas como um projeto estético que revela uma dezena de entrecruzamentos possíveis entre propostas vanguardistas tidas, singelamente, como paralelas.

Esse diálogo intertextual, entretanto, só pode ser desenvolvido a partir do conceito de possível relação, não de determinação, não em forma de linhas incontornáveis e pressupõe um compartilhamento mínimo de referências entre o crítico (ou propositor) e o espectador (ou dissidente), para não se tornar um debate absolutamente nulo. É um risco – afinal esse mesmo compartilhamento responsável pela discussão, pode resultar na formação de um grupo fechado fadado ao consenso. É uma faca de dois gumes. Podem acusar Mário Peixoto, como fez Glauber Rocha (Rocha, 2003) diversas vezes e mesmo antes de assistir ao filme, de construir uma obra burguesa, alienada, de um esteticismo vazio. Particularmente discordo dessa opinião – se encaixa no velho chauvinismo de se tentar estabelecer um princípio básico para a arte estritamente nacional, partindo do necessariamente engajado social e determinando, a priori, o caráter desse engajado social (em contrapartida ao caráter do chamado 'social evasivo' como sugere o cineasta baiano). Limite está apenas distante desse conceito – e conseqüentemente dos conceitos de regional, de local e de identidade ao qual estamos repetidamente vinculados. Nem sempre por opção. Pois é, esse distanciamento do que seria a arte estritamente nacional, fundamentada por Glauber e que encontra seu patrono na figura de Humberto Mauro, não torna Limite menos brasileiro, pelo contrário, o traduz mais contemporâneo. Para além de todas as alegorias limítrofes recorrentes no próprio filme: para além das bordas do barco, das cercas de arame, das grades do presídio e do fluxo contínuo entre o presente e o passado. Para além das imagens-conceito maiores: para além da face feminina enlaçada pelas mãos algemadas e para além dos olhos que se alternam com a vastidão do mar. Limite está diretamente e a todo o momento ligado com o ‘para além‘. Como um oxímoro mesmo.

Admito que na maioria dos livros que li até hoje e dentro da universidade (no meu caso, dentro do curso de Comunicação Social), boa parte das disciplinas direcionadas ao estudo do cinema, como o foi ‘Teorias do Cinema‘, mapeiam as correntes estéticas de maneira estática, isolada e pontual. Algo totalmente sem sentido. É como enclausurar uma idéia dentro de uma gaiola. Fica uma sensação estranha como se o formalismo tivesse nascido e morrido na Rússia e ponto, como se o expressionismo tivesse nascido e morrido na Alemanha e ponto, como se o neo-realismo jamais tivesse rompido as fronteiras da Itália. E pior, como se o resto do mundo estivesse apenas descansando, enquanto tudo isso acontecia. Em nenhum momento se foca nos desdobramentos e mudanças ocorridas dentro do próprio pensamento; nem há um confronto de posições, menos ainda o estabelecimento de opiniões divergentes – o que tende a encaixar os vários diretores de um mesmo período, dentro de um único discurso (o próprio Cinema Novo sofre desse mal diante da efígie de Glauber). Qualquer espécie de movimento é sempre multifacetado: seja pelas facetas de quem o faz, seja pelas as facetas de quem o lê. Há uma séria limitação espaço-temporal na construção acadêmica sobre cinema (em especial nos superficiais cursos pretenso-cinema). Isso acontece, entre outros motivos, porque quase toda bibliografia adotada e/ou recomendada é de origem estrangeira e, na grande maioria, sequer inclui o Brasil na história do cinema. Além disso, não há uma continuidade metodológica a médio ou longo prazo, de modo que o ensino se torna um resumo em tópicos, uma mera oficina acelerada. Um semestre em quatro meses e algumas faltas não é nada para o cinema.

Óbvio que não acredito que o problema seja falar nos europeus e americanos (ou seria uma tremenda hipocrisia de minha parte), mas no não falar de nós e de tantos outros. Raras vezes citam Glauber Rocha nos livros e na sala. Raras – apesar de toda aura. Essa idéia, que funciona como uma premissa multiculturalista, é amplamente discutida no livro Crítica da imagem eurocêntrica, de Ella Shohat e Robert Stam: “não se trata, na verdade, de um ataque à Europa ou aos europeus, e sim, ao eurocentrismo, ou seja, à tentativa de reduzir a diversidade cultural a apenas uma perspectiva paradigmática que vê a Europa como origem única dos significados, como centro de gravidade do mundo, como ‘realidade’ ontológica em comparação com a sombra do resto do planeta” (Shohat, Stam, 2006, P. 20). Tenho pensado, inclusive, que essa exclusão da alteridade na prática de ensino, nos distancia das origens do cinema brasileiro (e de tantos outros cinemas, para falar a verdade), deixando nossa visão da primeira metade do século passado focada e limitada, restritamente, às produções européias e americanas. Obviamente parte desse ranço resiste até hoje – vide a programação no cinema mais próximo de você – onde a presença de dois blockbusters é o suficiente para ocupar metade das atuais 48 salas disponíveis em Recife (levando em conta alguns cineclubes e salas alternativas). Podemos nos divertir horrores assistindo Harry Potter, Homem Aranha ou Piratas do Caribe, mas o mínimo que podemos fazer é conhecer a nossa própria história artística e a realidade produtiva que nos cerca intimamente – não apenas a que nos é imposta por vias comerciais (redescobrir o ‘Ciclo do Recife’, por exemplo, é um importante passo já dado por alguns pesquisadores).

Nesse sentido, Limite é uma descoberta muito recente, apesar de meu foco acadêmico na área do audiovisual já estar direcionado há alguns anos – e, Paulo Cunha, o objetivo dessa afirmação não era a auto-complacência. Enfim, se dentro da universidade nunca havia escutado comentários sobre o filme (o assisti num grupo de estudo de cinema muito pequeno e específico), descobri na internet uma série de escritos acadêmicos, uma certa devoção à obra de Mário Peixoto. Conheço um bom número de produções desse mesmo período – todas estrangeiras, de fato. Entre os russos, que além de cineastas são teóricos, poderia citar A Greve (1925), O Encouraçado Potemkin (1925), Outubro (1928), de Sergei Eisenstein; A Mãe (1926), O Fim de São Petesburgo (1927) e Tempestade sobre a Ásia (1928), de Vsevolod Pudovkin e O Homem com uma Câmera (1929), de Dziga Vertov. Dovzhenko ainda está na lista esperando a sua vez. Entre os alemães, destacaria O Gabinete do Dr. Caligari (1919), de Robert Wiene; Nosferatu: Sinfonia do Horror (1922), Fausto (1926) e Aurora (1927) de F. W. Murnau, além de A Morte Cansada (1921), Metrópolis (1927) e M – O Vampiro de Dusseldorf (1931), de Fritz Lang. Por fim, valeria ainda lembrar de O Cão Andaluz (1929) e A Idade do Ouro (1930), dirigidos por Luis Buñuel e Salvador Dalí; de A Queda da Casa de Usher (1928), de Jean Epstein e de O Anjo Azul (1930), de Josef Von Stenberg. Carl Theodor Dreyer, Georg Pabst e Ernst Lubitsch estão a caminho: espero que os downloads não demorem muito. Essas obras e cineastas me ajudam agora a consolidar e expandir uma noção de intertexto cinematográfico, em substituição à idéia deslocada de influência, partindo dos irmãos Lumière até hoje atravessando vários espaços e tendências. E volto a repetir: trata-se de uma trajetória fluida e não determinista. Limite precisa ser fincado em qualquer estudo sobre cinema como essencial. Não apenas em reconhecimento ao cinema brasileiro, mas em defesa do cinema em si.

Mário Peixoto conseguiu estabelecer uma obra aberta e ousada: as marcas do tempo impressas na película (pouco discutidas enquanto recurso estético) consolidam um experimentalismo já empregado originalmente e desmistificam o estatuto do filme como uma produção imutável ao longo dos anos (para além da idéia de difusa cognição dentre os diferentes espectadores). Institui-se uma reflexão que se prolonga; um processo que se prolonga. Acredito que a restauração / remasterização, sob a tutela de Walter Salles, precisa respeitar um pouco essas marcas – afinal o tempo não apenas se integra à proposta, como carrega, implicitamente, um discurso sobre as prioridades do mercado cinematográfico. Limite sequer chegou a ser exibido comercialmente no começo da década de 30, teve seu ‘lançamento‘ numa sessão promovida pelo Chaplin Club no bairro da Cinelândia (Ramos, 2000, P. 119) e passou as décadas seguintes restringido em uma única cópia se deteriorando. Há uma lógica conservadora pairando que precisa ser debatida: o entretenimento não pode ocultar por completo a produção intelectual. No filme de Mário Peixoto jamais uma sinopse poderia estragar o prazer da narrativa (ou da não-narrativa se preferirem): fica uma sensação de que cada espectador é responsável pelo significado da história, que as particularidades de cada olhar é o que define todas as sugestões presentes. O cinema mudo ao não se utilizar de sons ou diálogos – ou utilizá-los de forma limitada através de tarjas – propõe uma forma de entendimento diferente ao espectador contemporâneo, acostumado às explicações redudantes ao longo do roteiro. Torna-se aqui ainda mais consistente a premissa de “nunca podermos separar com nitidez o que vemos do que sabemos” (Menezes, 1997, P. 25), como afirma E. H. Gombrich (citação retirada do livro A Trama das Imagens, de Paulo Menezes). O caráter da obra permanece suspenso entre o pensamento do artista e o do espectador – sob a mediação do repertório e experiências do último. A platéia deixa de ser passiva para se tornar uma espécie de co-autora, preenchendo detalhes ocultos com sua própria imaginação e assim, interferindo nas concepções originais e disseminando diferentes sentidos num percurso extremamente pessoal.

Acontece que essa falta de obviedade proposta naturalmente pelo cinema mudo, às vezes costuma assustar as pessoas que procuram um caminho único; que tentam entender todas as obras a partir de uma lógica padrão e não se sentem seguras em defender sua própria capacidade imaginativa (terminam pedindo explicações, acolhendo explicações, quando poderiam provocar elas mesmas as discussões). Hugo Munsterberg, um dos teóricos pioneiros do cinema, sintetiza bem em seu livro The Photoplay: a psychological study (Xavier, 1983, P. 27) um caminho possível ao espectador contemporâneo, em especial no caso desse espectador – talvez ele próprio – estar diante do cinema mudo: “Devemos acompanhar as cenas que vemos com a cabeça cheia de idéias. Elas devem ter significado, receber subsídios da imaginação, despertar vestígios de experiências anteriores, mobilizar sentimentos e emoções, atiçar a sugestionabilidade, gerar idéias e pensamentos, [...] Uma infinitude desses processos interiores deve ir de encontro ao mundo das impressões”. Pode até parecer, inicialmente, um encadeamento de não-critérios idealistas ou palavras ao vento de quem não viu o cinema desabrochar, mas nunca se esqueçam que esse é apenas um possível caminho proposto há muito tempo, quando o cinema mal tinha consciência sobre si e do qual percebo uma particular sabedoria. Que fique claro, desde já, que as minhas palavras não funcionam como uma determinação e se elas parecem ser uma determinação defendendo ironicamente uma não-determinação, é, por ora, mais um recurso para dar ênfase e vigor aos meus argumentos, que uma estratégia maldosa de enlaçamento invisível (ou de conquista às avessas). É um aparente paradoxo entre o que se defende no texto e o que se pratica no texto; paradoxo que vale a pena insistir e insistir, a partir do momento em que existe um espaço aberto, onde qualquer um a qualquer hora pode interferir.

Só para finalizar esse escrito, acredito que todos nós podemos notar (e é muito simples fazê-lo) o quão Mário Peixoto se utiliza da presença excessiva de cada corte (e de longos planos, para época, sem corte algum), de movimentos de câmera raros e dos mais diferentes recursos estéticos – como sombras, enquadramentos cortados, ângulos super inusitados de visão – criando um grande entrelaçado de brincadeiras formais. Chega ser impressionante esse virtuosismo técnico (Brasil,1931; Brasil, 1931; Brasil, 1931 – só pra ressaltar). Entretanto, apesar de todas essas sugestões serem lançadas na tela pelo cineasta, a palavra última de significação é do espectador (e realmente preciso ler os livros opostos ‘A Obra Aberta’ e ‘Os Limites da Interpretação’, ambos escritos por Umberto Eco, mas, por enquanto, posso fazer essa mesma distinção baseado nas diferenças essencias do segundo diante do primeiro Barthes, do subjetivismo excessivo defendido em A Câmera Clara diante do objetivismo castrador, mas essencial no desenvolvimento perceptivo, de seus vários anos semióticos). Talvez esse seja o ponto mais interessante do filme: a capacidade de suspensão cognitiva que ele causa. O que naturalmente o aproxima de obras abertas contemporâneas, representadas principalmente pela videoarte e pelo cinema experimental e que também o aproxima de produções de seu próprio tempo – seja de Vertov, de Murnau ou Buñuel (como já pontuei anteriormente). O mote de Limite são três náufragos dentro de um pequeno barco, perdidos no mar e em suas recordações. Todo resto é responsabilidade de cada um. O filme sofre uma metamorfose a cada exibição: não pretendo delimitar a abrangência completa desse mito durante todos esses anos: e a cada dia, menos e menos e menos ainda. As metamorfoses continuam.

Limite. Brasil, 1931. Direção e Roteiro: Mário Peixoto. Fotografia: Edgar Brazil. Elenco: Olga Breno, Taciana Rey, Carmem Santos, Raul Schnoor , Brutus Pedreira. 120 minutos.

Para Baixar: Limite

Referências Bibliográficas:

BOURDIEU, Pierre. Razões Práticas: Sobre a Teoria da Ação. Campinas: Papirus, 1996.

MENEZES, Paulo. A Trama das Imagens: Manifestos e Pinturas no Século XIX. São Paulo: EDUSP, 1997.

RAMOS, Fernão. Enciclopédia do Cinema Brasileiro. São Paulo: Senac, 2000.

ROCHA, Glauber. Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

SHOHAT, Ella e Robert Stam. Crítica da Imagem Eurocêntrica. São Paulo: Cosac & Naify, 2006.

XAVIER, Ismail (organizador). A experiência do cinema. Rio de Janeiro, RJ: Edições Graal: Embrafilmes, 1983.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Sobre a Velox

"Preço alto,conexão lenta e sem garantia de estabilidade. Usuários dos serviços de banda larga da Velox não agüentam mais as falhas no serviço da operadora, tanto na entrega quanto no suporte e manutenção das conexões. O preço agrava mais a insatisfação, especialmente quando a tarifa local é comparada com os valores de outros centros atendidos pela operadora Oi, responsável pelo Velox. Uma busca rápida na própria página do serviço revela a diferença: enquanto no Recife o plano com a velocidade mais alta (1 Mbps) custa R$ 160, na capital carioca o valor cobrado pela conexão oito vezes mais veloz (8 Mbps) custa apenas R$ 40 a mais".

O_O

Putz... a razão pode até ser a falta de concorrência, mas sobra cara-de-pau em cobrar quatro vezes mais, por um serviço oito vezes pior (e se levarmos em consideração a renda per capita dos cariocas em relação aos recifenses...) Pode parecer ingênuo esse meu comentário, mas fica uma impressão que as empresas investem numa certa manuntenção do subdesenvolvimento de algumas cidades; a manuntenção de um certo status quo entre o grande eixo e o resto.

Ao invés de proibirem fumar nos lugares, por que não proibem a discrepância de valores dentro de uma mesma empresa em localidades diferentes? - apenas em empresas de tecnologia, afinal isso nunca poderia ser aplicado a todo o mercado. Acredito que é algo que transformaria pragmaticamente o acesso a internet em alguns lugares. Essa história da Velox me parece quase um golpe - ao menos pra mim, que to vendo do lado de cá da questão, com uma faixa de 'loser' pregada na testa.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Proibido Fumar

Recife quer ganhar o título de cidade 100% livre de fumo. Isso não significa que o cigarro será banido, mas que não será mais permitido fumar em ambientes fechados como boates, bares, restaurantes e hotéis. Esses locais têm três meses para se adequar ao decreto municipal.

Rápido comentário:

Odeio muito campanha anti-tabagista! Acho que os fumantes têm que começar a lutar por seus direitos logo. É ridículo, eu sei, mas daqui a pouco só vai poder fumar no banheiro da sua própria casa. Ops... banheiro é um ambiente fechado. Acho que quando os fumantes começarem a boicotar os estabelecimentos, os donos vão começar a sentir no bolso e vão reclamar lá na Prefeitura.

Ah João Paulo deixa meu cigarro em paz e vai comer alface.

(Uma saída interessante para os donos dos estabecimentos e fumantes é tornar o fumódromo, o espaço mais interessante do lugar – como alguns hóteis já fazem por opção... de modo que até os não-fumantes se rendem e terminam indo pra lá: sem reclamar, afinal a área é apenas para fumantes).

Britney quer muito mais

Do Caderno C – Só alguns trechos

"Blackout, álbum de Britney Spears lançado esta semana, é um dos mais divertidos, cafajestes e robóticos de 2007"


Schneider Carpeggiani

“Após sucessivos naufrágios, surpresa geral: Blackout, o álbum de Britney Spears que é lançado esta semana, é bom, muito bom. Não só o melhor da sua carreira (E que carreira, hein?), também um dos discos pop mais divertidos, cafajestes e robóticos de 2007. A notícia é excelente, porque a (ex-)miss sonho americano (como ela mesma se define numa das novas faixas) é hoje a subversão em pessoa da música de massa, o maior caça-às-bruxas da indústria de celebridades, a besta-fera presa no sótão, o 666 de top e rímel, que para ficar perfeita só precisava da ajudinha de um bom refrão".

[...]

“Não é que Britney estivesse gorda, seu corpo era coerente com o de uma garota de 25 anos que tinha acabado de ter dois filhos, um divórcio e um esgotamento nervoso (Lembrei daquele vídeo do pirralha chorando defendendo a Britney). A roupa era minúscula, sim, mas não faz parte do discurso feminista conceder à mulher a liberdade de fazer o que quiser com seu corpo, seja ele dos tamanhos P, M ou GG? Gorda e de top, nada mais livre”. (Metrópole: Livre e Moderna)

[...]

"Mesmo perdida, sem carisma, gorda, atropelando fotógrafos e agora sem a guarda dos filhos, Britney veio com o melhor álbum da sua carreira (Ai... de novo essa conversa) , que tem no título a surpresa de um momento súbido de escuridão (Blackout). Mas pode acender as luzes sem medo, é só Britney, bitch".


Rápido Comentário:

Como diria Cybelle, uma grande amiga de um humor-negro devastador: "bichou viu, bichou que eu vi"! Schneider é, sem dúvida, o representante-mor do bitch-journalism em Recife. E na verdade, isso nem é uma crítica, só uma constatação, afinal falando de Britney, o bitch-journalism até cai bem - principalmente por conta dos possíveis leitores interessados, mas quando Schneider transporta essa mesma linguagem pra seus escritos sobre Literatura ou mesmo sobre outros artistas-menos-descartáveis é preciso que alguém de vez em quando diga: volta pra Britney, vai!

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Oh darling

Impressão minha ou o nome da exposição Hellcife, a cidade que te inferniza seguiu a mesma lógica da tradução de Darling, a que amou demais?, ou seja, a velha lógica dos subtítulos desnecessários que beiram o constrangimento e se jogam. Talvez seja porque se deixassem só Hellcife podiam pensar que era uma exposição de fotologs. É muita ideia merda nessa vida.

sábado, 20 de outubro de 2007

Barrichello não se acha perdedor

Adoro essas manchetes que parecem lhe encontrar, não o contrário, especialmente porque você lê e tem certeza absoluta do contrário em meio a um sorriso leve. Li e pensei: “loser”. Aí li a matéria e pensei “loser²”.

Alguns trechos comentados:

A imagem é sim diferente daquela do Ayrton Senna, de acordar e ter a emoção da vitória. Estou longe de ser perdedor, principalmente dentro das pistas.” Por favor, né? Se ele esta “longe de ser perdedor, principalmente dentro das pistas”, imagine fora delas como deve ser. Pé de chinelo total.

Não sinto na rua a rejeição que é passada como uma coisa que existe”. Acho que é uma questão de significado das palavras. De fato, rejeição é uma coisa, pena, desencanto são outras. Ninguém nunca vai jogar tomates, ovos e berinjelas no Rubinho. Ninguém o odeia. Até porque pra desenvolver ódio precisa de um sentimento mais intenso e na velocidade que o Rubinho vai, nada consegue ser muito intenso.

Contribuí para que a F-1 pudesse ser um pouco mais aberta ao público, foi a (corrida na) Áustria, quando tive que deixar o Michael passar. Isso fez com que as regras de hoje fossem mais abertas, A FIA, agora, escuta o rádio. De certa forma, isso é uma contribuição’, acredita o brasileiro”. O cara passa anos na Fórmula 1 pra dizer isso? Ok, dá pena, mas dou apoio afinal é bom continuar acreditando firme-e-forte nisso. Tudo pela auto-estima.

Loser³

Mas vamos considerar também, que quando se tem Galvão Bueno narrando cada uma de suas merdas, com comentários tão particulares, por alguns anos, tudo se torna muito pior. E outra coisa que me intrigou foi: como o jornalista chegou nesse assunto com o Rubinho? o_O

Jornalista:
"Rubinho... você se acha um perdedor?"

Rubinho:
"Não, eu não me acho um perdedor".

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Delegacia de Costumes

Alguém saberia me informar onde fica a 'Delegacia de Costumes'?

Até procurei rapidamente na internet algumas informações, mas tudo é escrito no pretérito, como se 'tivesse existido' uma Delegacia de Costumes. E, de fato, existiu - como a maioria deve saber. Para mim, o próprio nome da instituição - Delegacia de Costumes, Delegacia de Costumes, Delegacia de Costumes - é um tanto auto-explicativo, em relação a um momento histórico específico - aquele que aparentemente superamos. Mas como sou redundante, vou repassar umas linhas encontradas: "as atribuições da Delegacia de Costumes era de tocar nas denominadas contravenções penais estabelecidas pelo Código Penal de 1941. Essa Delegacia tinha a incumbência de investigar, prevenir e reprimir a prostituição, evitando que afetassem a moralidade pública, as ações que pudessem afetar a honra e a dignidade das famílias, as manifestações que contrariassem a moral e os bons costumes, além da venda ou mesmo a exposição de livros, desenhos e gravuras que ofendessem a moral". Ok, sua existência faz todo sentido, se pensarmos que foi concebida dentro do Estado Novo, da Ditatura de Vargas e tal. Ok.


Entretanto, li, hoje, no Blog do Jamildo, que Odete (não sabe quem é Odete? Procure no google 'Maison D'Odete') promoveu ontem uma festa de abertura da sua nova casa de shows, com feijoada, meninas e tudo, só para convidados íntimos e especiais (tipo Jamildo e Sílvio Burle? - isso não é uma crítica, apenas uma pergunta). A abertura pro público só vai acontecer semana que vem, mas o novo espaço já foi liberado pela Vigilância Sanitária (a casa tem um bar e restaurante), pelo Corpo de Bombeiros, Prefeitura de Jaboatão e pela Delegacia de Costumes. Delegacia de Costumes? Repetindo a citação anterior: "as atribuições da Delegacia de Costumes era de tocar nas denominadas contravenções penais estabelecidas pelo Código Penal de 1941. Essa Delegacia tinha a incumbência de investigar, prevenir e reprimir a prostituição, evitando que afetassem a moralidade pública, as ações que pudessem afetar a honra e a dignidade das famílias, as manifestações que contrariassem a moral e os bons costumes, além da venda ou mesmo a exposição de livros, desenhos e gravuras que ofendessem a moral".

Alguém saberia me informar o que seria, em 2007, a 'Delegacia de Costumes'? (isso inclui uma série de perguntas implícitas da modernidade conservadora...).

Acho que vou perguntar a Odete, afinal como figura permanente da família pernambucana, só ela deve saber. E talvez o Jamildo também saiba, afinal vive citando a Delegacia de Costumes em seu Blog.

Governo defende ação policial em favela

"Ontem, foi divulgado um manifesto assinado por 36 ONGs, núcleos de estudos universitários e parlamentares, além de outros sete cidadãos, entre eles o ex-governador Nilo Batista, condenando o que foi chamado de “incursões de extermínio da polícia”. O documento afirma que as ações têm uma suposta “carta branca” do governador.

“Há dez meses a população do Rio vem assistindo a repetidas execuções sumárias de supostos traficantes. No dia 27 de junho, uma megaoperação deixou 19 mortos. “Desde então, em várias comunidades, mais de cem pessoas foram assassinadas durante incursões policiais”, afirmam, no manifesto, entidades como as ONGs Justiça Global, Observatório de Favelas e Grupo Tortura Nunca Mais, entre outras".

Eu sempre me pergunto: quem é o responsável pela distinção entre quem é e quem não é traficante, quando os corpos já desceram o morro e estão dispostos, todos sem vida, um ao lado dos outros no chão? A polícia pode dizer que todos são traficantes, a imprensa pode legitimar essa informação e a população despreocupada também pode acreditar. E acreditam... porque com a cabeça encostada num travesseiro, sob um colchão agradável, ao lado do ar condicionado fica muito fácil acreditar (e isso não é uma sugestão de sentimento de culpa).

sábado, 6 de outubro de 2007

13

Não sei se foram resquícios do sonho, mas acordei com uma imagem na cabeça: a de uma mulher cega e nua escolhendo, entre tantas opções, uma roupa bonita para vestir.