segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Violeta Blues

FADE IN

CENA 1 – EXT. BOTECO NO CENTRO DO RECIFE – FIM DE TARDE
A câmera passeia pelo centro do Recife, com vários relances de travellings cortados para travellings, revelando o cenário caótico, com vendedores de DVDs piratas, bares lotados, mendigos, meninos de rua, pessoas apressadas. Sobreposto a essas imagens, inicia-se o diálogo entre duas mulheres [ANA E CLARA]. Suas vozes são marcadas essencialmente por um ritmo lento, cheio de pausas e respirações; um ritmo melancólico que se torna mais brando no decorrer da cena. Ainda que inicialmente ocultas, as personagens conseguem construir, através de suas vozes e de seus ruídos (tragos em cigarro, goles em alguma bebida), uma imagem de extremo charme e tristeza. Imagem essa que ao final aparece como apenas mais uma das imagens do centro do Recife. 

CLARA 
Provavelmente, a altura da conversa, isso pouco importa, Ana. Você mesma diria que pouco importa, mas eu sempre me pego pensando em como ninguém soube brincar com o amor e o ódio tão bem como a gente fez. (pausa) A gente nunca perdeu o encanto primeiro que nos unia. Nunca e nem mesmo agora eu sinto falta de um encanto. (pausa) Nem mesmo agora, porra. 

ANA (irônica) 
Você fala como se todo esse encanto, toda essa sinceridade, como se toda nossa intimidade fosse uma coisa maravilhosa (pausa) Fala como se fosse uma coisa que me fizesse muito bem. Só que não fez e continua não fazendo. (pausa) Pois, sendo bem sincera, eu sempre me pego pensando em como nossa relação poderia ser mais rasa, mais descartável mesmo, sabe? (pausa) E se fosse assim, seria bem mais fácil esquecer. (pausa) E esquecer (pausa) E esquecer. Seria bem mais fácil deixar de lado nossas palavras, nossas histórias, tudo. Ia ser como já fiz outras vezes com outras pessoas (pausa) Ia ser como a gente faz o tempo todo. (pausa) Porra, as pessoas entram e saem das nossas vidas o tempo todo, Clara. É um ciclo e você sabe bem disso, afinal você sempre brincou tanto. (pausa) E tanto. (pausa) E tanto (Pausa) Às vezes fica alguma coisa, às vezes não fica porra nenhuma. (pausa) Isso é o tipo de situação que ta sempre acontecendo e o tipo de situação que não faço questão nenhuma de evitar. 

CLARA (cortando) 
É o tipo de situação que não se aplica a nós duas. (pausa) Podemos daqui a trinta anos ignorar tanto nossa história que vai parecer esquecimento. (pausa) Eu acho que só vai parecer, na linha de preferir não pensar, só que também não deixar totalmente de lado. 

ANA (retomando) 
Ô, sua idiota, eu não to dizendo que eu queria que fosse assim com a gente, só to dizendo que seria mais fácil. 

CLARA 
Eu não quero que seja fácil, Ana. (pausa) Eu não quero que seja e você também não. (pausa) Nós tínhamos uma coisa diferente e isso deve ter algum valor pra você. (pausa) Um valor ‘histórico’ que seja (pausa). Não tente tornar as coisas mais fáceis, deixe de ser preguiçosa. Você vai terminar estragando tudo. 

ANA (irônica) 
Estragando tudo? Estragando o que minha senhora? Tudo já tá mais que fudido, querida (pausa) Hoje deve fazer um ano que não nos víamos e sejamos sinceras, não há mais AQUELA saudade. Resta apenas, uma curiosidade estética. O meu cabelo cresceu. Você esta mais feia. (Pausa) Só isso. 

Nesse momento aparece a imagem de várias pessoas sentadas numa mesa de bar, dentre elas ANA e CLARA estão no fundo sem grande destaque. 

CLARA 
Você sabe porque eu me afastei. 

ANA 
Às vezes você fala de você mesma como se fosse uma terceira pessoa, como se as coisas estivessem fora do seu controle.

CLARA 
E estavam

ANA (tédio) 
Não, Clara, não estavam não, porra. (Pausa) Aquele só foi mais um dos momentos que você não soube lidar. 

Ana afasta o rosto, quando Clara tenta tocá-la carinhosamente na face. 

CLARA 
Eu só não entendo essa sua resistência. 

ANA (calma / cínica) 
Não existe disputa alguma, portanto não existe resistência alguma, minha querida. (pausa) Na verdade, o que mais me incomoda é ver você falando como se tivesse dormido com um telefonema meu e acordado nua do meu lado na cama. (pausa) Clara, do mesmo jeito que eu não posso apelar para o esquecimento, também não posso criar uma naturalidade que não existe mais. (pausa) Não posso. (pausa) Eu não consigo viver com alguém que pode me abandonar a qualquer momento. Desculpa, mas não é do meu feitio. Entre amar e viver receosa e não-amar e viver segura, eu prefiro viver segura, sem dúvida. (Pausa) Eu não suportaria outro abandono, outros motivos, outras palavras. Nada. 

CLARA 
Você não pode impor uma mediocridade entre a gente. (pausa) Por favor, não me force a isso. 

ANA (irônica) 
Não deixe o teu ego te enganar, Clara. (pausa) Não há mediocridade alguma. (pausa) Isso que você está sentindo não é saudade de mim, é solidão sua. Simplesmente isso. Assuma de vez sua egolatria. (Pausa) É só porque você está se sentindo solitária ou anda com a estima meio baixa. Não é muito além disso. 

No meio da última fala de Ana, a imagem está mais próxima. CLARA e ANA estão sentadas, frente a frente, em uma mesa de bar. CLARA [vinte e quatro anos, morena, cabelos médios castanhos claros] está apoiada com as duas mãos na mesa, enquanto Ana [vinte e dois anos, branca, cabelos longos e pretos] está completamente recuada, fumando um cigarro, encostada na cadeira, observando a amiga com um olhar blasé. Há uma garrafa de vinho barato e dois copos entre elas. 

CLARA 
E como sempre aconteceu com a gente, você primeiro me manda embora, depois se arrepende e se desculpa. (pausa) Tenho certeza que você vai se arrepender. Certeza, certeza. Eu te conheço, putinha, como a palma da minha mão. (pausa) E um dia, se alguém tivesse que desistir por nós duas, desculpa Ana, mas essa pessoa seria eu. 

ANA 
Sinceramente, se seria você ou eu pouco me importa. Você ultimamente só anda falando merda, eu particularmente tenho outra teoria sobre nós duas (pausa – sussurrando no ouvido a partir desse ponto – não dá para ouvir). 

Ana termina de sussurrar no ouvido de Clara, encosta vagarosamente seus lábios na bochecha dela, termina de beber o seu copo, apaga o cigarro, se levanta, ajeita sua bolsa e o pano enrolado no pescoço e sai andando em direção a saída. Clara permanece parada. 

FADE OUT 

“VIOLETA BLUES” 

FADE IN 

CENA 2 – EXT. BOTECO NO CENTRO DO RECIFE – FIM DE TARDE 
Continua a cena de Ana andando para saída do estabelecimento, que fica por trás de um antigo casarão. Seus passos são contidos e frios. Ela entra em um corredor no sentindo contrário ao da mesa onde Clara permanece sentada. 

CENA 3 – INT. CORREDOR NO FUNDO DO BOTECO – FIM DE TARDE 
Trata-se de um longo corredor de paredes vermelhas. Em toda sua extensão existe cerca de seis pequenas mesas, cada qual com um abajur em cima ligado ou um jarro de flores. Ana anda com certa indiferença no rosto. Há alguns quadros quaisquer no início. Ana cruza com cinco hare krsnas, homens e mulheres, pulando e dançando no sentido contrário ao que ela caminha. Alguns estão de mãos dadas, rindo bastante, seguindo um que vai à frente tocando uma flauta. Há um clima surreal no lugar. Logo em seguida, ela nota algumas pessoas nuas encostadas na parede, de maneiras completamente diferentes, algumas de frente, outras de costas, de cabeça para baixo, como se estivessem grudadas, enquanto ao lado passa um anão batendo dois pratos de bateria. Ana continua andando, mantendo total indiferença e entra numa porta no final do corredor. 

CENA 4 – INT. BANHEIRO - FIM DE TARDE 
Ana entra no banheiro e se olha no espelho com certa expressão blasé. Porém, sua face muda lentamente até ela sufocar o choro, mantendo uma de suas mãos contra a boca. Em seguida, Ana pega uma tesoura e corta, bem curtinhos, seus longos cabelos pretos num só corte. Ela pega os cabelos cortados e arremessa no lixo com certa raiva. Lava o rosto, tirando a maquiagem e abre um sorriso quase infantil. Despe-se na seqüência e pega uma camisola branca jogada no chão e novamente se olha no espelho. Já não parece a mesma. Alguém bate na porta. 

ANA 
Já tô saindo, já tô saindo. 

Ana abre a porta e sai. 

CENA 5 – INT SALA DE APARTAMENTO / BANHEIRO – NOITE 
Ana entra no aposento apenas de camisola. Clara está sentada num sofá fumando um cigarro. Por trás delas existe uma parede, onde estão pregados vários sapatos altos que servem de jarro para plantas e flores. Ana se aproxima de Clara, cheira o pescoço da amiga num gesto carinhoso e lhe toma o cigarro. Dá dois tragos e o devolve diretamente na boca, alisando o seu rosto na seqüência. As duas dividem o cigarro e trocam algumas carícias fraternais, quase sexuais. 

CLARA 
Vai, eu começo. 

ANA 
E o que vai ser? 

CLARA 
Eu quero ver você tomando banho. 

Ana abre um sorriso ainda infantil, levanta-se e caminha até a porta do banheiro. Entra, deixa a porta aberta, tira a camisola e liga o chuveiro. Clara senta na porta do banheiro, também de camisola branca, observando a amiga enquanto fuma um cigarro. Permanece assim por algum tempo. A campainha toca. Clara se levanta e atende a porta. Ana entra de cabelos não tão curtos e com roupas normais empurra agressivamente Clara até a parede. 

ANA 
Se você quer me deixar louca, você vai conseguir, ta entendendo? Vai conseguir. 

Ana empurra Clara na parede com toda força possível e sai do apartamento. Clara a segue apenas de camisola

CENA 6 – CORREDOR – FIM DE TARDE 
Novamente o corredor vermelho com abajures sobre as mesas. Ana sumiu. Clara anda até a metade do aposento e encontra uma mulher nua. Outra mulher aparece atrás dela e tira sua camisola lentamente. Ela vira para trás, mas permanece indiferente. A mulher que estava na frente (e agora está atrás) começa ajudá-la a colocar um vestido, enquanto a outra ajuda na maquiagem. Uma terceira mulher aparece com uma bolsa, tira um cigarro dela, coloca na boca de Clara e o acende. Em seguida, entrega a bolsa à mulher. Todos os atos são acompanhados de gestos sensuais. Clara está pronta. Ela anda até o fim do corredor e abre uma porta. 

CENA 7 – BAR UNDERGROUND - NOITE 
Trata-se de um bar pequeno e fechado, quase que completamente escuro. No fundo apenas uma luz vermelha sobre uma mulher, que canta CABARET, tango interpretado por Elis Regina. Há algumas mesas com abajures em meia luz. Clara senta na mesa em que Ana já estava sentada. As duas se olham com certa frieza. As pessoas conversam, mas as duas permanecem sem interagir muito. Apenas se olham. Aos poucos as pessoas se levantam e vão saindo da mesa, se despedindo de todos (na verdade, apenas Clara, Ana e a cantora ficam focadas nessa cena. Todos os outros personagens ficam borrados, como vultos). Restam, por fim, apenas as duas mulheres. Clara se levanta anda até Ana e lhe dá um lento beijo na bochecha (igual ao que Ana deu ao se despedir na primeira cena). 

ANA (voz falhando) 
Porque você me deixou? 

CLARA 
Não, Ana, eu só me atrasei um pouquinho. 

Clara leva a mão até o ouvido da outra mulher, sussurra algo e sai. Ana fica sozinha, ouvindo a música, desolada e bebendo em seu copo. Ao terminar sua bebida, se dirige até a porta. 

CENA 8 – INT. QUARTO DE ANA - NOITE 
Ana entra no quarto, tira a roupa, coloca uma camisola e se deita na cama de casal. Clara está deitada ao seu lado. Ficam deitadas se encarando. Não trocam nenhuma palavra, nem se tocam. Apenas olham por um bom tempo. 

ANA 
É uma pena que você NÃO esteja aqui comigo. 

Ana tenta colocar a mão vagarosamente no rosto de Clara, mas essa balança a cabeça negativamente, ainda que mantenha uma expressão graciosa. Permanecem se encarando. 

ANA 
É uma pena. 

Clara se levanta e sai do quarto. 

CENA 9 - INT. SALA DO APTO / BANHEIRO – NOITE. 
Clara entra no aposento apenas de camisola, acende um cigarro, bate na porta do banheiro e senta no sofá. 

ANA (off) 
Já to saindo, já to saindo. 

Ana entra no aposento apenas de camisola. Clara acabara de sentar no sofá fumando um cigarro. Por trás delas existe uma parede, onde estão pregados vários sapatos que servem de jarro para plantas e flores. Ana se aproxima de Clara, cheira o pescoço da amiga num gesto carinhoso e lhe toma o cigarro. Dá dois tragos e o devolve diretamente na boca, alisando o seu rosto na seqüência. As duas dividem o cigarro e trocam alguns carinhos fraternais, quase que sexuais. 

CLARA 
Vai, eu começo. 

ANA 
E o que vai ser? 

CLARA 
Eu quero ver você tomando banho. 


Ana abre um sorriso ainda infantil, levanta-se e caminha até a porta do banheiro. Entra, deixa a porta aberta, tira a camisola e liga o chuveiro. Clara senta na porta do banheiro, também de camisola branca, observando a amiga enquanto fuma um cigarro. Permanece assim por algum tempo. 

ANA 
Eu também quero pedir. 

CLARA 
E o que vai ser? 

ANA 
Eu quero ver você se masturbando para mim daí. 

Clara sorri. Ana continua debaixo do chuveiro ligado, olhando com uma expressão de desejo para a amiga. Ela desliga o chuveiro e então se pode ouvir os gemidos de Clara. Ana anda até a porta e bate com força. Olha-se no espelho e sufoca o choro novamente. Tira a camisola, coloca a mesma roupa que estava na primeira cena, se maquia e sai novamente no corredor. 

CENA 10 – INT. CORREDOR BOTECO NO CENTRO - FIM DE TARDE 
Trata-se de um longo corredor de paredes vermelhas. Em toda sua extensão existe cerca de seis pequenas mesas, cada qual com um abajur em cima ligado e um jarro de flores ao lado. Ana anda normalmente ate o fim do corredor em direção a mesa onde estava sentada. 

CENA 12 – EXT. BOTECO NO CENTRO DO RECIFE – FIM DE TARDE 
Ana volta ao bar e senta na mesma mesa onde estava sentada na primeira cena. Ela olha em volta e não vê Clara. Encosta lentamente a cabeça na mesa e estica o braço. 

ANA (VOZ EM OFF) 
Você deveria saber que eu iria voltar.

Ela continua sentada na mesa sozinha.

FADE OUT

CRÉDITOS

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Absurdo

Hoje uma pessoa me parou na rua do lazer para me perguntar se eu fazia engenharia civil.

Que?

A cada dia fico mais chocado com o que as pessoas pensam de mim.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Cotidiano

Não suporto os rotineiros cumprimentos sem significado, apesar de tolerar a condição de podermos conhecer mil pessoas, nos tornarmos amigos dessas mil, vivermos um tempo maravilhoso com todas elas e depois querermos simplesmente que sumam da nossa frente. O problema reside no fato de ser impossível 'desconhecer' mil pessoas, não seria tanto apagá-las como em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembrança (EUA, 2004), de Michel Gondry, mas fazê-las sair de seu círculo de convivência, mandá-las para o leste europeu no inverno, afinal a presença pela presença nos deixa no incômodo dilema de fingir simpatia ou indiferença. Se rolar um momento nostalgia aí é que fode tudo. O resultado é que termina por ser patético na maioria das vezes. Não sei como ficariam os encontros casuais no meio da rua ou naqueles lugares que costumavam frequentar juntos, mas sei menos ainda como ficaria a relação com os amigos em comum. A cautela com as pessoas que deixamos para trás às vezes me parece um fardo daqueles que fazem questão de lhe lembrar que a sua vida não é, nem nunca será só sua, que mesmo que você lute para assumir todas a lacunas dos rumos, não necessariamente irá fazer de seu veredicto a determinação para continuar em frente. No mais, tenho pânico de semi-conhecidos: dos que sempre o foram e sempre serão e dos que lentamente submergem nesse patamar.

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

A Banda Tropicalista do Duprat, 1968


(Publicado originalmente no Overmundo)

"Não é de uma hora para outra que vai surgir um movimento como a Tropicália, que jogou merda no ventilador. Aquilo era tão ousado que não durou muito – mandaram Caetano e Gil embora do país".

Rogério Duprat em entrevista recente.

Sobre o Álbum

Duprat sempre foi um integrante do movimento tropicalista que me chamou bastante a atenção por algum motivo que aparentemente desconheço. Eu mantinha certo respeito perante ele, provavelmente por não saber bulhufas sobre seu trabalho com maestro e arranjador até então. Ou talvez, fosse pelo simples fato dele ser o mais velho dentre as crias do tropicalismo. Por sinal, eu só fui descobrir que ele tinha um disco próprio, tropicalista, há uns três ou quatro meses atrás, pouco antes de pensar em fazer a resenha sobre o disco de Caetano. Até então, Duprat só era o rapaz intelectual que segurava o penico, simulando uma xícara bem chá das cinco, na capa de “Tropicália ou Panis et Circenses”. E mal passado algum tempo, já estou eu aqui, escrevendo uma pseudo-resenha sobre. Quanta pretensão, meu Deus. De qualquer forma, procurei fincar uma base teórica e histórica quase sólida, através de uma rápida pesquisa, que me ocupou por alguns dias. Vale ressaltar o quão pouco se escreve sobre certas figuras da música brasileira. E não digo só o Duprat, mas até conjuntos que eu considerava um tanto “conhecidos” (e até reverenciados) como o “Ave Sangria” ou Walter Franco. Minha mãe, por exemplo, nunca tinha escutado falar neles, mesmo que estivesse iniciando a sua vida adulta quando a banda lançou seu disco em 1974. Vai saber o que ela estava fazendo naquele ano. Espero que isso não tenha nada a ver com o fato de minha irmã ter nascido em 75. Enfim, após peneirar informações e informações me tornei pseudo-apto a falar sobre Duprat, podendo dar uma opinião crítica sem soar tão hipócrita, podendo eventualmente falar mal e me satisfazer sem grandes pesos na consciência. E vale (vale?) ainda ressaltar que estudar o passado é, invariavelmente, estudar a história a partir do ponto de vista de alguém. É perigoso e infelizmente pessoas como eu não têm opção. Não demorou muito até eu descobrir algumas coisas bem importantes (e não sei se tão interessantes).

Resumindo: Duprat possui uma formação erudita, que a partir da segunda metade da década de 60, se aproximou da música popular, criando um produto híbrido. O maestro estava cansado de compor obras que terminavam destinadas a uma pequena elite e passou a praticar a fundo todo seu conhecimento musical, o que resultou na fusão de diversos estilos, muitas vezes, em um só arranjo. É o que dizem por aí, pelo menos. Duprat foi o arranjador de diversas canções tropicalistas, de discos inteiros, inclusive assina os carros-chefes do movimento: “Domingo no Parque” e “Alegria, Alegria” de Gilberto Gil e Caetano Veloso respectivamente. Além disso, o arranjador trabalhou em muitos dos discos dos Mutantes e foi decisivo nas experimentações usadas pela banda. Ficou conhecido como o George Martin da Tropicália (só não sei se durante a própria Tropicália, já que essas definições-comparações só aparecem depois). Na década de 70 gravou com Walter Franco e Chico Buarque, mas com a perda gradativa de sua audição, se afastou do meio musical. É de uma tristeza imensa, mas a imagem de um maestro e arranjador perdendo a audição, gradativamente, também pode ser extremamente poética. Melancólica, mas poética. Na década de 90, abriu uma exceção para fazer alguns arranjos para Rita Lee e Lulu Santos. E realmente podia ter morrido sem essa (não, ele ainda não morreu; essa só foi mais uma das minhas piadas sarcásticas e sem graça). Segundo Tom Zé, que conviveu de perto com o maestro, um arranjo de Duprat era algo como escutar "Jackson do Pandeiro manejando uma orquestra de Beethoven". No mínimo sugestivo, mas um tanto exagerado. Entretanto, talvez nada disso importe e o tal do resumindo tenha se estendido por demais.

Para falar a verdade, eu tenho uma opinião engraçada sobre “A Banda Tropicalista do Duprat”. Antes de tudo, é bom deixar claro que eu não consigo desvincular essa produção fonográfica do “Yellow Submarine”, dos Beatles lançado no mesmo ano de 1968. Parece nonsense, não há como negar. A obra quase que totalmente experimentalista do quarteto de Liverpool (e chamá-los de quarteto de Liverpool é o super clichê eu sei), possui no Lado B apenas músicas instrumentais compostas e arranjadas por George Martin. Grande merda o resultado final. Mas a questão aqui é outra: George Martin arranjou diversas músicas dos Beatles e as tornou geniais, desde as mais clássicas dos yeh yeh yeh (nem tão geniais, bora combinar) até os arranjos experimentais a partir do disco “Revolver”, mas em um trabalho próprio terminou por produzir uma obra bem abaixo do esperado. Para mim, o mesmo acontece com Duprat. Afinal o maestro brasileiro é responsável pelo arranjo de diversas músicas geniais, de diversos artistas envolvidos no tropicalismo. E outros além disso. Mas no seu próprio disco não há nada de muito genial, há muito clichê para falar a verdade, ainda que tenha seus momentos de qualidade inegável. Imagino que esse disco não tenha sido recebido com bons olhos na época em que foi lançado, pelo tom (pseudo?) experimental / instrumental dele e por estar vinculado a um processo contracultural. Com certeza foi um fracasso comercial. Até na contracultura (ha-ha-ha). "A Banda Tropicalista do Duprat" é um daqueles discos bastante comentado no meio pseudo-cult-musical, mas pouco ouvido de verdade e, na verdade, o pseudo-cult é justamente o comentário feito por outros comentários sem relação direta com a obra. E voltando à minha opinião engraçada, os Mutantes participam de quatro músicas e mesmo que produzam alguns bons momentos, não conseguem torná-los geniais. Duprat depois viria afirmar que não gosta muito desse disco, que o processo de formatação gráfica da capa foi cretino (ainda que eu ache essa capa muito bem composta) e que ele sofreu pressões na hora de compor o repertório. Sabe-se lá o quão isso é verdade. Simplesmente ele pode estar se ausentando da culpa. Não importa. Para mim o disco saiu próximo do que ele disse. É uma obra que grita na capa “EU SOU TROPICALISTA” e que no final nem é tanto assim. Não é um disco ruim, apenas tem um claro problema de repertório que distancia um pouco o resultado da proposta do movimento. Sem querer Duprat terminou soando meio careta, terminou sem se despir e jogar merda no ventilador.

Sobre as Músicas

1. Judy in Disguise (Bernard, John Fred, Wessle)

2. Honey (Bob Russel) / Summer Rain (J. Hendricks)

3. Canção para Inglês Ver (Lamartine Babo) / Chiquita Bacana (Alberto ribeiro, João de Barro).

4. Flying (Lennon, McCartney)

5. The Rain, The Park And Other Things (Duboff, Kornfeld)

6. Canto Chorado (Billy Blanco) / Bom Tempo (Chico Buarque) / Lapinha (Baden Powell, Paulo Cesar Pinheiro).

7. Chega de Saudade (Tom Jobim, Vinícius de Moraes).

8. Baby (Caetano Veloso)

9. Cinderella-Rockfella (M. Williams)

10. Ele Falava Nisso Todo Dia (Gilberto Gil) / Bat Macumba (Caetano Veloso, Gilberto Gil) / Frevo Rasgado (Bruno Ferreira, Gilberto Gil).

11. Lady Madonna (Lennon, McCartney).

12. Quem Será (Evaldo Gouveia, Jair Amorim).


Numa rápida olhada no repertório, notamos logo o primeiro equívoco do disco. Claramente essas músicas não representam como conjunto, a proposta do tropicalismo. De jeito algum. E porque chamar então de “A banda tropicalista do Duprat”????? Eu não entendo. E nesse sentido, é que eu passo a gostar mais do disco de Caetano antes resenhado, pois ainda que tenha alguns escorregões, o disco é o que se propõe a ser. A obra de Duprat não. E mesmo com um pé atrás, imagino que as releituras dele podiam transformar minha opinião. Nem se enganem, não transformou. Ainda assim (e isso pode soar contraditório com o que eu disse até então), o disco começa muito, muito bem mesmo e por acaso, com uma música ‘gringa’. “Judy in Disguise” só me remete a algum musical bem escandaloso ou alguém andando na Broadway com um guarda-chuva. Aquela coisa com muito néon, pessoas na rua, dançando em passos sincronizados, com direito a toda parafernália Hollywoodiana. O detalhe é que, na minha cabeça, toda essa seqüência de imagens passa numa televisão, posta por acaso no meio de uma rodinha de samba. Não, eu não tomei ácido antes de começar a escrever, mas é que por mais internacional que seja, há um enorme clima tropical no compasso. É Interessante e instrumentalmente magnífica. Continuando na trilha da gringolândia, temos “Honey” e “Summer Rain”. E definitivamente, se isso for tropicalismo, eu sou Alain Delon. Parece simplesmente uma trilha sonora de algum filme, mas nada Cinema Novo e sim “E o Vento Levou...” para baixo. Nessa linha. Se algumas músicas foram realmente forçadas no repertório, essas são as ‘mais mais’ de todas. Tem aquela suavidade que muitos devem gostar, mas que inserida nesse contexto só pode me causar náuseas (em outra situação eu até gostaria de parte delas). Ainda nesse parágrafo queria fazer uma ressalva sobre os dois covers dos Beatles, presentes nesse disco. Os dois completamente desnecessários ao meu ver. A instrumental “Flying” ficou muito parecida, na verdade. Apenas não está tão agradável de escutar e acredito que não tem o mesmo rebuscamento da original por mais que, a versão de Duprat pareça, numa primeira audição, mais complexa. Não se enganem. "Lady Madonna" é uma música que já não gosto com os Beatles. Cover então, não funciona mesmo. E não tem Mutantes que salve.

Sim, mas prosseguindo encontramos “Canto Chorado / Bom Tempo / Lapinha” um meddley que lembra arranjos de Chico Buarque (até porque Bom Tempo é uma canção dele) e não tem nada de vanguardista, mas é uma coisa boa de escutar. Rende vários momentos ótimos, para ser justo, mas não é tropicalista e não recebe uma roupagem diferenciada. É aquele lugar comum que também atinge “Chega de Saudade”, composta por Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Uma Bossa Nova meio recauchutada, mas ainda assim Bossa Nova. Tropicalismo que é bom, nada. Outra música que segue quase os mesmos caminhos das duas anteriores é a última do disco: “Quem Será”. A única diferença é que essa nem agradável consegue ser. É apenas sem graça e as poucas intervenções dão um ar que o tropicalismo pode ser raso e pseudo como qualquer outro movimento. Achar que alguns sons de pessoas conversando, carros buzinando e afins vão tornar uma música vanguardista é subestimar demais quem está ouvindo, desculpa. Parece-me mais falta de respeito com toda concepção do movimento.

Ok, para não ser tão chato e Lellye não brigar comigo, vamos falar de Mutantes. Mas antes, preciso deixar claro que já comentei a infelicidade em "Lady Madonna", então nem vou mais abrir o bico em relação a essa. A participação começa em “Canção para Inglês Ver / Chiquita Bacana”. É aquela coisa bem parodia, bem mutantes. Mas parodia de qualidade e tropical ao modo que eles sempre fizeram. Tem a marca bem clara, tanto numa como na outra. Mas enquanto que, na primeira, parece uma parodia mais moldada, a segunda é o escracho total. E elas se complementam de um modo incrível, inclusive “Canção para Inglês Ver”, parece pegar a deixa de “Judy in Disguise”, deixa interrompida por “Honey / Summer Rain”. Enfim, em seguida, surge o que, para mim, é um dos melhores momentos do disco: “The Rain, The Park & Other”. Li em algum lugar sem importância que era uma daquelas músicas ‘one hit’ de uma banda “the” alguma coisa desconhecida (The Cowsills). Ela tem um estilo sessentista que me remete a algumas bandas meio desconhecidas da década em questão, tipo Love e Jefferson Airplane, em seus discos de 1967, “Forever changes” e “Surrealistic Pillow” respectivamente. Muito bom. Assumo que alguns me chamariam de paradoxal, por todo discurso “mas não é tropicalista e tal, tal, tal”. Mas nem adianta dizer, a contradição me persegue. “Cinderella Rockfella”, outra canção com participação dos Mutantes, só me remete a Pica-Pau e afins. Depois disso, essa resenha perde todo o respeito, eu sei. Mas em vários desenhos antigos, vez ou outra, tocava umas músicas legais, tipo uns jazz com vozes estranhíssimas. Essa música podia ser incluída num desses desenhos sem problemas. Adoro.

Enfim, depois de rodar e rodar e rodar, chegamos na parte realmente tropicalista do disco que surge em algumas músicas conhecidas, arranjadas sem os vocais. Se por um lado parece que está faltando uma parte da canção, por outro é possível se sensibilizar mais facilmente com o arranjo montado, afinal todos os holofotes ficam virados para esse ponto. E provavelmente essa era a intenção de Duprat. Na verdade, eu ainda não me decidi se isso é uma coisa que me incomoda ou não. Pois devia, né? Sinto a falta da voz de Gal em “Baby”, mas não sinto falta da de Gilberto Gil em “Ele falava sempre nisso / Batmacumba / Frevo rasgado”. É complicado. Talvez não seja bom generalizar, afinal um dos pontos positivos do disco é a capacidade dele de se transformar, de possuir um conceito (ou quase isso) fincado sobre diferentes facetas. E infelizmente, algumas das quais nada tropicalistas e nem por isso: nada interessantes. Acontece com todos arranjadores até com velhos que seguram penicos em capas de discos emblemáticos por aí.

domingo, 1 de outubro de 2006

Une Femme est Une Femme

Estou aprendendo inglês por música, espanhol por cursinho e francês por osmose.

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

Jornalista

ou a eterna busca por uma tragédia para chamar de sua.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Capas

I

"Tem certeza que vcs sabem fazer uma capa psicodélica?"
Sunshine Superman (1966)


"Pode crer que essa vibração vai pegar..."
Are you experienced? (1967)


"Cara, se o Hendrix fez, a gente tem que fazer também"
Safe as Milk (1967


"Vocês são tudinho uó"
Caetano Veloso (1968)


"Tô achando que vai ficar meio homossexual".
Perfeitamente, justamente quando cheguei (1972)


"Essa galera se passa: a gente faz cara de discreto e tu faz cara de quem ta gozando" Um passo a frente (1973)

II

A capa começou simples e cheia de estilo...
Surrealistic Pillow (1967)

...aí virou profundamente conceitual...
Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band (1967)

...naturalmente vieram as imitações baratas...
Their Satanic Majesties Resquest (1967)


...fizeram pastiche...
We're only in it for the Money (1968)

...não demorou muito até chegar ao terceiro mundo...
Tropicália ou Panis et Circencis (1968)

...e depois de rodar geral voltou pra casa com a maior cara de mundiça.
Preservation Act 1 (1973)

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Eros Motel

Pai e filho seguiam no carro sem trocar grandes olhares. O filho dirigia. Quando passaram por um desses motéis enormes, com cara de Shopping Center e neon visível há dezenas e dezenas de metros de distância, o filho não se conteve e logo começou a contar vantagens:

- Fui uma vez aí, tem quarto com sauna, boate, espaço gourmet, banheira...

O pai interrompeu levemente desinteressado, usando da rispidez típica de quem fuma charutos cubanos:

- Para mim, motel só precisa ter uma cama.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

Caetano Veloso, 1968


(Publicado originalmente no Overmundo)

"Você está por fora, Caetano. Veja o programa do Roberto Carlos. Ele é que é forte. O resto está ficando um negócio chato, tão chato que prefiro cantar músicas antigas. Largue esse violão e cante com uma guitarra. O violão é muito pouco para você! Escolha um instrumento que tenha o mesmo grito, que tenha o seu gesto".

De Maria Bethânia para seu irmão Caetano Veloso, ano de 1967 (CALADO, Carlos, Tropicália: A história de uma revolução musical, Editora 34). Citação encontrada na internet e obviamente de veracidade questionável. Não cabe a mim investigar nada e a preguiça também não colabora. Ficamos na boa dúvida, por fim.


Sobre o Álbum

Eu não sei bem o que Caetano pensa hoje sobre esse disco, com uma carreira tão extensa deve ser difícil se ater em particular a um único objeto antigo, nem sei direito o que ele pensava quando o lançou em janeiro de 1968. Já ouvi dizer ou li em algum lugar sem importância, que foi, para ele, o mais próximo que podia produzir a partir do que foi sugerido em “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha sem perder de vista todas as reverberações emitidas ao mundo da arte por Hélio Oiticica. Provavelmente também foi a condensação mais próxima, em termos de inventividade e postura, do que vinha sendo mostrado, entre outros, pelo “Sgt Peppers” (1967) e Revolver (1966), dos Beatles, pelo “Are you experienced?” (1967), de Jimi Hendrix, pelo “Piper at Gates of Dawn” (1967), do Pink Floyd, pelo "Sunshine Superman" (1966), do Donovan e pelo “Pet Sounds” (1966), dos Beach Boys. A aproximação entre distintos estilos musicais, colocando instrumentos orientais unidos a guitarras elétricas a todo vapor influenciaram naturalmente a nova estética adotada por Caetano e pelos tropicalistas (em especial Os Mutantes), se interligando e sentando ao lado, no campo das referências, da bandinha de pífano de Caruaru, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Vicente Celestino e toda cultura popular brasileira. As cabeças estavam realmente piradas, o rock se legitimava como arte, as vielas entre regionalismo e universalismo devoravam umas as outras: surgia a vontade de misturar tudo, de mesclar isso com aquilo, de se deixar melar pelas mais diversas influências. As idéias de Oswald de Andrade estavam mais atuantes do que nunca. Antropofagia era a palavra e a atitude da vez, mas os nomes eram outros: ao invés de Oswald, Mário de Andrade, Pagu ou Tarsila do Amaral, tínhamos Gilberto Gil, Torquato Neto, Gal Costa, Rogério Duprat e Tom Zé. Tínhamos Caetano e toda a caretice de “Domingo”, seu primeiro disco gravado juntamente com Gal Costa, podia agora ser esquecida. Aqui temos outro Caetano. Nada de violãozinho na mão brincando de João Gilberto e cantoria comportada, bem modada e retrógrada, onde todas as canções soam como uma só. Nada disso. Aqui temos a Tropicália, a brincadeira, o desbunde. Nada de Bossa Nova, nada de Jovem Guarda. Ou melhor, um pouco de cada coisa, tudo misturado num acorde dissonante. E como tudo que é realmente novo choca simplesmente pela falta de ferramentas para explicar, a Tropicália não precisa de adornos ou caraminguás, faz postura por ela mesma, não precisa de idiota algum para dizer isso.

Ainda assim, venho aqui para dizer e voltando ao que não sei, também não sei o que os críticos musicais da época escreveram e falaram sobre esse disco, afinal são poucos os detalhes históricos que conseguem perpassar os anos, sem serem esquecidos em algum dado momento. Provavelmente os mais conservadores devem ter criticado levando em conta o sentido negativo da palavra. Devem ter se chocado facilmente, acostumados a escrever dentro das expectativas do que era produzido no Brasil até então. Muitos dos jovens ditos engajados também não viram a Tropicália com bons olhos. Associavam o Rock and Roll com imperialismo e não aceitavam sua introdução na música popular brasileira. Quase armoriais de tão púdicos (levando em conta que Ariano Suassuna, em sua aula-espetáculo, sempre diz que os jovens que empunham guitarras elétricas podem passar pra metralhadoras sem nem se darem conta). Hoje ninguém se choca mais e os críticos terminam por ser excessivamente ufanistas e... apenas isso, o que é mais perigoso. Não os levem a sério e falo sobre mim também. Somos um bando de pretensiosos sem noção alguma. Mas, continuamos mesmo assim. Na verdade, a maioria das pessoas em 1968 não deve ter entendido nada. Nada do que fazia Caetano, nem Duprat, nem Os Mutantes, nem Tom Zé. Assim como não entendiam nada do que Glauber Rocha queria dizer. Até hoje, muitos não entendem. Manter um nível intelectual dentro de uma sociedade como a brasileira termina por se tornar elitista invariavelmente. Foram poucos os que conseguiram romper essa barreira e se tornar “cabeça” e popular ao mesmo tempo. Chico Buarque que o diga. Mas isso não importa. O artista não tem nada a ver com isso. Esse disco, intitulado só como “Caetano Veloso” mostra para o que veio desde a capa produzida pelo artista gráfico Rogério Duarte. Seria um quadro qualquer, extremamente colorido, de uma mulher seminua e um dragão, senão fosse pelo rosto de abuso de Caetano que surge quase como uma colagem em meio a isso, colagem que diante de nossos olhos para o vinil se comporta como espelho. É o primeiro registro tropicalista. Lançado meses antes do disco-manisfesto “Tropicália ou Panis et Circenses”. Meses antes de Gilberto Gil ou Tom Zé ou Duprat lançarem seus também discos tropicalistas. Caetano estava um passo a frente, estava com a cabeça afundada dentro da nova estética ainda que muitos digam que ele simplesmente aproveitou o momento histórico e que a Tropicália aconteceria do mesmo jeito com ou sem sua presença. Nunca iremos saber, nunca iremos chegar em um denominador comum partindo dessa discussão infundada e essa vibe morte do autor a gente pode discutir depois. Esse pode não ser o disco mais tropicalista, mas é o primeiro e isso deve ter algum valor histórico. É dele que emanam as sugestões e intervenções que viriam a se concretizar posteriormente nas mãos e vozes dos mais diversos artistas. É como se fosse a fonte brasileira que dá os primeiros suprimentos para o surgimento de uma floresta tropical. Depois a fonte pode até ser esquecida, afinal a floresta já tem vida própria e produz novas fontes muito mais interessantes. Sem dúvida, esse não é o melhor, nem o disco mais tropicalista, mas é o primeiro e isso deve ter algum valor histórico.


Sobre as músicas

1. Tropicália (Caetano Veloso)
2. Clarice (Caetano Veloso e Capinam)
3. No dia que eu vim-me embora (Caetano Veloso e Gilberto Gil)
4. Alegria, alegria (Caetano Veloso)
5. Onde andarás (Caetano Veloso e Ferreira Gullar)
6. Anunciação (Caetano Veloso e Rogério Duarte)
7. Superbacana (Caetano Veloso)
8. Paisagem útil (Caetano Veloso)
9. Clara (Caetano Veloso)
10. Soy loco por ti América (Gilberto Gil, Capinam e Torquato Neto)
11. Ave Maria (Caetano Veloso)
12. Eles (Caetano Veloso e Gilberto Gil)

Quando Pero Vaz de Caminha descobriu que as terras brasileiras eram férteis, escreveu uma carta ao rei: Tudo que nela se planta, tudo cresce e floresce. E o Gaus da época gravou...” Tropicália (a música) começa com a improvisação do baterista Dirceu fazendo uma alusão à carta de Pero Vaz de Caminha e alguns sons bem estranhos acompanham sua jornada. E só para constar, ‘Gaus’ era o técnico de som do estúdio onde o disco estava sendo gravado. Essa música não poderia começar de outra maneira, afinal no jogo de referências a que se propõe, o ponto de partida só poderia ser este. E esse é um disco muito referencial. Sejam os heróis sob uma base de ironia em “Superbacana” ou a pseudo-imitação da pronúncia vocal de Nelson Gonçalves em “Onde Andarás”. Obviamente só sei disso porque li em algum lugar anteriormente, afinal eu nunca ia saber que Caetano estava fazendo referência à pronúncia vocal de Nelson Gonçalves em qualquer música que fosse. Faça-me favor. Eu só noto uma pronúncia vocal estranha de fato. Por sinal, uma música de Ferreira Gullar e Caetano Veloso, em teoria, só poderia chamar a atenção. Só em teoria mesmo, porque “Onde andarás” passa quase que despercebida. Quando não é passada de propósito. E sinceramente não sei o que é pior. A música tem algo de sujo que atrapalha o entendimento da letra e convenhamos que a letra não é lá essas coisas. Mesmo que fosse uma música limpa, não íamos ter muito o que escutar. Falemos de outras músicas então. “Superbacana”, por exemplo. Essa é uma canção divertida pacas, uma metralhadora referencial e imagética, que só tem como problema o fato de ser curta demais. É a mais curta de todo disco. Tudo bem que algumas más línguas dizem que enjoam fácil dela. Eu, particularmente, acho difícil de enjoar. E eu poderia cair naquele trocadilho péssimo e chamar a música de superbacana, mas eu resolvi me conter dessa vez. O humor refinado desses versos não merecem isso. Nem eu. Nem vocês. Vocês eu não sei.

Voltando a Tropicália, é importante dizer que essa canção, assim como Alegria, Alegria, possui uma nostalgia inerente a ela e maior do que podemos enxergar em um primeiro momento. Trata-se de uma nostalgia tão grande, e ao mesmo tempo tão melancólica, que atinge perfeitamente até os que não viveram a época em que tais músicas foram lançadas. É possível escutar os versos e sentir cada detalhe do final da década de sessenta; essas duas músicas, em especial, parecem conseguir recriar, reproduzir sozinhas todo o ano de 1968. E todo clima. Além de nos provocar uma saudade do que não vivemos, da geração o qual não fizemos parte, mas que ainda assim nos aproximamos naturalmente. Essas duas músicas não possuem todo teor político e dramático de Geraldo Vandré, ainda que possuam seu próprio tom quanto a posições políticas. Há uma leveza lançada através de imagens e idéias, uma atrás da outra, sem cessar. E talvez esse bombardeio não seja conseqüência apenas da estética das canções, mas sim do fato de sermos crias da Geração Videoclipe que transforma todos os sentidos em produtos imagéticos. Tropicália e Alegria, Alegria fazem uma incrível diferença no conceito (e na qualidade) do disco com um todo. Não só por serem os símbolos da estética recém nascida e já quase morta que Caetano buscava. Não só por isso. Essas duas músicas surgem como um desvio da esquerda presa a conservadorismos estéticos, ao mesmo tempo que se contrapõe à direita autoritária. Traça um caminho único, próprio. E talvez Caetano não tivesse noção disso até ser vaiado enquanto cantava “É Proibido Proibir” com Os Mutantes como banda de apoio, no III Festival Internacional da Canção.

Por outro lado, pra quem esperava que o disco tropicalista de Caetano fosse uma seqüência de músicas esteticamente coerentes às idéias do movimento e consequentemente sem coerência alguma, pode achar “Clarice” um pouco distante da proposta. Até Caetano achava para falar a verdade. Mas não se enganem. “Clarice” não é uma música despretensiosa como parece ser. A melodia carrega uma tristeza imensa, conta a história do recato, do pudor através da inocência de uma triste garota que termina por se despir. Tudo carrega uma melancolia e um mistério. A própria música brasileira estava se despindo naquele momento histórico. O Tropicalismo era isso, era a possibilidade de ficar nu. E foi o que Clarice fez. A outra mulher do disco é “Clara”. É uma música curta, que não me emociona, mas que obviamente reconheço o seu valor. Na verdade, gosto de alguns momentos, principalmente a troca vocal entre Gal e Caetano e algumas quebras de ritmo, mas a repetição de um mesmo nome várias vezes sempre me irritou. E com Claaaara, Claaaara, Claaaara não poderia ser diferente. Temos ainda Maria, em “Anunciação” e em “Ave Maria”. A primeira tem uma letra boa, realmente boa mas que terminou encaixada numa melodia de qualidade duvidosa. E novamente tem a repetição irritável várias e várias vezes: Maaariaaa, Maaariaaa. Já a segunda é o tipo de música que não muda a vida de ninguém, mas que tem uma melodia que me agrada por algum motivo o qual não saberia explicar direito. De qualquer maneira, não merece mais comentários. Vamos adiante. Falemos de “Soy loco por ti, América” agora. Não sei de onde surgiu meu abuso com essa música, provavelmente da abertura da novela, em especial porque fazia trilha de uma jovem que sonhava na América do norte. Só pode. É difícil uma música se tornar tema de novela e depois não se tornar amada e tocada por metade da nação e, consequentemente, odiada por mim. No meu mundo perfeito ninguém agüentaria escutá-la todo dia. E isso se aplica pra quem assiste e pra quem não assiste à novela. Porque invariavelmente alguém estará assistindo e invariavelmente você vai terminar escutando. E escutando. E escutando. E escutando. Caetano cantando não convence. Misturando espanhol com português fica mais tosco ainda. Essa música é brega. Brega. Brega até dizer basta e algumas pessoas ainda vêm dizer que é tropicalista pra burro, que é uma homenagem a Che Guevara que havia morrido no ano anterior, que proclama a revolução comunista na América Latina. Viva a América Latina, mas poupem-me. Está muito mais pra Carmem Miranda do que qualquer outra coisa. E que se dane Che Guevara, a pseudo-revolução e essa música. Não me importo, vamos adiante.

Na seqüência ilógica da minha cabeça surge “No dia em que eu vim-me embora”, uma canção meio autobiográfica que ultrapassa os limites da história pessoal de Caetano ou Gil. Da história pessoal do tal “eu-lírico” seja lá quem ele for. A autobiografia nesse caso é a biografia de meio mundo de pessoas. Não estou chamando de clichê, apenas de comum. É uma música que se sustenta no silêncio e no não-dito de seus personagens. A mãe, a irmã, o pai... o próprio Caetano que já não sabe o valor dos sonhos que sonha e não tem mais a certeza sobre os caminhos que escolhera a trilhar. E quantas vezes questionamos nossas atitudes enquanto as construíamos? Isso é o tipo de coisa que acontece o tempo todo. Vamos caminhando vagarosamente. “Paisagem Útil” é uma música interessante, parece dar todo tom de uma canção qualquer, até que mostra saídas criativas tanto na letra como no ritmo. No arame que os prende. É uma pintura impressionista e surrealista, pintada através de olhos incomuns, mas extremamente sensíveis. Há algo de surreal impresso numa realidade sugestiva, uma dança sem sentido de Monet com Salvador Dali. Por fim, temos a última música do disco: “Eles”. Trata-se do grande momento tropicalista. Não é tão famosa quanto às irmãs "Tropicália" e "Alegria, Alegria", mas segue a mesma estética e a leva ao ponto que precisa. Experimentação na medida. Crítica política na medida. Melodia na medida e Mutantes nos instrumentos pirando. E pirando. E pirando. Tem um clima sombrio, uma guitarra descompromissada e ótima; é um dos melhores momentos do disco e da estética tropicalista em si. Até na falta de rima a música se excede. Caetano não podia fechar melhor sua obra. E como ele mesmo diz: Os Mutantes são demais.

Documentação extra:

Contracapa do disco – Caetano Veloso

Que maravilhoso país o nosso, onde se pode contratar quarenta músicos para tocar ‘um’ uníssono.(Miles Davis, durante uma gravação).

Antes havia Orlando Silva & flautas e até mesmo no meio do meio dia. Antes havia os prados e os bosques na gravura dos meus olhos. Antes de ontem o céu estava muito azul e eu e ela passamos por baixo desse céu, ao mesmo tempo com medo dos cachorros e sem muita pressa de chegar do lado de lá.do lado de cá não resta quase ninguém. Apenas os sapatos polidos refletem os automóveis que, por sua vez, polidos, refletem os sapatos assim per omnia até que (por absoluta falta de vento) tudo sobe num redemoinho leve, me deixando entrever um resto de rosto ou outro, pedaços, amém. Marina sabe a história do pelicano etc. etc. o peito aberto e rasgado etc. etc. mas que nada: quando a gente não tem nenhuma necessidade de ir para os States não há mesmo mais esperança. Eu gostaria de fazer uma canção de protestos de estima e consideração, mas essa língua portuguesa me deixa rouco. Os acordes dissonantes já não bastam para cobrir nossas vergonhas, nossa nudez transatlântica. E, no entanto, Ele é um gênio: quem ousaria dedicar este disco a João Gilberto? Quantos anos você tem? Como é que você se chama, quando é que você me ama, onde é que vamos morar? Os automóveis parecem voar, os automóveis parecem voar por cima (mas mais alto que o Caravelle) dos telhados azuis de Lisboa, dos teus olhos, dos mais incríveis umbigos de todas as mulheres em transe, dos teus cabelos cortados mais curtos que os meus, meu amor, porque eu não quero, porque eu não devo explicar absolutamente nada.

P.S.: Gil, hoje não tem sopa na varanda de Maria.

Caetano Veloso, em 1968, no III Festival Internacional da Canção após ser vaiado, enquanto cantava "É Proibido Proibir":

Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado! São a mesma juventude que vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem! Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada. Hoje não tem Fernando Pessoa. Eu hoje vim dizer aqui, que quem teve coragem de assumir a estrutura de festival, não com o medo que o senhor Chico de Assis pediu, mas com a coragem, quem teve essa coragem de assumir essa estrutura e fazê-la explodir foi Gilberto Gil e fui eu. Não foi ninguém, foi Gilberto Gil e fui eu!

Vocês estão por fora! Vocês não dão pra entender. Mas que juventude é essa? Que juventude é essa? Vocês jamais conterão ninguém. Vocês são iguais sabem a quem? São iguais sabem a quem? Tem som no microfone? Vocês são iguais sabem a quem? Àqueles que foram na Roda Viva e espancaram os atores! Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada. E por falar nisso, viva Cacilda Becker! Viva Cacilda Becker! Eu tinha me comprometido a dar esse viva aqui, não tem nada a ver com vocês. O problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira. O Maranhão apresentou, este ano, uma música com arranjo de charleston. Sabem o que foi? Foi a Gabriela do ano passado, que ele não teve coragem de, no ano passado, apresentar por ser americana. Mas eu e Gil já abrimos o caminho. O que é que vocês querem? Eu vim aqui para acabar com isso!

Eu quero dizer ao júri: me desclassifique. Eu não tenho nada a ver com isso. Nada a ver com isso. Gilberto Gil. Gilberto Gil está comigo, para nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil. Acabar com tudo isso de uma vez. Nós só entramos no festival pra isso. Não é Gil? Não fingimos. Não fingimos aqui que desconhecemos o que seja festival, não. Ninguém nunca me ouviu falar assim. Entendeu? Eu só queria dizer isso, baby. Sabe como é? Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas. E vocês? Se vocês forem... se vocês, em política, forem como são em estética, estamos feitos! Me desclassifiquem junto com o Gil! Junto com ele, tá entendendo? E quanto a vocês... O júri é muito simpático, mas é incompetente.
Deus está solto!

Fora do tom, sem melodia. Como é júri? Não acertaram? Qualificaram a melodia de Gilberto Gil? Ficaram por fora. Gil fundiu a cuca de vocês, hein? É assim que eu quero ver.

Chega!

quarta-feira, 31 de maio de 2006

Teorias

Não tem físico que explique o magnetismo humano.

sexta-feira, 19 de maio de 2006

Registro

Comprei hoje meu primeiro gravador de CD e DVD.

Inicia-se aqui uma coleção.

domingo, 30 de abril de 2006

Laboratórios

Apenas frequentando a comunidade do Coque, andando pelas vielas, entrando nas casas, se aproximando das pessoas e deixando o receio de lado para transfigurar o olhar conformado de quem passa por cima do viaduto. São vontades de aproximação e expressão bem distintas: uma é ler nos periódico matinais alguma notícia sensacionalista, cheia de clichê e preguiça sobre o bairro, outra é estar diante de uma senhora que viveu todo estigma ou de rapaz que ao comentar 'o que é ser jovem no Coque' afirma que é 'olhar para as fotos de infância e notar que quase todos seus amigos, daquela época, estão mortos'. O Coque é um borrado do que vemos no jornal e uma paisagem completamente diferente: nas folhas sujas não vemos o ensaio de uma banda de garagem na calçada de casa, os instrumentos precários, poucos amigos em volta, um ou dois vinhos baratos, uma música pesada, irônica, intensa. “Desculpem o inglês, mas é que eu nunca pude fazer um curso no CCAA” fala Sérgio, o vocalista, antes de iniciar um cover de Led Zeppelin. O primeiro momento na criação do jornal laboratório Coque pelos alunos do sexto período de jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco (2005.2) e pelos jovens colaboradores da comunidade foi de nossa visita ao espaço tão tripudiado pela mídia, visita regular para alguns, cada vez mais raras para outros. No segundo momento, invertemos a direção: os jovens vieram até a universidade, visitaram nosso departamento, nossos corredores, ficaram alocados especificamente no laboratório de informática. Incorporamos a posição de orientadores na produção de seus textos. Trabalhei diretamente com Junior, rapaz cuja experiência de violência e drogas remonta aos primevos anos de sua vida, e diante do computador, revelou o receio de tocar na máquina. De início não entendi a precaução, mas logo notei que se tratava de um sentimento de não-pertencimento misturado ao medo de terminar quebrando alguma coisa. Um medo muito ingênuo, mas exemplar da rígida e cruel divisão social. Tive que insistir muito até que ele aceitasse escrever o seu nome. Não demorou muito até atravessarmos o espelho.

quarta-feira, 19 de abril de 2006

Casório

"Certidão de casamento nada mais é do que uma certidão de apropriação da genitália alheia".

Alguém um dia soltou essa frase com ar de efeito, cara blasé, maquiagem caída e cigarro na mão. Depois citou a fonte dizendo que quem tinha a escrito fora Kant. Acho difícil por uma simples razão: nunca entendi uma frase inteira de Kant. Hegel idem. Sempre achei os neo-kantianos e os neo-hegelianos do início do século XXI interpretadores aleatórios do absurdo filosófico. A universidade de um modo geral é bem isso.

domingo, 9 de abril de 2006

segunda-feira, 3 de abril de 2006

No Expectations


Take me to the station
And put me on a train
I've got no expectations
To pass through here again

Once I was a rich man and
Now I am so poor
But never in my sweet short life
Have I felt like this before

You heart is like a diamond
You throw your pearls at swine
And as I watch you leaving me
You pack my peace of mind

Our love was like the water
That splashes on a stone
Our love is like our music
Its here, and then its gone

So take me to the airport
And put me on a plane
I got no expectations
To pass through here again

segunda-feira, 6 de março de 2006

sábado, 31 de dezembro de 2005

sábado, 24 de dezembro de 2005

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

editando meu profile do orkut

programas de tv:

hmmm... seriados brasileiros, americanos, mexicanos e hindus. Todos completamente idiotas. Animes tibetanos ou sauditas, ainda que os da Ilha de Galápagos tenham me surpreendido ultimamente. Atrizes expressivas ótimas, sabe? Me encanto também com os programas pseudocults produzidos na Nicarágua, na Etiópia e na Coréia do Norte pós testes atômicos. São de um complexidade digamos francesa. Amo os programas de auditório da Nova Zelândia, o Reality Show com pessoas anencefalas que fizeram transplante de face entre si e o Animal Planet falando diretamente de Marte. \o/

Adoro tooodo esse tipo de coisa que passa na tv.

¬¬

quarta-feira, 7 de dezembro de 2005

domingo, 27 de novembro de 2005

Corpo Humano

Somos viciados em nossos próprios corpos. Desde pequenos, despertamos um impulso exploratório, já bem cartografado pela psicologia, inicialmente pelo território conhecido e mapeado; depois, partimos para as rugas e curvas de nossos pais, com direito a pelos que nos causam repulsa, até nos darmos conta, seja num joguinho de "mostro o seu, que eu mostro o meu", seja numa espiada no banheiro da natação, seja numa aula de catequese em que alguém esqueceu a calcinha, seja num daqueles infernais banhos de praia que os pais jogavam todas as crianças juntas dentro do chuveiro, que os amiguinhos e amiguinhas possuíam e não possuíam um corpo similar ao nosso. Daí ficamos mais velhos e só ampliamos o campo de exploração, seja mediado pelo desejo, por um ímpeto erótico ou pelo desprezo: tentamos manter o corpo da melhor maneira possível e, mesmo depois de experimentar algumas dezenas deles, permanecemos curiosos para milhões de outros. Acredito que a monogamia essencialmente não me atinge pela simples curiosidade que tenho pelos corpos, pela sinuosa diferença entre eles, por uma certa obsessão cronenberguiana em sacar proporções, distorções e aparelhagens. Sinto que preciso experimentar boa parte da humanidade até me decidir e isso provavelmente deve durar a vida inteira. Decerto, nem sei bem porque comecei a escrever sobre isso, o intuito desse post era apresentar um artista australiano radicado em Londres, Ron Mueck, cujo estilo hiperrealista de interesse antropomórfico, assim como o manejo preciso com dimensões e escalas alteradas, parece levar essa curiosidade natural dos sujeitos, ao longo de toda a vida, por patamares não dantes percorridos até atingir um campo de absoluto desconforto.

In Bed (2005)

Mother and Child (2002)

Wild Man (2005)

Woman Pregnant (2002)

A Girl (2006)

Boy (2000)

Spooning Couple (2005)

Big Man (2000)

Angel (1997)
Mask II (2001-2002)

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

Automatizando

"Gerência Técnica, Bom dia"

Quando você começa a atender o telefone da sua própria casa assim, pode ter certeza que chegou o momento de trocar de estágio.

sexta-feira, 28 de outubro de 2005

A Maçã Nua

FADE IN:

CENA 1 - INT. SALA DO APARTAMENTO - NOITE
Um cigarro esquecido queima em um cinzeiro no chão. No fundo, alguém [IVO] se mostra inquieto e irritado, andando de um lado para o outro, entrando e saindo do ambiente em questão. Esse personagem masculino, um tanto fora de foco, joga uma bolsa velha no chão, colocando dentro ou entulhando ao lado dela alguns pertences (livros, vinis, roupas, um violão). Em seguida, volta a se mover de modo apreensivo, ausentando-se constantemente de nosso campo visual, enquanto uma música melancólica ['THERE IS AN END' - THE GREENHORNES] toca numa antiga vitrola que também aparece em quadro do lado esquerdo. Vez ou outra, o rapaz surge ora dando um leve chute em sua mochila, ora abaixando para amarrar o sapato, ora pondo suas coisas em ordem, separando alguns dentro da bolsa. De súbito, interrompe seu percurso, pega a bolsa com rispidez – deixando o instrumento musical cair e abandonando outros objetos - e se dirige até uma porta ao fundo. Abre, hesita por um segundo e bate com força ao sair. 

FADE OUT:

“A MAÇÃ NUA” 

FADE IN:

CENA 2 - EXT. PRAÇA - DIA / TARDE
Imagens documentais de dois velhos [que poderiam ser DAVI E IVO] sentados em um antigo banco de uma praça qualquer. Essa cena se repete algumas vezes ao longo do roteiro, contudo, a cada retorno, aparecem senhores diferentes em praças diferentes. Nessa primeira, é perceptível uma sensação de indiferença entre eles, composta especialmente na falta de olhares e na falta de palavras. DAVI, sem demonstrar expressão alguma, tira vagarosamente uma carteira de cigarros do bolso. Não dá importância para um que cai no chão, enquanto coloca outro na boca. Em seguida, pega um isqueiro mais lentamente do que pegara o cigarro e o acende próximo ao rosto enrugado. Dá um longo trago, mas não chega a soltar a fumaça. 

CENA 3 - EXT. TERRENO– FIM DE TARDE (FLASHBACK) 
Um jovem [DAVI], visivelmente ébrio, solta, entre a tosse e o sorriso, a fumaça de um cigarro que acabara de acender, continuando o sentido da cena anterior. Ele está sentado ao lado de outros três garotos, todos no início da adolescência, em galhos secos e velhos caídos no chão. Ao redor dos quatro, existem árvores densas e nem tão densas, além das paredes de uma casa em ruínas tomada pelo verde. Todos estão vestidos com a farda de seus colégios quaisquer. Suas bolsas e sapatos estão pendurados em galhos e largados pelos cantos, assim como algumas fotos em preto e branco presas a barbantes. Um incenso está encaixado em algum lugar. 

O cigarro roda de mão em mão para um lado, enquanto uma garrafa de vinho barato roda para o outro. DAVI e dois dos jovens bebem e fumam muito, enquanto contam suas situações de quase-sexo (como tinham chupado uma menina, como tinham metido o dedo). As risadas são constantes. IVO parece distante daquele assunto, permanece calado e se destaca em relação aos seus amigos por não ser tão exagerado quanto eles. Não fuma e tosse bastante por conta da fumaça. Restringe-se a dar apenas leves goles no vinho, enquanto olha algumas fotos em suas mãos. Vez ou outra chama a atenção de DAVI para ver uma das fotografias. O amigo, instantaneamente, sai do clima da conversa e sempre se mostra curioso ou interessado aos chamados de IVO. 

Aos poucos, os jovens ficam bêbados e começam a andar pelos galhos caídos, fechando os olhos, rodando a cabeça, escorregando e rindo. Em seguida, todos, exceto IVO, ficam apenas de cuecas e correm para fora do ambiente em questão. Gritam como loucos. IVO dá um último gole no vinho, mantém um ar quase blasé até olhar para trás e sorrir meio anestesiado ao recusar o chamado dos amigos. Começa a tossir repetidamente, enquanto observa, com certa melancolia, nomes, desenhos e frases escritas na madeira em que está sentado. Nota-se que muitos daqueles rabiscos foram feitos em tempos diferentes. Termina por fim escrevendo com uma chave a frase: "you can't shine if you don't burn". 

CENA 4 - EXT. PRAÇA – DIA/TARDE 
Close numa mão enrugada escrevendo a mesma frase na madeira do banco, enquanto tosse repetidamente, continuando o sentido do momento anterior. Novamente voltam as imagens documentais de diferentes senhores em praças igualmente distintas. Sempre são focados dois velhos sentados com um olhar perdido; apático. Um deles [DAVI] traga seu cigarro, vagarosamente. IVO coloca a mão no rosto, faz expressões sutilmente vagarosas e cansadas até se lançar a um movimento brusco para cruzar as pernas. 

CENA 5 - INT. SALA DO APARTAMENTO – MADRUGADA (FLASHBACK). 
Um jovem [IVO] descruza as pernas no mesmo compasso, continuando o sentido da cena anterior. Duas cadeiras estão frente a frente a certa distância. Um rapaz [IVO] de aproximadamente uns vinte e quatro anos e uma MULHER desta mesma idade – quase despidos – estão sentados nelas. Em volta, o chão está coberto com fotos coloridas e garrafas de rum e coca-cola (cuba-libre). Entre as duas cadeiras, há um cavalete onde repousa uma tela ainda não terminada e o apartamento em si tem um ar de recém ocupado. IVO e a moça se encaram através de um olhar ora cínico, ora sereno; através de um sorriso ora sarcástico, ora confortante. Há uma tensão e um cinismo latentes no ar. A MULHER se levanta com um ar blasé, fumando um cigarro na piteira. Aproxima-se da tela e dá uma ou duas pinceladas. IVO permanece imóvel mesmo depois dela passar por trás de sua cadeira, tocando-o de leve, sussurrando algo no seu ouvido, tocando em seus mamilos e mordiscando sua orelha. Em seguida, a MULHER anda até uma antiga vitrola onde pega um vinil nas mãos. Faz uma expressão de repulsa e o devolve ao seu lugar. Pega outro vinil, abre um sorriso contido e coloca o som o mais alto possível [LE TEMPS DE L'AMOUR - APRIL MARCH]. Esboça uma dança lenta, movimentando os braços, cheia de charme. IVO sorri, cruza as pernas novamente, toca o rosto agora sério até voltar a sorrir. A porta do apartamento é aberta por um outro jovem (DAVI). Primeiro um sorriso ébrio e malicioso. Em seguida, dá um trago em seu cigarro e seus olhos verdes não escondem uma surpresa indesejada. 

* A MULHER está de calcinha usando uma camisa de botão do rapaz. A camisa está meio aberta na parte superior, insinuando os seus seios, aumentando a sensualidade já intrínseca a ela. Além do charme enquanto fuma, a moça também mostra sua delicadeza em cada um de seus passos curtos e, principalmente, em sua dança. Ela possui olhos serenos e inocentes, que se transformam sem problemas num olhar astuto, charmoso ou sagaz. 

CENA 6 - EXT. PRAÇA – DIA/TARDE 
Voltam as imagens documentais. Os olhos verdes de DAVI continuam os mesmos. Ele olha para os lados, pisca, fecha os olhos com uma expressão densa. DAVI leva a mão esquerda à cabeça, permanece com os olhos fechados e se mostra um tanto desconfortável. IVO descruza as pernas e amarra o tênis. DAVI desperta e olha desinteressado para cima, quase esboçando um sorriso por trás da falta de expressão. Puxa a fumaça do cigarro e tenta produzir círculos de fumaça com a boca falhando algumas vezes até conseguir. 

CENA 7 - EXT. RUA – DIA (FLASHBACK) 
Um garoto de oito anos [DAVI] assopra bolhinhas de sabão continuando o sentido da cena anterior. Ele corre com a mão levantada, numa linha de trem aparentemente abandonada, depois de algum tempo percebemos que atrás dele vem outro garoto [IVO] também soltando bolinhas de sabão. IVO tropeça e cai, DAVI continua em frente, então para de correr e volta. Ambos sentam na ponta da linha de trem suspensa, IVO vai perdendo o olhar de choro, ampliando um olhar curioso, os dois balançam as pernas enquanto as bolhinhas de sabão tocam a ponta de seus pés. 

CENA 8 - EXT. PRAÇA – DIA/TARDE 
DAVI e IVO, novamente encarnados em diferentes velhos, continuam o balançar de pernas que, obviamente, não permanece idêntico, mas que remete vagamente à sua infância. Continuam em suas posições, sem trocarem palavras ou olhares. Alguns pedestres ou ciclistas passam anônimos por suas frentes. Alguns olham, outros nem isso. Por sua vez, nada parece interessar aqueles dois senhores, nada os resgata por completo de seus postos apáticos. IVO tira, vagarosamente, os óculos para limpá-los. 

CENA 9 - INT. SALA DO APARTAMENTO - NOITE (FLASHBACK). 
Continua o movimento de limpar os óculos (nesse caso, óculos escuros, excêntricos). Duas cadeiras estão frente a frente e a certa distância uma da outra. IVO e DAVI com seus vinte e tantos anos – apenas de cueca, Davi com uma gravata roxa – estão sentados nelas se encarando. Suas roupas estão espalhadas pelo chão da sala, que agora abriga em suas paredes um enorme acervo de referências culturais, formatando um verdadeiro mosaico pop. Um ou dois abajures estão acessos dando à sala um clima de meia-luz. 

DAVI se levanta, passa por trás da cadeira em que estava sentado e percorre a sala tocando com uma expressão carregada alguns objetos e inúmeros recortes presos na parede. Dá alguns tragos no baseado que tem em mãos, enquanto caminha vagarosamente. Chega até a vitrola e desliga o som. Continua a trajetória até ficar de frente a um GRANDE QUADRO por trás da cadeira onde IVO está sentado. 

O quadro de uma MAÇÃ - em cores fortes e linhas disformes - contrasta com as costas nuas de DAVI e o peitoral nu de IVO. Em cima da tela é possível ver escrito em letras rabiscadas “you can't shine if you don't burn”. DAVI encara profundamente o quadro e não o toca. IVO, por sua vez, ainda sentado, encosta a cabeça nas costas de Davi. A tensão é extrema. 

DAVI (APREENSIVO) 
Como aconteceu isso, Ivo? 

IVO (RELAXADO E IRÔNICO) 
Não importa. Eu também não entendo, pronto, passemos pra próxima.(pausa) E não era sempre você que me instigava a tentar tudo? (pausa) Olhaí, aqui estamos, essa é só mais uma tentativa.

DAVI se vira e olha para baixo. IVO permanece com a cabeça encostada no amigo e olha para cima. Encaram-se por um instante. DAVI coloca o baseado na boca de IVO que traga sem problema e, em seguida, coloca na sua própria boca. 

DAVI (RÍSPIDO) 
Mas caralho... (pausa) eu acho que já passamos do ponto. 

IVO (RELAXADO) 
Não, Davi... (pausa) não existe mais um ponto. 

Continuam se encarando. IVO agora pega o baseado da boca de DAVI e coloca na sua própria boca. DAVI se vira e abaixa a cabeça. IVO coloca os óculos escuros de volta no rosto carregado de ironia. 

CENA 10 - EXT. PRAÇA – DIA/TARDE 
Continua o movimento dele colocando os óculos de volta. IVO vira para o outro personagem e faz menção a dizer algo, seus lábios inseguros chegam a se mover, a dar impressão de um sussurro. Porém, DAVI olha para o lado oposto. IVO hesita, permanece calado e se vira. Nesse mesmo momento, DAVI o olha e desvia o olhar, o olha e desvia o olhar novamente. IVO toma ar e se vira pronto para falar algo, quando DAVI já está novamente olhando para o lado oposto. IVO desiste de sua tentativa e termina por fazer um barulho com a boca, uma espécie de assobio. 

CENA 11 - EXT. PRAIA – NOITE (FLASHBACK) 
O assobio permanece vindo da boca de IVO, visivelmente ébrio, continuando o sentido da cena anterior. IVO está deitado de mãos atadas a uma garota que usa uma vestimenta leve. Do seu outro lado, está DAVI. Todos três na areia de uma praia aparentemente deserta. Algumas garrafas de vinho, umas bolsas abertas e uma fogueira ao fundo compõem o ambiente. 

A menina está quase dormindo. Já os dois rapazes olham as estrelas, apontando vez por outra para o céu. IVO parece explicar a DAVI algo sobre o sol que vem nascendo e as nuvens negras que se afastam, enquanto esse se mantém atento, por trás de um sorriso misterioso e triste. Em dado momento DAVI assanha o cabelo de IVO e encosta a sua testa carregada de tristeza no braço do amigo. Uma chuva fina começa a cair. 

IVO (RELAXADO E ÉBRIO) 
Porra... (suspiro) eu sempre me pergunto se uma amizade se faz por todos os anos que se passam ou pelos últimos dez minutos de picuinhas e intrigas. E, pra falar a verdade, nunca sei a resposta.

DAVI (MEIO INDIFERENTE E ÉBRIO) 
Provavelmente a gente se força a crer nos anos, ainda que esteja sob o destino dos minutos (pausa). Dos minutos ou quem sabe dos segundos, dos centésimos, dos milésimos... de todos esses detalhes invisíveis. (longo gole no vinho) Tsc... a intensidade é uma ilusão, a profundeza não. (longa pausa) Eu sempre penso no longo tempo em que passamos construindo um relacionamento e no tempo mínimo que podemos colocar tudo a perder. Tudo. (pausa) Tudo. (Pausa) Mas, pra ‘também’ falar a verdade, meu amigo... eu acho que o tempo, o tempo não tem nada a ver com isso. 

Permanecem em silêncio. IVO dá imensos goles em seu copo até correr para o mar, tirando suas roupas; gritando como um louco. Porém, antes de se perder na escuridão se vira e chama seus companheiros. Os dois se levantam. DAVI dá um leve beijo na boca da mulher, mais sereno do que sexual. Em seguida, encara o amigo o negando com um sorriso triste. DAVI o observa mais um pouco, abaixa a cabeça e fecha os olhos. Abre um guarda-chuva, se vira e vai embora. Enquanto isso, a garota, que havia saído correndo pela areia, chega até IVO e o beija. Esse, por sua vez, não dá nem importância a ela. Sua atenção esta presa à reação do amigo. Seus olhos negros não escondem a surpresa indesejada. 

* Nessa cena, primeiro a MULHER está praticamente dormindo e, em seguida, a garota se mostra completamente serena. Seu rosto tem aquela beleza de quem acabou de acordar, aquela leveza, aquela expressão singela. O beijo em Davi é sincero, mas completamente fraternal (não é um beijo de língua, apenas encosta os lábios lateralmente nos lábios de Davi e lhe dá um abraço apoiando a cabeça no ombro dele). 

CENA 12 - EXT. PRAÇA – DIA/TARDE 
Os olhos negros de IVO continuam surpresos. Ele olha para os lados, pisca, fecha os olhos com uma expressão densa – intercala com fotos de uma intimidade sutil entre os personagens da última cena. Uma chuva fina começara a cair. DAVI está com um guarda-chuva aberto, enquanto IVO permanece se molhando. Os dois já parecem um pouco inquietos, em especial IVO. Suas mãos estão trêmulas. DAVI coloca a mão apoiada no banco e deixa o cigarro queimar sem se mover nem para tragar. A cinza se acumula. 

CENA 13 - INT. SALA DO APARTAMENTO – NOITE (FLASHBACK) 
Um cigarro esquecido queima em um cinzeiro no chão. No fundo, alguém [IVO] se mostra inquieto e irritado, andando de um lado para o outro, entrando e saindo do ambiente em questão. Esse personagem masculino, um tanto fora de foco, joga uma bolsa velha no chão, colocando dentro ou entulhando ao lado dela alguns pertences (livros, vinis, roupas, um violão). Em seguida, volta a se mover de modo apreensivo, ausentando-se constantemente de nosso campo visual, enquanto uma música melancólica ['THERE IS AN END' - THE GREENHORNES] toca numa antiga vitrola que também aparece em quadro do lado esquerdo. Vez ou outra, o rapaz surge ora dando um leve chute em sua mochila, ora abaixando para amarrar o sapato, ora pondo suas coisas em ordem, separando alguns dentro da bolsa. De súbito, interrompe seu percurso, pega a bolsa com rispidez – deixando o instrumento musical cair e abandonando outros objetos - e se dirige até uma porta ao fundo. Abre, hesita por um segundo e bate com força ao sair. O cigarro continua a queimar no cinzeiro até que a mão de um segundo personagem [DAVI)], que até então estava totalmente OCULTO na cena, bate a cinza e tira o fumo de quadro. DAVI aparece no ambiente indo até onde a mochila do outro personagem estava anteriormente. Possui um cigarro numa mão e uma garrafa de vinho na outra. Vai até a porta, senta e encosta a cabeça nela, ao mesmo tempo em que fuma seu cigarro e bebe do vinho. A partir disso enquanto no cinzeiro vão aparecendo goias e mais goias de cigarros fumados, DAVI, em cada momento, está numa posição e vestimenta diferente dentro do ambiente (ora deitado olhando para cima, ora deitado sem camisa meio que dormindo, ora sentado fumando, ora andando apreensivo, ora sentado tocando um instrumento musical melancolicamente, ora bebendo muito). Por fim, DAVI vai até o cinzeiro e apaga o seu último cigarro. Resta apenas um fio de fumaça. 

CENA 14 - EXT. PRAÇA – DIA 
Um fio de fumaça sai de um cigarro recém apagado no chão ao lado do sapato de DAVI. O cigarro permanece acesso por algum tempo até que a fumaça se torna mais e mais rala até se extinguir de uma vez. DAVI se levanta, fecha o guarda-chuva e sai por um lado, sem dar importância ao outro senhor. IVO demora mais um bom tempo sentado, em seguida, olha para o lado que o outro seguira por alguns segundos. Termina saindo pelo caminho oposto. O banco fica vazio. 

FADE OUT. 

CRÉDITOS

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Recorrência

- Você tem um calendário aí na carteira?

- Mas para que você precisa de um calendário se todos os seus dias são iguais?

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

Wars

Se George Lucas tivesse realmente chamado Orson Welles para fazer a voz do Darth Vader, desistiu por acreditar que a voz seria facilmente reconhecida, tenho certeza que Welles ia meter muito mais do que a boca, ia meter logo o bedelho inteiro, na trilogia toda. Pois é, talvez os ewoks não existissem.

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

Cruzamento

O ônibus vinha chutado pela Avenida 17 de Agosto. Passava um, dois, dez sinais amarelos bem no minutinho de virar vermelho, o apito de controle de velocidade não parava de ressoar, idosos eram arremessados de um lado para o outro dentro do coletivo, o trânsito estavam sombriamente livre e em qualquer curva mais acentuada algum homem de voz grossa e dedos pequenos soltava o clássico comentário: "essa porra de motorista acha que tá carregando boi!". Foi então que em um dos sinais amarelos-quase-vermelhos, um carro de gente fina e bacana partiu antes do verde e atravessou a 17 de Agosto bem na frente do coletivo ensandecido. O ônibus freou, o carro acelerou, e enquanto era idoso para tudo que é lado, livros dos estudantes voando pelos ares, a cobradora caindo da cadeira, o homem de voz grossa e dedos pequenos segurando com todas as suas forças, todos ouviram aqueles dois segundos do som de pneus trincados que antecipam o 'puft' final. O 'puft' final veio, pois o carro ao acelerar com tudo, conseguiu escapar do ônibus, mas terminou batendo em outro carro que vinha na mão contrária à do ônibus, veículo que também tinha atravessado um sinal que acabara de fechar. Esse outro carro, por sua vez, bateu numa moto; a moto não bateu em ninguém, mas o motoqueiro terminou machucado, estava com o capacete em um dos braços e falava no celular tentando justificar o atrasado para a amante que o esperava na Praça 13 de maio. Só deixou de chama-lo de desgraçado quando soube do ocorrido. Todos recompostos dentro do ônibus, o motorista afinal tinha conseguido frear a tempo, então satisfeito com seu ato de heroísmo seguiu adiante, chutadíssimo do mesmo jeito.

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

¥

um gravador de sonhos,
estilingue de pensamentos.

um chá de memória.


quarta-feira, 14 de setembro de 2005

quarta-feira, 7 de setembro de 2005

Engajamento Ltda

E o que dizer da ONG do bem que abriu uma loja e batizou de 'Ética'?

segunda-feira, 29 de agosto de 2005

Acredito que minha criação, desnaturalização e transgressão nunca foram acompanhadas, menos ainda pautadas, pelo justo (e pueril) sentimento de culpa, no entanto, desde que senti o peso da argumentação ainda criança, desde que fui grosso com uma vizinha arrogante, xinguei a coordenadora do colégio ou que tive de discutir com minha mãe por ela ter lido, sem permissão, linhas não tão carinhosas em meus cadernos, tenho um pequeno receio dos momentos em que as palavras me escapam: seja na ocasião em que elas explodem para fora e geram um campo de batalha, seja quando as isolo num mar distante dentro de uma garrafa.

quinta-feira, 25 de agosto de 2005

§

Sinto falta de um baú muito imenso para guardar cada uma das pequenezas bem miúdas do mundo.

terça-feira, 12 de julho de 2005

terça-feira, 14 de junho de 2005

Distinção 7

Existe uma sombria diferença entre saudade e carência: enquanto a primeira brota e se cultiva, a segunda brota e nos envenena.