O canal Planeta Bizarro do G1 é um simples sinal de como o capitalismo é capaz de incorporar, racionalizar e, claro, capitalizar qualquer lampejo de espontaneidade e anarquia ao desenvolver um segmento de matérias cujo norte é idêntico ao das reunidas na comunidade do orkut, 'Anão vestido de palhaço mata 8'.
segunda-feira, 30 de março de 2009
Trote
Nem ainda chegou o dia da mentira e já recebi uma ligação daquelas que meus amigos adoram. Eu acordei hoje pensando em colocar crédito no meu celular, basicamente porque precisava ligar para uma amiga e não podia surrupiar o celular da minha mãe como geralmente faço. Daí vi uma mensagem recebida, jurei que era alguma bomba matinal de Faltay, mas, na verdade, era um recado da claro, avisando que tinha chegado R$ 5,00 de crédito. Meu mau humor foi embora e realmente botei na cabeça que o cosmos tava do meu lado: o que soou ótimo levando em conta que tinha acabado de acordar com o barulho de portas alheias batendo e que era uma típica segunda de manhã. Fiquei macucando por três segundos se teria sido minha mãe ou engano de algum zé bocó. Decidi não pensar. Passou o dia, usei meu fogão novo pela primeira vez, comi decentemente, dormi, li Gramsci, olhei verbetes do Dicionário de Política de Bobbio, roubei internet do wireless do vizinho, recebi amigos em casa, daí toca meu celular. Número estranho. Atendo. A cobrar. Desligo. Coloco na pauta da sala de estar: número estranho, a cobrar, ligo de volta? Juliana sugere que eu ligue, escute a voz do destinatério e desligue. Me vem a cabeça que muito provavelmente era o cara que botou o crédito errado querendo me cobrar. Todos me chamam de paranóico sem noção. Decido ligar afinal sempre ligo a cobrar pro povo de forma que fazer uma ligação às cegas uma vez na vida não mata ninguém, além de que em algum lugar queria provar que não era um paranóico sem noção. Ligo. Escuto a voz de, acho eu, um senhor de idade, com certeza meio nervoso: "e chegou R$ 5,00 aí foi?". Claramente nunca escutei aquela voz antes. Desligo. Comunico que a paranóia venceu. Entro em pânico. Meu celular toca. Não sei o que fazer. Desligo. Seria trote de Fábio Leal? O celular toca de novo. Desligo. O celular não para de tocar. Fico louco. Alguém dá a sugestão de eu desligar tal número para sempre. Peso na consciência versus falta de coragem, diabinhos e anjinhos pulando na sala, desliga pra sempre, nunca atende, peraí, é só cinco reais. Mando uma mensagem: "amanhã coloco R$ 5 picas no teu cu. Perdeu playboy". Mentira. A mensagem era: "amanhã coloco cinco reais para você. Valeu". Feita a boa ação, não sei se coloco ou deixo passar. Sinceramente me pergunto se isso acontece por aí das pessoas botarem crédito errado e depois ligarem pro número errado pra cobrar o crédito errado. Já ouvi gente que recebeu crédito e ficou por isso, afinal se a pessoa confundiu o número, deveria depois não conseguir lembrar do número confundido: até porque, ok, os quatro primeiros dígitos eram iguais, mas os quatro últimos não tinham nada a ver. Ah, sei lá. Cansei de pensar sobre isso. Só sei que a moral da história é que eu claramente tenho problemas sérios em falar com pessoas que não conheço, o que me faz um alvo fácil de trotes de todos os tipos. Pois é, não devo ter digerido bem aquele velho conselho materno de não falar com estranhos.
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Crônicas
sexta-feira, 27 de março de 2009
Aliança exibe filme de Cantet
O Cineclube da Aliança Francesa do Derby exibe hoje, às 19h, em DVD, o filme Ressource humaines, dirigido pelo francês Laurent Cantet (em cartaz no Cinema da Fundação com Entre os muros da escola). Após a exibição do filme, que tem legendas em português, haverá um debate no Auditório André Malraux com a participação dos cinéfilos Luiz Fernando Moura e Rodrigo Almeida. A entrada é gratuita. A Aliança Francesa fica na Rua Amaro Bezerra, 466, Derby.
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Clipping
segunda-feira, 23 de março de 2009
UFPE
"Por que não exercem em nosso país aquela influência de reguladoras da vida cultural que exercem em outros países? Um dos motivos deve ser buscado no seguinte: nas universidades, o contato entre professores e estudantes não é organizado. O professor ensina, de sua cátedra, à massa dos ouvintes, isto é, dá a sua lição e vai embora. Tão-somente na época da apresentação da tese é que o estudante se aproxima do professor, pede-lhe um tema e conselhos específicos sobre o método da pesquisa científica. Para a massa dos estudantes, os cursos não são mais do que uma série de conferências, ouvidas com maior ou menor atenção, todas ou apenas uma parte: o estudante confia nas apostilas, na obra que o próprio professor escreveu sobre a matéria ou na bibliografia que indicou. Existe um maior contato entre os professores individuais e estudantes individuais que pretendem se especializar numa determinada disciplina: este contato se estabelece, no mais das vezes, casualmente, e possui uma imensa importância para a continuidade acadêmica e para o destino das várias disciplinas. Ele se estabelece, por exemplo, graças a causas religiosas, políticas, de amizade familiar. Um estudante torna-se assíduo de um professor, que o encontra na biblioteca, convida-o para casa, aconselha-lhe livros para ler e pesquisas a tentar. Cada professor tende a formar uma "escola" própria, tem seus pontos de vista determinados (chamados de "teorias") sobre determinadas partes de sua ciência, que gostaria de ver defendidos por "seus seguidores ou discípulos". Cada professor pretende que, de sua universidade, em concorrência com as outras, saiam jovens"distinguidos"que dêem sérias"contribuições" à sua ciência. Por isso, na própria faculdade, existe concorrência entre professores de matérias afins na disputa de alguns jovens que já se tenham distinguido por causa de uma recensão, de um artiguinho ou em discussões escolares (onde elas são realizadas). Neste caso, o professor realmente guia o seu aluno; indica-lhe um tema, aconselha-o no desenvolvimento, facilita-lhe as pesquisas, mediante suas conversas assíduas acelera a formação científica dele, faz-lhe publicar os primeiros ensaios nas revistas especializadas, coloca-o em contato com outros especialistas e se apodera dele definitivamente. Este costume, salvo casos esporádicos de igrejinhas, é benéfico, pois completa a função das universidades. Deveria deixar de ser fato pessoal, iniciativa pessoal, para se tomar função orgânica: não sei até que ponto, mas parece-me que os seminários de tipo alemão representam esta função ou buscam desenvolvê-la. Em torno de certos professores, há uma disputa de pessoas que aspiram atingir mais facilmente uma cátedra universitária. Muitos jovens, pelo contrário, particularmente os que vêm dos liceus provincianos, são marginalizados tanto no ambiente social universitário quanto no ambiente de estudo. Os primeiros seis meses do curso servem para uma orientação sobre o caráter específico dos estudos universitários, e a timidez nas relações pessoais nunca deixa de existir entre professor e aluno. Nos seminários, tal coisa não se verificaria, ou pelo menos não na mesma medida. De qualquer modo, esta estrutura geral da vida universitária não cria, já na universidade, nenhuma hierarquia intelectual permanente entre professores e massa de estudantes: após a universidade, mesmo aquelas escassas ligações se relaxam e, em nosso país, inexiste qualquer estrutura cultural que se apóie sobre a universidade. Foi este um dos elementos que determinou a sorteda dupla Croce-Gentile, antes da guerra, na constituição de um grande centro de vida intelectual nacional; entre outras coisas, eles lutavam também contra a insuficiencia da vida universitária e contra a mediocridade científica e pedagógica (e mesmo moral, por vezes) dos professores oficiais".
Antônio Gramsci, Os Intelectuais e a Organização da Cultura, Pag. 146/147.
Antônio Gramsci, Os Intelectuais e a Organização da Cultura, Pag. 146/147.
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Apuds
Azar
Acho que sentimos o peso da urucubaca, quando uma situação constrangedora - daquelas que podemos passar a vida inteira sem ter de passar por - acontece duas vezes em uma única semana. E que tal quando acontece duas vezes em três dias para ser mais exato? No meu caso foram as notas falsas. Sexta-feira, fiz um saque no Banco do Brasil, fui ao passe fácil e quando pedi para a mulher colocar R$ 18, ela informou que minha nota de R$ 20 era falsa. Na verdade, ela disse que nem era falsa, disse que não podia aceitar porque estava 'arranhada demais'. Tentei argumentar, afinal tinha acabado de retirar a maldita nota de um caixa eletrônico. A mulher foi tudo, menos solícita soltando no meio da minha fala: "senhor, você está atrapalhando a fila. Próximo". Fiquei puto com aquela vontade de dar um golpe no mundo que só me acontece duas ou três vezes no ano. Daí como estava sem disposição de ir numa agência fazer a troca e armar barraco pelos transtornos, segui o conselho de uma velhinha que ouviu todo meu drama e passei a nota adiante, numa farmácia do governo, comprando um tylenol. A dica da velhinha foi providencial. Voltei ao passe fácil, pensei em ser atendido pela mesma moça, pensei em encher a fala de arrogância, fui atendido por outra, nada demais aconteceu e enchi meu cartão.
Daí hoje, morrendo de fome, por volta das 14 e tantas, fui almoçar perto de casa. Ao final da refeição, tento pagar no cartão, a máquina meio que dá pau, termino pagando com uma nota de R$ 20 e recebo no troco, além de outras notas e algumas moedas, uma nota de R$ 10. Vou direto em um posto de gasolina, peço para o cara colocar R$ 5 - hahaha - e na hora de pagar dou a nota de R$ 10 que tinha acabado de pegar. Adivinhem? Pois é, a porra da nota era falsa. Fiquei muito puto, além de obviamente constrangido, afinal o frentista ficou olhando pra minha cara como se eu fosse golpista do dia. Meio "quer café?", mas arquitetanto "vou chamar a polícia". Graças a Deus eu tinha outra nota e não estava de bigode. Voltei no restaurante pronto pra armar barraco quando, ao explicar a situação, o cara pegou a nota e quis me fazer acreditar que era verdadeira. Pior nem é o argumento, mas o fato de que se você parasse um segundo e olhasse pra nota dava pra perceber que ela era totalmente falsa. Era gritante pela qualidade tosca do papel e por como estavam lavadas as imagens. Quase uma nota do Banco Imobiliário ou do Jogo da Vida. Daí quando já ia começar a confusão, chegou o dono do estabelecimento, apaziguou geral o clima ruim, soltou piadas e um peido, verificou a nota com a maior carinha de juiz e rapidinho a trocou por outra. Com o rosto um tanto rubro, pediu perdão. Definitivamente só posso ter um mínimo apreço por senhoras espertas e com dicas na manga e por senhores dignos e de honestidade intocável. O resto é merda.
Daí hoje, morrendo de fome, por volta das 14 e tantas, fui almoçar perto de casa. Ao final da refeição, tento pagar no cartão, a máquina meio que dá pau, termino pagando com uma nota de R$ 20 e recebo no troco, além de outras notas e algumas moedas, uma nota de R$ 10. Vou direto em um posto de gasolina, peço para o cara colocar R$ 5 - hahaha - e na hora de pagar dou a nota de R$ 10 que tinha acabado de pegar. Adivinhem? Pois é, a porra da nota era falsa. Fiquei muito puto, além de obviamente constrangido, afinal o frentista ficou olhando pra minha cara como se eu fosse golpista do dia. Meio "quer café?", mas arquitetanto "vou chamar a polícia". Graças a Deus eu tinha outra nota e não estava de bigode. Voltei no restaurante pronto pra armar barraco quando, ao explicar a situação, o cara pegou a nota e quis me fazer acreditar que era verdadeira. Pior nem é o argumento, mas o fato de que se você parasse um segundo e olhasse pra nota dava pra perceber que ela era totalmente falsa. Era gritante pela qualidade tosca do papel e por como estavam lavadas as imagens. Quase uma nota do Banco Imobiliário ou do Jogo da Vida. Daí quando já ia começar a confusão, chegou o dono do estabelecimento, apaziguou geral o clima ruim, soltou piadas e um peido, verificou a nota com a maior carinha de juiz e rapidinho a trocou por outra. Com o rosto um tanto rubro, pediu perdão. Definitivamente só posso ter um mínimo apreço por senhoras espertas e com dicas na manga e por senhores dignos e de honestidade intocável. O resto é merda.
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Crônicas
sexta-feira, 20 de março de 2009
Devaneio acadêmico
Daí vocês todos estão sabendo que está rolando uma disciplina no curso de cinema, ministrada por Paulo Cunha, que se chama 'Cinema e Revolução: o caso Eisenstein'. O melhor é que, por acaso, num papel afixado na secretaria com todas as cadeiras do semestre, saiu escrito 'o caso Einstein' - e nada mais divertido que os erros de digitação na geração de trocadilhos engraçados. Como já faz tempo que não tenho mais saco para a escadaria de Odessa e olhe que já fui piradão pelos cineastas soviéticos da década de 20, fiquei pensando que se em algum hipotético dia, decidisse seguir carreira acadêmica e tivesse de ministrar uma disciplina nessa linha, provavelmente iria chamá-la de 'Cinema e Revolução: o caso George Lucas'.
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Cinema
Morbidez
Talvez eu até seja careta, mas a coisa mais absurda que vi nos últimos tempos, de me chocar e me deixar puto da vida, foi ver uma entrevista que saiu no caderno de Cidades do Jornal do Commercio (no último dia 17) com um cara de 23 anos que perdeu a esposa, um filho, o irmão e um sobrinho num acidente de automóvel. Repetindo, a esposa, um filho, o irmão e um sobrinho. Ele acompanhava, de moto, o carro onde ia a família quando o carro bateu de frente num caminhão. Agora sério mesmo, como alguém, jornalista, não-jornalista - a matéria saiu sem assinatura - tem a capacidade (leia-se cara-de-pau) de chegar para um cara desse, enquanto ele está na porra do IML esperando a liberação dos corpos, e perguntar coisas do tipo:
JC – Você viu o acidente?
JOSÉ WELLINGTON – Não. Eu ia de moto, na frente. Depois não vi mais o carro e voltei. Quando cheguei ao local o acidente já havia acontecido.
JC – O que você viu ao voltar?
JOSÉ WELLINGTON – Ainda estava todo mundo dentro do carro.
JC – E já estavam mortos?
JOSÉ WELLINGTON – Meu sobrinho ainda respirava, mas não havia como tirá-lo das ferragens. Só ele deu sinal de vida.
JC – Pelo que você soube, de quem foi a culpa?
JOSÉ WELLINGTON – Não sei informar com certeza. O caminhão pegou o lado do carro. O povo diz que o carro foi para cima do caminhão e eu não sei ao certo.
JC – Vocês pegaram a estrada a que horas?
JOSÉ WELLINGTON – Saímos da casa da minha irmã, onde tínhamos ido passar o fim de semana, às 3h40 porque tínhamos que trabalhar. O acidente aconteceu por volta das 4h30.
JC – Vocês vinham de uma festa? Seu irmão tinha bebido?
JOSÉ WELLINGTON – Meu irmão não bebia. A gente tinha ido passar o fim de semana em Jundiá (AL), onde houve carnaval fora de época. Todo ano fazíamos esse passeio.
JC – Seu irmão dirigia bem?
JOSÉ WELLINGTON – Sim, fazia tempo que ele dirigia, mas tinha comprado o Fiat há uns dois meses.
JC – Como você se sente?
JOSÉ WELLINGTON – É preciso ter muita força para superar essa perda grande. Não sei se vou conseguir.
JC – Você já pensou no seu futuro sem eles?
JOSÉ WELLINGTON – Quem sabe do meu destino é Deus. É uma situação difícil, não há como mudar, não tem como.
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Comunicação
segunda-feira, 16 de março de 2009
Travelling

Acho que as HQs de Watchmen deviam muito fazer parte da bibliografia de cursos de cinema. Essa é a primeira página da primeira revista e ao longo das doze publicações, pululam visualizações perfeitas e detalhadas dos mais distintos recursos cinematográficos. Tudo quadro a quadro. A adaptação para cinema segue estritamente algumas dessas dicas, mas, como sempre acontece, deixa muita coisa de lado. Como estou sem internet em casa, não posso me entregar completamente ao devaneio sem fim. Portanto, confiram vocês mesmos:
Revistas 01 - 04
Revistas 05 - 08
Revistas 09 -12
Revistas 01 - 04
Revistas 05 - 08
Revistas 09 -12
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Cinema
Depois do Som Barato...
Comunicado Oficial - Fim da 'Discografias'
Informamos a todos os membros da comunidade "Discografias" e relacionadas (Trilhas Sonoras de Filmes, Trilhas Sonoras de Novelas, Coletâneas (V.A.), Pedidos, Dicas/Dúvidas e Índice Geral), que encerramos as atividades devido às ameaças que estamos sofrendo da APCM e outros orgãos de defesa dos direitos autorais. Nosso trabalho foi árduo para manter as comunidades organizadas, sem auferir nenhum tipo de vantagem financeira com elas, somente com o intuito de contribuir de alguma forma para a cultura e entretenimento. Não é com o fechamento desta comunidade e outras equivalentes que as gravadoras irão aumentar seus lucros. Muitos artistas perderão seus meios de divulgação. Milhares de membros terão que procurar outras atividades no Orkut que não seja o download de músicas e afins. O número de sites e blogs de conteúdo similar, mais programas como eMule, limewire, de torrents e outros P2P, cresce em progressão geométrica. Perdem eles, perdemos todos, mas enfim, tudo em nome do dinheiro das grandes corporações. Nada em nome da cultura.
Tais entidades de defesa dos direitos autorais, como a R.I.A.A. nos Estados Unidos e APCM no Brasil, que é a representante legal de:
UNIVERSAL MUSIC DO BRASIL LTDA.;
WARNER MUSIC BRASIL LTDA.;
SONY - BMG BRASIL LTDA.;
SIGLA - SISTEMA GLOBO DE GRAVAÇÕES AUDIO VISUAIS LTDA;
EMI MUSIC LTDA.;
COLUMBIA PICTURES INDUSTRIES INC.;
DISNEY ENTERPRISES INC.;
METRO-GOLDWYN-MAYER STUDIOS INC.;
PARAMOUNT PICTURES CORPORATION;
TWENTIETH CENTURY FOX FILM CORPORATION;
UNIVERSAL CITY STUDIOS INC.;
WARNER BROS.;
UNITED ARTISTS PICTURES INC.;
UNITED ARTISTS CORPORATION;
UBV - UNIÃO BRASILEIRA DE VÍDEO E ASSOCIADAS
Sendo ainda representante de IFPI - International Federation of the Phonographic Industry e MPA - Motion Picture Association no Brasil, se dizem "sem fins lucrativos", vamos acreditar nisso, né gente? Como todos acreditam nas histórias da carochinha. Portanto, deixamos aqui os dados de contato do orgão responsável pelo fechamento das comunidades e de um de seus representantes:
APCM - ANTI-PIRATARIA CINEMA E MÚSICA
RUA HADDOCK LOBO, 585 – SÃO PAULO – SP – BRAZIL
INTERNET ANTI-PIRACY UNIT
Telefone: +55 (11) 3061-1990x244
E-mail: anti-piracy@apcm.org.br
Bruno Henrique Tarelov: btarelov@apcm.org.br
Fone:










55 11 30611990
ramal 238
Fax: 55 11 30611221
Agradecemos a todos que de um jeito ou de outro, colaboraram para que nossas comunidades fossem tão populares. Valeu, gente!
A Moderação
Tais entidades de defesa dos direitos autorais, como a R.I.A.A. nos Estados Unidos e APCM no Brasil, que é a representante legal de:
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PARAMOUNT PICTURES CORPORATION;
TWENTIETH CENTURY FOX FILM CORPORATION;
UNIVERSAL CITY STUDIOS INC.;
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UNITED ARTISTS CORPORATION;
UBV - UNIÃO BRASILEIRA DE VÍDEO E ASSOCIADAS
Sendo ainda representante de IFPI - International Federation of the Phonographic Industry e MPA - Motion Picture Association no Brasil, se dizem "sem fins lucrativos", vamos acreditar nisso, né gente? Como todos acreditam nas histórias da carochinha. Portanto, deixamos aqui os dados de contato do orgão responsável pelo fechamento das comunidades e de um de seus representantes:
APCM - ANTI-PIRATARIA CINEMA E MÚSICA
RUA HADDOCK LOBO, 585 – SÃO PAULO – SP – BRAZIL
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Telefone: +55 (11) 3061-1990x244
E-mail: anti-piracy@apcm.org.br
Bruno Henrique Tarelov: btarelov@apcm.org.br
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Fax: 55 11 30611221
Agradecemos a todos que de um jeito ou de outro, colaboraram para que nossas comunidades fossem tão populares. Valeu, gente!
A Moderação
Ps.: A APCM só perseguia nossas comunidades, e assim, os links postados pelos nossos membros estavam sendo rapidamente denunciados e excluídos, pois eles querem aparecer e só deletam de onde está mais fácil e tem maior visibilidade na mídia. O pessoal que baixava de nossas comunidades vai poder continuar a procurar os links no lugar de maior acervo: O Google.
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quinta-feira, 12 de março de 2009
y
"Rodrigo,
Lembra quando perguntaste sobre chorar pelo mundo inteiro e depois querer sumir? Quando olhaste pra mim naquele dia e fizeste essa pergunta, eu senti como se ouvisse meu eco. Não imaginas como me abraçaste sem braços ao dizer tais coisas, e depois afirmaste, com uma cara bem plácida, que sabias que eu entenderia. Eu me sinto em casa quando estou contigo. Posso falar coisas que eu não falaria pra quase ninguém, pois sei que ririam de mim. Pra ti eu falo de pássaros e vida e choro e solidão. E quando brigas comigo, ou me provocas ou falas como quem não quer ser carinhoso eu sei, de diversas formas, que é tudo um afago às avessas. Eu sei que a gente se ama e se entende tanto que chega a me assustar. Acho lindo quando esqueces que estás aqui e falas dos teus filhos e dos teus quarenta anos, ou quando dizes que enxergas a vida nas poesias da aula de fotografia. Queria te achar sempre que eu olhasse pro lado. E queria que meu filho Antônio fosse amigo do teu filho Ícaro, e que a gente comesse macarronada um na casa do outro alternando os domingos. Queria te ver muito feliz e escrevendo pra sempre coisas bonitas. Meu amigo, tu és o mais sensível de todos".
ai grega, que saudade. =~~
ai grega, que saudade. =~~
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Correspondências
quarta-feira, 11 de março de 2009
Atchim
Algumas lembranças surgem de maneira muito incontrolável. Vejamos só: estou na biblioteca fazendo fichamento de um livro, quando alguém em algum lugar distante espirra. Antes dez outros já tinham espirrado, tossido, mas desta vez eu penso na hora: "meu deus, esse era o espirro do meu pai".
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Cotidiano
"Máquina de lavar fez mais pela mulher do que pílula, diz Igreja"
errr... essa conclusão saiu num artigo, escrito por uma mulher, num dos Jornais do Vaticano, L'Osservatore Romano, por ocasião do Dia Internacional da Mulher. O título do artigo era: "A Máquina de lavar e a liberação das mulheres - ponha detergente, feche a tampa e relaxe"
Eu achei genial: isso que é piada cristã de verdade.
Eu achei genial: isso que é piada cristã de verdade.
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Comunicação
domingo, 1 de março de 2009
Frost / Nixon

Ron Howard é um daqueles cineastas que, como acontece diante de algumas pessoas, gostaríamos de passar longe e de olhos vendados, ou melhor, gostaríamos até de conhecer a título de curiosidade, mas depois de conhecido, gostaríamos também de ser agraciados com a condição de desconhecer. Só que também como acontece com as pessoas, essa situação habita apenas a imaginação sem saída, e especialmente no caso do diretor, nos sentimos cercados, afinal, nem é preciso abrir a porta de casa para nos darmos conta que Apollo 13 (1995), Uma Mente Brilhante (2001) e o hors concurs O Código da Vinci (2006) já estão fazendo a festa na sala de estar. Bons tempos infantis onde só conhecíamos Cocoon (1985). Também não quero sair explicando a péssima conexão entre exagero dramático e ação de quinta que só o cineasta americano consegue montar, mas sim, assumir uma puta contradição: assisti recentemente Frost / Nixon (2008), que milagrosamente apareceu no meu computador, e levei um baita susto. Primeiro por não dormir. Segundo por terminar o filme tendo certeza que aquelas não foram as duas horas mais entediantes da minha semana. Ok, estou sendo chato, mas é Ron Howard. Ele merece. Mas, de fato, tenho de admitir que fiquei bastante intrigado com a escolha - ou acaso - de estereotipar ao extremo os personagens secundários, que formam uma espécie de esquadrão do entrevistador e esquadrão do entrevistado, colocando em lados distintos o ex-combatente do Vietnã devotado pelo Nixon e o acadêmico nerd-quase-google a serviço de Frost. Bem caricato, simples e Ron Howard mesmo. Só que aí vem a surpresa, pois ao invés de fazer o mesmo com os personagens principais - algo que seria o esperado -, o diretor ou roteirista terminou por inseri-los num complexo espiral ambivalente: Nixon é um reaça filho da puta e contraditoriamente um gentleman educado e inteligente; Frost é um gentleman inteligente e midiático e um alienado por escolha própria. Isso apenas como panorama primeiro, pois os personagens vão mostrando diferentes faces no decorrer da narrativa, fazendo das peças secundárias, extremos metafóricos de quem eles próprios, em situações-limite, são e não são. Parece-me uma solução esperta na construção das personagens, apesar de que os depoimentos diretos para a câmera sejam patéticos. Melhor esquecer. Sim, obviamente me identifiquei bastante com o Frost, não pela cara de pau na hora da paquera ou pelo riso cínico ou pelo desleixo com o trabalho, mas por se interessar em fazer uma entrevista com o político mais importante do momento, quando ele, enquanto jornalista, não passava de um apresentador de auditório cercado de amenidades. Acho que há uma alfinetada na posição política rígida que muitas vezes vem associada ao velho pragmatismo de separar baixa e alta cultura e que se auto distingue como A posição política possível. Aos mais interessados, recomendo assistir a entrevista original: não só pelo conteúdo que nos leva numa relação entre registro histórico e discurso audiovisual, mas para especialmente confirmar como as atuações do Frank Langella e do Michael Sheen estão monstruosamente similares. Não que isso seja, a priori, bom ou ruim, mas querendo ou não, chama-nos a atenção. Pensando melhor, talvez tenha mesmo que dar uma chance as supostas pessoas que eu desejaria desconhecer, afinal se, enquanto cineasta desconhecível, o Ron Howard consegui me entreter e levantar questionamentos, talvez as pessoas também consigam ultrapassar a imagem que congelei sobre elas. Se bem que o maldito americano vai lançar Anjos e Demônios. Pois é, esqueçam o que eu disse.
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Cinema
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Epocler
Para o Quanta Ladeira virar um Recifolia falta uma polegada.
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Cotidiano
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
O gato por dentro
Todo dia que chego em casa morto de cansado, tiro meu sapato ou sandália na sala e vejo minha gata se aproximar para cheirá-los. Isso já faz parte de minha irrelevante rotina e é nesse momento que tenho meu meio minuto de reflexão sobre o que fiz do dia, pois fico imaginando aquela mente felina recriando cada um dos lugares por onde passei.
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It's Getting Worse All The Time
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sábado, 31 de janeiro de 2009
A Scena Muda / Cinearte
Cumprindo meu papel sócio-cultural no mundo e minha boa ação do dia, queria lembrar aos queridos, queridas e querid@s que todas as edições das revistas A Scena Muda (1921 - 1955) e Cinearte (1926 - 1942) estão disponíveis integralmente na internet. É só clicar nas imagens abaixo. Concordo com o que tem escrito na própria apresentação do projeto, pensei até em copiar linha por linha, afinal ambas publicações se mostram realmente essenciais, enquanto documentos históricos, para qualquer pesquisa que necessite - seja pelo figurino, pela crítica, pelos filmes ou mesmo pela publicidade - remontar uma memória cinematográfica brasileira da primeira metade do século. Naturalmente tendem ao Rio de janeiro, mas como são, ao menos livremente disponíveis, os únicos registros de imprensa especializada da época, temos de nos contentar. Se bem que o processo de digitalização em si, iniciativa da Biblioteca Jenny Klabin Segall, me parece um ótimo exemplo a ser seguido por arquivos públicos e privados que assistem seus documentos deteriorarem ano após ano. Nessa linha dava até para criar um slogan bem militante brega do tipo: 'digitaliz@r é preserv@r, digitalize você também'. Daí colocava um nerd sorrindo e fazendo um 'legal' com a mão. Ta bom, parei.
Ai ai, eu fico me ironizando, porque às vezes tenho medo de acordar sem o deboche e virar um cibermarxista acadêmico chatão. Espero que só aconteça depois dos trinta.
Ai ai, eu fico me ironizando, porque às vezes tenho medo de acordar sem o deboche e virar um cibermarxista acadêmico chatão. Espero que só aconteça depois dos trinta.
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Buscas
É divertido descobrir as buscas que resultaram no seu blog, mas acho muito estranho que o terceiro resultado da busca "corinthians lógica cagar" seja o Velhos Hábitos. Fico muito me perguntando o que essa pessoa queria achar independentemente de onde ela foi parar. Pior que "uma granada explode em quantos segundos" e "primeiro suicídio filosófico" dá até para termos uma ideia do que a pessoa estava procurando, só não dá para ter ideia do porquê de meu blog ser o primeiro resultado em ambas as pesquisas. "Assassinatos ao vivo", sou o sexto, "zoofilia na década de 20", o sétimo e acho melhor parar por aqui, que isso já está ficando bizarro demais. No final das contas, fico meio pensando nos leitores esporádicos que tenho: futebolistas escatológicos, galera barra pesada do PCC, estudantes de filosofia pré-cfch e admiradores de snuff movies.
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
E Deus Criou a Mulher (França, 1956), de Roger Vadim

"Não tenho certeza de quando Brigitte e Jean-Louis fizeram amor pela primeira vez. Mas percebi que já tinham se tornado amantes quando estávamos rodando uma das cenas principais.
Na história, Juliette está fisicamente atraída por um dos três irmãos, o mais velho, Antoine. O papel era interpretado por Christian Marquand. No entanto, ela se casa com Michel, o irmão do meio, para evitar uma volta ao orfanato. No momento em que descobre as profundas qualidades de seu marido, passa a amá-lo. Antoine retorna para viver com eles. Juliette se dilacera entre o desejo de felicidade e harmonia com o marido e a atração visceral por Antoine. Não quer ser levada pela paixão física por Antoine, mas sabe que acabará cedendo. Certa noite, Michel desperta e percebe que sua mulher não está no quarto. Encontra-a na praia, perto da casa. Eis um trecho da cena:
Nunca Brigitte, a atriz, tinha sido tão profundamente honesta e desesperada. Ela era realmente Juliette, que queria amar o marido e salvar seu casamento, sabendo que jamais conseguiria fazer isso. Era também Brigitte, ainda apegada ao marido e apavorada pela idéia de abandoná-lo, por um homem que acabara de conhecer, e ao qual não podia resistir. Era como um mundo de espelhos, com uma sutileza pirandelliana. Jean-Louis Trintignant, seu marido no filme, passou a representar seu marido na vida real. Quando disse para a câmera que estava com medo, Brigitte-Juliette estava, na verdade, falando comigo.
Já em nosso quarto, no Hotel Negresco, após a filmagem, perguntei a ela:
- Ele é seu amante, não é?
- Sim.
- Você o ama?
- Estou com medo.
Antes de dormir, ela murmurrou:
- É difícil ser feliz
Até hoje não sei ao certo se ela repetiu deliberadamente a fala do filme ou se estava dizendo o que sentia".
'Bardot, Deneuve, Fonda - As Memórias de Roger Vadim',
págs. 89/90/91'
Concordo plenamente com o que tem escrito na dedicatória que recebi: 'teoria do cinema o cacete. Bom mesmo é fofoca'. Acho que teria me entediado bastante se tivesse assistido 'E Deus criou a Mulher' sem ler o livro de memórias do diretor, sem saber todos os bastidores emocionais / sociais (Brigitte largando ele para ficar com o protagonista, as chantagens, bebedeiras, os encontros...), e produtivos / técnicos (tiveram de inserir um ator famoso, Curd Jurgens, para conseguir filmar em Cinemascope, problemas, filme de estréia, falta de dinheiro...). Fiquei tão na fissura por cada detalhe que era só preciso uma lampejo de cena de dois segundos da Brigitte brincando com um cocker spaniel preto para eu ficar louco me perguntando: será Clown? (o cachorro que ambos consideravam como o único filho da relação). Não se trata do filme não despertar interesse sozinho, pelo contrário, a sensualidade da Bardot tem sim o teor provocativo que a imortalizou (vide, O desprezo como exploração disso), só que aqui, em 1956, a sensualidade termina caindo um pouco na lógica de 'ser provocativa para sua época', o que gera um certo incômodo em mim. O quase fervor de um corpo não é o suficiente se não há o fervor da mise en scène. De fato, uma boca não faz um filme, mas ainda assim, pensando bem, acho que o jogo de esconder mais e mostrar menos, dando a impressão de estar mostrando mais do que realmente está é, nessa obra, de um requinte imenso.
Inclusive, se formos levar em conta que esse filme por muito, mas muito pouco não foi censurado, no julgamento foram 4 votos a favor da liberação e 3 contra, só posso ter certeza que os censores viram muito mais do que estava sendo projetado na tela: e concordo que em algumas cenas, a presença ou ausência de roupas não faz muita diferença aos seios da Brigitte Bardot. A estréia chegou a ser cancelada na hora, quando os convidados, tipo a Audrey Hepburn, já subiam as escadas do cinema e se perguntavam em meio à baderna: "O que está acontecendo? Uma revolução?". Achei desproporcional o barulho sobre a obra depois de vê-la, talvez seja até exagero de lembrança, mas as memórias são do Roger Vadim e ele faz das memórias o quiser. Talvez esse receio diante da moralidade diegética tenha a ver com a dificuldade que possuo em me interessar por boa parte da produção cinematográfica francesa da década de 50, por eu ter nas costas uma longa bagagem afetiva interligada à Nouvelle Vague: só para compararmos diretamente, tenho de dizer que a nudez em O Desprezo é anos-luz mais provocativa. Tudo antes parece meio velho, comportado e empoeirado demais. Existem exceções, óbvio. De qualquer forma, reconheço vários momentos na produção do Vadim, assim como o fez Truffaut, que na época escreveu uma crítica super positiva, colocando a obra como essencial para uma abertura de horizontes. Talvez tivesse razão. Tudo bem que prefiro mil vezes as revelações do livro, mas essa cena me parece genial:
Na história, Juliette está fisicamente atraída por um dos três irmãos, o mais velho, Antoine. O papel era interpretado por Christian Marquand. No entanto, ela se casa com Michel, o irmão do meio, para evitar uma volta ao orfanato. No momento em que descobre as profundas qualidades de seu marido, passa a amá-lo. Antoine retorna para viver com eles. Juliette se dilacera entre o desejo de felicidade e harmonia com o marido e a atração visceral por Antoine. Não quer ser levada pela paixão física por Antoine, mas sabe que acabará cedendo. Certa noite, Michel desperta e percebe que sua mulher não está no quarto. Encontra-a na praia, perto da casa. Eis um trecho da cena:
MICHEL: Você não está feliz?
(Juliette sorri tristemente. Michel acaricia seu rosto. De repente ela agarra a camisa dele, com o rosto cheio de angústia)
JULIETTE: Você deve me amar um bocado.
MICHEL: Sou louco por você.
(Close-up de Juliette)
JULIETTE: Então diga. Diga que me ama, que sou sua, que você precisa de mim. Beije-me, Michel. Beije-me!
(Michel está impressionado com a intensidade trágica da voz dela)
JULIETTE: Estou com medo.
MICHEL: De que, meu bem?
(Juliette não responde. Vai deslizando para a areia com extraordinária suavidade. Seu corpo é fluido como água. Seu rosto e o canto da boca tocam a areia).
JULIETTE: (doce e quase tranquila) É difícil ser feliz.
(Juliette sorri tristemente. Michel acaricia seu rosto. De repente ela agarra a camisa dele, com o rosto cheio de angústia)
JULIETTE: Você deve me amar um bocado.
MICHEL: Sou louco por você.
(Close-up de Juliette)
JULIETTE: Então diga. Diga que me ama, que sou sua, que você precisa de mim. Beije-me, Michel. Beije-me!
(Michel está impressionado com a intensidade trágica da voz dela)
JULIETTE: Estou com medo.
MICHEL: De que, meu bem?
(Juliette não responde. Vai deslizando para a areia com extraordinária suavidade. Seu corpo é fluido como água. Seu rosto e o canto da boca tocam a areia).
JULIETTE: (doce e quase tranquila) É difícil ser feliz.
Nunca Brigitte, a atriz, tinha sido tão profundamente honesta e desesperada. Ela era realmente Juliette, que queria amar o marido e salvar seu casamento, sabendo que jamais conseguiria fazer isso. Era também Brigitte, ainda apegada ao marido e apavorada pela idéia de abandoná-lo, por um homem que acabara de conhecer, e ao qual não podia resistir. Era como um mundo de espelhos, com uma sutileza pirandelliana. Jean-Louis Trintignant, seu marido no filme, passou a representar seu marido na vida real. Quando disse para a câmera que estava com medo, Brigitte-Juliette estava, na verdade, falando comigo.
Já em nosso quarto, no Hotel Negresco, após a filmagem, perguntei a ela:
- Ele é seu amante, não é?
- Sim.
- Você o ama?
- Estou com medo.
Antes de dormir, ela murmurrou:
- É difícil ser feliz
Até hoje não sei ao certo se ela repetiu deliberadamente a fala do filme ou se estava dizendo o que sentia".
'Bardot, Deneuve, Fonda - As Memórias de Roger Vadim',
págs. 89/90/91'
Concordo plenamente com o que tem escrito na dedicatória que recebi: 'teoria do cinema o cacete. Bom mesmo é fofoca'. Acho que teria me entediado bastante se tivesse assistido 'E Deus criou a Mulher' sem ler o livro de memórias do diretor, sem saber todos os bastidores emocionais / sociais (Brigitte largando ele para ficar com o protagonista, as chantagens, bebedeiras, os encontros...), e produtivos / técnicos (tiveram de inserir um ator famoso, Curd Jurgens, para conseguir filmar em Cinemascope, problemas, filme de estréia, falta de dinheiro...). Fiquei tão na fissura por cada detalhe que era só preciso uma lampejo de cena de dois segundos da Brigitte brincando com um cocker spaniel preto para eu ficar louco me perguntando: será Clown? (o cachorro que ambos consideravam como o único filho da relação). Não se trata do filme não despertar interesse sozinho, pelo contrário, a sensualidade da Bardot tem sim o teor provocativo que a imortalizou (vide, O desprezo como exploração disso), só que aqui, em 1956, a sensualidade termina caindo um pouco na lógica de 'ser provocativa para sua época', o que gera um certo incômodo em mim. O quase fervor de um corpo não é o suficiente se não há o fervor da mise en scène. De fato, uma boca não faz um filme, mas ainda assim, pensando bem, acho que o jogo de esconder mais e mostrar menos, dando a impressão de estar mostrando mais do que realmente está é, nessa obra, de um requinte imenso.
Inclusive, se formos levar em conta que esse filme por muito, mas muito pouco não foi censurado, no julgamento foram 4 votos a favor da liberação e 3 contra, só posso ter certeza que os censores viram muito mais do que estava sendo projetado na tela: e concordo que em algumas cenas, a presença ou ausência de roupas não faz muita diferença aos seios da Brigitte Bardot. A estréia chegou a ser cancelada na hora, quando os convidados, tipo a Audrey Hepburn, já subiam as escadas do cinema e se perguntavam em meio à baderna: "O que está acontecendo? Uma revolução?". Achei desproporcional o barulho sobre a obra depois de vê-la, talvez seja até exagero de lembrança, mas as memórias são do Roger Vadim e ele faz das memórias o quiser. Talvez esse receio diante da moralidade diegética tenha a ver com a dificuldade que possuo em me interessar por boa parte da produção cinematográfica francesa da década de 50, por eu ter nas costas uma longa bagagem afetiva interligada à Nouvelle Vague: só para compararmos diretamente, tenho de dizer que a nudez em O Desprezo é anos-luz mais provocativa. Tudo antes parece meio velho, comportado e empoeirado demais. Existem exceções, óbvio. De qualquer forma, reconheço vários momentos na produção do Vadim, assim como o fez Truffaut, que na época escreveu uma crítica super positiva, colocando a obra como essencial para uma abertura de horizontes. Talvez tivesse razão. Tudo bem que prefiro mil vezes as revelações do livro, mas essa cena me parece genial:
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Cinema
Definição
Ser loser é sair de casa apressado, roer a unha no caminho e quebrar o dente da frente.
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Cotidiano
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Ostras e Caracóis
Nunca tive um interesse natural por grandes épicos, os assistia meio pensando 'tenho de assistir mesmo, então vamos lá, melhor que seja logo', terminava adiando, adiando, de forma que criei um grande vácuo desse gênero no meu repertório. Estava sempre me esquivando, em especial pela longa duração de cada um deles: terminava correndo para a ficção científica ou para os filmes B de fantasia (o que inclui Simbad, Hércules, Xena e todos aqueles filmes mitológicos com efeitos especiais toscos que eu adoro). De qualquer forma, assisti alguns épicos. Ben-Hur (EUA, 1959, 212 min), de William Wyler e El Cid (EUA, 1961, 182 min), de Anthony Mann, eu já tinha visto quando garoto, meio que obrigado pela minha mãe que adora e adorava os grandes épicos e filmes religiosos - e, me desculpem, mas nem vou tentar psicanalisar essa oposição entre os nossos gostos. Re-assisti ambos há uns dois anos e ok, não mudaram minha vida nem para melhor, nem para pior. Tudo na mesma.
Enfim, só queria dizer que essa semana tive a disposição para Spartacus (EUA, 1960, 187 min), que eu pensava 'olha só onde você vai se meter, antes de ser um filme de Stanley Kubrick, é um épico'. Tinha receio de manchar uma carreira que me parece irretocável. Arrisquei e acho que se trata do contrário: antes de um épico, é um Stanley Kubrick. Que o diga a cena dos mortos no campo de batalha e a dos crucificados ao longo de toda uma estrada. Mas teve algo em particular que me chocou: o típico subtexto homossexual desses filmes, tinha nessa obra, por meio do roteiro do Dalton Trumbo, se tornado menos sub e mais, muito mais explícito. O filme é muito gay e não acredito que isso passe desapercebido aos pais de família brancos héteros que tomam essa produção como uma das maravilhas da sétima arte. Na linha eu sou Spartacus, quando todos gritam. Nos outros dois também existe o tom, mas é tão sutil que pode se passar por fraternidade, brotherhood, não desejo. Só para provar que Spartacus é mais explícito, olha só esse diálogo entre o Laurence Olivier (Crassus, despido) e seu servo Tony Curtis (Antoninus, semi nu), enquanto o segundo esfrega as costas do primeiro numa banheira:
Marcus Licinius Crassus:
Do you eat oysters?
Antoninus:
When I have them, master.
Marcus Licinius Crassus:
Do you eat snails?
Antoninus:
No, master.
Marcus Licinius Crassus:
Do you consider the eating of oysters to be moral and the eating of snails to be immoral?
Antoninus:
No, master.
Marcus Licinius Crassus:
Of course not. It is all a matter of taste, isn't it?
Antoninus:
Yes, master.
Marcus Licinius Crassus:
And taste is not the same as appetite, and therefore not a question of morals.
Antoninus:
It could be argued so, master.
Marcus Licinius Crassus:
My robe, Antoninus. My taste includes both snails and oysters.
Isso é porque eu não descrevi a troca de olhares, melhor assistir. Como pode aquele filme podre Alexandre causar tanta polêmica quando quarenta anos antes já existia Spartacus no mainstream? Às vezes eu acho que a permanência de certos choques é uma pura falta de memória. Já era para o povo está chocado há muito tempo. Fireworks. Fireworks.
Enfim, só queria dizer que essa semana tive a disposição para Spartacus (EUA, 1960, 187 min), que eu pensava 'olha só onde você vai se meter, antes de ser um filme de Stanley Kubrick, é um épico'. Tinha receio de manchar uma carreira que me parece irretocável. Arrisquei e acho que se trata do contrário: antes de um épico, é um Stanley Kubrick. Que o diga a cena dos mortos no campo de batalha e a dos crucificados ao longo de toda uma estrada. Mas teve algo em particular que me chocou: o típico subtexto homossexual desses filmes, tinha nessa obra, por meio do roteiro do Dalton Trumbo, se tornado menos sub e mais, muito mais explícito. O filme é muito gay e não acredito que isso passe desapercebido aos pais de família brancos héteros que tomam essa produção como uma das maravilhas da sétima arte. Na linha eu sou Spartacus, quando todos gritam. Nos outros dois também existe o tom, mas é tão sutil que pode se passar por fraternidade, brotherhood, não desejo. Só para provar que Spartacus é mais explícito, olha só esse diálogo entre o Laurence Olivier (Crassus, despido) e seu servo Tony Curtis (Antoninus, semi nu), enquanto o segundo esfrega as costas do primeiro numa banheira:
Marcus Licinius Crassus:
Do you eat oysters?
Antoninus:
When I have them, master.
Marcus Licinius Crassus:
Do you eat snails?
Antoninus:
No, master.
Marcus Licinius Crassus:
Do you consider the eating of oysters to be moral and the eating of snails to be immoral?
Antoninus:
No, master.
Marcus Licinius Crassus:
Of course not. It is all a matter of taste, isn't it?
Antoninus:
Yes, master.
Marcus Licinius Crassus:
And taste is not the same as appetite, and therefore not a question of morals.
Antoninus:
It could be argued so, master.
Marcus Licinius Crassus:
My robe, Antoninus. My taste includes both snails and oysters.
Isso é porque eu não descrevi a troca de olhares, melhor assistir. Como pode aquele filme podre Alexandre causar tanta polêmica quando quarenta anos antes já existia Spartacus no mainstream? Às vezes eu acho que a permanência de certos choques é uma pura falta de memória. Já era para o povo está chocado há muito tempo. Fireworks. Fireworks.
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Cinema
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
¬¬
Sorte de hoje: A pessoa que lê sua sorte não está se sentindo bem. Esperamos que você esteja.
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Cotidiano
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Blá Blá Blá
Eu ia cometer a gafe de começar esse post perguntando se alguém mais achava que o Roberto Farias tinha o espírito de A Primeira Página (EUA, 1974), do Billy Wilder na cabeça, quando fez Toda Donzela tem um Pai que é uma Fera (Brasil, 1966). Só depois descobri que o segundo tinha sido feito antes do primeiro. Ficou confuso, mas acho que vocês entenderam o que quis dizer: por ter assistido o wilder antes do farias desloquei as produções de suas próprias cronologias para inserí-lasúnic e exclusivamente na minha cronologia. De qualquer forma, eu sei que é bem arbitrário fazer esse tipo de afirmação direta entre obras, sempre gera equívocos, afinal é muito mais uma relação fruto de nossas próprias cabeças e backgrounds que um minucioso plano dos diretores em questão. Não sempre, óbvio, mas aqui é assumidamente, então quero continuar aloprando em paz. De fato, além do nonsense das datas e países, tenho de admitir que as histórias nem são parecidas, longe disso até, mas acredito que a forma de capturar o riso e estruturar a comédia - e fazê-la funcionar muitíssimo bem - seja bastante semelhante. É uma fórmula bem conhecida e já banalizada como quase tudo nesse mundo: cria-se um clima de tensão, por um personagem estar escondendo 'alguma coisa' de um outro personagem; nós, espectadores, sabemos o que é essa 'alguma coisa', sabemos que se for descoberta antes da hora será uma tragédia e tudo passa a girar em torno das situações mais inusitadas para que a 'alguma coisa' permaneça secreta. Em ambos os casos, a tal coisa são pessoas: no nacional, a donzela sendo escondida do pai militar pelo amante e pelo amigo libertino no apartamento do libertino; no americano, um suposto criminoso comunista sendo escondido da polícia e dos outros jornalistas, numa sala de imprensa coletiva, pelo editor e jornalista de um mesmo jornal. É uma fórmula batida, convenhamos, mas acho que ainda funciona: senti a leveza que toda boa comédia deve nos causar. No clima sou cult de nascença, engajados por todos os lados, cinema novo, estética da fome e tudo mais que imaginamos que era o meio da década de 60, o que eu ia querer assistir para relaxar um pouco era uma comédia divertida, alienada e acéfala como essa. Se brincar não tão acéfala: comunistas inocentes e militares retrógrados não me parecem uma caricatura inocente. Talvez só não levante bandeira. Mas pra compensar, no ano seguinte teríamos Terra em Transe, daí poderíamos voltar a pensar e nos fazer de conscientes e politizados. Às vezes fico achando que, mesmo com todo meu respeito, os filmes e escritos do Glauber Rocha eram muito sérios e que o maior ensinamento do Cinema Marginal foi o de que um pouco de humor, insanidade e cultura de massa no discurso e na técnica não fazia mal algum. Não fez. Acho que Godard já sabia disso. Bang Bang.
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Cinema
domingo, 25 de janeiro de 2009
Κώστας Γαβράς
Quem escrever, falar, sussurrar Costa-Gavras mais uma vez colocando o 'r' no lugar errado, Costa-Gravas, é a mulher do padre. É que esse erro é trauma de adolescência: desde os treze anos brinco de corrigir. Minha paciência que já não era muito o meu forte meio que acabou.
Só espero que a Graça Araújo se confunda. Ela pode. Sobe som. Palmas. Flashs. Alunos da Maurício de Nassau.
Só espero que a Graça Araújo se confunda. Ela pode. Sobe som. Palmas. Flashs. Alunos da Maurício de Nassau.
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Cinema Pernambucano
Rogelio
Esta é uma anti-recomendação: eu assisti recentemente um curta do Guillermo Arriaga, chamado Rogelio, e achei tão podre de ruim, tão podre de ruim, que fiquei sem saco e sem palavras pra me justificar, pois só conseguia pensar que se brincasse, caso fosse inscrito no Festival de Vídeo do Recife, o curta não ganharia nada. Talvez nem seria selecionado. Melhor mesmo era que não existisse: e antes de voltar pro meu artigo-destruidor-de-vidas-e-emoções, tenho de dizer que não tem um só morto que mereça a dedicatória. Poesia de boteco da pior espécie.
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Cinema
sábado, 24 de janeiro de 2009
Nylon Smile / Hunter
Eu seria uma pessoa na fossa tão mais feliz se visse isso ao vivo, sendo bem esperançoso imagino no Coquetel Molotov, mas acho que pelo andar da carruagem - e como adoro essa expressão - está mais fácil rolar 'beijinho doce'. Numa opção ou na outra, estaria na primeira fila cantando juntinho.
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Música
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Matou a Família e foi ao Cinema
Morou com Rodrigo e terminou na terapia.
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Cotidiano
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Fim?

Diferentemente da Elizabeth Taylor, eu sei a hora de parar, apesar de saber que malandro não pára, malandro dá um tempo.
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Cotidiano
sábado, 10 de janeiro de 2009
Atenção
Fazer mestrado sem bolsa é uma furada.
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Comunicação
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Filmes de 2009
Depois de várias listas dos melhores do ano passado, Paranoid Park pra cá, Paranoid Park pra lá, uma lista simplesmente em ordem cronológica do que andei assistindo desde o reveillon:
Nannok do Norte (EUA, 1922), de Robert Flaherty.
Assisti no primeiro dia do ano, no notebook, na praia e agora entendo - e acho até que faz todo o sentido - que esse seja um filme mais lido que visto e não por ser supostamente raro ou chato, nem por ser mudo, da década de 20 ou retratar a 'divertida' vidinha dos esquimós, mas - e levando em em conta que se trata da obra canonizada como inventora do documentário enquanto gênero cinematográfico - por ser relevante sabermos que a versão final foi re-encenada e gravada após o diretor perder, num incêndio causado por seu cigarro, todo um material de registro 'documental' que havia feito ao longo de sete anos no norte do Canadá. Daí o Flaherty ficcionalizou geral em sua segunda tentativa, criando personagens, concatenando as cenas a partir de suas lembranças e chegando a pedir aos esquimós, para passar uma impressão rústica da comunidade, que eles fossem gravados caçando com lanças, mesmo que o uso de armas de fogo fosse comum. Saber que o documentário se instituiu assim, em meio a tanta mentira, me alegra bastante.
Assisti no primeiro dia do ano, no notebook, na praia e agora entendo - e acho até que faz todo o sentido - que esse seja um filme mais lido que visto e não por ser supostamente raro ou chato, nem por ser mudo, da década de 20 ou retratar a 'divertida' vidinha dos esquimós, mas - e levando em em conta que se trata da obra canonizada como inventora do documentário enquanto gênero cinematográfico - por ser relevante sabermos que a versão final foi re-encenada e gravada após o diretor perder, num incêndio causado por seu cigarro, todo um material de registro 'documental' que havia feito ao longo de sete anos no norte do Canadá. Daí o Flaherty ficcionalizou geral em sua segunda tentativa, criando personagens, concatenando as cenas a partir de suas lembranças e chegando a pedir aos esquimós, para passar uma impressão rústica da comunidade, que eles fossem gravados caçando com lanças, mesmo que o uso de armas de fogo fosse comum. Saber que o documentário se instituiu assim, em meio a tanta mentira, me alegra bastante.
Eu, um Negro (França, 1958), de Jean Rouch (02/01/09)
Crônica de um Verão - Paris, 1960 (França, 1961), de Edgar Morin e Jean Rouch (02/02/09)
Jaguar (França, 1967), de Jean Rouch (03/01/09)
Brokeback Mountain (EUA, 2005), de Ang Lee
Revisto na TV, na Globo, dublado e se eu tinha detestado quando vi no cinema, desta vez me diverti um bocado pensando nas donas de casa do meu Brasil que estavam se identificando com a Jen do Dawson's Creek, chocadas com os moderados beijos dos cowboys e morrendo de medo de seus machos machões serem as bibas enrustidas da repartição. Tudo isso nos quarenta minutos que me mantive acordado, porque, me desculpe vocês, mas não tive saco de assistir de novo até o fim. De qualquer forma, para mim, a inteligibilidade boba e melodramática do roteiro - que se torna apaticamente diferente só por se tratar de uma história gay - funciona muito mais na televisão, com o alcance da televisão e diante de um público amplo e pudico, que no cinema, sempre restrito e refém de um público direcionado. Pode ser preconceito barato de uma mídia sobre a outra. Que seja.
Close-up (Irã, 1990), de Abbas Kiarostami
O Tesouro de Sierra Madre (EUA, 1948), de John Huston
A Grande Família - o Filme (Brasil, 2007), de Maurício Farias
Cleópatra (Brasil, 2007), de Júlio Bressane
Comecei até a escrever algumas palavras, mas agora agora estou procurando emprego para não terminar na rua. Vou atualizando aos poucos até cansar.
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Cinema
domingo, 4 de janeiro de 2009
Quatro Filhotes
Eu disse que minha gata pariu?
Pois é, agora estou achando que ela vai virar uma baranga, afinal a barriga dela já virou um puta saco de bompreço.
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Cotidiano
Estudando a Bossa + The Odd Couple
Não saco nada de música, nadinha, só escuto e ponto, mas na minha santa ignorância acho que esqueceram de colocar os discos do Tom Zé e do Gnarls Barkley na lista dos melhores de 2008. Portishead na veia.
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Música
sábado, 3 de janeiro de 2009
Digressão de um ensaio em processo
Há alguns anos, quando estava no momento limite de tornar o cinema não apenas um belo entretenimento de cada dia, mas um objeto primeiro de interesse e pesquisa, costumava colocar o documentário como um gênero menor. Admito o senso comum dessa premissa, mas também admito a importância de considerarmos a vivência do senso comum como auxílio em seu próprio entendimento. Portanto, ao invés de simplesmente descartá-lo como nos sugere a academia, seria mais fecundo entender e se deixar envolver por sua lógica: como um bom adolescente cinéfilo, tinha me dado conta que boa parte de minhas limitadas referências até então – de fato, não conhecia Vertov, Rouch e pouco sabia de Coutinho, mas freqüentava anualmente o CINE-PE – se apegavam a algumas regrinhas estruturais básicas, que tendiam a esvaziar a forma num intuito ingênuo de preservar o conteúdo, minimizando os recursos cinematográficos por uma mera busca didática. Basta pegar a programação do Festival de Vídeo do Recife em todas as suas edições ou o catálogo da Massangana Multimídia Produções para perceber que exemplos não faltam. É impossível não perceber o menosprezo pela inteligência mínima do espectador contemporâneo, criado numa ode à desconstrução, quando nos vemos diante de apropriações narrativas que de tão lineares e corretas me parecem anacrônicas. E não se enganem, também não estou defendendo a desconstrução como um valor em si.
As recorrências desse tipo de produção não são poucas: tínhamos e temos sempre o depoimento direto, o plano americano, o entrevistado sentado, bem cuidado e alimentado, sempre a câmera parada, o uso da narração-explicativa, sempre a edição minimalista, um uso banal de imagens de arquivo, confluindo numa sempre ausência de cinema. Se a ficção me soava como uma faca descobrindo todos os riscos das imagens em movimento, brincando com os limites narrativos e não se esvaziando em seu trajeto - o que me parecia um movimento heurístico por parte do cineasta e que já havia sido muito bem percorrido pela literatura - o documentário se fincava como estático, como uma espécie de babá velha pegando a mão do espectador-criança e o levando cuidadosamente até a escola. Isso para não falar da recorrência detestável de objetos: ou estávamos de frente a um personagem famoso, ou tínhamos de rir de um anônimo excêntrico; ou caíamos com nosso complexo de culpa pequeno burguês numa comunidade pobre; ou iríamos desvendar um lugar exótico no sertão, um fato marcante na história ou bater o pé com o gingado de alguma manifestação artística considerada incomum. Ano após ano só fui achando mais enfadonho o cruzamento óbvio entre tais características ao mesmo tempo que fui descobrindo uma gama enorme de realizadores, ditos documentais, que rompiam com tudo que eu considerava documentário. Foi então que minha idéia começou a mudar, inclusive constituindo o diretor não como o cara que arruma a cadeira para o entrevistado sentar, mas como cara que chega e chuta o entrevistado da cadeira.
Se pensarmos bem, o problema não se finca num cansaço dos famosos – e para isso temos, entre outros, Primárias, de Robert Drew e Entreatos, de João Moreira Salles – nem se trata da falta de graça ou piedade pelos excêntricos – basta vermos como Estamira, de Marcos Prado e o recente curta Canosa One, de Felipe Barbosa nos conduzem por outras formas de captura da realidade, o primeiro extraindo filosofia poética de uma catadora de lixo com problemas mentais, o segundo acompanhando para cima e para baixo e se firmando como acompanhante durante as andanças de um curador cinematográfico no Rio de Janeiro. O problema também não reside numa negação imutável das características técnicas apontadas, elas não são características técnicas 'erradas', afinal temos um Edifício Master, do Eduardo Coutinho, basicamente feito apenas de depoimentos diretos, sem contar o francês Jean Rouch que sempre se utilizou da narração em suas obras, sobrepondo e confundindo realidade imagética com a proto-realidade sonora. Para mim, o problema reside simplesmente no fato de não conseguirmos distinguir com lucidez, as premissas estéticas que diferenciam àqueles documentários – que por serem os primeiros que conheci e pela linearidade, os chamaria de clássicos – do que comumente entendemos por jornalismo diário. Há uma padronização formal acumulativa, como se para fazer documentário fosse preciso seguir uma forma – ou fórmula – e escolher um determinado tipo de objeto que terminam colocando o gênero apenas como uma inserção de valor-notícia sobre uma gama de pautas frias. Só queria dizer que nego esse tipo de intenção.
As recorrências desse tipo de produção não são poucas: tínhamos e temos sempre o depoimento direto, o plano americano, o entrevistado sentado, bem cuidado e alimentado, sempre a câmera parada, o uso da narração-explicativa, sempre a edição minimalista, um uso banal de imagens de arquivo, confluindo numa sempre ausência de cinema. Se a ficção me soava como uma faca descobrindo todos os riscos das imagens em movimento, brincando com os limites narrativos e não se esvaziando em seu trajeto - o que me parecia um movimento heurístico por parte do cineasta e que já havia sido muito bem percorrido pela literatura - o documentário se fincava como estático, como uma espécie de babá velha pegando a mão do espectador-criança e o levando cuidadosamente até a escola. Isso para não falar da recorrência detestável de objetos: ou estávamos de frente a um personagem famoso, ou tínhamos de rir de um anônimo excêntrico; ou caíamos com nosso complexo de culpa pequeno burguês numa comunidade pobre; ou iríamos desvendar um lugar exótico no sertão, um fato marcante na história ou bater o pé com o gingado de alguma manifestação artística considerada incomum. Ano após ano só fui achando mais enfadonho o cruzamento óbvio entre tais características ao mesmo tempo que fui descobrindo uma gama enorme de realizadores, ditos documentais, que rompiam com tudo que eu considerava documentário. Foi então que minha idéia começou a mudar, inclusive constituindo o diretor não como o cara que arruma a cadeira para o entrevistado sentar, mas como cara que chega e chuta o entrevistado da cadeira.
Se pensarmos bem, o problema não se finca num cansaço dos famosos – e para isso temos, entre outros, Primárias, de Robert Drew e Entreatos, de João Moreira Salles – nem se trata da falta de graça ou piedade pelos excêntricos – basta vermos como Estamira, de Marcos Prado e o recente curta Canosa One, de Felipe Barbosa nos conduzem por outras formas de captura da realidade, o primeiro extraindo filosofia poética de uma catadora de lixo com problemas mentais, o segundo acompanhando para cima e para baixo e se firmando como acompanhante durante as andanças de um curador cinematográfico no Rio de Janeiro. O problema também não reside numa negação imutável das características técnicas apontadas, elas não são características técnicas 'erradas', afinal temos um Edifício Master, do Eduardo Coutinho, basicamente feito apenas de depoimentos diretos, sem contar o francês Jean Rouch que sempre se utilizou da narração em suas obras, sobrepondo e confundindo realidade imagética com a proto-realidade sonora. Para mim, o problema reside simplesmente no fato de não conseguirmos distinguir com lucidez, as premissas estéticas que diferenciam àqueles documentários – que por serem os primeiros que conheci e pela linearidade, os chamaria de clássicos – do que comumente entendemos por jornalismo diário. Há uma padronização formal acumulativa, como se para fazer documentário fosse preciso seguir uma forma – ou fórmula – e escolher um determinado tipo de objeto que terminam colocando o gênero apenas como uma inserção de valor-notícia sobre uma gama de pautas frias. Só queria dizer que nego esse tipo de intenção.
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sábado, 27 de dezembro de 2008
Doces Bárbaros
- Nós bebemos umas quatro garrafas de vinho, entramos super felizes no cinema do parque, assistimos Doces Bárbaros e saímos namorando.
- Sério? Eu ia adorar começar um namoro depois desse filme.
- Sério? Eu ia adorar começar um namoro depois desse filme.
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Cinema
domingo, 14 de dezembro de 2008
TAM 3515
Ao invés de passar meu último dia em Recife resolvendo as milhares de pendências, resolvi me afogar no vício Lost e aluguei dois discos da quarta temporada. Queria alugar discos aleatórios, o segundo e o quinto, mas como Juliana - seguindo os passos de Gabi - preza por toda uma rigidez de um episódio atrás do outro, terminei coagido a pegar os dois primeiros. Antes de qualquer coisa, para não dizer que dei uma de indiferente, assumo que bastaram dois minutos para me sentir igualzinho aos fanáticos bobocas da série e me considerar um viciado. Tudo bem que só assisti um ou outro episódio da terceira e um pouco mais da metade da segunda, mas isso não faz muita diferença no caso de Lost, afinal lendo um pouquinho aqui, pegando algumas informações com viciados ali, tudo continua sem explicação racional e você pode lançar todas as teorias esdrúxulas do mundo sem constrangimentos. Podem estar mortos, perdidos num espaço-tempo paralelo, em meio a uma viagem de ácido ou numa sessão coletiva de transe budista. O pior não são as explicações, mas o simples fato de todas elas poderem fazer um completo sentido. Terminei ficando em casa episódio após episódio e desisti de assistir ao Wong Kar-wai que passou na Fundaj - o que nunca aconteceria em condições ideais de temperatura e pressão. Ao menos , temos de combinar que essa história de seguir apenas episódios esporádicos, quando der paciência na telha, economiza a perda de tempo que, convenhamos, é esse seriado de merda: ao invés de 80 horas, perco 25, 20, sei lá.
Mesmo achando uma perda de tempo, não me atrevo a questionar a força de captura que Lost consegue exercer sobre o espectador. Você assiste, vicia e leva como filosofia de vida por uma ou duas semanas. Hoje, por exemplo, quando entrei no avião para São Paulo, me peguei olhando na cara das pessoas com cuidado, enquanto cogitava como seriam meus parceiros caso nosso avião, o TAM 3515, caísse numa ilha no meio do nada, fora do mapa, com fumaça do mal, os Outros, médiuns, físicos, ursos, Dharma e Ben. Por sinal, adoro o Ben, adoro como mesmo surrado, amarrado, humilhado, todo mundo continua perdendo a linha depois de conversar com ele: Sawyer bate na cara dele, Jack sai chutando a porta, Locke joga os pratos na parede. Quanto ao meu vôo, fiquei um pouco decepcionado mesmo com a gama variada de tipos: tínhamos crianças-felizes, gringos-perdidos, bichas-madonna. Engraçado que o vôo foi particularmente turbulento e desde a subida notei que o senhor sentado ao meu lado, na janela - um quarentão com os primeiros sinais de calvice - tinha um pânico controlado de avião. Fechou a janela, ficou de cinto durante toda viagem – só tirando para ir ao banheiro – e em qualquer tremelique ele sussurrava para si palavrões – porra, caralho, essa merda – meio indignado com o tremelique da aeronave e mais indignado com o seu próprio medo. Realmente deve ser difícil: não cai muito bem para um pós-pitboy quarentão de respeito se submeter a uma fobia tão besta. Durante as três horas no ar, o senhor abriu a janela duas ou três vezes, fechando-a em menos de trinta segundos e se jogando na poltrona com o coração claramente acelerado. Ele chegou a fechar até as janelas da frente, o que quase quase gerou confusão. Enquanto isso, eu lia uns artigos da Socine na maior tranqüilidade e enviava as piores energias para a vadia da mulher do check in da TAM, pois eu tinha pedido para ela me colocar na janela e no fundo do avião e terminei ficando numa das fileiras da frente e na poltrona do meio. Puta.
Depois do sanduíche frio de vento com queijo e da aeromoça me olhar feio por eu ter pedido duas bebidas, tivemos o ápice da tensão Lost ou não Lost, quando o comandante avisou que iríamos entrar numa área de turbulência. Pelas janelas dava pra ver um mar de nuvens suspeitas. O pós-pitboy só faltou rezar, mas o pior é que a aeronave balançou mais que o balanço normal, o que fez com que ele ficasse com os braços duros, fechando o punho com força suficiente para machucar a si mesmo. Eu particularmente estava num dia de amor e senti um pouco de compaixão, afinal medo irracional, medo irracional, eu e minhas aranhas. Cheguei a pensar em emprestar minha mão esquerda para ele segurar e se sentir melhor, mas achei que poderia se criar uma situação constrangedora até porque se ele aceitasse, além de machucar meus dedos, corria o risco de minha compaixão virar risada. Como me conheço, preferi não arriscar. Foi então que chegou a hora da aterrissagem. Na minha santa ignorância sobre fobias, imaginei que fosse o clímax, o grande momento do surto e me preparei psicologicamente para tal. À essa altura, não ia mais emprestar, mas alugar a minha mão. Nem foi o caso: outro senhor roubou a atenção. Esqueci de contar que durante a viagem, vi um rapaz de cabelo arrepiado se levantar – ele usava luvas – e pegar uma bolsa com seringas. Achei suspeito. Charlie? Ao final da viagem percebi que devia se tratar de um enfermeiro acompanhando algum passageiro enfermo - e era justamente isso - e que especialmente naquele momento, o doente precisava de toda assistência possível. Pouco tempo de entrada no processo de aterrissagem, rolou uma puta crise, não sei se pela doença, não sei se pela descida: respiração pesada, sons abafados, falta de ar, convulsões, muita tosse. A metade da frente do avião entrou numa apreensão coletiva, com direito a solidários se levantando para ajudar - e que obviamente não tinham como ajudar em nada - mas que terminavam espalhando mais o clima de angústia. Bateu uma sensação de que se o cara não ficasse bem, o avião iria cair. Bizarro que uma única pessoa estava fora dessa agitação: mesmo com os braços contraídos violentamente, o senhor sentado ao meu lado abriu um lunático sorriso tranquilo e mórbido. O avião finalmente tocou o chão: as crianças felizes continuavam felizes e não paravam de gritar.
Mesmo achando uma perda de tempo, não me atrevo a questionar a força de captura que Lost consegue exercer sobre o espectador. Você assiste, vicia e leva como filosofia de vida por uma ou duas semanas. Hoje, por exemplo, quando entrei no avião para São Paulo, me peguei olhando na cara das pessoas com cuidado, enquanto cogitava como seriam meus parceiros caso nosso avião, o TAM 3515, caísse numa ilha no meio do nada, fora do mapa, com fumaça do mal, os Outros, médiuns, físicos, ursos, Dharma e Ben. Por sinal, adoro o Ben, adoro como mesmo surrado, amarrado, humilhado, todo mundo continua perdendo a linha depois de conversar com ele: Sawyer bate na cara dele, Jack sai chutando a porta, Locke joga os pratos na parede. Quanto ao meu vôo, fiquei um pouco decepcionado mesmo com a gama variada de tipos: tínhamos crianças-felizes, gringos-perdidos, bichas-madonna. Engraçado que o vôo foi particularmente turbulento e desde a subida notei que o senhor sentado ao meu lado, na janela - um quarentão com os primeiros sinais de calvice - tinha um pânico controlado de avião. Fechou a janela, ficou de cinto durante toda viagem – só tirando para ir ao banheiro – e em qualquer tremelique ele sussurrava para si palavrões – porra, caralho, essa merda – meio indignado com o tremelique da aeronave e mais indignado com o seu próprio medo. Realmente deve ser difícil: não cai muito bem para um pós-pitboy quarentão de respeito se submeter a uma fobia tão besta. Durante as três horas no ar, o senhor abriu a janela duas ou três vezes, fechando-a em menos de trinta segundos e se jogando na poltrona com o coração claramente acelerado. Ele chegou a fechar até as janelas da frente, o que quase quase gerou confusão. Enquanto isso, eu lia uns artigos da Socine na maior tranqüilidade e enviava as piores energias para a vadia da mulher do check in da TAM, pois eu tinha pedido para ela me colocar na janela e no fundo do avião e terminei ficando numa das fileiras da frente e na poltrona do meio. Puta.
Depois do sanduíche frio de vento com queijo e da aeromoça me olhar feio por eu ter pedido duas bebidas, tivemos o ápice da tensão Lost ou não Lost, quando o comandante avisou que iríamos entrar numa área de turbulência. Pelas janelas dava pra ver um mar de nuvens suspeitas. O pós-pitboy só faltou rezar, mas o pior é que a aeronave balançou mais que o balanço normal, o que fez com que ele ficasse com os braços duros, fechando o punho com força suficiente para machucar a si mesmo. Eu particularmente estava num dia de amor e senti um pouco de compaixão, afinal medo irracional, medo irracional, eu e minhas aranhas. Cheguei a pensar em emprestar minha mão esquerda para ele segurar e se sentir melhor, mas achei que poderia se criar uma situação constrangedora até porque se ele aceitasse, além de machucar meus dedos, corria o risco de minha compaixão virar risada. Como me conheço, preferi não arriscar. Foi então que chegou a hora da aterrissagem. Na minha santa ignorância sobre fobias, imaginei que fosse o clímax, o grande momento do surto e me preparei psicologicamente para tal. À essa altura, não ia mais emprestar, mas alugar a minha mão. Nem foi o caso: outro senhor roubou a atenção. Esqueci de contar que durante a viagem, vi um rapaz de cabelo arrepiado se levantar – ele usava luvas – e pegar uma bolsa com seringas. Achei suspeito. Charlie? Ao final da viagem percebi que devia se tratar de um enfermeiro acompanhando algum passageiro enfermo - e era justamente isso - e que especialmente naquele momento, o doente precisava de toda assistência possível. Pouco tempo de entrada no processo de aterrissagem, rolou uma puta crise, não sei se pela doença, não sei se pela descida: respiração pesada, sons abafados, falta de ar, convulsões, muita tosse. A metade da frente do avião entrou numa apreensão coletiva, com direito a solidários se levantando para ajudar - e que obviamente não tinham como ajudar em nada - mas que terminavam espalhando mais o clima de angústia. Bateu uma sensação de que se o cara não ficasse bem, o avião iria cair. Bizarro que uma única pessoa estava fora dessa agitação: mesmo com os braços contraídos violentamente, o senhor sentado ao meu lado abriu um lunático sorriso tranquilo e mórbido. O avião finalmente tocou o chão: as crianças felizes continuavam felizes e não paravam de gritar.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
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Como adoro perder meu tempo no mundo das livres associações e das coincidências forçadas, percebi que Bang Bang (Brasil, 1971), O Sétimo Continente (Áustria, 1989) e Stereo (Canadá, 1969) - os três filmes que foram indicados por mim para serem exibidos em nosso cineclube - mantém entre si a relação de serem as estréias cinematográficas em longas-metragens de seus respectivos diretores: Andrea Tonacci, Michael Haneke e David Cronenberg. Não foi uma decisão consciente e isso pouco importa agora, afinal só fiz essa rápida introdução para encher linguiça, pois o que quero mesmo com esse post é seguir em paz os passos de Fernando e eleger, dentre os 23 filmes e sem colocar minhas indicações entre as opções, as três melhores obras exibidas. São elas:
1 -A Cor da Romã (União Soviética, 1968), de Sergei Parajanov
2 - Mulher das Dunas (Japão, 1964), de Hiroshi Teshigahara
3 - As Cinco Obstruções (Dinamarca, 2003), de Lars Von Trier e Jorge Leth
Preciso fazer a ressalva que fiquei bastante tentado a dividir o terceiro lugar com O Sol (Rússia, 2005), de Aleksandr Sokurov, mas como a experiência de assisti-lo foi marcada por um sério problema técnico, decidi deixá-lo de fora, afinal a construção ritualística da sessão interfere na disposição que você se senta e que você constrói diante da tela. Realmente foi difícil me entregar quando a cópia revelou uma fria dublagem em russo sobreposta ao áudio original em japonês. Isso sem contar que as legendas em português eventualmente perdiam a sincronização ou simplesmente sumiam. Dava vontade de assobiar em alguns momentos. Fiquei pensando muito mais no perigo - diante de uma língua cujo meu entendimento é inexistente - ficar a mercê de legendas falsas, pensadas para serem falsas, de forma que constituíssem um sentido com as imagens e direcionassem um sentido diferente ao filme. Algo meio como esses vídeos do youtube que usam da edição para transformar O Iluminado num filme de comédia.
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Quotes
"Sobre a pergunta em relação ao excesso de câmeras, vou ser meio piegas. O lápis e o papel estão no mundo há bastante tempo. O papel é muito barato. Quantos livros foram escritos por causa disso? Muitos? Nenhum. Pouquíssimos livros são escritos em comparação ao número de pessoas que possuem lápis e papel".
Richard Leacock
entre outras coisas, diretor de fotografia dos filmes Primárias (1960) e Monterey Pop (1967).
Richard Leacock
entre outras coisas, diretor de fotografia dos filmes Primárias (1960) e Monterey Pop (1967).
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
1 hora é R$ 0,50
Lan House é um lugar genial: de um lado, um pivete de 6 anos querendo saber como buscar uma boyzinha e do outro, a irmã vendo fotos do Keanu Reeves.
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