quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Epocler
Para o Quanta Ladeira virar um Recifolia falta uma polegada.
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
O gato por dentro
Todo dia que chego em casa morto de cansado, tiro meu sapato ou sandália na sala e vejo minha gata se aproximar para cheirá-los. Isso já faz parte de minha irrelevante rotina e é nesse momento que tenho meu meio minuto de reflexão sobre o que fiz do dia, pois fico imaginando aquela mente felina recriando cada um dos lugares por onde passei.
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It's Getting Worse All The Time
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Cinema
sábado, 31 de janeiro de 2009
A Scena Muda / Cinearte
Cumprindo meu papel sócio-cultural no mundo e minha boa ação do dia, queria lembrar aos queridos, queridas e querid@s que todas as edições das revistas A Scena Muda (1921 - 1955) e Cinearte (1926 - 1942) estão disponíveis integralmente na internet. É só clicar nas imagens abaixo. Concordo com o que tem escrito na própria apresentação do projeto, pensei até em copiar linha por linha, afinal ambas publicações se mostram realmente essenciais, enquanto documentos históricos, para qualquer pesquisa que necessite - seja pelo figurino, pela crítica, pelos filmes ou mesmo pela publicidade - remontar uma memória cinematográfica brasileira da primeira metade do século. Naturalmente tendem ao Rio de janeiro, mas como são, ao menos livremente disponíveis, os únicos registros de imprensa especializada da época, temos de nos contentar. Se bem que o processo de digitalização em si, iniciativa da Biblioteca Jenny Klabin Segall, me parece um ótimo exemplo a ser seguido por arquivos públicos e privados que assistem seus documentos deteriorarem ano após ano. Nessa linha dava até para criar um slogan bem militante brega do tipo: 'digitaliz@r é preserv@r, digitalize você também'. Daí colocava um nerd sorrindo e fazendo um 'legal' com a mão. Ta bom, parei.
Ai ai, eu fico me ironizando, porque às vezes tenho medo de acordar sem o deboche e virar um cibermarxista acadêmico chatão. Espero que só aconteça depois dos trinta.
Ai ai, eu fico me ironizando, porque às vezes tenho medo de acordar sem o deboche e virar um cibermarxista acadêmico chatão. Espero que só aconteça depois dos trinta.
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Cinema
Buscas
É divertido descobrir as buscas que resultaram no seu blog, mas acho muito estranho que o terceiro resultado da busca "corinthians lógica cagar" seja o Velhos Hábitos. Fico muito me perguntando o que essa pessoa queria achar independentemente de onde ela foi parar. Pior que "uma granada explode em quantos segundos" e "primeiro suicídio filosófico" dá até para termos uma ideia do que a pessoa estava procurando, só não dá para ter ideia do porquê de meu blog ser o primeiro resultado em ambas as pesquisas. "Assassinatos ao vivo", sou o sexto, "zoofilia na década de 20", o sétimo e acho melhor parar por aqui, que isso já está ficando bizarro demais. No final das contas, fico meio pensando nos leitores esporádicos que tenho: futebolistas escatológicos, galera barra pesada do PCC, estudantes de filosofia pré-cfch e admiradores de snuff movies.
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Cotidiano
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
E Deus Criou a Mulher (França, 1956), de Roger Vadim

"Não tenho certeza de quando Brigitte e Jean-Louis fizeram amor pela primeira vez. Mas percebi que já tinham se tornado amantes quando estávamos rodando uma das cenas principais.
Na história, Juliette está fisicamente atraída por um dos três irmãos, o mais velho, Antoine. O papel era interpretado por Christian Marquand. No entanto, ela se casa com Michel, o irmão do meio, para evitar uma volta ao orfanato. No momento em que descobre as profundas qualidades de seu marido, passa a amá-lo. Antoine retorna para viver com eles. Juliette se dilacera entre o desejo de felicidade e harmonia com o marido e a atração visceral por Antoine. Não quer ser levada pela paixão física por Antoine, mas sabe que acabará cedendo. Certa noite, Michel desperta e percebe que sua mulher não está no quarto. Encontra-a na praia, perto da casa. Eis um trecho da cena:
Nunca Brigitte, a atriz, tinha sido tão profundamente honesta e desesperada. Ela era realmente Juliette, que queria amar o marido e salvar seu casamento, sabendo que jamais conseguiria fazer isso. Era também Brigitte, ainda apegada ao marido e apavorada pela idéia de abandoná-lo, por um homem que acabara de conhecer, e ao qual não podia resistir. Era como um mundo de espelhos, com uma sutileza pirandelliana. Jean-Louis Trintignant, seu marido no filme, passou a representar seu marido na vida real. Quando disse para a câmera que estava com medo, Brigitte-Juliette estava, na verdade, falando comigo.
Já em nosso quarto, no Hotel Negresco, após a filmagem, perguntei a ela:
- Ele é seu amante, não é?
- Sim.
- Você o ama?
- Estou com medo.
Antes de dormir, ela murmurrou:
- É difícil ser feliz
Até hoje não sei ao certo se ela repetiu deliberadamente a fala do filme ou se estava dizendo o que sentia".
'Bardot, Deneuve, Fonda - As Memórias de Roger Vadim',
págs. 89/90/91'
Concordo plenamente com o que tem escrito na dedicatória que recebi: 'teoria do cinema o cacete. Bom mesmo é fofoca'. Acho que teria me entediado bastante se tivesse assistido 'E Deus criou a Mulher' sem ler o livro de memórias do diretor, sem saber todos os bastidores emocionais / sociais (Brigitte largando ele para ficar com o protagonista, as chantagens, bebedeiras, os encontros...), e produtivos / técnicos (tiveram de inserir um ator famoso, Curd Jurgens, para conseguir filmar em Cinemascope, problemas, filme de estréia, falta de dinheiro...). Fiquei tão na fissura por cada detalhe que era só preciso uma lampejo de cena de dois segundos da Brigitte brincando com um cocker spaniel preto para eu ficar louco me perguntando: será Clown? (o cachorro que ambos consideravam como o único filho da relação). Não se trata do filme não despertar interesse sozinho, pelo contrário, a sensualidade da Bardot tem sim o teor provocativo que a imortalizou (vide, O desprezo como exploração disso), só que aqui, em 1956, a sensualidade termina caindo um pouco na lógica de 'ser provocativa para sua época', o que gera um certo incômodo em mim. O quase fervor de um corpo não é o suficiente se não há o fervor da mise en scène. De fato, uma boca não faz um filme, mas ainda assim, pensando bem, acho que o jogo de esconder mais e mostrar menos, dando a impressão de estar mostrando mais do que realmente está é, nessa obra, de um requinte imenso.
Inclusive, se formos levar em conta que esse filme por muito, mas muito pouco não foi censurado, no julgamento foram 4 votos a favor da liberação e 3 contra, só posso ter certeza que os censores viram muito mais do que estava sendo projetado na tela: e concordo que em algumas cenas, a presença ou ausência de roupas não faz muita diferença aos seios da Brigitte Bardot. A estréia chegou a ser cancelada na hora, quando os convidados, tipo a Audrey Hepburn, já subiam as escadas do cinema e se perguntavam em meio à baderna: "O que está acontecendo? Uma revolução?". Achei desproporcional o barulho sobre a obra depois de vê-la, talvez seja até exagero de lembrança, mas as memórias são do Roger Vadim e ele faz das memórias o quiser. Talvez esse receio diante da moralidade diegética tenha a ver com a dificuldade que possuo em me interessar por boa parte da produção cinematográfica francesa da década de 50, por eu ter nas costas uma longa bagagem afetiva interligada à Nouvelle Vague: só para compararmos diretamente, tenho de dizer que a nudez em O Desprezo é anos-luz mais provocativa. Tudo antes parece meio velho, comportado e empoeirado demais. Existem exceções, óbvio. De qualquer forma, reconheço vários momentos na produção do Vadim, assim como o fez Truffaut, que na época escreveu uma crítica super positiva, colocando a obra como essencial para uma abertura de horizontes. Talvez tivesse razão. Tudo bem que prefiro mil vezes as revelações do livro, mas essa cena me parece genial:
Na história, Juliette está fisicamente atraída por um dos três irmãos, o mais velho, Antoine. O papel era interpretado por Christian Marquand. No entanto, ela se casa com Michel, o irmão do meio, para evitar uma volta ao orfanato. No momento em que descobre as profundas qualidades de seu marido, passa a amá-lo. Antoine retorna para viver com eles. Juliette se dilacera entre o desejo de felicidade e harmonia com o marido e a atração visceral por Antoine. Não quer ser levada pela paixão física por Antoine, mas sabe que acabará cedendo. Certa noite, Michel desperta e percebe que sua mulher não está no quarto. Encontra-a na praia, perto da casa. Eis um trecho da cena:
MICHEL: Você não está feliz?
(Juliette sorri tristemente. Michel acaricia seu rosto. De repente ela agarra a camisa dele, com o rosto cheio de angústia)
JULIETTE: Você deve me amar um bocado.
MICHEL: Sou louco por você.
(Close-up de Juliette)
JULIETTE: Então diga. Diga que me ama, que sou sua, que você precisa de mim. Beije-me, Michel. Beije-me!
(Michel está impressionado com a intensidade trágica da voz dela)
JULIETTE: Estou com medo.
MICHEL: De que, meu bem?
(Juliette não responde. Vai deslizando para a areia com extraordinária suavidade. Seu corpo é fluido como água. Seu rosto e o canto da boca tocam a areia).
JULIETTE: (doce e quase tranquila) É difícil ser feliz.
(Juliette sorri tristemente. Michel acaricia seu rosto. De repente ela agarra a camisa dele, com o rosto cheio de angústia)
JULIETTE: Você deve me amar um bocado.
MICHEL: Sou louco por você.
(Close-up de Juliette)
JULIETTE: Então diga. Diga que me ama, que sou sua, que você precisa de mim. Beije-me, Michel. Beije-me!
(Michel está impressionado com a intensidade trágica da voz dela)
JULIETTE: Estou com medo.
MICHEL: De que, meu bem?
(Juliette não responde. Vai deslizando para a areia com extraordinária suavidade. Seu corpo é fluido como água. Seu rosto e o canto da boca tocam a areia).
JULIETTE: (doce e quase tranquila) É difícil ser feliz.
Nunca Brigitte, a atriz, tinha sido tão profundamente honesta e desesperada. Ela era realmente Juliette, que queria amar o marido e salvar seu casamento, sabendo que jamais conseguiria fazer isso. Era também Brigitte, ainda apegada ao marido e apavorada pela idéia de abandoná-lo, por um homem que acabara de conhecer, e ao qual não podia resistir. Era como um mundo de espelhos, com uma sutileza pirandelliana. Jean-Louis Trintignant, seu marido no filme, passou a representar seu marido na vida real. Quando disse para a câmera que estava com medo, Brigitte-Juliette estava, na verdade, falando comigo.
Já em nosso quarto, no Hotel Negresco, após a filmagem, perguntei a ela:
- Ele é seu amante, não é?
- Sim.
- Você o ama?
- Estou com medo.
Antes de dormir, ela murmurrou:
- É difícil ser feliz
Até hoje não sei ao certo se ela repetiu deliberadamente a fala do filme ou se estava dizendo o que sentia".
'Bardot, Deneuve, Fonda - As Memórias de Roger Vadim',
págs. 89/90/91'
Concordo plenamente com o que tem escrito na dedicatória que recebi: 'teoria do cinema o cacete. Bom mesmo é fofoca'. Acho que teria me entediado bastante se tivesse assistido 'E Deus criou a Mulher' sem ler o livro de memórias do diretor, sem saber todos os bastidores emocionais / sociais (Brigitte largando ele para ficar com o protagonista, as chantagens, bebedeiras, os encontros...), e produtivos / técnicos (tiveram de inserir um ator famoso, Curd Jurgens, para conseguir filmar em Cinemascope, problemas, filme de estréia, falta de dinheiro...). Fiquei tão na fissura por cada detalhe que era só preciso uma lampejo de cena de dois segundos da Brigitte brincando com um cocker spaniel preto para eu ficar louco me perguntando: será Clown? (o cachorro que ambos consideravam como o único filho da relação). Não se trata do filme não despertar interesse sozinho, pelo contrário, a sensualidade da Bardot tem sim o teor provocativo que a imortalizou (vide, O desprezo como exploração disso), só que aqui, em 1956, a sensualidade termina caindo um pouco na lógica de 'ser provocativa para sua época', o que gera um certo incômodo em mim. O quase fervor de um corpo não é o suficiente se não há o fervor da mise en scène. De fato, uma boca não faz um filme, mas ainda assim, pensando bem, acho que o jogo de esconder mais e mostrar menos, dando a impressão de estar mostrando mais do que realmente está é, nessa obra, de um requinte imenso.
Inclusive, se formos levar em conta que esse filme por muito, mas muito pouco não foi censurado, no julgamento foram 4 votos a favor da liberação e 3 contra, só posso ter certeza que os censores viram muito mais do que estava sendo projetado na tela: e concordo que em algumas cenas, a presença ou ausência de roupas não faz muita diferença aos seios da Brigitte Bardot. A estréia chegou a ser cancelada na hora, quando os convidados, tipo a Audrey Hepburn, já subiam as escadas do cinema e se perguntavam em meio à baderna: "O que está acontecendo? Uma revolução?". Achei desproporcional o barulho sobre a obra depois de vê-la, talvez seja até exagero de lembrança, mas as memórias são do Roger Vadim e ele faz das memórias o quiser. Talvez esse receio diante da moralidade diegética tenha a ver com a dificuldade que possuo em me interessar por boa parte da produção cinematográfica francesa da década de 50, por eu ter nas costas uma longa bagagem afetiva interligada à Nouvelle Vague: só para compararmos diretamente, tenho de dizer que a nudez em O Desprezo é anos-luz mais provocativa. Tudo antes parece meio velho, comportado e empoeirado demais. Existem exceções, óbvio. De qualquer forma, reconheço vários momentos na produção do Vadim, assim como o fez Truffaut, que na época escreveu uma crítica super positiva, colocando a obra como essencial para uma abertura de horizontes. Talvez tivesse razão. Tudo bem que prefiro mil vezes as revelações do livro, mas essa cena me parece genial:
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Definição
Ser loser é sair de casa apressado, roer a unha no caminho e quebrar o dente da frente.
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Cotidiano
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Ostras e Caracóis
Nunca tive um interesse natural por grandes épicos, os assistia meio pensando 'tenho de assistir mesmo, então vamos lá, melhor que seja logo', terminava adiando, adiando, de forma que criei um grande vácuo desse gênero no meu repertório. Estava sempre me esquivando, em especial pela longa duração de cada um deles: terminava correndo para a ficção científica ou para os filmes B de fantasia (o que inclui Simbad, Hércules, Xena e todos aqueles filmes mitológicos com efeitos especiais toscos que eu adoro). De qualquer forma, assisti alguns épicos. Ben-Hur (EUA, 1959, 212 min), de William Wyler e El Cid (EUA, 1961, 182 min), de Anthony Mann, eu já tinha visto quando garoto, meio que obrigado pela minha mãe que adora e adorava os grandes épicos e filmes religiosos - e, me desculpem, mas nem vou tentar psicanalisar essa oposição entre os nossos gostos. Re-assisti ambos há uns dois anos e ok, não mudaram minha vida nem para melhor, nem para pior. Tudo na mesma.
Enfim, só queria dizer que essa semana tive a disposição para Spartacus (EUA, 1960, 187 min), que eu pensava 'olha só onde você vai se meter, antes de ser um filme de Stanley Kubrick, é um épico'. Tinha receio de manchar uma carreira que me parece irretocável. Arrisquei e acho que se trata do contrário: antes de um épico, é um Stanley Kubrick. Que o diga a cena dos mortos no campo de batalha e a dos crucificados ao longo de toda uma estrada. Mas teve algo em particular que me chocou: o típico subtexto homossexual desses filmes, tinha nessa obra, por meio do roteiro do Dalton Trumbo, se tornado menos sub e mais, muito mais explícito. O filme é muito gay e não acredito que isso passe desapercebido aos pais de família brancos héteros que tomam essa produção como uma das maravilhas da sétima arte. Na linha eu sou Spartacus, quando todos gritam. Nos outros dois também existe o tom, mas é tão sutil que pode se passar por fraternidade, brotherhood, não desejo. Só para provar que Spartacus é mais explícito, olha só esse diálogo entre o Laurence Olivier (Crassus, despido) e seu servo Tony Curtis (Antoninus, semi nu), enquanto o segundo esfrega as costas do primeiro numa banheira:
Marcus Licinius Crassus:
Do you eat oysters?
Antoninus:
When I have them, master.
Marcus Licinius Crassus:
Do you eat snails?
Antoninus:
No, master.
Marcus Licinius Crassus:
Do you consider the eating of oysters to be moral and the eating of snails to be immoral?
Antoninus:
No, master.
Marcus Licinius Crassus:
Of course not. It is all a matter of taste, isn't it?
Antoninus:
Yes, master.
Marcus Licinius Crassus:
And taste is not the same as appetite, and therefore not a question of morals.
Antoninus:
It could be argued so, master.
Marcus Licinius Crassus:
My robe, Antoninus. My taste includes both snails and oysters.
Isso é porque eu não descrevi a troca de olhares, melhor assistir. Como pode aquele filme podre Alexandre causar tanta polêmica quando quarenta anos antes já existia Spartacus no mainstream? Às vezes eu acho que a permanência de certos choques é uma pura falta de memória. Já era para o povo está chocado há muito tempo. Fireworks. Fireworks.
Enfim, só queria dizer que essa semana tive a disposição para Spartacus (EUA, 1960, 187 min), que eu pensava 'olha só onde você vai se meter, antes de ser um filme de Stanley Kubrick, é um épico'. Tinha receio de manchar uma carreira que me parece irretocável. Arrisquei e acho que se trata do contrário: antes de um épico, é um Stanley Kubrick. Que o diga a cena dos mortos no campo de batalha e a dos crucificados ao longo de toda uma estrada. Mas teve algo em particular que me chocou: o típico subtexto homossexual desses filmes, tinha nessa obra, por meio do roteiro do Dalton Trumbo, se tornado menos sub e mais, muito mais explícito. O filme é muito gay e não acredito que isso passe desapercebido aos pais de família brancos héteros que tomam essa produção como uma das maravilhas da sétima arte. Na linha eu sou Spartacus, quando todos gritam. Nos outros dois também existe o tom, mas é tão sutil que pode se passar por fraternidade, brotherhood, não desejo. Só para provar que Spartacus é mais explícito, olha só esse diálogo entre o Laurence Olivier (Crassus, despido) e seu servo Tony Curtis (Antoninus, semi nu), enquanto o segundo esfrega as costas do primeiro numa banheira:
Marcus Licinius Crassus:
Do you eat oysters?
Antoninus:
When I have them, master.
Marcus Licinius Crassus:
Do you eat snails?
Antoninus:
No, master.
Marcus Licinius Crassus:
Do you consider the eating of oysters to be moral and the eating of snails to be immoral?
Antoninus:
No, master.
Marcus Licinius Crassus:
Of course not. It is all a matter of taste, isn't it?
Antoninus:
Yes, master.
Marcus Licinius Crassus:
And taste is not the same as appetite, and therefore not a question of morals.
Antoninus:
It could be argued so, master.
Marcus Licinius Crassus:
My robe, Antoninus. My taste includes both snails and oysters.
Isso é porque eu não descrevi a troca de olhares, melhor assistir. Como pode aquele filme podre Alexandre causar tanta polêmica quando quarenta anos antes já existia Spartacus no mainstream? Às vezes eu acho que a permanência de certos choques é uma pura falta de memória. Já era para o povo está chocado há muito tempo. Fireworks. Fireworks.
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Cinema
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
¬¬
Sorte de hoje: A pessoa que lê sua sorte não está se sentindo bem. Esperamos que você esteja.
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Cotidiano
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Blá Blá Blá
Eu ia cometer a gafe de começar esse post perguntando se alguém mais achava que o Roberto Farias tinha o espírito de A Primeira Página (EUA, 1974), do Billy Wilder na cabeça, quando fez Toda Donzela tem um Pai que é uma Fera (Brasil, 1966). Só depois descobri que o segundo tinha sido feito antes do primeiro. Ficou confuso, mas acho que vocês entenderam o que quis dizer: por ter assistido o wilder antes do farias desloquei as produções de suas próprias cronologias para inserí-lasúnic e exclusivamente na minha cronologia. De qualquer forma, eu sei que é bem arbitrário fazer esse tipo de afirmação direta entre obras, sempre gera equívocos, afinal é muito mais uma relação fruto de nossas próprias cabeças e backgrounds que um minucioso plano dos diretores em questão. Não sempre, óbvio, mas aqui é assumidamente, então quero continuar aloprando em paz. De fato, além do nonsense das datas e países, tenho de admitir que as histórias nem são parecidas, longe disso até, mas acredito que a forma de capturar o riso e estruturar a comédia - e fazê-la funcionar muitíssimo bem - seja bastante semelhante. É uma fórmula bem conhecida e já banalizada como quase tudo nesse mundo: cria-se um clima de tensão, por um personagem estar escondendo 'alguma coisa' de um outro personagem; nós, espectadores, sabemos o que é essa 'alguma coisa', sabemos que se for descoberta antes da hora será uma tragédia e tudo passa a girar em torno das situações mais inusitadas para que a 'alguma coisa' permaneça secreta. Em ambos os casos, a tal coisa são pessoas: no nacional, a donzela sendo escondida do pai militar pelo amante e pelo amigo libertino no apartamento do libertino; no americano, um suposto criminoso comunista sendo escondido da polícia e dos outros jornalistas, numa sala de imprensa coletiva, pelo editor e jornalista de um mesmo jornal. É uma fórmula batida, convenhamos, mas acho que ainda funciona: senti a leveza que toda boa comédia deve nos causar. No clima sou cult de nascença, engajados por todos os lados, cinema novo, estética da fome e tudo mais que imaginamos que era o meio da década de 60, o que eu ia querer assistir para relaxar um pouco era uma comédia divertida, alienada e acéfala como essa. Se brincar não tão acéfala: comunistas inocentes e militares retrógrados não me parecem uma caricatura inocente. Talvez só não levante bandeira. Mas pra compensar, no ano seguinte teríamos Terra em Transe, daí poderíamos voltar a pensar e nos fazer de conscientes e politizados. Às vezes fico achando que, mesmo com todo meu respeito, os filmes e escritos do Glauber Rocha eram muito sérios e que o maior ensinamento do Cinema Marginal foi o de que um pouco de humor, insanidade e cultura de massa no discurso e na técnica não fazia mal algum. Não fez. Acho que Godard já sabia disso. Bang Bang.
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Cinema
domingo, 25 de janeiro de 2009
Κώστας Γαβράς
Quem escrever, falar, sussurrar Costa-Gavras mais uma vez colocando o 'r' no lugar errado, Costa-Gravas, é a mulher do padre. É que esse erro é trauma de adolescência: desde os treze anos brinco de corrigir. Minha paciência que já não era muito o meu forte meio que acabou.
Só espero que a Graça Araújo se confunda. Ela pode. Sobe som. Palmas. Flashs. Alunos da Maurício de Nassau.
Só espero que a Graça Araújo se confunda. Ela pode. Sobe som. Palmas. Flashs. Alunos da Maurício de Nassau.
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Cinema Pernambucano
Rogelio
Esta é uma anti-recomendação: eu assisti recentemente um curta do Guillermo Arriaga, chamado Rogelio, e achei tão podre de ruim, tão podre de ruim, que fiquei sem saco e sem palavras pra me justificar, pois só conseguia pensar que se brincasse, caso fosse inscrito no Festival de Vídeo do Recife, o curta não ganharia nada. Talvez nem seria selecionado. Melhor mesmo era que não existisse: e antes de voltar pro meu artigo-destruidor-de-vidas-e-emoções, tenho de dizer que não tem um só morto que mereça a dedicatória. Poesia de boteco da pior espécie.
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Cinema
sábado, 24 de janeiro de 2009
Nylon Smile / Hunter
Eu seria uma pessoa na fossa tão mais feliz se visse isso ao vivo, sendo bem esperançoso imagino no Coquetel Molotov, mas acho que pelo andar da carruagem - e como adoro essa expressão - está mais fácil rolar 'beijinho doce'. Numa opção ou na outra, estaria na primeira fila cantando juntinho.
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Música
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Matou a Família e foi ao Cinema
Morou com Rodrigo e terminou na terapia.
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Cotidiano
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Fim?

Diferentemente da Elizabeth Taylor, eu sei a hora de parar, apesar de saber que malandro não pára, malandro dá um tempo.
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sábado, 10 de janeiro de 2009
Atenção
Fazer mestrado sem bolsa é uma furada.
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Comunicação
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Filmes de 2009
Depois de várias listas dos melhores do ano passado, Paranoid Park pra cá, Paranoid Park pra lá, uma lista simplesmente em ordem cronológica do que andei assistindo desde o reveillon:
Nannok do Norte (EUA, 1922), de Robert Flaherty.
Assisti no primeiro dia do ano, no notebook, na praia e agora entendo - e acho até que faz todo o sentido - que esse seja um filme mais lido que visto e não por ser supostamente raro ou chato, nem por ser mudo, da década de 20 ou retratar a 'divertida' vidinha dos esquimós, mas - e levando em em conta que se trata da obra canonizada como inventora do documentário enquanto gênero cinematográfico - por ser relevante sabermos que a versão final foi re-encenada e gravada após o diretor perder, num incêndio causado por seu cigarro, todo um material de registro 'documental' que havia feito ao longo de sete anos no norte do Canadá. Daí o Flaherty ficcionalizou geral em sua segunda tentativa, criando personagens, concatenando as cenas a partir de suas lembranças e chegando a pedir aos esquimós, para passar uma impressão rústica da comunidade, que eles fossem gravados caçando com lanças, mesmo que o uso de armas de fogo fosse comum. Saber que o documentário se instituiu assim, em meio a tanta mentira, me alegra bastante.
Assisti no primeiro dia do ano, no notebook, na praia e agora entendo - e acho até que faz todo o sentido - que esse seja um filme mais lido que visto e não por ser supostamente raro ou chato, nem por ser mudo, da década de 20 ou retratar a 'divertida' vidinha dos esquimós, mas - e levando em em conta que se trata da obra canonizada como inventora do documentário enquanto gênero cinematográfico - por ser relevante sabermos que a versão final foi re-encenada e gravada após o diretor perder, num incêndio causado por seu cigarro, todo um material de registro 'documental' que havia feito ao longo de sete anos no norte do Canadá. Daí o Flaherty ficcionalizou geral em sua segunda tentativa, criando personagens, concatenando as cenas a partir de suas lembranças e chegando a pedir aos esquimós, para passar uma impressão rústica da comunidade, que eles fossem gravados caçando com lanças, mesmo que o uso de armas de fogo fosse comum. Saber que o documentário se instituiu assim, em meio a tanta mentira, me alegra bastante.
Eu, um Negro (França, 1958), de Jean Rouch (02/01/09)
Crônica de um Verão - Paris, 1960 (França, 1961), de Edgar Morin e Jean Rouch (02/02/09)
Jaguar (França, 1967), de Jean Rouch (03/01/09)
Brokeback Mountain (EUA, 2005), de Ang Lee
Revisto na TV, na Globo, dublado e se eu tinha detestado quando vi no cinema, desta vez me diverti um bocado pensando nas donas de casa do meu Brasil que estavam se identificando com a Jen do Dawson's Creek, chocadas com os moderados beijos dos cowboys e morrendo de medo de seus machos machões serem as bibas enrustidas da repartição. Tudo isso nos quarenta minutos que me mantive acordado, porque, me desculpe vocês, mas não tive saco de assistir de novo até o fim. De qualquer forma, para mim, a inteligibilidade boba e melodramática do roteiro - que se torna apaticamente diferente só por se tratar de uma história gay - funciona muito mais na televisão, com o alcance da televisão e diante de um público amplo e pudico, que no cinema, sempre restrito e refém de um público direcionado. Pode ser preconceito barato de uma mídia sobre a outra. Que seja.
Close-up (Irã, 1990), de Abbas Kiarostami
O Tesouro de Sierra Madre (EUA, 1948), de John Huston
A Grande Família - o Filme (Brasil, 2007), de Maurício Farias
Cleópatra (Brasil, 2007), de Júlio Bressane
Comecei até a escrever algumas palavras, mas agora agora estou procurando emprego para não terminar na rua. Vou atualizando aos poucos até cansar.
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Cinema
domingo, 4 de janeiro de 2009
Quatro Filhotes
Eu disse que minha gata pariu?
Pois é, agora estou achando que ela vai virar uma baranga, afinal a barriga dela já virou um puta saco de bompreço.
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Estudando a Bossa + The Odd Couple
Não saco nada de música, nadinha, só escuto e ponto, mas na minha santa ignorância acho que esqueceram de colocar os discos do Tom Zé e do Gnarls Barkley na lista dos melhores de 2008. Portishead na veia.
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Música
sábado, 3 de janeiro de 2009
Digressão de um ensaio em processo
Há alguns anos, quando estava no momento limite de tornar o cinema não apenas um belo entretenimento de cada dia, mas um objeto primeiro de interesse e pesquisa, costumava colocar o documentário como um gênero menor. Admito o senso comum dessa premissa, mas também admito a importância de considerarmos a vivência do senso comum como auxílio em seu próprio entendimento. Portanto, ao invés de simplesmente descartá-lo como nos sugere a academia, seria mais fecundo entender e se deixar envolver por sua lógica: como um bom adolescente cinéfilo, tinha me dado conta que boa parte de minhas limitadas referências até então – de fato, não conhecia Vertov, Rouch e pouco sabia de Coutinho, mas freqüentava anualmente o CINE-PE – se apegavam a algumas regrinhas estruturais básicas, que tendiam a esvaziar a forma num intuito ingênuo de preservar o conteúdo, minimizando os recursos cinematográficos por uma mera busca didática. Basta pegar a programação do Festival de Vídeo do Recife em todas as suas edições ou o catálogo da Massangana Multimídia Produções para perceber que exemplos não faltam. É impossível não perceber o menosprezo pela inteligência mínima do espectador contemporâneo, criado numa ode à desconstrução, quando nos vemos diante de apropriações narrativas que de tão lineares e corretas me parecem anacrônicas. E não se enganem, também não estou defendendo a desconstrução como um valor em si.
As recorrências desse tipo de produção não são poucas: tínhamos e temos sempre o depoimento direto, o plano americano, o entrevistado sentado, bem cuidado e alimentado, sempre a câmera parada, o uso da narração-explicativa, sempre a edição minimalista, um uso banal de imagens de arquivo, confluindo numa sempre ausência de cinema. Se a ficção me soava como uma faca descobrindo todos os riscos das imagens em movimento, brincando com os limites narrativos e não se esvaziando em seu trajeto - o que me parecia um movimento heurístico por parte do cineasta e que já havia sido muito bem percorrido pela literatura - o documentário se fincava como estático, como uma espécie de babá velha pegando a mão do espectador-criança e o levando cuidadosamente até a escola. Isso para não falar da recorrência detestável de objetos: ou estávamos de frente a um personagem famoso, ou tínhamos de rir de um anônimo excêntrico; ou caíamos com nosso complexo de culpa pequeno burguês numa comunidade pobre; ou iríamos desvendar um lugar exótico no sertão, um fato marcante na história ou bater o pé com o gingado de alguma manifestação artística considerada incomum. Ano após ano só fui achando mais enfadonho o cruzamento óbvio entre tais características ao mesmo tempo que fui descobrindo uma gama enorme de realizadores, ditos documentais, que rompiam com tudo que eu considerava documentário. Foi então que minha idéia começou a mudar, inclusive constituindo o diretor não como o cara que arruma a cadeira para o entrevistado sentar, mas como cara que chega e chuta o entrevistado da cadeira.
Se pensarmos bem, o problema não se finca num cansaço dos famosos – e para isso temos, entre outros, Primárias, de Robert Drew e Entreatos, de João Moreira Salles – nem se trata da falta de graça ou piedade pelos excêntricos – basta vermos como Estamira, de Marcos Prado e o recente curta Canosa One, de Felipe Barbosa nos conduzem por outras formas de captura da realidade, o primeiro extraindo filosofia poética de uma catadora de lixo com problemas mentais, o segundo acompanhando para cima e para baixo e se firmando como acompanhante durante as andanças de um curador cinematográfico no Rio de Janeiro. O problema também não reside numa negação imutável das características técnicas apontadas, elas não são características técnicas 'erradas', afinal temos um Edifício Master, do Eduardo Coutinho, basicamente feito apenas de depoimentos diretos, sem contar o francês Jean Rouch que sempre se utilizou da narração em suas obras, sobrepondo e confundindo realidade imagética com a proto-realidade sonora. Para mim, o problema reside simplesmente no fato de não conseguirmos distinguir com lucidez, as premissas estéticas que diferenciam àqueles documentários – que por serem os primeiros que conheci e pela linearidade, os chamaria de clássicos – do que comumente entendemos por jornalismo diário. Há uma padronização formal acumulativa, como se para fazer documentário fosse preciso seguir uma forma – ou fórmula – e escolher um determinado tipo de objeto que terminam colocando o gênero apenas como uma inserção de valor-notícia sobre uma gama de pautas frias. Só queria dizer que nego esse tipo de intenção.
As recorrências desse tipo de produção não são poucas: tínhamos e temos sempre o depoimento direto, o plano americano, o entrevistado sentado, bem cuidado e alimentado, sempre a câmera parada, o uso da narração-explicativa, sempre a edição minimalista, um uso banal de imagens de arquivo, confluindo numa sempre ausência de cinema. Se a ficção me soava como uma faca descobrindo todos os riscos das imagens em movimento, brincando com os limites narrativos e não se esvaziando em seu trajeto - o que me parecia um movimento heurístico por parte do cineasta e que já havia sido muito bem percorrido pela literatura - o documentário se fincava como estático, como uma espécie de babá velha pegando a mão do espectador-criança e o levando cuidadosamente até a escola. Isso para não falar da recorrência detestável de objetos: ou estávamos de frente a um personagem famoso, ou tínhamos de rir de um anônimo excêntrico; ou caíamos com nosso complexo de culpa pequeno burguês numa comunidade pobre; ou iríamos desvendar um lugar exótico no sertão, um fato marcante na história ou bater o pé com o gingado de alguma manifestação artística considerada incomum. Ano após ano só fui achando mais enfadonho o cruzamento óbvio entre tais características ao mesmo tempo que fui descobrindo uma gama enorme de realizadores, ditos documentais, que rompiam com tudo que eu considerava documentário. Foi então que minha idéia começou a mudar, inclusive constituindo o diretor não como o cara que arruma a cadeira para o entrevistado sentar, mas como cara que chega e chuta o entrevistado da cadeira.
Se pensarmos bem, o problema não se finca num cansaço dos famosos – e para isso temos, entre outros, Primárias, de Robert Drew e Entreatos, de João Moreira Salles – nem se trata da falta de graça ou piedade pelos excêntricos – basta vermos como Estamira, de Marcos Prado e o recente curta Canosa One, de Felipe Barbosa nos conduzem por outras formas de captura da realidade, o primeiro extraindo filosofia poética de uma catadora de lixo com problemas mentais, o segundo acompanhando para cima e para baixo e se firmando como acompanhante durante as andanças de um curador cinematográfico no Rio de Janeiro. O problema também não reside numa negação imutável das características técnicas apontadas, elas não são características técnicas 'erradas', afinal temos um Edifício Master, do Eduardo Coutinho, basicamente feito apenas de depoimentos diretos, sem contar o francês Jean Rouch que sempre se utilizou da narração em suas obras, sobrepondo e confundindo realidade imagética com a proto-realidade sonora. Para mim, o problema reside simplesmente no fato de não conseguirmos distinguir com lucidez, as premissas estéticas que diferenciam àqueles documentários – que por serem os primeiros que conheci e pela linearidade, os chamaria de clássicos – do que comumente entendemos por jornalismo diário. Há uma padronização formal acumulativa, como se para fazer documentário fosse preciso seguir uma forma – ou fórmula – e escolher um determinado tipo de objeto que terminam colocando o gênero apenas como uma inserção de valor-notícia sobre uma gama de pautas frias. Só queria dizer que nego esse tipo de intenção.
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sábado, 27 de dezembro de 2008
Doces Bárbaros
- Nós bebemos umas quatro garrafas de vinho, entramos super felizes no cinema do parque, assistimos Doces Bárbaros e saímos namorando.
- Sério? Eu ia adorar começar um namoro depois desse filme.
- Sério? Eu ia adorar começar um namoro depois desse filme.
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domingo, 14 de dezembro de 2008
TAM 3515
Ao invés de passar meu último dia em Recife resolvendo as milhares de pendências, resolvi me afogar no vício Lost e aluguei dois discos da quarta temporada. Queria alugar discos aleatórios, o segundo e o quinto, mas como Juliana - seguindo os passos de Gabi - preza por toda uma rigidez de um episódio atrás do outro, terminei coagido a pegar os dois primeiros. Antes de qualquer coisa, para não dizer que dei uma de indiferente, assumo que bastaram dois minutos para me sentir igualzinho aos fanáticos bobocas da série e me considerar um viciado. Tudo bem que só assisti um ou outro episódio da terceira e um pouco mais da metade da segunda, mas isso não faz muita diferença no caso de Lost, afinal lendo um pouquinho aqui, pegando algumas informações com viciados ali, tudo continua sem explicação racional e você pode lançar todas as teorias esdrúxulas do mundo sem constrangimentos. Podem estar mortos, perdidos num espaço-tempo paralelo, em meio a uma viagem de ácido ou numa sessão coletiva de transe budista. O pior não são as explicações, mas o simples fato de todas elas poderem fazer um completo sentido. Terminei ficando em casa episódio após episódio e desisti de assistir ao Wong Kar-wai que passou na Fundaj - o que nunca aconteceria em condições ideais de temperatura e pressão. Ao menos , temos de combinar que essa história de seguir apenas episódios esporádicos, quando der paciência na telha, economiza a perda de tempo que, convenhamos, é esse seriado de merda: ao invés de 80 horas, perco 25, 20, sei lá.
Mesmo achando uma perda de tempo, não me atrevo a questionar a força de captura que Lost consegue exercer sobre o espectador. Você assiste, vicia e leva como filosofia de vida por uma ou duas semanas. Hoje, por exemplo, quando entrei no avião para São Paulo, me peguei olhando na cara das pessoas com cuidado, enquanto cogitava como seriam meus parceiros caso nosso avião, o TAM 3515, caísse numa ilha no meio do nada, fora do mapa, com fumaça do mal, os Outros, médiuns, físicos, ursos, Dharma e Ben. Por sinal, adoro o Ben, adoro como mesmo surrado, amarrado, humilhado, todo mundo continua perdendo a linha depois de conversar com ele: Sawyer bate na cara dele, Jack sai chutando a porta, Locke joga os pratos na parede. Quanto ao meu vôo, fiquei um pouco decepcionado mesmo com a gama variada de tipos: tínhamos crianças-felizes, gringos-perdidos, bichas-madonna. Engraçado que o vôo foi particularmente turbulento e desde a subida notei que o senhor sentado ao meu lado, na janela - um quarentão com os primeiros sinais de calvice - tinha um pânico controlado de avião. Fechou a janela, ficou de cinto durante toda viagem – só tirando para ir ao banheiro – e em qualquer tremelique ele sussurrava para si palavrões – porra, caralho, essa merda – meio indignado com o tremelique da aeronave e mais indignado com o seu próprio medo. Realmente deve ser difícil: não cai muito bem para um pós-pitboy quarentão de respeito se submeter a uma fobia tão besta. Durante as três horas no ar, o senhor abriu a janela duas ou três vezes, fechando-a em menos de trinta segundos e se jogando na poltrona com o coração claramente acelerado. Ele chegou a fechar até as janelas da frente, o que quase quase gerou confusão. Enquanto isso, eu lia uns artigos da Socine na maior tranqüilidade e enviava as piores energias para a vadia da mulher do check in da TAM, pois eu tinha pedido para ela me colocar na janela e no fundo do avião e terminei ficando numa das fileiras da frente e na poltrona do meio. Puta.
Depois do sanduíche frio de vento com queijo e da aeromoça me olhar feio por eu ter pedido duas bebidas, tivemos o ápice da tensão Lost ou não Lost, quando o comandante avisou que iríamos entrar numa área de turbulência. Pelas janelas dava pra ver um mar de nuvens suspeitas. O pós-pitboy só faltou rezar, mas o pior é que a aeronave balançou mais que o balanço normal, o que fez com que ele ficasse com os braços duros, fechando o punho com força suficiente para machucar a si mesmo. Eu particularmente estava num dia de amor e senti um pouco de compaixão, afinal medo irracional, medo irracional, eu e minhas aranhas. Cheguei a pensar em emprestar minha mão esquerda para ele segurar e se sentir melhor, mas achei que poderia se criar uma situação constrangedora até porque se ele aceitasse, além de machucar meus dedos, corria o risco de minha compaixão virar risada. Como me conheço, preferi não arriscar. Foi então que chegou a hora da aterrissagem. Na minha santa ignorância sobre fobias, imaginei que fosse o clímax, o grande momento do surto e me preparei psicologicamente para tal. À essa altura, não ia mais emprestar, mas alugar a minha mão. Nem foi o caso: outro senhor roubou a atenção. Esqueci de contar que durante a viagem, vi um rapaz de cabelo arrepiado se levantar – ele usava luvas – e pegar uma bolsa com seringas. Achei suspeito. Charlie? Ao final da viagem percebi que devia se tratar de um enfermeiro acompanhando algum passageiro enfermo - e era justamente isso - e que especialmente naquele momento, o doente precisava de toda assistência possível. Pouco tempo de entrada no processo de aterrissagem, rolou uma puta crise, não sei se pela doença, não sei se pela descida: respiração pesada, sons abafados, falta de ar, convulsões, muita tosse. A metade da frente do avião entrou numa apreensão coletiva, com direito a solidários se levantando para ajudar - e que obviamente não tinham como ajudar em nada - mas que terminavam espalhando mais o clima de angústia. Bateu uma sensação de que se o cara não ficasse bem, o avião iria cair. Bizarro que uma única pessoa estava fora dessa agitação: mesmo com os braços contraídos violentamente, o senhor sentado ao meu lado abriu um lunático sorriso tranquilo e mórbido. O avião finalmente tocou o chão: as crianças felizes continuavam felizes e não paravam de gritar.
Mesmo achando uma perda de tempo, não me atrevo a questionar a força de captura que Lost consegue exercer sobre o espectador. Você assiste, vicia e leva como filosofia de vida por uma ou duas semanas. Hoje, por exemplo, quando entrei no avião para São Paulo, me peguei olhando na cara das pessoas com cuidado, enquanto cogitava como seriam meus parceiros caso nosso avião, o TAM 3515, caísse numa ilha no meio do nada, fora do mapa, com fumaça do mal, os Outros, médiuns, físicos, ursos, Dharma e Ben. Por sinal, adoro o Ben, adoro como mesmo surrado, amarrado, humilhado, todo mundo continua perdendo a linha depois de conversar com ele: Sawyer bate na cara dele, Jack sai chutando a porta, Locke joga os pratos na parede. Quanto ao meu vôo, fiquei um pouco decepcionado mesmo com a gama variada de tipos: tínhamos crianças-felizes, gringos-perdidos, bichas-madonna. Engraçado que o vôo foi particularmente turbulento e desde a subida notei que o senhor sentado ao meu lado, na janela - um quarentão com os primeiros sinais de calvice - tinha um pânico controlado de avião. Fechou a janela, ficou de cinto durante toda viagem – só tirando para ir ao banheiro – e em qualquer tremelique ele sussurrava para si palavrões – porra, caralho, essa merda – meio indignado com o tremelique da aeronave e mais indignado com o seu próprio medo. Realmente deve ser difícil: não cai muito bem para um pós-pitboy quarentão de respeito se submeter a uma fobia tão besta. Durante as três horas no ar, o senhor abriu a janela duas ou três vezes, fechando-a em menos de trinta segundos e se jogando na poltrona com o coração claramente acelerado. Ele chegou a fechar até as janelas da frente, o que quase quase gerou confusão. Enquanto isso, eu lia uns artigos da Socine na maior tranqüilidade e enviava as piores energias para a vadia da mulher do check in da TAM, pois eu tinha pedido para ela me colocar na janela e no fundo do avião e terminei ficando numa das fileiras da frente e na poltrona do meio. Puta.
Depois do sanduíche frio de vento com queijo e da aeromoça me olhar feio por eu ter pedido duas bebidas, tivemos o ápice da tensão Lost ou não Lost, quando o comandante avisou que iríamos entrar numa área de turbulência. Pelas janelas dava pra ver um mar de nuvens suspeitas. O pós-pitboy só faltou rezar, mas o pior é que a aeronave balançou mais que o balanço normal, o que fez com que ele ficasse com os braços duros, fechando o punho com força suficiente para machucar a si mesmo. Eu particularmente estava num dia de amor e senti um pouco de compaixão, afinal medo irracional, medo irracional, eu e minhas aranhas. Cheguei a pensar em emprestar minha mão esquerda para ele segurar e se sentir melhor, mas achei que poderia se criar uma situação constrangedora até porque se ele aceitasse, além de machucar meus dedos, corria o risco de minha compaixão virar risada. Como me conheço, preferi não arriscar. Foi então que chegou a hora da aterrissagem. Na minha santa ignorância sobre fobias, imaginei que fosse o clímax, o grande momento do surto e me preparei psicologicamente para tal. À essa altura, não ia mais emprestar, mas alugar a minha mão. Nem foi o caso: outro senhor roubou a atenção. Esqueci de contar que durante a viagem, vi um rapaz de cabelo arrepiado se levantar – ele usava luvas – e pegar uma bolsa com seringas. Achei suspeito. Charlie? Ao final da viagem percebi que devia se tratar de um enfermeiro acompanhando algum passageiro enfermo - e era justamente isso - e que especialmente naquele momento, o doente precisava de toda assistência possível. Pouco tempo de entrada no processo de aterrissagem, rolou uma puta crise, não sei se pela doença, não sei se pela descida: respiração pesada, sons abafados, falta de ar, convulsões, muita tosse. A metade da frente do avião entrou numa apreensão coletiva, com direito a solidários se levantando para ajudar - e que obviamente não tinham como ajudar em nada - mas que terminavam espalhando mais o clima de angústia. Bateu uma sensação de que se o cara não ficasse bem, o avião iria cair. Bizarro que uma única pessoa estava fora dessa agitação: mesmo com os braços contraídos violentamente, o senhor sentado ao meu lado abriu um lunático sorriso tranquilo e mórbido. O avião finalmente tocou o chão: as crianças felizes continuavam felizes e não paravam de gritar.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Top
Como adoro perder meu tempo no mundo das livres associações e das coincidências forçadas, percebi que Bang Bang (Brasil, 1971), O Sétimo Continente (Áustria, 1989) e Stereo (Canadá, 1969) - os três filmes que foram indicados por mim para serem exibidos em nosso cineclube - mantém entre si a relação de serem as estréias cinematográficas em longas-metragens de seus respectivos diretores: Andrea Tonacci, Michael Haneke e David Cronenberg. Não foi uma decisão consciente e isso pouco importa agora, afinal só fiz essa rápida introdução para encher linguiça, pois o que quero mesmo com esse post é seguir em paz os passos de Fernando e eleger, dentre os 23 filmes e sem colocar minhas indicações entre as opções, as três melhores obras exibidas. São elas:
1 -A Cor da Romã (União Soviética, 1968), de Sergei Parajanov
2 - Mulher das Dunas (Japão, 1964), de Hiroshi Teshigahara
3 - As Cinco Obstruções (Dinamarca, 2003), de Lars Von Trier e Jorge Leth
Preciso fazer a ressalva que fiquei bastante tentado a dividir o terceiro lugar com O Sol (Rússia, 2005), de Aleksandr Sokurov, mas como a experiência de assisti-lo foi marcada por um sério problema técnico, decidi deixá-lo de fora, afinal a construção ritualística da sessão interfere na disposição que você se senta e que você constrói diante da tela. Realmente foi difícil me entregar quando a cópia revelou uma fria dublagem em russo sobreposta ao áudio original em japonês. Isso sem contar que as legendas em português eventualmente perdiam a sincronização ou simplesmente sumiam. Dava vontade de assobiar em alguns momentos. Fiquei pensando muito mais no perigo - diante de uma língua cujo meu entendimento é inexistente - ficar a mercê de legendas falsas, pensadas para serem falsas, de forma que constituíssem um sentido com as imagens e direcionassem um sentido diferente ao filme. Algo meio como esses vídeos do youtube que usam da edição para transformar O Iluminado num filme de comédia.
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Quotes
"Sobre a pergunta em relação ao excesso de câmeras, vou ser meio piegas. O lápis e o papel estão no mundo há bastante tempo. O papel é muito barato. Quantos livros foram escritos por causa disso? Muitos? Nenhum. Pouquíssimos livros são escritos em comparação ao número de pessoas que possuem lápis e papel".
Richard Leacock
entre outras coisas, diretor de fotografia dos filmes Primárias (1960) e Monterey Pop (1967).
Richard Leacock
entre outras coisas, diretor de fotografia dos filmes Primárias (1960) e Monterey Pop (1967).
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
1 hora é R$ 0,50
Lan House é um lugar genial: de um lado, um pivete de 6 anos querendo saber como buscar uma boyzinha e do outro, a irmã vendo fotos do Keanu Reeves.
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Cotidiano
sábado, 29 de novembro de 2008
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Scorpio Rising (EUA, 1964), de Kenneth Anger
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Curtas
domingo, 23 de novembro de 2008
Bloco de Notas
Como na última semana abandonei a minha vida completamente e fiquei enfurnado dentro do Cinema da Fundação, assistindo, refletindo, fofocando e escrevendo loucamente sobre uma gama enorme de curtas dos quatros cantos do globo - além de nas horas vagas, como alguns acreditam, brincar de Raul Luna - estou completamente sem tempo para o blog desde que voltei aos meus dias frugais, frutais e triviais. De fato, não posso negar que a experiência foi, além de muito cansativa, divertida, afinal nunca tinha me submetido ao exercício da crítica diária de modo tão intenso e o evento como um todo - incluindo novos conhecidos, conversas esclarecedoras, obras interessantes, baixarias e afins - me propiciou um enorme aprendizado, digamos, social. Só foi foda não termos recebido um café sequer - e o jantar no último dia não conta. Enfim, esquecendo o que passou, deixando para lá todas as tretas e me focando no que vai vir, comecei esse post-aviso só pra dizer que preciso ler mil coisas, organizar o sumário da minha dissertação e escrever dois ensaios antes que comece uma nova maratona no dia 04, de forma que vou deixá-los com: 1 - os curtas que encontrar no percurso de minhas andanças; 2 - as críticas ou quase isso que escrevi para o Janela Crítica devidamente revisadas; 3 - convite permanente a frequentarem o cineclube que participo e que realiza sessões todas as terça-feiras no CAC sempre às 17:00 e por fim, 4 - toda besteira que não leve mais de dez minutos para ser postada.
Acho que é só isso.
ps1.: se eu entrar na vibe da procrastinação, por favor, desconsiderar o post.
Acho que é só isso.
ps1.: se eu entrar na vibe da procrastinação, por favor, desconsiderar o post.
ps2.: a frase da semana foi: 'se você me acha sexy, o problema é seu'.
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quinta-feira, 20 de novembro de 2008
AwarEgos

Depois quando eu fico noiado que o google está de olho em nossas vidas, todo mundo acha que sou um lunático.
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Super 8

(Publicado originalmente no Janela Crítica)
A prova básica da inexistência de uma política pública de preservação e de uma vivência compartilhada do esquecimento de nossa história no âmbito cultural - e que obviamente se reflete e se legitima em outros âmbitos - é o desaparecimento e deterioração de boa parte, melhor dizendo, da maior parte dos curtas pernambucanos em Super 8. O que nos chega é por méritos pessoais de um ou outro realizador ou colecionador mais cauteloso. Movimento sem pretensões revolucionárias e vinculado a nomes como Fernando Spencer, Jomard Muniz de Britto, Paulo Bruscky, Osman Godoy, Geneton Moraes Neto, Kátia Mesel, Félix Filho, Celso Marconi, Paulo Cunha, Lima, entre outros, o Super 8, segundo Alexandre Figueirôa, realizou durante a década de 70 até o início da década seguinte "o registro poético do nosso imaginário cotidiano" se aproveitando de câmeras que "deveriam ser apenas cinema doméstico a ser usado pelas famílias abastadas no registro de suas festas e passeios". Uma comparação com as câmeras digitais - e a re-significação que elas deram ao processo produtivo do cinema contemporâneo, especialmente em cidades periféricas - não me parece mera coincidência.
Ontem (18/11), voltando para casa depois da sessão especial sobre o movimento em questão, intitulada sagazmente de 'A Cura do ócio dos filhos da classe média' e com destaque* para Cinema Glória (1978), de Fernando Spencer e Félix Filho, Jogos Frutais Frugais (1979), de Jomard Muniz de Brito e o O 13° Trabalho (1973), de Osman Godoy, fiquei pensando como a minha geração (e a geração mais nova) segue uma tendência de acreditar que todos os produtos culturais de todas as épocas de todos os campos estão disponíveis na internet, às vezes estabelecendo uma lógica de crença tão radical que passa a instituir ao que não está online, o status de não existir. O que é uma inversão bem particular, uma confusão dos referentes do virtual e do real. São os deslumbrados por uma premissa que se torna prisão: "se não tem para download, deixo de me interessar, esqueço, vou buscar o que tem e isso me basta". Até entendo essa relação comodista da juventude com a rede, faço parte dela em certa medida, mas ao mesmo tempo, ela lembra uma pergunta que me assombrava demais na infância: se de algum modo você soubesse que existiu, podemos dizer que um dinossauro cujo fóssil nunca foi encontrado ou uma civilização que não deixou registro algum simplesmente não existiu? É uma arapuca argumentativa, um oroboro de idéias. Não há propriamente uma resposta, mas, pelo menos, não questionemos a pergunta, pois foi a partir dela e da sala de cinema relativamente vazia ontem que, de alguma forma, lamentei pelos curtas em Super 8 existirem e não existirem.
Cansado e intrigado com tais questionamentos de fim de noite, decidi entrar em contato com alguém do mestrado, talvez a própria Ângela Prysthon, para o mais rápido possível pegar todos os filmes do Jomard Muniz de Britto e jogar tudo na internet. Seria o primeiro pela facilidade. Como sou minimamente cauteloso, antes de mandar alguns e-mails, pedir alguns telefones e me meter em tremendas confusões, resolvi fazer uma pesquisa básica no google e descobri que alguém já havia concretizado minha ideia há cerca de dois anos: Ricardo Maia, também mestrando em comunicação cuja dissertação tratava justamente do famigerado tropicalista. Tudo bem que ele colocou no youtube e eu estava pensando em colocar no making off, para 'uploadar' um arquivo grande e tentar manter a melhor qualidade de imagem possível – já que o Super 8 é uma bitola sensível e suas imagens já não estão nas melhores condições – de forma que pudéssemos ver em tela cheia e facilitasse a vida de quem, de qualquer lugar, se interessasse por projeções. Vivemos a era da preservação digital individual e a política pública de preservação cultural poderia se espelhar nesse tipo de iniciativa simples para repensar suas diretrizes burocráticas. Quanto custaria colocar o acervo sobrevivente das produções pernambucanas em Super 8, com a devida preocupação, na internet? Enquanto alguém não responde, nos contentemos com o youtube e com o myspace.
* Vale destacar também a não exibição de Viva o Outro Mundo (1972), de Kátia Mesel por supostamente a realizadora não ter encontrado o próprio filme e Composições no Fio – Partituras Mutantes (1979), de Paulo Bruscky, por problemas técnicos que geraram ausência de som durante a projeção.
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terça-feira, 18 de novembro de 2008
O Cinema Cearense

(Publicado originalmente no Janela Crítica)
I
No último sábado (15), a mostra competitiva nacional, com os programas O Papel da Câmera e Salvar Arquivo, nos atentou para uma nova – e não sei bem o quão nova – e diversa leva de filmes cearenses, algo que boa parte da platéia só havia vislumbrado, anteriormente, através do documentário Sábado à Noite, de Ivo Lopes Araújo. De fato, percebemos a existência de uma movimentação baseada na vontade, mas que não finca seus méritos só pela existência da vontade – o que poderia nos remeter ao vazio cinema 'brodagem' do 'pelo menos estou filmando' – pois os curtas Longa Vida ao Cinema Cearense, dos irmãos Pretti (Luiz e Ricardo) e Jarro de Peixes, de Salomão Santana, expuseram uma complexidade, um aprofundamento e uma distinção de premissas estéticas, se consolidaram como duas das produções mais consistentes do festival até então e, para além disso, firmaram uma posição política convergente do fazer cinematográfico. Os que os diferencia é justamente o que os aproxima.
I
No último sábado (15), a mostra competitiva nacional, com os programas O Papel da Câmera e Salvar Arquivo, nos atentou para uma nova – e não sei bem o quão nova – e diversa leva de filmes cearenses, algo que boa parte da platéia só havia vislumbrado, anteriormente, através do documentário Sábado à Noite, de Ivo Lopes Araújo. De fato, percebemos a existência de uma movimentação baseada na vontade, mas que não finca seus méritos só pela existência da vontade – o que poderia nos remeter ao vazio cinema 'brodagem' do 'pelo menos estou filmando' – pois os curtas Longa Vida ao Cinema Cearense, dos irmãos Pretti (Luiz e Ricardo) e Jarro de Peixes, de Salomão Santana, expuseram uma complexidade, um aprofundamento e uma distinção de premissas estéticas, se consolidaram como duas das produções mais consistentes do festival até então e, para além disso, firmaram uma posição política convergente do fazer cinematográfico. Os que os diferencia é justamente o que os aproxima.
Passado o estranhamento primeiro – estranhamento causado por uma clara falta de ferramentas nossas – podemos dizer que Jarro de Peixes carrega discretamente duas polêmicas. Por um lado, levanta uma discussão ética quanto à relação que o diretor estabelece com o material de arquivo que usa, afinal parte do público entende seu filme como deboche e, por outro, reacende e dá novo gás a uma discussão já morta e tida como anacrônica no campo cinematográfico, a autoria. Não havia me dado conta o quão controverso poderia ser o trabalho de Salomão para determinados públicos até encontrar e ficar chocado com um comentário, escrito pelo Antônio Paiva Filho, na Revista Moviola. Irei reproduzir para contra-argumentar (e espero que ele não tenha nada contra isso):
“ao ver Jarro de peixes, notamos o seguinte: intervenção nas imagens, de alguma forma? NENHUMA; alguma forma de diálogo com as imagens e entre elas? NENHUMA; alguma informação sobre as pessoas? NENHUMA. Jarro de peixes, se limita a reproduzir, devidamente digitalizado, o vídeo VHS de Miguel Pereira. PARA QUÊ? Por que é que os créditos do filme não são honestos e dizem: “realização: Miguel Pereira? Por que é que Salomão Santana assina a realização de um vídeo feito por outro? Quanto suor, realmente, foi derramado por Salomão Santana para “realizar” este “documentário”? Se a sua resposta, gentil leitor, for NENHUM, porque é uma grossa vigarice, acertou”.
A começar, não entendo como é possível tanto conservadorismo de um espectador diante de uma obra que usa e assume que usa imagens de arquivo para construção de novas narrativas e percepções, afinal a sacada de Salomão se sustenta na transferência de significado daquelas imagens em estado bruto enquanto imagens pessoais para um ambiente público, onde elas ganham outra dimensão mesmo assumindo a estética de captura anterior. Talvez devêssemos nos perguntar mais vezes: o diretor é quem registra ou quem significa? Jarro de Peixes é cinema e só pelo cinema na sala de cinema é que constrói o seu discurso. O uso de imagens de arquivo está muito longe de ser uma trapaça e o pensamento contrário me soa até engraçado, pois termina lançando a esse tipo de proposta, uma polêmica a mais que, pela própria existência do filme, já devia estar superada. Martin Sastre que o diga.
II
Além de Jarro de Peixes, outro destaque cearense se materializa na imagem dos irmãos Pretti, responsáveis em sua carreira por três longas, uma penca de curtas, além de objetos experimentais filmados em celular, todos compartilhados pela premissa de não terem recebido dinheiro de editais ou incentivos públicos. Alguns de seus trabalhos podem ser encontrados no canal deles do youtube. Nesse contexto, o curta 'Longa Vida Ao Cinema Cearense' se mostra inicialmente como uma crítica bem humorada aos meios e vícios do sistema de aprovação de projetos em editais públicos, principalmente a presença rançosa de um regionalismo estéril – o que soa bem irônico e próximo de nossa realidade, em especial na cena em que o garoto com cabeça de Mickey entrega um roteiro aos selecionadores (do que poderia ser a Fundarpe), representados por um cangaceiro, uma mulher fashion-armorial, um executivo e um rapaz sem camisa. Os selecionadores literalmente pesam o roteiro e depois espancam o Mickey. E isso é só a premissa.
A partir daí, a câmera se desvia e a crítica se amplia para além da lógica de financiamento, atingindo os cineastas que almejam seu cinema o vinculando a uma cultura de editais. Os irmãos Pretti mostram que não é preciso. A crítica é dupla. Quem busca financiamento público referenda a lógica sobre o qual ele se sustenta. Longa Vida Ao Cinema Cearense funciona como obra-manifesto, o que na longa cena final da caminhada – quando já não existem mais máscaras de Mickey e sua turma e quando a própria equipe se coloca como parte integrante do caminhar – a expressão que fica é a de uma ruma de jovens marchando pelo tipo de cinema sem dinheiro que fazem, que acreditam e que defendem. O vigor da defesa da idéia é particularmente emocionante. Os irmãos Pretti estão aqui para dizer, resgatando um pouco Paulo Emílio Salles, que dinheiro em si não garante nada e que falta de dinheiro, gerando todas consequências produtivas do subdesenvolvimento, pode nos garantir boas surpresas. Por sinal, outro cearense, Quando Sopra o Vento, de Petrus Cariry, embebido de uma poesia caricata e financiado por edital público confirma perfeitamente isso.
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Cinema Nacional
Os Debates e as Salas
As salas de cinema, herdeiras da lógica arquitetônica dos teatros, foram construídas de forma que a platéia ficasse ordenada em filas e com a atenção direcionada a um único ponto de luz, a tela ou o palco, o que tende a desvincular os espectadores de sua própria presença e da presença dos outros. A velha história da solidão coletiva. Para assistir imagens em movimento, como costumamos fazer, a organização vertical e horizontsal em questão funciona muito bem, mas, infelizmente, não me parece favorecer, na mesma medida, a realização dos debates após as sessões – iniciativa louvável assumida pelo Janela Internacional de Cinema que apropria uma antiga prática cineclubista e que, de fato, possibilita a criação de vias diretas de diálogo entre os realizadores e o público. Acontece que no momento do bate-papo descontraído, há uma distância inevitável de quem está na frente, no palco, com quem está na platéia, além de que a própria platéia fica descompassada entre si, já que escutar as perguntas dos outros se torna uma tarefa complicada. É uma mera consequência da arquitetura. A formalidade não deixa de existir, mal entendidos são comuns e o silêncio dos presentes na hora das perguntas sempre deixa o ar um tanto constrangedor. A distância não se desfaz e, então, apela-se para o Janela Crítica que também não está lá cheio de perguntas. Não estou questionando a legitimidade do debate, pelo contrário, estou assumindo a importância dele e tentando pensar e achando importante que pensemos em lógicas eficientes de funcionamento. De antemão, não tenho uma resposta.
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Cinema
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Competitiva Internacional
(Publicado originalmente no Janela Crítica)
Se os curtas do programa 'O Amor, o Sexo e outras Estréias' intentam delinear emoção a partir do carisma ingênuo (ou de aparência ingênua) de suas personagens, as acompanhando por dentro de uma série de experiências primeiras (ou supostamente primeiras) – que ora envolvem sexo, ora drogas, ora lições de violão – podemos dizer que '1 + 1 nem sempre é 2', outro programa da mostra competitiva internacional, se sustenta na aberta busca de gerar – o que de tão aberto se torna engessado – expectativas, inclusive as falsas, no espectador. No primeiro programa é compreensível a comoção pela beleza fácil da ingenuidade e pelo brotar desajeitado da experiência, principalmente se nos apoiarmos numa tentadora sede nostálgica. Entretanto, para os que gostam de Haneke, Greenaway ou Cronenberg nas horas vagas, o cheiro transbordante de virgindade desse apanhado de produções (e que os indies adoram) soa simplesmente bobo, inocente, não saudoso. Falta um pouco de perversão.
À exceção do israelense, Isca, de Michal Vinik que se beneficia de uma diegese ambígua e uma possível inversão de valores (serão as meninas-moças, na verdade, ninfomaníacas em dia de caça?), todos os outros caem na moral recorrente do super fofo vencendo a perversão baixo astral. É uma seleção de produtos tecnicamente bem realizados, mas excessivamente limpos, o que repetido curta após curta se torna cansativo. O símbolo dessa limpeza se resume no islandês Dois Pássaros, de Rúnar Rúnarsson, na cena em que o branco garoto tímido do bem tira a roupa pra deitar na cama onde está, também nua, a branca garota tímida do bem – que tinha sido estuprada, quando estava desacordada, por dois homens 'repugnantes' – para, quando ela despertasse, se sentisse confortável e achasse que foi com ele, o garoto tímido do bem, que ela perdera a virgindade. É bonitinho, convenhamos, mas não passa do ordinário.
No caso do outro programa temos um problema ainda maior, pois se a expectativa gerada se quebra no momento errado, o filme também desmorona. Isso pode se dar de várias formas. Pode acontecer, por exemplo, colocando o nome do curta de O Beijo, ser francês e nos mostrar dois jovens, sentados lado a lado numa cama, com ele falando e ela escutando sem interesse, rindo sem jeito, até que fica uma pretensa angústia no ar e finalmente ela o beija. Mesmo feito em plano sequência, com atores regulares, a quebra da expectativa pelo óbvio fica muito distante do sentimento hitchcockiano de saber exatamente o que vai acontecer e ficar ainda mais atônito para ver acontecer. Não ficamos atônitos, talvez indiferentes. Ainda mais fraco é o mexicano En Tránsito que conseguiu a façanha de reunir, em 21 minutos, todos os clichês de uma leva do cinema contemporâneo. Soa quase como uma aula: temos dois flâneurs, um encontro numa fila, o segundo encontro pelo acaso, a efemeridade das relações, uma idéia de mobilidade na cidade e para fora dela, a relação fraternal que se estabelece e a despedida suplantando a aproximação. O curta parece parasitar em premissas que já foram levadas ao ápice por Lost in Translation, de Sofia Coppola e Amores Expressos e Felizes Juntos, de Wong Kar-wai, o que nos leva a crer que o problema não está nas premissas ou no acúmulo delas, mas na forma como podem ser e são apropriadas.
Sem dúvida, o curta mais interessante do programa '1 +1 Nem sempre é 2' – e um dos mais fortes de todo festival – é o sueco A História do Pequeno Puppetboy, dirigido por Johannes Nyholm, que se sustenta numa técnica assumidamente tosca de animação com massinha de modelar, para nos contar – em capítulos apresentados pelo próprio puppetboy – a história de um garoto extremamente solitário e as consequências da visita de um estranho ser feminino, que imageticamente remete a uma prostituta velha ou uma daquelas secretárias chatas de colégio. O curta é hilário e tem a melhor das relações com a construção (desconstrução) de expectativas: pra começar, ao invés de levá-las rigidamente a sério, bebe e se lambuza no non sense e na ironia, criando saídas criativas e completamente inesperadas. O interessante é perceber que mesmo revendo, a expectativa continua funcionando por conta do senso de humor, algo que para outros do mesmo programa não acontece – e fazendo referência ao amor, o sexo e outras estréias – nem pela primeira vez. What a shame, Brian.
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Cinema
sábado, 15 de novembro de 2008
exemplo número 2 de como justificar:
Rodrigo diz:
fiquei agora noiando com o meu eu do texto falando do eu de daniel aragão no filme
Rodrigo diz:
hahahahah
s diz:
hahahah
s diz:
hipocritinha
Rodrigo diz:
mas eu sempre posso alegar que meu texto é metalinguístico e não hipócrita
s diz:
e daniel pode alegar que o filme dele é uma piada interna.
Janela Crítica
fiquei agora noiando com o meu eu do texto falando do eu de daniel aragão no filme
Rodrigo diz:
hahahahah
s diz:
hahahah
s diz:
hipocritinha
Rodrigo diz:
mas eu sempre posso alegar que meu texto é metalinguístico e não hipócrita
s diz:
e daniel pode alegar que o filme dele é uma piada interna.
Janela Crítica
Solidão Pública

(Publicado originalmente no Janela Crítica)
Depois de assistir Solidão Pública pela terceira vez, consegui separar com clareza o que me emociona do que me incomoda no filme de Daniel Aragão. Basicamente a obra me conquista pela idéia matriz de comprar, por três reais, transeuntes comuns de uma praça do centro do Recife para que eles deixem filmar seus rostos – e consequentemente suas expressões, suas personas e até uma interação – diante de uma câmera pelo tempo limite de três minutos. Acho que a proposta funciona tanto como intervenção artística, intervenção que fez parte do SPA das Artes de 2007, como na forma de produto formatado, ou melhor, documentário experimental. Solidão Pública segue a linha de produções contemporâneas que assumem a 'intervenção' para fundamentar a iniciativa documental, como pode ser visto brilhantemente no trio parada dura nacional Serras da Desordem, Santiago e Jogo de Cena. E que fique claro: isso não é uma comparação direta, só um vínculo de intenções. Mas seja como for, Daniel abandona a idéia já mastigada de registrar a movimentação da praça como ela realmente é no dia-a-dia (algo que outra produção da mostra competitiva, Osório, de Heloísa Passos, tenta sem sucesso fazer), para assumir uma escancarada quebra do estado das coisas: só quando finalmente a tenda está armada, o telão montado, o povo amontoado é que ele começa a filmar. Não sei até que medida o segundo produto já estava planejado desde o primeiro, mas, de fato, Solidão Pública enquanto processo saiu do âmbito das artes plásticas para se tornar um pequeno objeto de discurso metalinguístico do documentário. Particularmente gosto destes deslocamentos quando um teor reflexivo permanece em ambos, mas principalmente quando a natureza da reflexão (e emoção) também se desloca e se deriva.
Depois de assistir Solidão Pública pela terceira vez, consegui separar com clareza o que me emociona do que me incomoda no filme de Daniel Aragão. Basicamente a obra me conquista pela idéia matriz de comprar, por três reais, transeuntes comuns de uma praça do centro do Recife para que eles deixem filmar seus rostos – e consequentemente suas expressões, suas personas e até uma interação – diante de uma câmera pelo tempo limite de três minutos. Acho que a proposta funciona tanto como intervenção artística, intervenção que fez parte do SPA das Artes de 2007, como na forma de produto formatado, ou melhor, documentário experimental. Solidão Pública segue a linha de produções contemporâneas que assumem a 'intervenção' para fundamentar a iniciativa documental, como pode ser visto brilhantemente no trio parada dura nacional Serras da Desordem, Santiago e Jogo de Cena. E que fique claro: isso não é uma comparação direta, só um vínculo de intenções. Mas seja como for, Daniel abandona a idéia já mastigada de registrar a movimentação da praça como ela realmente é no dia-a-dia (algo que outra produção da mostra competitiva, Osório, de Heloísa Passos, tenta sem sucesso fazer), para assumir uma escancarada quebra do estado das coisas: só quando finalmente a tenda está armada, o telão montado, o povo amontoado é que ele começa a filmar. Não sei até que medida o segundo produto já estava planejado desde o primeiro, mas, de fato, Solidão Pública enquanto processo saiu do âmbito das artes plásticas para se tornar um pequeno objeto de discurso metalinguístico do documentário. Particularmente gosto destes deslocamentos quando um teor reflexivo permanece em ambos, mas principalmente quando a natureza da reflexão (e emoção) também se desloca e se deriva.
Por outro lado, há um incômodo na obra que anteriormente já me fez detestá-la incondicionalmente. Trata-se do recurso de narração logo no início – sobre a mesma tela branca onde as pessoas depois iriam se sentar diante da câmera – onde o diretor, em off, solta meia dúzia de palavras justificando de forma desnecessária sua idéia. Tal escolha se torna gradualmente redundante, até mesmo didática, na medida que o filme se desenrola, afinal ver e ouvir a idéia desabrochando sozinha me parece muito mais interessante do que tê-la explicitada, a priori, por uma falsa poesia ou uma ironia barata. Queremos o documentário e não uma palestra do porquê do documentário. O problema se torna maior quando depois disso e depois de já termos visto o desabrochar da idéia, a obra apela para outro off, o que me parece ainda pior, pois consolida o diretor como personagem narcisista do filme, algo completamente dispensável.
Por sinal, percebi uma pequena diferença de edição nesta terceira vez, pois ao final, quando vários rostos começam a passar um atrás do outro, num ritmo voraz, o diretor fez a brincadeira sem gracinha de colocar o rosto da namorada no meio da sequência e pior, o dele próprio como imagem final. Eu estava completamente entregue ao filme, ignorando os offs e tudo mais, mas quando vi Daniel Aragão se colocando ali daquela forma tão gratuita, não tive como segurar a risada. Foi uma quebra. Ok, cada um faz o que quiser de seu filme, mas depois desse coito interrompido só tenho a dizer que basta um passo para irmos de uma fábula tocante, de um documentário interventivo com cenas memoráveis, de fotografia impecável e com uma edição de som perspicaz para uma mágica viagem narcisista do incrível “eu”. Às vezes acontece e resulta em experiências profundas, mas nem sempre agradar o ego é a melhor saída.
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sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Procon
Quando acontece de você comprar um DVD pirata de Império dos Sonhos esperando a Laura Dern e descobre que lhe repassaram Hancock com o Will Smith, todos os seus argumentos e sua crença na pirataria desaparecem rapidinho.
Pelo menos só me custou R$ 1,00.
Pelo menos só me custou R$ 1,00.
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Cinema
terça-feira, 11 de novembro de 2008
“A vida é como um cigarro. Você tem que fumar até o fim”

A frase acima aparece como último inter-título do filme sobre o qual irei discorrer, mas para voltar à narrativa clássica, vamos começar pelo princípio. Se partíssemos da premissa que todas as pessoas podem ser divididas entre as que nascem com grandeza, as que conquistam a grandeza, as que são encontradas pela grandeza e um grupo a parte, condensado – ou condenado - sob o estigma de serem 'os outros', Harvie Krumpet, personagem que intitula a animação de 2003, vencedora, entre outros prêmios, do oscar de curta animação, seria uma espécie de ideal representativo deste último grupo. A obra dirigida, roteirizada e fotografada pelo australiano Adam Benjamin Elliott, fã assumido do artista tcheco Jan Svankmajer, poderia ser apenas mais uma panorâmica - através de Harvie, um ser feio, magro e careca - da recorrente história do fucking loser: partindo de seu nascimento de cabeça pra baixo, passando pelos obstáculos e humilhações até o clichê da superação final. Harvie Krumpet também é tudo isso. Mas se por um lado há um pessimismo que nos guia, a compensação vem pelo humor atípico e pela beleza de um conhecimento informal - livre da razão, mas inundado de beleza - que pode ser percorrido através dos 'fatos' absurdos ou hilários que o personagem anota e carrega durante toda a vida - desde o dia em que sua mãe analfabeta resolveu lhe ensinar tudo. Provavelmente são nos fatos de Harvie que reside a metáfora da visão de mundo do diretor.
A narrativa solidifica todo entendimento sobre o personagem ao criar uma relação entre o ser fucking loser e o senso de humor suspeito que temos de ter para suportarmos a nossa própria existência fucking loser. É bastante confortável de se identificar, mesmo que não tenhamos apanhado no colégio, nem perdido os pais numa tragédia, nem nunca acreditado que borboletas possuem cheiro de chulé. Podemos fingir e nos sentir muito bem enquanto espectadores. Podemos até criar uma lembrança falsa. A estrutura de Harvie Krumpet segue os trabalhos anteriores de Adam, a trilogia Uncle, Brother e Cousin, onde o narrador assume um papel fundamental na evolução diegética, falando friamente dos acontecimentos mais terríveis e sempre os complementando com um humor negro sagaz. É com tal força abstrata que me identifico. Há uma recorrência explícita nessa obra: os piores acontecimentos na vida de Harvie terminam por levá-lo as suas melhores experiências. Harvie trabalhava no lixão e foi justamente por causa de seu trabalho que encontrou a televisão onde assistiu um filme de Burkley (uma referência direta à Busby Berkeley). Harvie um dia foi parar no hospital, perdeu um testículo, mas encontrou na enfermeira que lhe atendera, a mulher com quem iria se casar. É sempre assim em Harvie Krumpet: um eterno quase suicídio salvo pelo suicídio do outro. A referência final ao cigarro não poderia ser mais pertinente. Cabe como uma luva. Fumemos, então.
A narrativa solidifica todo entendimento sobre o personagem ao criar uma relação entre o ser fucking loser e o senso de humor suspeito que temos de ter para suportarmos a nossa própria existência fucking loser. É bastante confortável de se identificar, mesmo que não tenhamos apanhado no colégio, nem perdido os pais numa tragédia, nem nunca acreditado que borboletas possuem cheiro de chulé. Podemos fingir e nos sentir muito bem enquanto espectadores. Podemos até criar uma lembrança falsa. A estrutura de Harvie Krumpet segue os trabalhos anteriores de Adam, a trilogia Uncle, Brother e Cousin, onde o narrador assume um papel fundamental na evolução diegética, falando friamente dos acontecimentos mais terríveis e sempre os complementando com um humor negro sagaz. É com tal força abstrata que me identifico. Há uma recorrência explícita nessa obra: os piores acontecimentos na vida de Harvie terminam por levá-lo as suas melhores experiências. Harvie trabalhava no lixão e foi justamente por causa de seu trabalho que encontrou a televisão onde assistiu um filme de Burkley (uma referência direta à Busby Berkeley). Harvie um dia foi parar no hospital, perdeu um testículo, mas encontrou na enfermeira que lhe atendera, a mulher com quem iria se casar. É sempre assim em Harvie Krumpet: um eterno quase suicídio salvo pelo suicídio do outro. A referência final ao cigarro não poderia ser mais pertinente. Cabe como uma luva. Fumemos, então.
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